Chapter 2: The Left Hand of Darkness
2.1 Projecting Genly Ai’s voice
de todas as coroas acossado
por toda matilha vexado
fustigado por decretos
martelados pelo desprezo […]37.
O eu poético expressa ressentimento ante o pouco valor dado pelo outro sobre o destino de sua sofrida gente (uma constante na poesia e na literatura romani). No tocante a essa história de dor étnica e desprezo social secular, o psicólogo francês Serge Moscovici se diz também testemunha ao afirmar: “não tenho dúvida de que meu conhecimento e minha familiaridade, desde a infância, com a vida dos ciganos me obrigaram a redescobrir as perseguições e as humilhações, tudo o que tanto gostaríamos de esquecer”38. O esquecimento
desejado, ao que Moscovici se refere, alude a sua condição de judeu e à proximidade de ambas as histórias em relação às perseguições. Contudo, considera a importância de lembrar esse passado, pois nos leva a agir de forma a evitar eternas repetições. A continuação parece- me necessário, antes de passar a recorrer à história dos “ciganos em um mundo gadyè”, fazer algumas considerações iniciais sobre os romà.
2.1 GRUPOS E DENOMINAÇÕES.
Muitos dos costumes que hoje formam a idiossincrasia romani, como o nomadismo, a manutenção da oralidade ou práticas como a endogamia foram escolhas feitas em função de respostas à intolerância. Para sobreviver, os romà tiveram que fazer adaptações ao entorno hostil, elaborar estratégias de sobrevivência, até se aproveitarem de associações errôneas (fruto do desconhecimento e dos preconceitos) feitas pelos não-romà. Tais práticas foram úteis por muito tempo e outras, rapidamente demonstraram sua ineficácia, inclusive se tornaram contraproducentes. Foi o que ocorreu com a aceitação por parte dos romà das denominações de ciganos e gypsies e suas variantes em outras línguas.
O epíteto cigano é uma designação dada pelo outro. De fato, não existe na língua romaní, nenhum equivalente ao termo “cigano”. O ato de ser nomeado e não nomear-se é uma característica da cultura e da linguagem dos romà. Então, não pareceria estranho que fossem “chamados” em lugar de “chamarem-se” em suas relações com o exogrupo. Por exemplo, em
37HEREDIA MAYA, José. “Camelamos naquerar” em Obra poética completa, p.52.
“Después vino el destierro/hégida desde siempre/por todos los caminos/Proscrito /apátrida/de todas las coronas/acosado/por toda la jauría/vejado/Fustigado/por decretos/cincelados a punta de desprecio […]”.
romani e variações dessa língua, não se pergunta “qual é o seu nome” ou “como você se chama” e sim o equivalente a “como os outros te chamam?” 39. Esse é um reflexo da forma de
pensar dos romà, que em relação ao indivíduo colocam a coletividade em primeiro lugar. Não importa como eu me chamo e sim, como sou reconhecido pelo coletivo40. Observa-se esse fato nesse pequeno diálogo poético extraído da lírica dramática de Heredia “– Como o senhor se chama?/ – Como o senhor me chame./ – Eu não te chamo... Você se chama?/ - Como me queiram chamar./ Tenho a noite e o dia/ e vontade de descansar” 41.
A forma de denominar os romà está relacionada a algumas associações: a principal deriva do termo gypsy, da qual procedem a maior parte dos epítetos dados ao povo rom, como
gitanos na Espanha ou gitan na França. Esses termos foram originados da falsa ideia de que o grupo étnico era procedente do Egito e se forma a partir das palavras francesas egyptians ou
gyptians, que faziam referência a que provinham de uma região chamada de “pequeno Egito”,
que corresponderia a algumas áreas da Grécia, Turquia e Síria, conhecidas por esse nome devido a sua grande fertilidade42. Vários estudos comprovam que os romà estiveram por longo tempo nessas zonas antes de entrarem no Ocidente. Dessa forma, é provável que a associação ao Egito seja em função dessa confusão. Por isso, ainda hoje são chamados de povo do fáraó ou faraon na Hungria e Romênia, respectivamente. Inclusive, parte dos romà, ainda crê em tal procedência, já que desconhecem que há muito se desvendou a origem indiana do povo rom. Alguns grupos e pesquisadores ainda acreditam serem originários de uma das supostas tribos perdidas de Israel.
