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Este tópico é composto por familiares de um menino, de duas adolescentes e de um homem, todos alunos assíduos da escola bilíngue de Sumé. Portanto, três mães, um padrasto e uma esposa compõem esse grupo de sujeitos da pesquisa. Os critérios para sua escolha foram a presença e participação cotidiana na escola.

O roteiro de entrevista para os familiares foi diferente, pois sentíamos a necessidade de, mais que solicitar que eles elaborassem um conceito sobre os surdos de seus afetos, que eles pudessem falar de suas relações. Esta diferença gera também diferenças na organização de suas falas, pois vemos que não há um dizer elaborado sobre o que é a surdez, mas há a presença do discurso da deficiência na escolha do vocabulário, além da própria forma como as relações são construídas.

Quadro 9: Informações sobre os familiares de alunos surdos da escola bilíngue

Nome Idade Escolaridade Profissão Fátima 37 EM Doméstica Fabiana 31 EF (9º ano ( Agricultora Fausto 26 EF (6º ano ( Pedreiro Fabíola 39 Sem escolaridade Agricultora Fernanda 35 EM Dona de Casa

Legenda: EF: Ensino Fundamental/ EM: Ensino Médio

Pensar os atos de fala como enunciadores de formações discursivas (FOUCAULT, 1986) nos possibilita visualizar como o discurso hegemônico engendra a negação dos surdos pela ausência de experiências com o seu modo de ser visual. Os ouvintes familiares têm apenas a si mesmos como referência, não podendo elaborar uma visão acerca de seus surdos fora do padrão ouvinte de ser.

Olha é difícil falar e ao mesmo tempo é fácil (dizer o que é ser surdo). Porque até eu mesmo também já fiz o teste, tentar não ouvir, assistir sem botar volume, é muito ruim, não dá pra entender, tem que trazer o dom mesmo. (Fernanda).

A fala de Fernanda nos mostra que não apenas levamos quem somos em nossas tentativas de pensar como seria o outro, mas que sem sair de uma dada formação discursiva não é possível aproveitarmos das experiências do outro. Para ela, depois de testes feitos com a retirada do som da TV, não ouvir “é muito ruim, não dá para entender”. Nossa compreensão de sua fala é que sua tentativa de se colocar no lugar de seu marido Bartolomeu está no âmbito de construção da compreensão do que é ser surdo apenas pelo não ouvir. Não há um aproveitamento da realidade visual, possivelmente porque a própria existência de Bartolomeu, por não participar de uma comunidade surda com identidade de surdo, calcada na cultura surda, esteja meramente relacionada à falta do ouvir.

Nessas realidades, nas quais não existem experiências e vivências dos surdos como sujeitos visuais, vemos que ser surdo se resume mesmo à condição de falta do ouvir e do falar oral. A fala de Fabiana, mãe de Belmiro, também nos põe de frente com essa realidade. Acrescenta um dado bastante comum na vida dos surdos: o fato de o primeiro profissional com o qual a família faz contato é o médico.

Um ano, quando eu comecei a falar e ele não falava, não olhava quando falava o nome dele, ele nada. Aí um dia eu levei para o médico e o médico falou que foi por conta a rubéola (Fabiana).

A busca por informações ainda leva as famílias ao modelo médico de compreensão da surdez, mas esta é uma questão que precisa ser problematizada, pois produz desigualdade e desqualificação dos surdos como pessoas de possibilidades.

Fausto, padrasto de Belmiro, nos apresenta o conflito gerado pela vivência que mostra o quanto os surdos podem, com o conceito de problema cristalizado, quando tenta explicar como ele e a escola veem Belmiro.

[...] do problema que ele tem, entendesse? Não é um problema, é um... tipo assim, do que ele nasceu, não é? Do problema que ele nasceu, tal. E a escola não é própria para atender o problema que ele teve, entendesse? Mesmo assim, as professoras diziam que ele é bem inteligente, ele é bem avançado. Ele, assim, não sabia escrever e ler, mas o que falasse, o que conversasse com ele, ele sabia conversar com a pessoa de volta (Fausto).

O termo “problema” é frequentemente utilizado para tentar conceituar Belmiro. Vemos, no entanto, que na fala há um conflito que é gerado pelo fato de o menino ser muito esperto. Numa perspectiva em que buscamos entender como a invisibilidade do surdo é construída, vemos aqui que isto ocorre de um encadeamento não linear de atos de fala, mas nos quais estão contidos termos como deficiência, falta, problema.

Fabiola, mãe de Bianca, ratifica em sua fala a força da visão clínica, pois possibilita visualizarmos que, apesar da crise existente no modelo hegemônico de compreensão da surdez e dos surdos, ainda é socialmente muito presente a concepção da surdez como doença passível de cura via operação.

Era crescendo, crescendo, mas nada de falar, de escutar, só fazia os gestos mesmo. Aí foi tempo que eu, depois que eu tô aqui, que eu fui para João Pessoa com ela. Com onze anos. Aí o problema dela não tem jeito mais de operar, porque já está vencido, aí não tem como operar, aí eu tenho que levar desse jeito que ela é, aí graças a Deus esse ano tá muito adiantado para ela. Pra ela, pra eu, que ela me ensina (Fabiola).

As novas técnicas de implante coclear acabam por se constituir como revigorantes do modelo clínico-biológico, pois permitem que, socialmente, dissemine-se a ideia de que a surdez tem cura. No caso de Bianca, devido a sua idade, ela já não tem dos médicos o implante como indicação. A solução para a sua mãe então é “levar desse jeito que ela é”.

Nesse sentido, precisamos analisar que a escola bilíngue para essa mãe e, possivelmente, para outros familiares, é o espaço que resta ao que nada mais pode ser feito. Acerca dessa questão, aprofundaremos a discussão em seção posterior.