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Chapter 3: Stars in My Pocket Like Grains of Sand

3.2 Perfect Erotic Object

Dentro do segmento de representações que se desprendem da imagem mental central de nômades, uma figura costuma condensar os estereótipos e torna-se a principal representante do fenômeno: a mulher romani, ou seja, a romi. Tanto “para o bem como para o mal” é a mulher a mais representativa da etnia. Ainda que em boa parte das culturas a mulher seja a responsável pela manutenção das tradições, a mulher romani é a verdadeira estandarte do povo, a que carrega as insígnias do grupo no próprio corpo: as vestimentas tradicionais, os adornos simbólicos, a virgindade necessariamente exigida até o casamento, os seculares tabus de pureza/impureza expressos a partir de seu corpo (na menstruação, na menopausa, nas próprias partes do corpo). Também nos ofícios “curiosos” do ponto de vista do outro, como os da leitura de mãos, das cartas oraculares e de curandeira. É ela ainda, a responsável pela transmissão e manutenção da tradição, pelo cuidado dos filhos, além de ser quem garante o sustento diário da família (geralmente os homens ficam responsáveis pelas grandes aquisições) em atividades nas quais estão expostas e em contato com o outro. Dessa forma, é ela quem está mais visível. Já o homem, levando-se em consideração a vestimenta exigida ou os ofícios, por exemplo, facilmente pode passar despercebido entre os não-romà e sendo assim, é a mulher a mais estereotipada nas representações.

Geralmente, as representações literárias da “cigana” são formadas por um acúmulo de estereótipos. Dificilmente é só a “cigana” ladra, para citar somente um exemplo, mas a cigana ladra, luxuriosa, bruxa e mentirosa. Para Scholz, existe forte anticiganismo de gênero que determina essas representações, sendo de “a bruxa velha, por um lado e Carmen, por outro. [...] dominam a produção de estereótipos do anticiganismo no feminino, por contraposição à imagem da dona de casa, mãe domesticada e casta da Modernidade, que faz par com o

227 Enterrem-me em pé: a longa viagem dos ciganos, p.25. 228 Los gitanos, p. 20.

trabalhador disciplinado” 229. De acordo com a estudiosa, algumas características culturais dos

romà desestabilizaram historicamente os lugares que correspondiam socialmente aos gêneros, desde o simples hábito das mulheres de fumarem cachimbo, até o fato de estarem constantemente nas ruas à busca do sustento diário, que nas representações estereotipadas geralmente são pequenos roubos230. Também a figura do rom é representada de maneira significativamente deformada: ligeiramente afeminado ou exacerbadamente “macho”, somado aos outros estereótipos citados. Porém, de todas as formas, é a mulher que termina por representar os “ciganos” em sua totalidade, no que diz respeito a estereótipos. George Borrow em seu romance de viagem Los Zincali (1841) – no qual mescla ficção com o que pretende ser uma observação “fiel” dos calé da Espanha – narra, entre seus variados “casos vivenciados”, o de um homem que de muito jovem se encontrou com uma “banda de ciganos” que o fizeram refém, porém, gostaram de suas habilidades como músico e lhe ofereceram tornar-se “cigano” e ter uma bela esposa. Sobre a esposa que a personagem aceitou, comenta que “minha mulher era cigana consumada e todas as maldades de sua raça pareciam concentradas nela”231. É sob

essa visão concentrada em estereótipos, que a mulher romani será representada na literatura ao longo dos séculos.

Um estereótipo corrente é o da “cigana” devassa, perigosa e excessivamente sedutora, o que aparece fortemente marcado em Carmen (1845). O autor francês juntou a exoticidade com que enxergava tanto os romà como a Espanha e criou a imagem da “cigana” munida de castanholas e traje flamenco. Consta em bibliografias sobre Merimée que uma de suas fontes de inspiração para escrever sua obra foi Los Zincali de Borrow. De fato, ao analisar ambos os textos, nota-se a reprodução de estereótipos sobre os calé espanhóis apresentados em Los

Zincali, encarnados na personagem. Inclusive, o escritor inglês é citado em Carmen, como “o Sr Borrow, [...] autor de duas obras muito interessantes sobre os ciganos da Espanha [...]” 232.

Além do uso considerável de palavras em romani, retiradas da obra de Borrow.

