Podemos dizer que não escolhemos nosso contexto de investigação. Foi ele que nos escolheu, ao chegarmos em Sumé, em agosto de 2010, recém-aprovadas no concurso da UFCG para a disciplina Libras, no curso Licenciatura em de Educação do Campo, do CDSA.
Localizada no interior da Paraíba, Sumé fica a 262 km da capital João Pessoa. Está situada no Cariri ocidental paraibano e, segundo os dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), possui área territorial de 838,066 km2 e uma população de 16.060 habitantes, com estimativa para 2011 de 16.139. Sua densidade demográfica é de 19,16 hab/km2, o que a constitui como uma cidade de pequeno porte11.
Surgida na confluência do rio Sucuru com o riacho São Tomé, a povoação fundada em 1903, por Manuel Augusto de Araújo, ficou conhecida pelo nome do riacho, São Tomé. Em 31 de dezembro de 1943, o povoado pertencente, administrativamente, ao distrito de Monteiro, desde 1911, passou a denominar-se Sumé, pelo decreto estadual nº 520. Foi elevado à categoria de município e desmembrado de Monteiro em 01 de abril de 1951. Limita-se ao norte comAmparo (20 km) e Serra Branca (32 km), ao sul com Monteiro (32 km) e Camalau (26 km), ao leste com Congo (28 km) e a oeste com Prata (22,5 km).
O Índice de Desenvolvimento Humano por Município (IDH-M), em 2000, era de 0,65812. Abaixo o quadro geral:
Quadro 1: Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M) – 2000
Esperança de vida ao nascer Taxa de alfabetizaçã o de adultos Taxa bruta de frequên- cia escolar Renda per capita IDHM-L IDHM-E IDHM-R IDH-M Ranking por UF Ranking Nacional
Legenda: IDHM-L: Índice de Esperança de Vida ;IDHM: Índice de Desenvolvimento Humano-Educação; IDHM-R: Índice de PIB; IDH-M: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal
Ainda segundo dados do IBGE (2010), consta no Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos (CNEFE) que Sumé conta com 43
11 No momento da pesquisa, Sumé era administrada por Francisco Duarte Neto. 12 Dado retirado de: http://www.frigoletto.com.br/GeoEcon/idhpb.htm
estabelecimentos de ensino. Destes, segundo informações da Coordenadora Pedagógica e da Secretária Municipal de Educação, 12 Unidades de ensino de Educação Básica compõem a rede de escolas municipais, sendo 06 (seis) na cidade e 06 (seis) na zona rural. As demais escolas são do Estado, particulares e, nesse conjunto de 43, ainda estão incluídas as creches.
De acordo com o mencionado censo, a população residente alfabetizada é de 11.198 pessoas e as matrículas na rede escolar, em 2009, no Ensino Fundamental, eram 2.591, e no Ensino Médio eram 409. Para esse percentual de estudantes, no mesmo ano, o município contava com o número de 166 docentes na rede escolar para o Ensino Fundamental e 57 o Ensino Médio.
Compilar esses dados quantitativos do IBGE suscitou em nós a necessidade de agregar a eles informações qualitativas que, para além do objetivo de explicá-los, buscasse apresentar o que se diz que se sabe sobre o caririzeiro. Para tal feito, procuramos em Silva (2007) informações acerca de como as políticas para a região semiárida são construídas. Nesse autor, encontramos um histórico político- ideológico que nos permitiu entender que, historicamente, o caririzeiro, em particular, e, de modo geral, o nordestino, foi expropriado de uma produção de saber que o explicasse como sujeito que sabia conviver com o semiárido e dele/nele produzia cultura e identidade.
A história cristalizada para fora do Nordeste é a da miséria intelectual, relacional, física. Nordestinado13, o caririzeiro só é reconhecido nacionalmente por noticiários televisivos que os apresenta nas frentes de trabalho, cavando açudes que nunca estarão cheios. A política construída, a partir dessa explicação de existência, concebida ideologicamente para classificar como “menos”, é a da manutenção da pobreza, haja vista que, em nível de Brasil, não existem políticas públicas que realmente possibilitem uma ressignificação econômica e, consequentemente, simbólica do Nordeste e dos nordestinos.
Não obstante, em escala nacional, os brasileiros, também viveram/vivem a produção de um lugar hierarquicamente inferior. O lugar de colonizado, de país periférico, é politicamente fruto de uma racionalidade dicotômica que, pela
13 Termo utilizado pelo poeta cantador Patativa do Assaré no poema: NORDESTINO SIM, NORDESTINADO NÃO. Disponível em: http://poemia.wordpress.com/2008/04/30/nordestino- sim-nordestinado-nao-patativa-do-assare/
construção da desigualdade, converte o outro em recurso ou matéria-prima. Nesse campo conceitual há dois lugares hierarquicamente diferentes a ocupar: no primeiro lugar, está o desenvolvido, no segundo o residual. O Brasil, como país latino americano, é um país periférico que deve estar a serviço dos países centrais. De fora para dentro, o lugar espaço-tempo que historicamente lhe coube foi o residual (SANTOS 2005a, 2007).
