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Kapittel 7 Prosjektutviklingen av boligprosjektene

7.2 Prosjektutviklingen i våre caseprosjekter

Foto 1: Foto da autora, realizada no dia 08/07/2014, com visão obtida a partir da janela da antiga sede

do Voz da Comunidade, que foi alvo de atentado oito dias após essa data.

Rene Silva Santos é morador do Complexo do Alemão. Começou a participar de um jornal pela primeira vez aos 11 anos de idade, dentro da escola que frequentava, Escola Municipal Alcide de Gaspari. Com a ajuda da diretora, criou, em 2005, o Voz da Comunidade, que circulou com 100 exemplares na Favela da Maré. Recebeu apoio de uma pequena gráfica e distribuiu os exemplares de mão em mão. O objetivo, a partir

daí, era “mostrar os problemas sociais da comunidade”. 25 Para isso, publicava notícias sobre buracos em ruas, lixo acumulado, esgoto a céu aberto e outras necessidades que conseguia identificar, conversando “com os próprios moradores”.

Fazia a ligação entre as questões cotidianas da comunidade e as instituições responsáveis por resolvê-las, levando pessoalmente os exemplares para a associação dos moradores e, depois, até a sede da prefeitura e do próprio governo, “para que eles tomassem ciência do que estava acontecendo”. Incrivelmente, conseguia resolver muitas delas, tomando a iniciativa e insistindo.

Não demorou muito para que chamasse a atenção da grande imprensa, por conta principalmente da pouca idade. O jornal “O Povo” publicou a primeira reportagem, intitulada “Pequenos apenas no tamanho” sobre a experiência, na época ainda realizada essencialmente por crianças. 26

Para pesquisar sobre os temas que publicava no jornal, Rene começou a usar a internet. Como não tinha acesso em casa, usava a lan house do bairro e a escola, que possuía sala de informática com 50 computadores, bem equipada. O menino começava, ali, uma trajetória de comunicador, usando e sendo usado pela comunicação em busca de uma conexão com o mundo institucional externo, tão distante e inacessível, o único que poderia decidir o dia a dia das pessoas que estavam à sua volta. Ele fazia a ponte, com suas idas e vindas.

Como na narrativa mítica do deus grego Hermes, que estabelece as pontes de comunicação entre deuses e humanos, Rene surge do entrelaçamento de necessidades, interesses, desvios, desmandos e desejos, trazendo para perto de si outros membros da comunidade, inclusive outras crianças, que passam a colaborar com o projeto. Movidos por uma mistura de urgência, de luta pela sobrevivência, com um certo distanciamento de quem acredita que está fazendo a coisa mais natural do mundo, eles se inserem em eventos oficiais, em cenários sofisticados, em barrancos abandonados e perigosos, com

25 In: Apêndice A, Transcrição de entrevista em áudio com Rene Silva Santos, trecho disponível na pág.

134 desta dissertação.

26 ABREU, Sabrina. A voz do Alemão: como Rene Silva e outros jovens ajudaram a mudar a imagem da comunidade. São Paulo: nVersos, 2013. p. 43

uma sabedoria típica de quem já nasceu sabendo até onde pode ir. Quando o tema leva a quebradas mais perigosas, o desvio logo é adotado como ponto de fuga. Assim, em diferentes momentos, Rene Silva e a Voz da Comunidade afirmam que “não falam sobre os traficantes nem sobre a polícia”. Como seria possível?

Com uma fala mansa, seu sotaque carioca é leve e cheio de malemolência. Quando Rene fala, nem parece o incansável organizador de pessoas e ações. Sua eloquência comunicacional necessita de um meio para se expressar. É com o uso de novas mídias digitais que ele vai encontrar o espaço ideal para ganhar visibilidade e capacidade de ação multiplicadora. Para ele, não há divisão entre a vida online e offline, tudo é uma extensão: as redes e as ruas, a vida e a conectividade.

