Kapittel 4 Avslutning
4.2 Prosesser med å utarbeide planer og budsjetter
Priscila Monteiro Chaves42
“ é necessário sair da ilha para ver a ilha”
José Saramago43
“Os meninos sabem mais do que do que parece e se lhes dissessem que escrevessem o que
sabem, muito boas coisas escreveriam.”
José Martí44
Resumo: Determinados conceitos trabalhados no âmbito da Educação Popular ainda são
bastante caros à educação latino-americana, principalmente por terem perdido sua radicalidade e junto com esta seus principais objetivos. No que compete a estes últimos, talvez o principal deles seja a luta contra a alienação da população. Tal luta está intimamente atrelada à formação do leitor, haja visto seu caráter emancipador e humanizante. Assim sendo, o processo em que se forma este leitor necessita ser repensado à luz de conceitos refletidos pelo campo filosófico, tais como invasão cultural, estranhamento e
menoridade, a fim de que esta seja uma prática libertadora.
Palavras-chave: leitura; humanização; Educação Popular.
Abstract: Certain concepts used in the context of Popular Education are still very important to Latin American education, especially for having lost its radicalism along with its main objectives. Perhaps the main lost objective is the struggle against alienation of the population. Such a struggle is closely linked to reader education, due to its emancipating and humanizing character. Thus, the process that forms this reader needs to be rethought in the light of concepts originally from the philosophical field, such as cultural invasion, estrangement and minority, so that this becomes a liberating practice.
keywords: reading; humanization; Popular Education.
42 Graduada em Letras (Port-Francês) pela UFPel, Mestranda do PPGE na mesma Universidade, seguindo a linha de pesquisa Filosofia da Educação, sob a orientação de Gomercindo Ghiggi. Bolsista CAPES.
43 VEJA. O Conto da ilha desconhecida. Veja, 24 dez. 1997. Seção Especial, p.136-43.
44 MARTÍ, José. La edad de oro. In: STRECK, Danilo. (org). Fontes da pedagogia latino-americana: uma antologia. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
Em tempos contemporâneos e de grande avanço dado pelos parâmetros centrais estipulados pela explosão tecnológica, qual á o sentido que se encontra em pensar-se uma
pedagogia da escrita hoje? A partir de que momento ensinar a ler e escrever é muito mais do que ensinar a ler e escrever? A gênese da exclusão da escola pode ser mapeada somente sob a ótica
de questões do tipo: por que Joãozinho não sabe ler? 45
Ainda à guisa de introdução, a partir da leitura do pequeno texto informativo intitulado Teologia da Libertação46 sabe-se que os teólogos acreditavam que a teologia da
libertação acarretava na libertação da teologia, visto que esta ultrapassa o trabalho com conteúdos novos, mas “se refere ao próprio processo de fazer teologia; para um grupo de filósofos, não poderia haver filosofia da libertação sem a libertação da filosofia”(STRECK, 2010, p. 331). Quando se fala em Educação Popular, o paradigma não difere muito, tem-se o trabalho com a pedagogia do outro, ou, para usar a mesma expressão do autor recém citado: a libertação da pedagogia.
Alguns dos conceitos trabalhados no âmbito da Educação Popular, ainda são bastante caros à educação latino-americana, principalmente por terem perdido sua radicalidade bem como seus principais objetivos. No que compete a estes últimos, talvez o principal deles seja a luta contra a alienação da população.
Entende-se que o sistema escolar constitui a mais importante ferramenta de resistência e decifração dos enigmas que permeiam o sistema capitalista, e pertencente a este conjunto de enigmas, a “faculdade” (se é que assim seja possível denominar) que o ser humano tem de estranhar47 o fato de este mesmo sistema ser produzido e alimentado pelos próprios homens. Contudo, citando István Mészáros, somente o acesso ao contexto escolar “é condição necessária mas não suficiente para tirar das sombras do esquecimento social milhões de pessoas cuja existência só é reconhecida nos quadros estatísticos”(2008, p.11), visto que a democratização do ensino e a expansão dos meios de comunicação não propiciam a difusão “qualitativa” do saber. A preocupação em decifrar estes enigmas recém citados demanda um questionamento crítico acerca da estrutura de valores que cooperam para a imortalização da concepção de mundo baseada no sistema social mercantil.