Por que os primeiros romà compactuaram com a ideia errônea de que eram originariamente egípcios? De acordo com o linguista francês Marcel Courthiade, a partir do aparecimento de certa intolerância cultural, os primeiros romà compreenderam que era mais vantajoso serem considerados egípcios desterrados pelos mulçumanos e condenados a errar, do que serem de origem indiana. O prestígio do Egito e os relatos das perseguições sofridas pelos cristãos neste país fundamentavam a lenda de que eram egípcios, pois favorecia a obtenção de salvo-condutos e cartas de recomendação dos príncipes e do Papa43. No que
concerne a essa evidencia histórica, reporto-me uma vez mais à voz poética de Heredia, a qual narra alguns aspectos do passado romà, “[…] Vi o Papa / – de Roma venho –/ em cadeira de
39 Sar butchiós?
40 Aparece também em outros usos; por exemplo, em lugar de utilizar o que traduzido seria “eu tenho”, se usa o
equivalente a “tem para mim” (Si man) considerando uma divisão implícita do possuído entre toda a comunidade.
41 José Heredia Maya: obra poética completa, p. 604. “– ¿Cómo se llama usted? / – Que como me llame usted. /
– Yo no te llamo... ¿Te llamas? / – Como me quieran llamar. / Tengo la noche y el día/ y ganas de descansar”.
42 LIÉGEAIS, J.P. Los gitanos, pp-29-30
ouro,/ eu não o entendo. / Por mais pecados, / que tenha um marengo44,/ se no mar morre,/ não vai ao inferno. [...] / pelo caminho/ tudo entendo” 45. Os romà vão “entendendo” que se
são nômades sem paradeiro, mas têm recomendações papais como peregrinos, seu “pecado” se torna mais aceitável pelas sociedades. Esses documentos eram o equivalente aos atuais passaportes e garantiam aos romà serem recebidos. Courthiade explica que o primeiro motivo pelo qual se associaram os romà aos egípcios foi o amálgama que se efetivou entre eles, já que os egípcios chegam à Ásia menor e aos Bálcãs seguidos imediatamente dos romà, no século IV. Esse acontecimento foi o responsável pela vinculação com os povos egípcios e os romà seguiram o pensamento das sociedades da época46. O linguista complementa que naquela época, as regiões relativamente férteis eram chamadas de “pequeno Egito” e como os romà se instalavam nessas terras afastadas, à beira dos rios, ambos os elementos contribuem para consagrar ao grupo a etiqueta de egípcios. Acatar a suposta origem egípcia, a princípio vantajosa, é comparado pelo estudioso francês ao que fazem os romà que chegam de Romênia a outros países Europeus atualmente, os quais, em função do acentuado repúdio manifestado aos “ciganos romenos”, por sua condição de extrema marginalidade, preferem fazer-se passar por bósnios47. Jorge Nedich dá voz a um rom de Romênia, pressionado ante a dúvida de deixar o país de origem e lançar-se por uma “vida melhor”. Observemos um trecho do texto:
[...] A margem esmaga, não há outro lugar, o futuro: a morte invisível para nós. Não há outra salvação.
Só quero beber um chaio [chá], com minha cigana, cheia de sol e vento.
Vamos papu [papai] a Roma que estão os turistas. Não, feticha miae [minha filhinha]. Não, lá choramos a mamu [mamãe]. Fata a miae [minha filha], não te abraces a papu, corre, procura outro mundo48.
No entanto, o eu lírico recomenda à filha que siga o caminho, na verdade, passa-lhe uma mensagem dúbia, porém, termina por incentivá-la a ir. O que acontece com os romà de Romênia não é muito diferente do que fazem as mulheres romà do Brasil: quando são
44 Marengo foi uma batalha travada em 14 de julho de 1800 na Itália entre tropas francesas, comandadas por
Napoleão Bonaparte, e tropas austríacas. Também é a denominação de uma moeda.
45 Obra poética completa p. 77. “[…] He visto el Papa / – de Roma vengo –/ en silla de oro, / yo no lo entiendo. /
Por más pecados, / que haga un marengo, / si en la mar muere, / no va al infierno. [...] / por el camino/ todo lo entiendo”.