Carmen representa o exótico erotizado, a partir do qual a mulher romà passa a simbolizar o desejo selvagem. As fantasias relacionadas a grupos estranhos permitem que as pessoas projetem nos outros, aquelas facetas de si mesmas, que elas e suas respectivas sociedades consideram inaceitáveis233. Costumes fundamentados em outros paradigmas culturais eram vistos com maus olhos ou considerados excessivos, por exemplo, o colorido

229 SCHOLZ, Roswitha. Homo Sacer e os ciganos..., p.26. 230 Ibid., pp.26-27.

231 P.36. “mi mujer era gitana consumada y todas las maldades de su raza parecían concentradas en ella”. 232 MÉRIMÉE, Prosper. Carmen, p.59.

233 JOFFE, Hélène. “‘Eu não’, ‘meu grupo não’” em GUARESCHI e JOVCHELOVITCH (org.). Textos em

das vestimentas das mulheres, a forma com que amamentavam seus filhos publicamente, o hábito de bailar ao redor das fogueiras enquanto fumavam. Esses aspectos, em uma época em que a sociedade não permitia certas posturas femininas, como mencionado, geraram a ideia de uma mulher liberada e permissiva. Assim, a “cigana” passa a ser ancorada no estereótipo da mulher fácil e rameira.

Passado mais de um século, uma versão do romance Carmen foi adaptada para a literatura infantil por Ruth Rocha, em 1994234. Chama atenção que a autora conserve os mesmos estereótipos da época, 1845. Uma passagem da adaptação de Rocha diz que “Carmen joga para Don José uma acácia, a flor das ciganas feiticeiras [...] a flor que Carmen atirou para ele o enfeitiçou e prendeu” 235. Em outro trecho Carmen briga, fere com faca uma

companheira e ao ser interrogada sobre o crime, age friamente e debocha dos soldados. Ela é presa, seduz vários homens e tem um comportamento licencioso. Na literatura infantil atual, ainda aparece o estereótipo de “ciganas” que se comportam à maneira de Carmen: sem escrúpulos, vingativas, interesseiras, mentirosas, ainda que nem sempre possuam a beleza sedutora da precursora. Em Flavia de Luce e o enigma da cigana (2012), do escritor canadense Alan Bradley – traduzido a vários idiomas e adaptado para série televisiva – a pequena protagonista-detetive conhece uma “cigana”, que já nos primeiros contatos a elogia ante uma mentira contada pela menina para ajudá-la a fugir, dizendo “Você mente como uma de nós. Você mente como uma cigana”236 e mais tarde, oferece-lhe qualquer tipo de

retribuição confessando, a partir de um comportamento interesseiro e astuto, que “vingança é a minha especialidade”237. A repetida atualização dos estereótipos históricos não permite a

resignificação dos contatos interétnicos, que poderia surgir entre as novas gerações mais conscientes da necessidade de reconhecimento às diferenças culturais.

Ainda é parte da “herança” de Carmen, o estereótipo amplamente difundido da “cigana

femme fatale”, as representações que apresentam a mulher romani como a responsável pela ruína física, moral e social de muitos homens não-romà. Por ela, o protagonista Don José deixa o exército, perde tudo o que possui, torna-se bandido, homicida, converte-se em um homem atormentado pelo remorso e ao final, entrega-se a justiça e é condenado à morte. Tudo sem nunca ter realmente sido “dono” do coração de Carmen. Nada que ela, com seus dotes de feiticeira e adivinha, já não tivesse previsto e advertido a Don José:

234 Adaptado a partir do livreto escrito por Meilhac e Halévy para a ópera de Bizet. 235 Carmen, p.3.

236 P.30

Perguntei-lhe quando tornaria a vê-la.

– Quando você for menos tolo – respondeu ela rindo. Depois, num tom mais sério: – Sabe meu filho, que eu julgo que o amo um pouco? Mas isso não pode durar. Cão e lobo não se dão bem por muito tempo. Se você adotasse a lei do Egito, eu gostaria de ser a sua romi. Mas são tolices; não pode ser. E acredite meu rapaz, você ainda foi muito feliz em ficar quite assim tão facilmente. Você encontrou o diabo; ele não é sempre negro, e não lhe torceu o pescoço. Estou vestida de lã, mas não sou carneiro. Vá acender uma vela a sua majari (santa), ela bem que mereceu. Adeus, outra vez. Não pense mais na Carmencita, ou ela o fará desposar uma viúva de perna de pau (a forca).

[...] Bem faria eu em não pensar mais nela; mas desde aquele dia [...] eu não podia pensar em outra coisa 238.