Partindo da preocupação com o que foi chamado aqui de alienação, o mesmo autor lança, em seu livro Educação para além do Capital, a seguinte questão: “Para que serve o sistema educacional – mais ainda, quando público -, se não for para lutar contra a alienação?” (2008, p.17), e buscando uma tentativa de resposta para tal, é possível lançar mão de uma outra contribuição de bastante valia dos fundamentos da Educação Popular: a
45 Questão alusiva a uma das críticas de Hannah Arendt contida em seu artigo Crise na Educação, um dos textos que compõem sua obra Entre o Passado e o Futuro (2000), na qual ela percebe a impotência existente na tentativa de discutir as problemáticas do contexto educativo cerradas em si mesmas.
46 Tamayo J. J. Teologias da libertação. In: Dicionário de Conceitos Fundamentais do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999. ISBN 85-349-1298-X
47 Com a utilização do termo estranhamento, neologismo que tem sua origem proposta no trabalho do formalista russo Viktor Chklovski, quer-se a compreensão do leitor de uma habilidade de distanciar-se de um determinado contexto, distanciar-se em relação ao modo comum como para o sujeito foi sempre apresentado o mundo, ou da única maneira que por ele este foi compreendido, desafiando e transformando as ideias pré- concebidas trazidas por ele. Habilidade esta que lhe seria permissiva a uma entrada em outra dimensão de apreender o contexto em que vive. Necessidade litarariamente ilustrada pela primeira epígrafe, a de Saramago inicialmente citada.
tamanha distinção que há entre o fazer para e o fazer com, visto que, em tal dicotomia reside a diferença de sentido que há entre o pensar para e o pensar com.
Esta que vem configurando uma das maiores carências da educação pública, o que, utilizando a nomenclatura kantiana, não faz com que o sujeito saia de sua menoridade48. Esta preocupação configura um das faces da educação popular, a necessidade de a educação desvincular-se do papel paternalista e assistencialista que vem adotando, devido ao perverso quadro social atual, desvincular-se da ideia de pensar por e para, pois assim, ela está pensando contra.
Esta discussão é muito bem elucidada na teoria freiriana, mais pormenorizada em dois de seus textos da década de 60 Educação como prática da liberdade e o clássico Pedagogia do
Oprimido. Ambos carregados de reflexões tecidas no exílio, com a tentativa de compreender
o povo e o contexto que o autor havia deixado.
No que compete à preocupação com o protagonismo popular, Paulo Freire é o nome do contexto brasileiro mais evocado pelo âmbito educacional, principalmente na medida em que sua proposta de pedagogia libertadora envolve dialogo em vez de invasão
cultural49. Esta que impõe uma outra visão de mundo e que com isto acaba freiando a
expansão das diversas formas de manifestação cultural dos indivíduos.
Nas palavras de Freire “a questão se apresenta de modo claro: trata-se de acomodar as classes populares emergentes, domesticá-las em algum esquema de poder ao gosto das classes dominantes”(1980, p.17), porém, a invasão cultural se dá de maneira mais perigosa ainda quando não se tem mais a mesma possibilidade acessibilizada pela docilidade tradicional, tornando-se indispensável “manipulá-las de modo a que sirvam aos interesses dominantes e não passem dos limites” (1980, p.17)(grifo meu).
Outra dedicação dos estudos do pensador pernambucano foi ao processo de alfabetização da sociedade como resistência a esta domesticação opressora, para ele o ato de ler é uma atividade criadora, e desta forma, não pode ser vista como um simples processo de memorização mecânica dos vocábulos. Assim sendo, o analfabetismo é facilmente interpretado como um destes limites (expressão trazida na última citação), principalmente pelo fato de haver um vínculo estrito entre a escrita, e consequentemente a leitura, e os diversos modos de exercício do poder, fazendo com que esta tão valiosa e almejada técnica seja, nas diferentes sociedades de classe, distintamente ofertada, possuída e compreendida.
A conhecida pedagoga do contexto educacional brasileiro, dedicando seus estudos ao conceito de letramento bem como aos principais impasses que permeiam a formação do
48 Immanuel Kant, em seu clássico texto Resposta à pergunta “O que é o iluminismo?” , propõe o conceito de menoridade como a “incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem.”O conhecido pensador utiliza a expressão Sapere aude para melhor exemplificar tal conceito, e a traduz por: “Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento”(KANT, 1974, p.01).