Eu tô sempre conectado, o tempo todo. Eu não entro mais no computador, tudo eu faço pelo iphone ou pelo ipad. É a mobilidade, levo pra onde vou, tiro foto, respondo email, publico, a qualidade é boa, posso fazer vídeo. Então, tô sempre conectado. Até quando eu tô dormindo, eu tô conectado. Vejo quando chega mensagem, essas coisas. […]eu acho que tudo que se fala no online e na vida é a mesma coisa. Principalmente pra mim, as pessoas me vêem na internet, depois me encontram na rua e a conversa continua. [...] É, eu consegui isso. Estar conectado e observar o que está acontecendo à minha volta. (Rene Silva, in: Apêndice B, p. 142)

Assim, quando chega a manhã do dia 28 de novembro de 2010, com as Forças de Ocupação deslocando-se pelo cenário ainda dominado por facções do crime organizado, encontramos o personagem que se tornou conhecido como o “Tuiteiro do Alemão”.

Eu estava no Twitter conversando com meus amigos, como fazia normalmente. E as pessoas começaram a perguntar: “ah, como estão as coisas aí, estou vendo a invasão pela TV”[...] Eu ia informando: “olha, agora tá tranquilo, agora passou um helicóptero, aí pararam um ônibus”, ia informando e respondendo a eles. Desde o instante em que comecei a responder a eles, o número de meus seguidores foi aumentando. Eu tinha cerca de 800 pessoas que me seguiam, amigos da escola, dessas 800, em menos de meia hora, esse número saltou pra uns 5 mil. (Rene Silva, in: Apêndice B, p. 136)

Nessa época, Rene já possuía acesso à internet em sua casa, localizada no Morro do Adeus. Do celular e do computador, com os olhos no que a TV dizia, ele enviava as notícias sobre o que acontecia durante a ocupação. Ao mesmo tempo, recebia descrição dos amigos sobre o que sabiam nas demais favelas do Complexo, relatando a ação de um ponto de vista diverso daquele que era narrado na TV. Estranhamente, em comparação à análise feita por especialistas e jornalistas profissionais das maiores emissoras de TV (que, invariavelmente, narravam a ocupação em tons épicos), a

narrativa de Rene era bem mais objetiva, direta, útil para a comunidade e sem traços de ufanismo. Talvez por isso tenha se espalhado com tanta rapidez.

Fui procurar saber o que tinha acontecido e vi que várias pessoas famosas, como a Preta Gil, Luciano Huck, a Regina Casé, o William Bonner, todos eles estavam assistindo televisão, acompanhando a invasão e comentando. Esses meus amigos começaram a mandar mensagem pra essas pessoas famosas, dizendo “segue esse menino, ele tá vendo tudo, ele mora lá no morro”. Nem foi culpa minha... E realmente eles começaram a me seguir, a Glória Perez, Regina Casé, Preta Gil, um monte de gente. Quando começaram a perguntar diretamente pra mim, eles têm milhares de seguidores, esses seguidores também começaram a me seguir e perguntar e eu nem conseguia responder a todo mundo. Ao invés disso, percebi que deveria publicar no meu perfil. “Olha, agora saiu tiro, agora aconteceu tal coisa”. As pessoas ficavam informadas, porque a televisão demorava mais a mostrar o que estava acontecendo, mesmo ao vivo. Eu me transformei em um correspondente da internet. (Rene Silva, in: Apêndice B, p. 136)

A página do Voz da Comunidade começou a receber grande número de seguidores e a hashtag #vozdacomunidade entrou para os Trending Topics do Twitter (TTT) nacional.

Fig. 7: Foto da tela do site Twitter.com, do perfil da Voz da Comunidade, publicada em 16.10.2011,

quase um ano após a ocupação, localizada por meio da hashtag #vozdacomunidade, anuncia a variação de seguidores.

Fig. 8: Foto da tela do site Twitter.com, do perfil de Rene Silva, publicada em 28.11.2010, data da

ocupação do Complexo do Alemão, localizada por meio da hashtag #vozdacomunidade.