46 O historiador britânico Hugh Pulton, investigando em documentos do Vaticano, descobre que um povo de
origem egípcia chega ao Bálcãs no século XIV, entre 1306 e 1338. Eram grupos de cristãos. Também os descendentes dessa migração foram chamados de novos egípcios, o que favoreceu a analogia com os romà, que também passam a serem considerados novos egípcios. Apud COURTHIADE, M. “El origen del pueblo rom: realidad y leyenda” em I Tchatchipen, n.33, pp. 18-19.
47 COURTHIADE, M. “El origen del pueblo rom: realidad y leyenda” em I Tchatchipen, n.33, pp. 18-19. 48 “A la gitana” em Voces gitanas, p. 2. “[...] El margen aplasta, no hay otro lugar, el futuro: la muerte invisible
para nosotros. No hay otra, salvación. /Sólo quiero beber un chaio, con mi gitana, llena de sol y viento. /Vamos
papu a Roma que están los turistas. No, feticha miae. No, allá lloramos a mama. Fata a miae, no te abraces a papu, corre, busca otro mundo”.
abordadas nas ruas enquanto vendem suas mercadorias ou praticam a quiromancia, elas se dizem baianas para não dificultarem o comércio. Embora também exista preconceito contra os nordestinos e a práticas como a leitura de mãos, esse é minimizado em relação à origem romani. Essas adequações costumam ser utilizadas quando se quer reinventar tradições que possam reconstruir identidades e memórias. Os historiadores ingleses Hobsbawm e Ranger explicam que essas “adaptações” “sempre que possível, tentam estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado” 49.
Além de gypsy e seus correlatos em outras línguas, outro termo utilizado pelo outro para designar os romà é “ciganos”, forma portuguesa originada do mesmo tronco que originou
zingari na Itália, zigeuner na Alemanha, tsigane na França, czigany ou cigány na Hungría,
tinker na Inglaterra e tshingian na Grécia, Turquia e Bulgária e ainda Tigan na Romênia. Existem teorias que a origem desse epíteto se derivaria de jigani, denominação de um grupo étnico indiano50 ou de egipicianos, nome dado aos romà quando da sua chegada à Espanha,
tomando também como referência o Egito, ou ainda que seja oriundo de cianos, pois existem registros de que assim eram chamados na Itália por volta de 141751. Porém, a explicação mais aceita é de que a denominação ciganos tenha sido uma forma corrompida do termo athìnganoi
ou atsiganoi, provavelmente derivado do grego aτσίγγανος (intocável), nome de uma antiga seita herética do século XII, proveniente da Ásia Menor, à qual os romà foram associados devido à prática cultural da adivinhação, utilizada por ambos.
O primeiro registro da presença dos romà foi feito pelo franciscano Simón Simeonis em 1322 quando constatou a presença de um grupo da seita atsiganoi em Creta, durante suas viagens. Não se sabe se eram romà, que foram por ele confundidos com indivíduos de dita seita ou se eram atsiganoi, que foram associados ao grupo étnico erroneamente. É possível que os romà tenham se misturado em algum momento com esses grupos e, a partir daí, incorporado a prática da quiromancia como atividade comercial. Dessa forma, seria interessante ao grupo a vinculação aos atsiganoi, os quais dominavam essa arte em todos os seus aspectos mágicos. Sabe-se que a leitura de mãos passou a ser uma atividade pela qual os romà ficaram historicamente associados. Mas se por um lado foi uma forma de obtenção de lucros e benefícios, também foi responsável por inúmeros problemas relacionados à
49 HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições, p. 9. (friso meu).
50 BETTENCOURT, Estevão. “Os ciganos e a religião” em VILAS-BOAS, Atico. Ciganos: antologia de
ensaios, p. 119. Tribo pertencente à etnia dravidiana, que resulta da fusão dos negritos (primitivos habitantes da península hindu) com os turanianos, povo de raça amarela, proveniente dos montes Urais. Alguns estudiosos modernos acreditam que os romà possam ser realmente originários desse grupo, dada a alegada semelhança de traços físicos e língua.