Apesar de seu mau caráter, observado por Don José desde o principio, Carmen encanta com sua liberdade animalesca “segundo o costume das fêmeas e das gatas” 239, sua alegria e

“suas gargalhadas de crocodilo”, suas bebidas enfeitiçadas e sua recorrente dança “demoníaca”. A dança de Carmen é enlouquecedora, um dos principais elementos de sua sedução são as “danças que se assemelham àquelas que proíbem em nossos bailes públicos do Carnaval”240. A dança das “ciganas”, como elemento diabólico para enfeitiçar os homens foi

referenciada reiteradamente na literatura. Antes de Carmen, em Nossa Senhora de Paris (1831), de Victor Hugo, Esmeralda também bailava ante olhos masculinos encantados, da mesma forma que sucedia com a Preciosa de La gitanilla de Cervantes. Vale lembrar que Esmeralda sempre dançava acompanhada de sua cabra, que na Idade Média estava atrelada simbolicamente a feitiçarias. Então, não é de se admirar que tenha sido escolhida para acompanhar constantemente a personagem. “É a cigana da cabra; dizem que é feiticeira e que sua cabra faz artes bem milagrosas” 241. O próprio nome Esmeralda é associado ao mal pelos

personagens que a observam nas ruas: “terrível nome para uma rapariga! [...] bem se vê [...] que é uma feiticeira. [...] teus pais não pescaram decerto esse nome na pia batismal”242. O

epíteto “cigana” virou sinônimo de sedução, de feitiço jogado em homens desprevenidos, de libertinagem e astucia, utilizado para referir-se também a personagens femininas não-romà, que possuíssem ou se utilizassem de alguns desses atributos supostamente próprios das romi. Lembremos, por exemplo, Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, na célebre frase em relação aos olhos de Capitu, reveladores de seu caráter, em que o narrador afirma “são olhos que o diabo lhe deu [...] de cigana oblíqua e dissimulada” 243. Em O cortiço (1890), de Aluísio

de Azevedo, o vocábulo foi empregado como sinônimo de rameira pela personagem

238 MÉRIMÉE, Prosper. Carmen e outras novelas, p.37. 239 Ibid., pp.195 e 197

240 Ibid., p.59.

241 Obras completas de Victor Hugo,p.31.

242 Ibid., p.33. Esmeralda já era um nome usado pelos romà. 243 P.20.

portuguesa Piedade, para referir-se à mulata Rita que lhe roubou o marido: “com minha vida é que te meteste tu, cigana! exclamou a portuguesa [...]” 244. O uso do termo para caracterizar

mulheres “fáceis” e sedutoras percorreu séculos e mostra-se intacto ainda. Na contemporânea

Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, por exemplo, a personagem Ana, irmã do narrador, é comparada a uma “cigana” pela sedução de sua dança, que parece inspirada em Carmen:

[...] os cabelos soltos [...] ostentando um deboche exuberante [...] pulseiras nos braços, anéis nos dedos, [...] varando com a peste no corpo o círculo que dançava [...] seus passos precisos de cigana [...] toda ela cheia de uma selvagem elegância [...] 245.

Em Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, a “cigana” pela qual se apaixona o pai do protagonista, também possui os “dotes” da Carmen de Mérimée e era o motivo das contrariedades e dores de Leonardo pai:

[...] tratava-se de uma cigana [...] não lhe fora difícil conquistar a posse do adorado objeto; porem a fidelidade [...] isso não o pudera conseguir [...] a rapa- riga tinha-lhe já feito umas poucas, e acabava também por fugir-lhe de casa”246.

Mais adiante, “a cigana” resurge de amores com o padre, atormentando de novo o coração de Leonardo “Você está já em vida no inferno!... pois logo um padre?! A cigana interrompeu: – Havia muitos meirinhos para escolher, mas nenhum me agradou [...] eu como estou, estou muito bem [diz a “cigana”]” 247. Envolver-se com um padre e sem nenhum

indício de arrependimento, nem de amor que justificasse tal “heresia”, aproxima a personagem de certa aura diabólica.

Também a “cigana” Sulima, de O caboclo e a cigana (1968), de Assis Brasil, segue os passos da figura de Carmen. Possui seus atributos de feiticeira, sedutora, infiel ao seu marido rom e responsável pelas desgraças da vida do protagonista Inação, culminando com sua morte pelas mãos dos ciganos. Antes da tragédia final, Inação é avisado por seu melhor amigo: “cigana só pega homem por interesse. Depois de usar o cabra se some que ninguém acha”248.