Em Souza Filho (2003), podemos ver as consequências do colonialismo vivido pelo país no processo de formação do Brasil como Estado nacional. Visualizamos no referido autor três fases no colonialismo nacional: a invasão, a luta por território e a substituição do colonialismo ibérico pelo saxão.
No que concerne à invasão, para Souza Filho (2003. p, 75), “nenhum povo da América deixou de sentir a chegada dos europeus”. Para os indígenas, lutar ou sucumbir eram as duas únicas escolhas. A perda de territórios litorâneos para os portugueses gerou guerras entre tribos no interior do país. Desse modo, pela mão dos portugueses ou de tribos em confronto, o extermínio foi o resultado para a maioria da população indígena nacional. Como agravante, a luta por territórios não habitados era travada também com os escravos fugidos que buscavam entre seus pares lugares de difícil acesso aos capitães do mato.
Por fim, quando já brasileiros frutos da mistura étnica também lutavam pela sobrevivência em Terra brasilis, o Brasil surge como Estado nacional. No entanto, sua independência em nada mudou sua relação de subserviência aos interesses estrangeiros, que agora não era mais o português, mas o inglês.
Acerca deste momento, Souza Filho (2003) continua a nos mostrar que a prática para com os brasileiros é a da violação, seja ela política, de terras, vidas e sociedades:
[...] sempre servindo aos interesses estrangeiros, os governos passaram a ampliar as fronteiras agrícolas e buscar novas e interessantes riquezas no interior, tratando os povos locais como embaraço e entrave ao desenvolvimento. Nesta política, suas terras, vidas e sociedades foram novamente violadas (p. 76).
Desse modo, o que temos nas raízes de nossa identidade é usurpação, violência, subjugação, pois, para os imigrantes, trabalhadores livres, expulsos ou fugidos de seus países de origem, não houve melhores tratamentos. Acerca da situação vivida por esses novos integrantes do Estado brasileiro, Souza Filho (2003) afirma:
Sem direito a terra no século XIX, ao chegarem como trabalhadores em uma empresa agrícola já estavam endividados. São inúmeros os relatos dos maus-tratos, da servidão e da miséria que sofreram. Na busca por liberdade e terras, acabavam sucumbindo ou tendo de disputar espaço com os já apertados territórios indígenas (p. 77). Neste contexto de colonialismo, a posse de uma propriedade possibilitava a integração do indivíduo no sistema. No campo do direito individualista não cabia a concessão de direitos coletivos. Portanto, para os diversos coletivos que não podiam pagar pela propriedade, cabia-lhes não ser integrados ao sistema.
Mais uma vez, utilizamos Souza Filho (2003) para ilustrar a situação:
Assim, aquele indivíduo que lograsse amealhar algo, formando uma propriedade, passaria a ser integrado ao sistema, ao passo que todos os outros não se integrariam jamais, continuando a ser índios, quilombolas, pescadores, ribeirinhos, seringueiros, pequenos posseiros, vivendo da extração, da coleta, da caça, da pesca, da pequena agricultura de subsistência, mantendo fortes relações com a comunidade para viver e não raras vezes, enquanto longe do contato da civilização, vivendo com fartura e felicidade, mas sob permanente ameaça, porque se estivessem em terras boas ou sobre alguma riqueza vegetal ou mineral economicamente viável passariam a ser objeto de cobiça, do engano e da desintegração (p. 77).
Nunca houve um movimento que realmente buscasse a integração dos indivíduos como coletivo ao sistema. A política integracionista nacional, desde seus primórdios, serve apenas a interesses particulares de quem pode pagar por ela.
Nesta conjuntura, são formadas as regiões. As possibilidades de cada uma estão diretamente relacionada às possibilidades de pertencimento individual dos sujeitos ao sistema. No caso do nordeste, a produção da pobreza para seus moradores é, paradoxalmente, a grande possibilidade de riqueza dos que geram as políticas públicas para a região.
Para entender a “nordestinização”, é necessário fazer o mesmo movimento de busca da construção da hierarquização dos lugares e seus habitantes. Por isso, a cristalização da concepção de “menos” do caririzeiro suscita uma reflexão sobre a naturalização dessa visão e desse modelo político como sendo a forma atual pela qual esse grupo social se pensa.
Para Rago (2005), há uma captura violenta, um sequestro, um aprisionamento nessa racionalização concebida de fora para dentro, que impede essas pessoas de verem que o seu dia a dia mostra, na verdade, uma inteligência no lidar diário com as condições climáticas, vegetativas e animais da região, refletida numa construção cultural colorida, rica e diversa.
No entanto, todos esses saberes não são validados ou legitimados pela escola, nem teriam como ser, porque ao longo da história do Brasil a escola foi negada aos camponeses.
