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expectativa de paz que a Europa pudesse ter. Segundo Paul Johnson (1990, p. 238): “O dia 30 de janeiro de 1933 foi um ponto sem volta para a Alemanha e para o resto do mundo”. Desde o início Hitler buscou o rearmamento alemão e o expansionismo, sem esquecer suas teorias raciais de superioridade germânica (JOHNSON, 1990, P. 246).

Com objetivo expansionista e militarismo claro, o líder nazista concluiu pactos com outros líderes totalitários para atacar países. De início, enganou governantes que suspeitavam que suas ambições teriam limite. Após o início de uma guerra europeia em 1939, com o ataque a Polônia, e sua rápida vitória do ocidente no ano seguinte, Hitler se voltou para seu objetivo de conquista no leste, a fim de anexar a União Soviética (URSS). Porém, o país socialista, que tinha uma ditadura quase tão brutal quanto a alemã, se encontrava mais próximo dos neutros que dos inimigos dos nazistas, após a conclusão do Pacto de Não-Agressão de 1939, com cooperação comercial e tecnológica . Porém para Hitler e para qualquer um que lesse seu livro, Mein Kampf, o alvo principal de conquista e destruição era a Rússia Soviética (MAGNOLI; BARBOSA, 2011, p. 357- 379).

Embora nunca tivesse sido sua preocupação o que a opinião pública pensaria de seus atos, em alguns momentos Hitler buscou travestir suas ações sob algum manto de legitimidade. Foi assim na crise dos Sudetos em 1938. Assim também usou justificativa para explicar o motivo de estar invadindo a URSS, em 22 de junho de 1941. E essa explicação passa pela legítima defesa preventiva, conforme fica claro em uma comunicação enviada ao governo soviético explicitando os motivos da guerra (apud RONDIERE, 1967, p. 73-74), na madrugada de 22 de junho de 1941:

As informações recebidas nesses últimos dias pelo Governo do Reich não deixam de subsistir nenhuma dúvida sobre o caráter agressivo dos ajuntamentos de tropas soviéticas. Além disso, informações de fontes britânicas confirmam a existência de negociações conduzidas pelo Embaixador Sir Stafford Cripps, tendentes a uma estreita colaboração militar entre a Grã- Bretanha e a URSS. O Governo do Reich declara que em violação dos compromissos que assumiu, o Governo Soviético tornou-se culpado:

a) de ter prosseguido e intensificado suas manobras de sabotagem contra a Alemanha e a Europa;

b) de ter reunido na fronteira alemã todas as suas forças armadas em pé de guerra;

c) de se preparar como é evidente, violando o Pacto de Não-Agressão germano-russo, para atacar a Alemanha (grifo nosso)

A conclusão da comunicação é ainda mais forte (apud SHIRER, 2008, P. 313):

Com isso, o governo soviético quebrou seus tratados com a Alemanha e está prestes a atacar a Alemanha, da retaguarda, na sua luta pela vida. O Führer ordenou, portanto, que as forças armadas alemãs se oponham a essa ameaça por todos os meios a sua disposição.

Portanto, o que vemos é que para atacar a URSS em 1941 o argumento usado pela Alemanha foi de que estaria atacando para se livrar da ameaça iminente de um ataque por parte

soviética. Usar a força seria para a proteção do Reich Alemão. Afirmava a Alemanha que tinha provas de que seria atacada, por isso tomava a iniciativa do primeiro ataque para não se tornar vítima da iniciativa contrária.

Para Shirer (2008, p. 313) a declaração era “repleta de mentiras muito surradas” nas quais Hitler “se tinha tornado perito e que tantas vezes havia sido engendrado antes”. Realmente não havia sequer planejamento de qualquer iniciativa de ataque soviético contra a Alemanha naquele período. Muito pelo contrário, o que o governo do Partido Comunista mais queria evitar era a guerra com a Alemanha hitlerista. Em uma reunião com comandantes militares, em maio de 1941, o ditador soviético Josef Stalin disse categoricamente que se houvesse provocação contra os alemães ou movimentação de tropas na fronteira os comandantes “poderiam ter certeza de que cabeças vão rolar” (KERSHAW, 2008, p.297). Em se tratando da ditadura stalinista temos motivos para acreditar que a ameaça seria cumprida e nenhuma ação partiria do governo comunista.

Afirmar que atacaria porque estaria buscando a defesa, legítima, antecipada, foi um blefe de Hitler para esconder seu real motivo, que era a conquista indiscriminada seguida do extermínio da população russa, considerada inferior. Apesar do desprezo pela legalidade, Hitler tentou usar argumentos de defesa, já que mesmo com toda sordidez do nazismo não era fácil para a propaganda do Reich exprimir a verdade, cabendo usar a falácia do ataque preventivo. Joachim Fest (2006, p.738) nos mostra o que havia, de fato, por trás do ataque alemão:

Todos esses elementos conferiam à guerra do leste esse caráter ao mesmo tempo duplo e insólito. Era indubitavelmente uma guerra ideológica contra o comunismo, uma guerra que assumia, às vezes, curiosos aspectos de cruzada, mas era ao mesmo tempo – e muito mais – uma guerra de conquista colonial no estilo do século XIX, dirigida, é verdade, contra uma das grandes potências europeias tradicionais, com o propósito deliberado de eliminá-la. O próprio Hitler contribuiu de certa maneira para a destruição da teoria das motivações ideológicas brandidas à força de propaganda, quando, em meados de julho, durante uma reunião com seu círculo mais alto, repeliu decididamente a fórmula a ele submetida de “guerra da Europa contra o bolchevismo”, e explicou: “Trata-se substancialmente de cortar o imenso bolo, de maneira que primeiro o dominemos, depois o administraremos, por fim o exploraremos. É claro que, inicialmente, é necessário manter em segredo o projeto de anexação. Mas todas as medidas necessárias – fuzilamentos, deportações – poderão ser tomadas e serão ser tomadas.”

A história mostra que em muitos casos há um descompasso enorme entre o argumento usado para uma ação e o que realmente está por trás dela. O caso da invasão nazista foi um desses. Mesmo na época poucos deram atenção a validade da afirmação de que a URSS é que estava prestes a atacar a Alemanha e esta, na necessidade de se proteger, realizou um ataque preventivo. Até mesmo os historiadores, em geral, omitem esse detalhe, indo direto aos reais motivos da guerra. O histórico político de Hitler era por demais exemplificativos para gerar qualquer dúvida quanto a suas intenções.

Mais lamentável é que esse caso não foi isolado, mesmo no século XXI ainda encontramos situações parecidas, conforme veremos no caso da invasão americana ao Iraque.