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PROPRIETARY AND ENTITY THEORIES

As pesquisas indicam que as pessoas ficam expostas em média de três a quatro horas diárias à televisão; outras revelam que a exposição aos meios, incluindo a mídia impressa, cobre a terceira parte do tempo dos seres humanos nas sociedades industrializadas, perdendo apenas para “dormir” e “trabalhar” (Baccega 2002) 30.

Para Bourdieu (1998) que pesquisou e publicou títulos sobre o tema, a mídia eletrônica tem grande penetração social, mais do que o meio impresso e é responsável por produzir bens simbólicos “que propõe uma visão do mundo cada vez mais despolitizada, asséptica e incolor,

30 Os resultados da coleta de dados realizada pela PENAD (Pesquisa Nacional por Amostra de

Domicílios) do IBGE em 2008 mostram que o aparelho de TV está presente em 98,5% de domicílios no Brasil, perde apenas para o eletrodoméstico fogão (95,1%) e supera o aparelho de rádio (88%); os domicílios conectados à web chegaram a 13,7 milhões em 2008, em 2007, 11,1 milhões utilizavam a rede.

envolvendo cada vez mais os jornais nessa escorregada para a demagogia e para a submissão aos constrangimentos comerciais” (p.109).

No Brasil, como em outros países da América Latina, a mídia eletrônica é aquela que tem grande poder de penetração no imaginário social. Portanto, ela é uma ferramenta eficiente para consolidar a hegemonia cultural em países com pouco hábito de leitura como o nosso, onde impera a cultura visual.

Além da mídia tradicional como a televisão aberta e comercial, hoje os pequenos aparelhos portáteis e multifuncionais possibilitam convergências e mimetismos de conteúdos conectados em rede entre diferentes mídias. Um bom exemplo é o internauta que pode jogar fotografar, interagir com seu colega, ouvir música, assistir filmes, produzir ou exibir um clipe possibilitado por um único aparelho portátil. De posse de um telefone celular ou computadores de diferentes formatos, o usuário pode acessar conteúdos ou narrativas reiteradas em diferentes mídias, o que parece facilitar ainda mais a circulação da informação hegemônica.

Para os teóricos da comunicação, esta “reprodutibilidade técnica”, foi alvo de severas críticas sob o olhar da Escola de Frankfurt e que hoje, como um fatalismo, parece manifestar- se potencialmente sistematizada. Um filme de ação de Hong Kong ou Hollywood pode oferecer o mesmo espetáculo que um filme nacional de ação ou uma novela local exibida na Turquia – o sucesso da novela brasileira Escrava Isaura (1976), na China, é um bom exemplo que antecede o potencial da televisão antes mesmo da internet.

Este interesse em exportar conteúdos narrativos opera concomitante aos interesses econômicos que podem ser concretizados com a abertura de mercados para os produtos em consonância com estes conteúdos. Não importa onde, quando e para quem, o espectador (brasileiro ou chinês) pode decodificar a mensagem antes já decodificada (está no sistema porque existe a certeza da decodificação) conforme defendem Adorno e Horkheimer em A Dialética do Esclarecimento (1985; p.99 – 138). Segundo os autores, a cultura de massa opera com a mesmice adequada ao gosto e sensibilidade do sujeito-consumidor alienado à homogeneização do conteúdo. Para estes teóricos que presenciaram o terror da Segunda Guerra Mundial, o poder da propaganda nazista e a eficácia da racionalidade técnica, as tecnologias modernas seriam, sob a luz desta teoria crítica, artefatos que permitem maximizar, ainda mais, a racionalidade própria da dominação econômica.

Hoje, a eficaz Internet é a infovia que pode agilizar e disponibilizar conteúdos para o seu espectador-consumidor que pode circular virtualmente o seu próprio conteúdo através do blog ou sites de relacionamento (Facebook, Twitter e etc)31. No entanto, esta aparente autonomia de uso pode ser ideologicamente desvelada ainda na obrigatoriedade do cadastro do usuário, convidado a ser exposto à intensa monitoração e rastreamento de seus gostos e desejos.

Muniz Sodré (2010) coloca em evidência em seu instigante artigo, Virus, vermes e comunicação, a importância conferida aos populares sites de relacionamento em que, inclusive, chefes de governo estão cadastrados - de Hugo Chavez, presidente da Venezuela a Barack Obama, dos EUA. Nestes encontros virtuais, salienta Sodré, não há o encontro com a “verdadeira alteridade”, e sim, apenas, o “estar ‘ligado’ tecnicamente vinculado a uma inscrição digital no espaço virtual”.

O objetivo geral predominante no acesso a estes sites observa o autor, é ainda o de buscar entretenimento na companhia simultânea de outros milhares de indivíduos na rede. Ele questiona: “Existe mesmo uma opinião pública nesse espaço virtual em que a informação política e o interesse pela atualidade foram substituídos pelos tweets da banalidade?”.