Pouco antes da notoriedade alcançada no Twitter, Rene já possuía página aberta no Facebook, mas pouco usava.

Fig. 9: Rene abre a conta pessoal no Facebook no dia 26/09/2010, dois meses antes do episódio da

Ocupação.

Fig. 10: O Jornal Voz da Comunidade abre página oficial no Facebook no dia 14/04/2011, mas o primeiro

post aparece apenas um mês depois, divulgando o evento cultural Favela Festival, com participação de Caetano Veloso e de um casal da comunidade.

Com os “novos tempos” no Complexo do Alemão, Rene foi se firmando como referência para a comunidade, tornando-se um agitador cultural e organizador de ações assistencialistas, com arrecadação de doações para festas em datas religiosas, como Páscoa e Natal. Paralelamente, o interesse da imprensa pelo rapaz só aumentava. Ele recebia grande atenção nas redes digitais e esse prestígio se refletia em mais espaço nos grandes jornais impressos e eletrônicos, além de programas de entretenimento da Rede Globo de Televisão. Transformado em “amigo das celebridades” e em “embaixador do Alemão”, recebia várias personalidades famosas, como o apresentador da Rede Globo de Televisão Luciano Huck, que promoveu uma reforma em espaço cedido pelo grupo Afroreggae,27 para sediar a redação do Jornal Voz da Comunidade.

Foto 2: Foto da autora, realizada no dia 08/07/2014, da fachada da antiga sede do Voz da Comunidade,

que foi alvo de atentado oito dias após essa data. No mesmo local, estavam as instalações da Pousada Afroreggae no Complexo do Alemão, projeto que foi abandonado após o incêndio.

O espaço na Rua Joaquim de Queiroz, na Favela da Grota, abrigava, ainda, a Pousada Afroreggae, idealizada para receber turistas do Brasil e estrangeiros, especialmente durante a realização da Copa do Mundo de Futebol, de junho a julho de

27 O grupo cultural Afroreggae foi criado em 1993 como um jornal e, desde então, realiza trabalhos em

favelas e comunidades carentes do Rio de Janeiro. Em 1999, foi criada a Afroreggae Produções Artísticas Ltda. A ONG chegou ao Complexo do Alemão no dia 03/08/2007 e retirou-se oficialmente em

2014. Foi alvo de um incêndio que começou na madrugada do dia 16 de julho de 2013. Os equipamentos foram todos perdidos e a Voz da Comunidade retirou-se do local. A sede oficial do Afroreggae no Alemão também foi alvo de rajadas de metralhadoras e o grupo retirou-se do bairro após receber ameaças de traficantes. As investigações sobre o incêndio, considerado criminoso, permanecem inconclusivas. Wagner M. da Silva, de 20 anos, foi encontrado dentro do prédio incendiado e encaminhado para o Hospital Estadual Carlos Chagas com queimaduras. A suspeita, na ocasião, é que ele estaria ali executando ordens e que poderia ajudar a esclarecer o caso, mas acabou falecendo no dia 31 de julho de 2013.

Fig. 11: Notícia sobre o incêndio na sede do Voz da Comunidade, publicada no site da revista Veja, da

editora Abril, no dia 16/07/2013, relatando as suspeitas de motivação criminosa.

A perda da sede do Voz da Comunidade gerou forte reação de apoio nas redes sociais e na televisão. Amigos organizaram campanhas de doação para recuperação dos equipamentos e a prefeitura do Rio de Janeiro cedeu terreno no Morro do Adeus,

poucos dias após o incêndio. Embora o acontecimento tenha gerado indícios de retorno do poder do tráfico ao Complexo do Alemão, Rene e os meninos do Voz da Comunidade preferiram manter-se à distância do debate, eximindo-se de opiniões sobre autoria e motivações do incêndio. Já o coordenador do Afroreggae, José Júnior, atribuiu o incêndio e os atentados subsequentes à reação do Pastor Marcos Pereira, preso sob acusação de estupro e associação com o tráfico de drogas, após denúncias formalizadas pelo grupo.