49 O conceito de invasão cultural, segundo a teoria freiriana, é a maneira que a sociedade tenta se desenvolver, porém acaba se modernizando, visto que uma cultura impõe sobre outra os seus moldes pré-estabelecidos, deformando a sociedade invadida a ponto de torná-la uma espécie de caricatura de si mesma (1980). FREIRE, Paulo. Conscientização : teoria e prática da libertação. São Paulo : Moraes, 1980.
leitor, Magda Soares, também traz suas contribuições facilmente relacionadas à teoria freiriana, apontando a principal problemática de um quadro social que reforça ainda mais a desigualdade da sociedade capitalista na qual se vive atualmente, estando este longe de proporcionar de forma equitária a oportunidade de aprendizado a todos, como sustenta a autora:
o acesso ao mundo da escrita vem significando, apenas, para as camadas populares, ou a aquisição de uma habilidade quase mecânica de decodificação/codificação (ao povo permite-se que aprenda a ler, não se lhe permite que se torne leitor), ou o acesso a universos fechados arbitrariamente impostos. (2000, p.25).
Torna-se notório a partir de tal assertiva a construção de uma sociedade alicerçada em interesses bastante antagônicos, fazendo do ato de ler um privilégio de alguns e não aquilo que deve ter por direito toda uma população.
Esta impossibilidade de acesso ao real mundo da cultura letrada da maioria da população, como bem contrapôs Soares, é o que vem caracterizando o “novíssimo analfabetismo”, uma condição de quem sabe codificar, decodificar e até mesmo é capaz de explicar muitos fenômenos, porém não compreendê-los. Nunca se teve a convivência de uma quantidade tão grande de meios informativos disponíveis com uma baixa capacidade de interpretação dos fatos e/ou sistema. Percebe-se que cada vez mais vem sendo confundidos acúmulo de conhecimento e compreensão do mundo (MÉSZÁROS, 2008).
Quanto a esta perversa indiscriminação a teoria freiriana também contrapusera, inclusive no que concerne o ato de ler, caracterizando por exemplo a população de Guiné- Bissau como “um povo que, apresentando um alto índice de analfabetismo, 90% do ponto de vista linguístico, é altamente ‘letrado’ do ponto de vista político”, criticando assim determinadas comunidades “sofisticadamente letradas, mas grosseiramente ‘analfabetas’ do ponto de vista político”(FREIRE, 1978, p. 17).
Como importante tentativa de conclusão a ser extraída das reflexões que permeiam os fundamentos da Educação Popular, por mais que pareça ambiguidade, contradição ou qualquer incerteza do tipo, parece configurar na mais antiga e ao mesmo tempo mais atual: a noção de Conscientização. Já que, segundo a teoria freiriana, esta é uma tarefa de participação de todos, na medida em que aborda e trabalha com o diálogo e não com a
invasão, como aqui já foi contraposto.
Sua atualidade reside no fato de que ainda, quando se fala em práticas pedagógicas libertadoras, estas são impostas à comunidade escolar como um cânone atual a ser seguido, não interessando como, para quê e nem o porquê de serem realizados, não demandando participação popular alguma, como vem sendo realidade nas escolas com as questões da construção do conhecimento, do letramento e outros assuntos de grande relevância. Enxergados como “modernismos” pela população, caindo em conceitos vazios e vãos.
No que compete à implantação do letramento na rede pública de ensino, por exemplo, tem se feito da ciência um fetiche, como se esta fosse uma entidade com vida própria, esquecendo-se que esta, a ciência, apenas tem sentido quando demanda a participação popular efetiva. Ao impor uma diferente maneira de formar leitores, a escola
acaba deixando de lado o fato de que “a ciência é apenas um produto cultural do intelecto humano que responde a necessidades coletivas concretas” (BORBA, 1999, p.43), e consequentemente não estabelecendo uma relação mais proveitosa entre os sujeitos que de tal atividade partilham.
Percebe-se então por parte dos educadores uma carência de posicionamento crítico perante à ciência clássica, carência esta que fará com que estes profissionais permaneçam à luz dos princípios que orientam a educação formal, e não proporcionará a realização de práticas educacionais mais abrangentes, que sejam capazes de romper com a lógica do capital. Situação que se mostra sem egresso, em um primeiro momento, visto que não pode haver uma solução que se apresente de maneira efetiva para a autoalienação sem que haja a promoção, conscienciosamente, da universalização conjunta do trabalho e da educação (MÉSZÁROS, 2008).