Após a morte de Inação, os comentários do povo da vila compõem o imaginário negativo sobre os romà e, especialmente, da “cigana” “interesseira, ladrona de cavalos”249,

que possui “o diabo no corpo”250. A história termina com a mulher do defunto gritando

244 P.200.

245 P.189 (grifo meu).

246 ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias, p.28.

247 Ibid., pp. 66-67. Meirinho era uma expressão usada antigamente para referir-se aos oficiais de justiças. Do

latim majorinus, é um diminutivo de major.

248 BRASIL, Francisco de Assis A. O caboclo e a cigana, p.75. 249 Ibid., p.91.

perante o caixão, que por ela foi incendiado, para queimar as bruxarias da “cigana”: “– ele estava enfeitiçado, gente, estava enfeitiçado [...]”251. Geralmente, esses amores devastadores

pelas “ciganas” terminam de forma trágica ou “se esvaem no vento”. As “ciganas” continuam “livres”, sem prender-se jamais a um não-romà. Fogem de volta com seu povo errante, desaparecendo do dia para a noite, sem deixarem rastros, somente um lugar vazio onde antes existia um acampamento. Ou, como Carmem, continuam livres de laços sentimentais e regras, ainda que seja optando pela morte prevista, como fica claro nas palavras de Carmen a Don José: “Tu queres me matar, já percebi – diz Carmen – está escrito, mas tu não me farás ceder... Carmen sempre será livre” 252.

O historiador alemão Wolfgang Wippermann, analisando essas representações sobre “ciganas” que enfeitiçam os homens não-romà, comenta sobre os seus finais usuais na ficção: “a ‘punhalada no coração’, uma vez cravada, não mais volta a sarar. O homem que sofreu afasta-se para todo o sempre da vida decente [...] transforma-se num associal” 253. A não ser

que morra ao final, em consequência de seus maus atos, sendo que, o primeiro passo em falso, costuma ser o de ter se apaixonado por uma “cigana”.

A “cigana” indomável é uma figura quase sempre incorrigível, Don José, por exemplo, até que tentou “quando pela primeira vez ela se mostrou com o recato de uma mulher honesta” 254. Dada a obrigatoriedade do recato ao estar sob as rígidas leis de sociedades

regidas por homens, qualquer mulher que quisesse ser livre na época em que foi escrita

Carmen, passaria a ter fama de mulher de má conduta. A questão da insistência na infidelidade compulsiva das “ciganas” na literatura é um estereótipo intrigante, já que vários “ciganólogos” do passado deixaram registrado o “curioso” e inesperado (para eles) costume da fidelidade feminina entre os romà. Até mesmo Borrow, que veio a influenciar vários escritores românticos do século XIX, com toda sua profusão de estereótipos negativos, alardeava a fidelidade (não sem ressalvas) em vários trechos de Los Zincali, como o citado abaixo:

não há no mundo fêmeas mais atrevidas em suas palavras e gestos, em seus bailes e em seus cânticos, que as ciganas, porem desse ponto não passam […] se seus presunçosos visitantes atreviam-se a querer mais […] uma faca fulgurante rejeitava

251 BRASIL, Francisco de Assis A. O caboclo e a cigana, p. 104. Em 2009 a Associação de Preservação da

Cultura Cigana inicia, sem sucesso, uma ação judicial pedindo a retirada de O caboclo e a cigana das bibliotecas escolares do Paraná, pelo seu alto teor de preconceitos e estereótipos negativos. A obra foi distribuída em Escolas Públicas, sendo recomendada para os alunos do Ensino Médio. Há muito tempo que Memórias de um

sargento de milícias é também leitura recomendada, a âmbito nacional, para o Ensino Médio.

252 MÉRIMÉE, Prosper. Carmen, p.239.

253 “Doch allermeist die Weiber” apud SCHOLZ, Roswitha. Homo Sacer e os ciganos..., p.25. 254 MÉRIMÉE, op. cit. p.222

rapidamente aos que esperavam que a joia mais apreciada […] estivesse ao alcance de um busnó [não- romà]255

Contudo, a fidelidade das romi parece não ter sido suficientemente atrativa para que também fosse difundida na literatura. Ainda em relação ao gênero, é interessante observar que, enquanto temos muitos exemplos literários de homens não-romà que possuem, ao menos sexualmente, as “ciganas”, não é muito comum que se dê o contrario, ou seja, que os “ciganos”, efetivamente, seduzam uma mulher não-romani. No já citado, A virgem e o

cigano, por exemplo, os personagens que se relacionam com a protagonista Yvette acreditam que o “cigano” não tem o direito de ao menos olhar para ela, pois é impossível que “um cigano que leva atreladas a si meia dúzia de mulheres porcas” 256 pudesse ao menos sonhar na

possibilidade de que Yvette chegasse a viver em uma “suja caravana ambulante”257.