51 KRANTZ, Albert, apud OLIVEIRA CHINA, José. Os ciganos do Brasil: subsídios históricos, etnográficos e
intolerância religiosa. De acordo com Angus Fraser, os originais e heréticos atsiganoi foram drasticamente reduzidos e quase aniquilados no século IX e eram sistematicamente referidos como motivos da desgraça do Império Bizantino, pois as pessoas daquele império se associavam diariamente com magos, adivinhos, atsiganoi e encantadores52. Não demorou muito, e ainda no século IV, o clero proibe que se consulte a sorte pela leitura de mãos com as mulheres romà, então chamadas também de “egípcias” 53.
Outras denominações atribuídas aos romà são boêmios ou bohémiens na França, em razão de uma onda migratória de romà que entra na Europa no século XV, mediante um salvo conduto do rei da Bohemia Segismundo I. Também heydens (pagãos) na Alemanha, associando-os aos indivíduos da Bohemia, antes que se convertessem ao catolicismo e passassem a fazer parte do Sacro Império Romano. Os romà acatam também essas denominações, porque ao serem oriundos da Bohemia, tinham garantido bom recebimento por parte das sociedades não dispostas, desde aquela época, a aceitarem a diferença dos romà. Como se percebe, essas denominações têm em comum o fato de serem atribuições dadas pelo
outro, associações a origens que não correspondem à verdadeira e terem sido acatadas e incentivadas pelos romà, devido à necessidade de aceitação e sobrevivência mediante a desconfiança que despertavam. Poutignat e Streiff-Fenart explicam que a produção e utilização dos nomes étnicos são elementos de análise particularmente importantes para elucidar os fenômenos de etnicidade, já que a existência e a realidade de um grupo étnico só podem ser atestadas pelo fato de que ele próprio se designa e é designado pelo outro, por meio de um nome específico, então, a nominação não é somente um aspecto revelador das relações interétnicas, ela é por si própria produtora da etnicidade54.
Como mencionado, não existe em romani nenhuma palavra que corresponda ao epíteto “cigano”, o qual ao longo do tempo foi sendo acrescido de significados negativos pelas sociedades tornando-se um grande fardo para o povo. Internamente, os romà sempre se autodenominaram e foram reconhecidos pelos nomes dos grupos principais e suas subdivisões em clãs e linhagens. Dividem-se em três grandes grupos que são os calé da Espanha, dos quais provêm os calons de Brasil e Portugal; os rom, grupo mais numeroso e presente em diversos países da Europa; e os sinti ou manouches, mais frequentes na Alemanha, França, Itália, Áustria e Rússia55. Esses grupos estão também presentes em maior ou menor proporção
52 Los gitanos, p. 61.
53 COURTHIADE, M. “El origen del pueblo rom: realidade y leyenda”, p.17.
54POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART,Jocelyne. Teorias da etnicidade: seguido de grupos étnicos e
suas fronteiras de Frederick Barth, p.143.
em toda América. A essa primeira divisão principal se agregam outras. Os calé, por exemplo, se dividem em famílias extensas e agregações maiores formadas em torno do “tio”, um ancião com reconhecido respeito. Os calons chamariam esse agrupamento maior de turmas, também lideradas por um líder mais velho. Já os rom, possuem uma subdivisão mais complexa, pois compreendem o que se chama de natsia (nação) ou rása (raza), por exemplo: kalderash, machuaia, lovara, curara e ludar são natsia , que por sua vez, são subdivididas em vitsi (plural de vitsa, que significa clã) ou tsérha (casa ou barraca). O nome da natsia, geralmente, está relacionado à profissão ancestral do grupo e a vitsa, ao nome de um antepassado ou outra característica específica que defina o clã56. Existe ainda, a divisão em kumpania (companhia), que também ocorre entre os sinti e manouche. A kumpania é uma divisão mais política, que não está, necessariamente, relacionada ao parentesco, pois corresponde a associações em função da exploração comercial de uma região e é dirigida por um rom baró (grande homem ou homem velho), que além de atuar em decisões internas, funciona como um elo entre os romà e os não-romà quando necessário57.