A fim de não mais viver sob condições desumanizantes e principalmente sob condição subversiva, fetichista do estado das coisas dentro da consciência do indivíduo, com sua posição extremamente democrática, e contra uma concepção demasiadamente estreita de como vinha se fazendo educação e quem eram os chamados intelectuais, Gramsci (1957) já argumentara que não existe atividade humana da qual qualquer intervenção intelectual possa ser rejeitada, como muito tem-se citado o autor, Homo faber
não pode ser separado de Homo sapiens, dessa forma, no que concerne à formação do leitor, o
que o educador em seu papel de alfabetizador deve constantemente ter ciência é de que, visando tal processo, a diferença entre ele e o alfabetizando é que aquele já lê a palavra, isto é, domina aquela tão valorizada técnica, enquanto este, em um primeiro momento, "só" lê o mundo, como aponta Freire ao falar da alfabetização de jovens e adultos:
A única diferença que os marcava é que os participantes liam apenas o mundo enquanto os jovens a serem formados para a tarefa de educadores liam já a palavra também. Jamais, contudo, haviam discutido uma codificação assim como jamais haviam tido a mais mínima experiência alfabetizando alguém (1993).50
Por isso é que torna-se impossível falar em assistencialismo quando se fala na relação professor/aluno, principalmente no processo de formação do sujeito-leitor. Porém, tal postura ainda não parece ser adotada no contexto escolar, o fetiche pela técnica domina a prática pedagógica de grande parte dos educadores, caracterizando-se como uma sociedade que permanece irracional, apesar de toda racionalização.
Percebe-se então, a partir de tais reflexões, como é cômodo para a mundo atual “encurtar distâncias”, tanto que tais exigências acabam tornando-se prioridade de sobrevivência nesta civilização complicada de se viver, em virtude de seu perfil tecnologicamente refinado.
Dessa forma até mesmo a concepção que se tem de formação humana passa a ser repleta de preceitos que reduzem o valor ao significado, o trabalho ao fim, e
50 FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo, Olho D´Àgua, 1993. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/21527917/Paulo-Freire-Professora-sim-tia-nao-pdf. Acesso em: 10 de agosto de 2011.
consequentemente o homem à produtividade. Em outras palavras, o homem mantém contato com um universo acabado, coeso. Universo este que coloca-se como real, conseguindo assim acalmá-lo.
Com as reflexões tecidas a partir dos fundamentos da Educação Popular, torna-se possível pensar em um processo de formação do leitor como prática libertadora, uma formação que não privilegiará os modelos de sociedades cerradas por si sós, inacessíveis e consequentemente dependentes, sociedades estas que, ao distanciar-se delas para bem analisá-las é possível perceber que estão em processo constante de pseudodesenvolvimento, ou em outra palavras, de uma simples modernização.
Referências Bibliográficas:
BORBA, Orlando Fals. Aspectos Teóricos da Pesquisa Participante: considerações sobre o significado e o papel da ciência na participação popular. In: Pesquisa Participante. Carlos Rodrigues Brandão (org.) São Paulo, Brasiliense, 1999.
COUTINHO, Carlos Nelson (1989) Gramsci: um estudo sobre seu pensamento
político. Rio de Janeiro: Campus.
FREIRE, Paulo. Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo. 4 Ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
______. Conscientização : teoria e prática da libertação. São Paulo : Moraes, 1980. KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é “esclarecimento”?. In. Immanuel Kant: Tetos seletos. Petrópolis: Vozes, 1974.
MÉSZÁROS, István. A educação para alem do capital; [tradução de Tavares]. 2.ed- São Paulo: Boitempo, 2008.
SOARES, Magda Becker. As condições sociais da leitura: uma reflexão em
contraponto. In: ZILBERMAN, Regina & SILVA, Ezequiel (org). Leitura Perspectivas
Interdisciplinares, 5. ed. São Paulo: Ática, 2000.
STRECK, Danilo. José Marti e a formação de nossa América. In: Fontes da pedagogia latino-americana: uma antologia. Danilo Streck (Org) – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
______. Paulo Freire e a consolidação do pensamento pedagógico na America
Latina. In: Fontes da pedagogia latino-americana: uma antologia. Danilo Streck (Org) –
Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.