De acordo com Silva (2010, p. 35),
Na concepção das elites do Brasil agrário, mulheres, indígenas, negros e trabalhadores rurais não precisavam aprender a ler e escrever, visto que para desenvolver o trabalho agrícola não se precisava de letramento.
Acreditamos que o desvelamento da condição de sujeito inserido no segundo lugar do par binário, apenas será possível pela problematização engajada em um movimento educacional que permita ao caririzeiro, surdo ou ouvinte, recusar o que é (RAGO 2005). Mudar de lugar, não mais ocupando o lugar residual, é a possibilidade que há para a libertação desta nordestinidade que foi produzida de fora para dentro. Ao nordestino, cabe, pela via da emancipação social14, a construção de um novo lugar para si e para seus saberes.
A produção desse novo saber, segundo Silva (2007), é construída pelo movimento do paradigma emergente que, em seu lastro, busca reconciliar o homem com o lugar físico-temporal-simbólico em que ele está inserido, acreditando que a existência humana não prescinde das relações que ele constrói com seu meio- ambiente, em suas diversas dimensões. Nesse sentido, compreender o movimento da vida no meio ambiente é fundamental, para que se possa construir uma convivência harmônica, através de estratégias que permitam maior qualidade de vida para todos.
Igualmente, a partir da concepção de convivência sustentável com o semiárido, surgem novas proposições para o desenvolvimento da região. O desvelamento ideológico permite que chegue ao povo da região a ratificação científica do que eles sabiam empiricamente, mas não lhes era outorgada legitimidade científica. Junto ao bioma caatinga, composto de alta biodiversidade, é produzida uma cultura socialmente rica e diversa, que fala não de como o caririzeiro convive com a seca, mas das alternativas que ele encontra para, no dia a dia, trabalhar pela vida.
14 Aqui nos filiamos, mais uma vez, aos conceitos de Santos (2007) e entendemos que a emancipação social apenas acontece quando a justiça social está atrelada à justiça cognitiva.
Conhecer os sumeenses para além dos limites da cientificidade, através de livros de autores naturais da cidade que trazem as memórias de dias idos, por meio de causos e crônicas reais e inventadas, como Souza (2011) e Rafael (2003 3 2008), deu-nos a possibilidade de refletir sobre o imaginário, a riqueza cultural, as saídas do cotidiano, enxergando-as como realizações diárias.
Nesse novo contexto paradigmático de reflexão sobre o semiárido, surge, em 2009, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) – projeto de expansão universitária – com o objetivo de, entre outras coisas, interiorizar a universidade pública federal e dar oportunidade para que o homem do campo tenha acesso à academia. Foi a partir desse projeto que surgiu o campus da UFCG, em Sumé, e o CDSA. Não nos compete, neste momento, adentrarmos nas questões políticas e nos desdobramentos que o projeto do REUNI acabou por produzir. Discutiremos com mais vagar essa questão, colocando os aspectos positivos e negativos desse projeto, na seção em que trataremos do processo de implantação da escola bilíngue para surdos.
Foi nessa realidade discursiva, ideológica, científica, política, antes desconhecida por nós, que chegamos cheias de planos sobre as possibilidades de interação entre os futuros alunos de Libras dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo e Licenciatura em Ciências Sociais - cursos para os quais, de acordo com o Decreto 5626/2005, a disciplina Libras é obrigatória - e os surdos da cidade. Essa foi uma forma que imaginamos de tornar o aprendizado da segunda língua, para os primeiros alunos, mais significativo e efetivo. No entanto, surpreendemo-nos com a realidade que, para nós, apresentou-se: por dois meses não vimos os surdos da cidade.
Esperamos em vão encontrá-los no supermercado, na praça, no banco. Nosso primeiro contato com os surdos de Sumé apenas aconteceu quando, por nossa iniciativa, promovemos no “De repente beat”15 uma oficina de Libras e os convidamos, através de notícias na página do Centro, nas rádios, por meio de alunos que conheciam surdos ou familiares de surdos. A este momento compareceram seis surdos: três adultos, dois desses irmãos, usuários proficientes da Libras, um deles tendo estudado na escola de surdos de Campina Grande –
Paraíba (PB) e trabalhado também naquela cidade; o terceiro, com certo conhecimento da língua, mas não participante de uma realidade linguística interativa; dois adolescentes e uma criança, estes três sem apropriação da comunicação pela via da língua de sinais oficial do país. Foi nesse contexto e, a partir desse contato com os surdos da cidade, que elaboramos nosso projeto de pesquisa, ora transformado neste relatório.
Na sessão seguinte, apresentaremos os sujeitos da pesquisa surdos e ouvintes e o que o discurso corrente sobre os surdos diz deles.
2 BR 412 – SUMÉ – A EMERGÊNCIA DOS ATORES: OS SUJEITOS DA