Fig. 12: Post na página do Facebook de Rene Silva pós-incêndio mostra o antes e o depois da sede do Voz

da Comunidade.

O cuidado com os limites no discurso construído na página pessoal e no perfil do Voz da Comunidade demonstra o quanto a atuação de Rene e de seu grupo tornou-se elaborada. Opiniões polêmicas são evitadas a todo custo e o compromisso que manifestam é com as questões do dia a dia da comunidade, procurando manter-se à distância do “tiroteio” verbal e real entre polícia e traficantes. Quando questionado sobre o poder que o tráfico ainda mantém no Alemão, Rene costuma calar-se. Sobre a atuação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs,), implantadas na comunidade após a ocupação e acusadas de arbitrariedades contra a população da favela, também é monossilábico. É possível perceber que esse embate está vivo no coração da favela e quem vive em meio à guerra acaba desenvolvendo suas próprias técnicas de sobrevivência.

Foto 3: Foto da autora, em esquina logo ao lado de uma das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), com

a inscrição “Eu Cuido Eu Vivo” e, ao lado, CV, sigla da facção que sempre controlou o tráfico de drogas no Complexo do Alemão e que, segundo divulgado na época, teria sido banida após a ocupação.

Com a fama e o crescimento do número de acessos a suas publicações, o modo de interação nas redes sociais Facebook e Twitter também se transformou. O cuidado com o conteúdo e a linguagem utilizada aumentou, tanto no perfil pessoal como no da Voz da Comunidade.

Mudou muito. Principalmente pras pessoas se adaptarem ao que eu escrevia antes e o que passei a fazer depois. Muita gente parou de me seguir depois da invasão, porque antes eu sempre publicava “e aí, galera, eu tô indo pra tal lugar, vocês tão indo pra onde?”. Publicava sobre as coisas que estavam acontecendo na comunidade e sobre mim também, tipo “estou indo pro shopping”. Tem gente que falava, ah, mas eu te segui pra você falar do Alemão, da comunidade. Eu dizia, se você quer saber da comunidade pára de me seguir e segue o Voz da Comunidade e um monte de gente fez isso. Tudo bem, eu agradeço, porque pararam de encher o saco. Acharam que eu só ia falar da polícia e do tráfico e não era nada disso. Tive que me adaptar, comecei a publicar menos coisas, coisas mais relevantes, não as bobeiras que eu publicava antes. Fico falando bobeira mesmo mais de madrugada, que tem menos pessoas online, mais os meus amigos mesmo. (Rene Silva, in: Apêndice B, p. 136)

Rene faz questão de afirmar que não perdeu a espontaneidade, garante que continua publicando enunciados sobre o seu cotidiano, sobre o dia a dia do Alemão. “No Facebook, você pode fazer cinco publicações por dia e já é muito, mas o Twitter não. Se você fizer cem, ainda não é muito, porque a circulação é muito rápida, dinâmica”, diz ele, diferenciando a forma como faz a dosagem de publicações no Facebook e no Twitter. Demonstra, atualmente, consciência da importância do número

de seguidores que possui e de seu poder de influência na maneira como as pessoas percebem a realidade do Complexo do Alemão. O discurso do cotidiano é algo que aparece com muita força, tanto em enunciados de texto como em imagens e fotografias.

[...] no meu Facebook eu tenho 9 mil pessoas seguindo, e tenho mais 5 mil amigos. Então, convivo com muita gente, 14 mil no Facebook e mais 50 mil no Twitter. Tem que pensar no que vai falar. Acho muito interessante porque aqui na comunidade existe uma diversidade muito grande, de comida, de música. Você vai andando por aqui e ouve uma música, depois outra, sente cheiro de feijão, arroz, vou publicando isso, essas curiosidades e as pessoas gostam, não é o ambiente delas, é diferente. Elas se sentem mais em casa, dizem “pô, eu posso morar na favela, já sei de tudo, acompanho tudo que você posta, já sei o nome dos becos, do teleférico”. (Rene Silva, in: Apêndice B, p. 137)