Embora mantenham essas categorias organizacionais internas praticamente inalteradas até hoje, as mudanças nos costumes ao longo da diáspora, acarretaram em diferenças grupais bastante significativas e distintas. As principais distinções se originaram depois da chegada a Europa, derivadas do impacto da língua e cultura das áreas em que cada grupo circunscreveu seu nomadismo durante séculos e também, da divisão entre os romà que se mantiveram nômades e os que se sedentarizaram. Nas relações entre grupos essa diferença é perceptível. Não é raro que os conflitos internos também se apresentem, tendo em vista que alguns grupos acreditam que seus costumes e tradição estão mais conservados, ou são mais “puros” que as dos outros. Os que se conservam nômades questionam a “pureza” dos costumes dos sedentários, alguns destes, por sua vez, culpam os que se mantêm totalmente nômades pela má impressão que causam nos não-romà sobre o conceito de toda a etnia. Por exemplo, os vários romà que aderiram ao atual movimento pentecostal cigano fizeram adaptações radicais na tradição e questionam a permanência de alguns costumes dos que eles chamam de “ciganos seculares”, estes, por sua vez, pensam que os romà evangélicos não são mais “ciganos de verdade”.
Entre essas e outras divergências emerge, uma vez mais, a questão da denominação. A necessidade de representar-se política e socialmente, de emancipar-se, de reclamar
56 As terminologias natsia e vitsa são empréstimos do romeno. Os rom são o grupo mais abundante na Romênia
e no leste europeu.
reconhecimento e voz, bem como o surgimento de uma nova consciência no seio da etnia, fez com que surgisse, a partir de meados da década de sessenta do século XX, um movimento global organizado e ativista, o qual propôs uma redefinição da identidade romani e unificação do povo, que viabilizasse maior força social e representatividade. Dessa forma, em 1971 é realizado o Primeiro Congresso Mundial em Londres, liderado pela União Romani Internacional (URI) e contando com a participação de representantes dos distintos grupos. Ocasião na qual se definem estratégias de reconstrução e unificação, como a luta pelo reconhecimento de ser um povo diaspórico, possuidor de uma raiz comum indiana e de se constituir numa nação transnacional. Definem-se símbolos unificadores como um hino e uma bandeira, propõem-se uma estandardização do romani falado pelos distintos grupos, além de decidir pela expansão do termo romà para denominar o coletivo. O vocábulo romà, além de ser proveniente da denominação de um dos grupos – rom como já dito – significa originalmente “homens” em romaní.
O direito da autonomeação em suas relações com o exogrupo é exercido pela primeira vez. Contudo, o emprego do termo romà para designar os indivíduos da etnia continua sem ser incorporado nas relações interétnicas. Tampouco é utilizado pela mídia ou pela literatura. É perceptível a dificuldade e até a resistência, de incorporação da nova denominação por parte dos não-romà. Nota-se que, mesmo em trabalhos acadêmicos que versam sobre os novos movimentos associativos ou sobre a nação transnacional romani, enfim sobre as mudanças políticas e sociais dentro do coletivo, o termo “cigano” continua a ser empregado apesar do paradoxo que significa tratar desses temas e continuar nomeando os protagonistas de “ciganos” 58. Sobre esse aspecto, a URI se posiciona dizendo que quando os romà são
mencionados como se fossem povos diferentes, unidos somente pelos problemas, com uso de termos como ciganos, gitanos, gypsy ou seus correlatos, dificulta-se a luta pela qual hoje se empenha, isto é, o reconhecimento como um só povo, portador de uma história comum em suas origens e, no fundamental, uma cultura compartilhada. A partir da URI, pede-se que se use o epíteto romà59.
Mudar a denominação é parte de consenso protagonizado pelas novas associações e por intelectuais romà. Não obstante, gera polêmica dentro da própria comunidade. O poeta rom polonês, Gregory Dufunia Kwiek, expressa essas posturas desencontradas em um poema
58 Cf: GUIMARÃIS, Marcos T. S. O associativismo transnacional cigano: Identidades, diásporas e territórios.
Tese, Universidade de São Paulo, 2012. Apesar de ser um extenso e valioso trabalho sobre os romà, e de mencionar que não ignora o uso do termo romà como o escolhido pelos movimentos ativistas, o autor utiliza