Apesar de que Yvette se mostra apaixonada pelo cigano e embora tenham tido oportunidades, nenhum contato físico intimo é estabelecido entre eles. A impossibilidade também fica clara na observação com a qual o narrador encerra o romance. Nas últimas linhas, Yvette lê o bilhete deixado pelo cigano Joe “e só então é que ela reparou que o cigano tinha um nome” 258.

Ao representar uma união carnal entre uma romí e um não-rom, também se está violando um dos códigos patriarcais existentes na cultura romani: a preservação do ventre rom para garantir a sobrevivência étnica. A preferência ou obrigatoriedade pela endogamia, os casamentos precoces e a exigência da fidelidade feminina são costumes característicos aos romà, que estão relacionados a esse impositivo cultural. Existe, ao menos para olhos romà, grande simbolismo negativo atrás dessas representações, uma espécie de violação e subjugação cultural. Por outro lado, a impossibilidade de que homens romà se unam carnalmente a mulheres não-romà leva atrelado, de certa forma, o simbolismo do acesso negado à etnia aos espaços sociais do outro. Em uma cultura patriarcal de significativos contornos machistas, como é a romani, só ao homem é “aceitável” a infidelidade ou a união sexual não vinculada a uma união matrimonial, desde que seja com mulheres não-romà. A despeito das discussões sobre as questões de gênero que esse fato suscita e que aqui não cabe discorrer, porém levando em consideração os dispositivos culturais internos de ambas as

255 Pp.42-43. “no hay en el mundo hembras más licenciosas en sus palabras y gestos, en sus bailes y en sus

cánticos, que las gitanas, pero de ahí no pasan […] si sus encopetados visitantes se atrevían a buscar más […] con un cuchillo fulgurante rechazaban prontamente a los que esperaban que la joya más preciada […] estuviese el alcance de un busnó “.

256 LAWRENCE, D.H. A virgem e o cigano, p. 112. 257 Ibid. p.113.

culturas em relação ao controle do corpo feminino. As representações literárias sobre a leviandade e libertinagem das “ciganas” por um lado e a inacessibilidade das mulheres não- romà aos “ciganos”, por outro, também deixa antever, em seus meandros e interstícios, mecanismos de controle social e simbolismos de subalternização das minorias, inconscientemente internalizados no imaginário das sociedades.

É possível cogitar-se que o estereótipo de Carmen é um mito literário, uma variante do arquétipo da mulher fatal. Sim, que tenha se convertido em um mito, pela agregação de simbolismos associados que se organizaram em uma narrativa recorrente sobre um tipo de personagem feminino, que pode ser uma romí ou não, não resta dúvida. À já existente concepção da mulher como principio do mal da tradição judeu-cristã, foi impregnada ao mito de Carmen. Também se adicionaram vários outros epítetos como a mulher noturna, a mulher lunar, a “obscura claridade”, a liberada, talvez por isso, Carmen foi algumas vezes utilizada como ícone em movimentos feministas. É sabido que, por exemplo, na Idade Média, só o fato de ser uma mulher livre, já era o suficiente para que fosse designada também bruxa. Todos esses aspectos estão relacionados ao arquétipo femme fatale e foram pontos de ancoragem para a construção da imagem da “cigana”, contando ainda, com significados como os atributos de ladra, contrabandista e mentirosa.

Entretanto, o que ressalto com o estudo é a força do estereótipo em diversas obras, esse fardo que as mulheres pertencentes ao povo rom carregam nos contatos interétnicos. Saliento ainda, que o estereótipo da libertina, feiticeira, como aludido, é parte do aspecto selvagem, do ocioso vinculado ao nômade, que insiste em manter sua diferença, como afirma a personagem Carmen: “eu não quero ser atormentada, muito menos comandada. O que quero é ser livre e fazer o que me agrada”259 e Carmen representa a afirmação dessa alteridade

desconhecida e bárbara, que se nega a ceder aos moldes estabelecidos e, portanto, é temida260.