Chapter 11: DISCUSSION
11.2. Empirical debate
As cenas de abertura de O Destino dos Uru-Eu-Wau-Wau é a mesma imagem utilizada para todos os episódios da série Os últimos Isolados68 e encena uma seqüência exuberante dos Ava - canoeiros remando no lago coberto de neblina. É a mesma estratégia de comunicação utilizada na abertura da série A Década da Destruição que exibe a floresta em chamas: a chamada identifica as séries e a abordagem temática a ser priorizada. Na série Os Últimos Isolados, três etnias estão em evidência para exibir as conseqüências do avançode aberturas de estradas e da construção de hidrelétricas. As tribos atingidas são, respectivamente, os Panará, os Uru-Eu-Wau-Wau e os Ava – Canoeiros. A história que antecede este isolamento é quase sempre a mesma, os conflitos sociais pelo embate do território alheio ou a prática da vingança de cunho pessoal que deixaram marcas profundas na organização social e cultural destas tribos.
A imagem dos Ava - Canoeiros na abertura destes episódios é emblemática. Ela é o retrato do que resta destes protagonistas do episódio Fragmentos do Povo (1999), da série Os Últimos Isolados; de uma nação indígena que teve a sua cultura e a sua paisagem modificadas. Este documentário de Cowell narra a trajetória dos poucos Ava - Canoeiros sobreviventes do massacre de 1962 - que dizimou 40 integrantes da tribo -, e das sucessivas perseguições que reduziram drasticamente o número desta nação indígena.
Quando Cowell acompanhou o responsável da FUNAI, Sydiney Possuelo para contatar estes índios remanescentes, a área onde se encontravam estava prestes a ser inundada pelas águas da barragem construída na Serra da Mesa, estado de Goiás. A FUNAI localizou e Cowell registrou um grupo reduzido desta etnia habitando as cavernas existentes na região, com hábitos alimentares e comportamentos modificados e adaptados às precárias condições de vida.
68 A série Os Últimos Isolados (The Last of the Hidding Tribes), foi produzida pela Nomad Filmes e
veiculada na TV britânica, Channel 4. Esta série recebeu o prêmio Latin American Studies Association Award of
Merit in Film e é composta por três episódios: Fugindo da Extinção (Return from Extinction, 52 min., 1999); O
Destino dos Uru-Eu-Wau-Wau (The Fate of the Kidnapper, 52 min., 1999) e Fragmentos de um Povo
(Fragments of a People, 52 min., 1999). Fonte: Catálogo Mostra de Filmes Amazônia segundo Adrian Cowell –
A tragédia do passado transformou drasticamente seus hábitos culturais, seu modo de vida e anulou suas expectativas do porvir. Nesta circunstância que perdurava desde que abandonaram a vida tribal - havia mais de 30 anos -, o medo e o desespero tomavam conta das mulheres da tribo que abortavam seus filhos para que os choros de bebês não denunciassem suas presenças. Esta breve informação sobre os conteúdos que se completam na série ao qual pertence o Destino do Uru-Eu-Wau é prenúncio do que indica o próprio título do filme.
O conflito entre os Uru-Eu-Wau-Wau e a família de Chico Prestes, abordado nestes dois títulos em análise, teve início em 1979 quando os filhos de Chico Prestes foram atacados na beira do rio Jarú, próximo a Ariquemes, cidade que está a 208 quilômetros da capital Porto Velho, estado de Rondônia. A primeira reconstituição da história do rapto feita por Cowell foi publicada em 1992, como já foi mencionado, sob o titulo Na Trilha dos Uru-Eu-Wau-Wau.
Este documentário enfatiza as tentativas da FUNAI em contatar a tribo isolada e neste processo de busca, o filme faz o espectador conhecer os dois lados da história, os diferentes ângulos de tomada do sofrimento, tanto dos índios, quanto dos migrantes brancos. Esta aproximação com o espectador é possível porque na narrativa fílmica e a edição privilegia o enfoque nas diferenças existentes entre as partes em conflito, valorizando as cenas que enfatizam as emoções, as crenças e os valores de cada grupo envolvido. São por fim, a representação de atores sociais distintos e em conflito que compõem a severa realidade das fronteiras.
Na Trilha dos Uru-Eu-Wau-Wau, apesar do filme exibir o quanto o contato iniciado com a FUNAI deflagrou, contraditoriamente, a dizimação da tribo que deveria ser protegida, é em O Destino dos Uru-Eu-Wau-Wau, publicado em 1999, que as ações da FUNAI podem ser questionadas amplamente, associadas às políticas sociais praticamente inexistentes. As cenas do chefe indígena Tari antes e depois do contato com os brancos e o audaz caboclo Chico Prestes são ainda exploradas em O Destino dos Uru-Eu-Wau-Wau, mas agora, para ilustrar o descompromisso de políticos locais com a população indígena e, igualmente, com aqueles que ainda não conseguiram os seus lotes de terra.
As marcas do futuro incerto dos Uru-Eu-Wau-Wau estão impressas nas imagens que exibem a chegada de grande número de migrantes e na indumentária de Tari e seus irmãos, como podemos verificar nas Fig. 13 e 14 e como reitera a narração do filme:
(O Destino dos Uru-Eu-Wau-Wau, Adrian Cowell, 1999)
Figura 13: Colonos penetram na mata em busca de sua terra.
Narração: Estamos em 1981 e faz um ano que os brindes do nosso mundo têm fracassado na tentativa de atrair os índios. Ao mesmo tempo uma constante migração de grandes centros do Brasil aumentou a pressão sobre os índios isolados que raptou Fábio. Centenas de sem-terras chegam todos os dias nas cidades da fronteira para receber 50 hectares de terras doadas pelo governo. Inevitavelmente este é um plano para destruir as florestas dos índios e os próprios índios. Por isso a FUNAI tem tentado contatar os Uru- Eu-Wau-Wau.
(O Destino dos Uru-Eu-Wau-Wau, Adrian Cowell, 1999)
Figura 14: Maria abraça os irmãos Tari e Wapu
4.2. Chico Mendes: Eu Quero Viver (40 min., 1989) e Nas Cinzas da Floresta (52 min.,