Agger (2010), ao enfocar a intertextualidade nas mídias, salienta que a Internet apenas recicla e dá continuidade ao que já foi iniciado pela televisão aberta, a cabo ou a digitalizada que começa a se expandir no mercado. Pois é marcante na rede virtual, a crescente multiplicação da “simultaneidade do ‘que já foi dito’ e do ‘que ainda está sendo dito’”. Os conteúdos virtuais, completa ela, estão repletos do fazer reciclar “tudo o tempo todo, mas focando nos aspectos individuais, ao invés do ponto de vista coletivo dessa simultaneidade” (p. 408).

Na tentativa de compreender e interpretar a dinâmica do capitalismo e o uso ideológico destes sofisticados aparatos midiáticos em rede digital, a teoria da comunicação vai buscar nos argutos conceitos de Adorno e Horkheimer, um aparato teórico para rever e atualizar quem é este receptor-passivo presente no conceito indústria cultural, reciclado no mundo contemporâneo. O intuito desta pesquisa é trilhar por estas propostas teóricas da comunicação

31 Cerca de uma dezena de gigantes da multimídia (convergência entre as telecomunicações, a

informática e o audiovisual) controlam em torno de 90% dos mercados midiáticos mundiais, entre equipamentos, redes e conteúdos (Sodré, Muniz. Vírus, Vermes e Comunicação. Observatório da Imprensa, 28/09/2010

social que colaborem na compreensão dos meios e a mediação cultural na construção do consenso social na contemporaneidade.

Se as atuais tecnologias da informação convergentes parecem operar como

ferramentas utilitárias indispensáveis para a dinâmica da circulação do capital sem fronteiras, por outro lado, também podem se posicionar como canais de interatividade e conectividade na sociedade midiatizada e construir novos processos que abrem espaços diretamente para as novas práticas sociais.

Braga e Calazans (2001, p.30) explicam que expressões como “sociedade de informação”, “sociedade de comunicação”, “sociedade midiática”, “idade mídia”, tentam caracterizar a estrutura social do século XX. A preferência em adotar a expressão “sociedade midiatizada” justifica-se porque “parece assinalar a presença e a relevância da mídia em sua comunicação sem, entretanto, pretender que a mídia ‘determine’ as estruturas sociais ou que seja monolítica e totalizante” - como configuraram Adorno e Horkheimer sobre o papel determinante dos meios de comunicação como mantenedoras da ideologia econômica de classes dominantes.

Na sociedade midiatizada, salientam Braga e Calazans (2001), os meios de comunicação como o cinema, televisão e o computador podem propor “outras formas de representar o mundo, outros modos de perceber o mundo e outras maneiras de construir o mundo”. Isto porque, as novas tecnologias de comunicação convergentes e o acesso à rede de informações sem fronteiras potencializam a capacidade de penetração e participação do usuário criando diretamente novos processos de interação e conectividade:

Mantendo (ou ampliando) a inclusividade, que é própria de todos os recursos de reprodutibilidade técnica, o computador leva a penetralidade a seu nível extremo. Diferentemente de trazer o processo a seu espaço de captação (modificando-o na inclusão), vai diretamente ao espaço social e/ou natural de realização do processo, modificando-o aí, na própria organização de seu desenvolvimento efetivo (p. 31).

Sob este aspecto, observa Miége (2009, p. 36-37) que esta convergência de sistemas de comunicação é uma construção social e está longe de ser um desenvolvimento tecnológico autônomo, porque exige um aparato jurídico, a vontade política e econômica e, ainda, a aceitação de usuários. Portanto, consideramos para esta pesquisa, que os interesses dos

estudos culturais podem contribuir teoricamente para a análise dos sentidos nos documentários de Adrian Cowell que representam os conflitos socioambientais na região amazônica, como explica Escosteguy e Jacks (2005, p.39): “Poderíamos resumir que os estudos culturais estão interessados nas relações entre textos, grupos sociais e contextos, ou ainda, em termos mais genéricos, entre práticas simbólicas e estruturas de poder”.

Vale também ressaltar que esta pesquisa considera as representações sociais de Cowell como algo que o cineasta nos conta acerca de algum aspecto da vida social na Amazônia Ocidental durante um período crítico de degradação ambiental. Explica Becker (2009) que

qualquer representação social da realidade social – um filme documentário, um estudo demográfico, um romance realista – é necessariamente parcial, é menos do que experimentaríamos e teríamos à nossa disposição para interpretar se estivéssemos no contexto real que ela representa (p.31).

Mas para que esta representação social seja uma investigação competente de um fenômeno social é preciso que as múltiplas vozes constituintes sejam ouvidas e descritas porque é nesta interação de multivocalidade é que os significados se manifestam (BAKHTIN, 1986; BECKER, 2009), um “mundo real não está fora do discurso não está fora da significação. É prática e discurso, como qualquer outra coisa” (HALL, 2003, p.364). Portanto, para cumprir os objetivos descritos neste trabalho, consideraremos os filmes documentais de Cowell, textos fílmicos nos quais interagem, de forma complexa e não unilinear, os seus sentidos.

No item seguinte deste capítulo buscamos descrever e articular os conceitos teóricos que fundamentam estas considerações sobre a prática social da comunicação, a decodificação pelos receptores de suas mensagens e a construção do consenso social.