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Chapter 2: The Left Hand of Darkness

2.2 Frigid bisexuality

A identidade romani também é resultado da influência dos processos migratórios e das dinâmicas de marginalização no transcurso dos séculos sobre uma raiz identitária de significativos traços orientais. Ainda que alguns teóricos insistam em alimentar controvérsias sobre a origem específica indiana do romà, não resta dúvida sobre a influência oriental na sua cultura. A historiadora francesa e estudiosa da cultura romà, Claire Auzias, vai mais longe e afirma que é um povo da civilização indiana, uma etnia indiana e desta forma, não são assimiláveis pelos modelos ocidentais72. Ser uma parte do Oriente imersa no Ocidente foi outro fator que fez com que as diferenças culturais fossem realçadas, gerando estranhamento e inquietação em relação à diferença romani desde a entrada na Europa.

A língua sempre esteve estreitamente relacionada com a origem e foi a partir das pesquisas linguisticas sobre o romaní (também chamado romanês ou romanó), que se chegou à origem indiana do povo rom no final do século XVIII. De acordo com Marcel Courthiade, aproximadamente em 1770, o pastor transilvano Vályi István redescobriu a origem indiana dos romà quando comparou a fala dos “egipcianos” de Ráb, onde predicava, com a língua falada por três estudantes indianos que conheceu em Holanda, que possivelmente falavam sânscrito. Depois desse descobrimento, a origem verdadeira dos romà ficou por muito tempo oculta, apenas conhecida por alguns sábios. O linguista afirma que, no entanto, a origem indiana já tinha sido citada em documentos datados de muito antes, encontrados no Vaticano pelo historiador britânico Hugh Pulton. Segundo o estudioso, existem evidências nesses

69AUZIAS, Claire. Os ciganos ou o destino selvagem dos roms do leste, p. 22. 70 Ibid., p.29.

71O associativismo transnacional cigano: identidades, diásporas e territórios, p.83. 72 AUZIAS, Claire, op.cit.,p.68.

documentos que os primeiros romà que chegaram à Europa recordavam bem a sua origem indiana73. Angus Fraser relata que as décadas de 1860 e 1870 foram prolíficas em relação às pesquisas sobre o romaní, principalmente na Alemanha. O historiador destaca os estudos do filósofo e estudioso das línguas Franz Miklosich, o qual foi o primeiro a tentar reconstruir a rota diaspórica dos romà a partir de sua língua. Esse filósofo dizia ter material abundante de todos os países nos quais viviam os romà e ser capaz de traçar suas migrações sempre em direção ao oeste. Sabe-se hoje que os romà, depois que saíram da Índia, caminharam rumo ao Ocidente, devido à impossibilidade dos nômades de atravessarem a serra do Himalaia, caso fossem em direção contrária.

O principal estudo, no entanto, foi Die Zigeuner (Os ciganos) 1783, do historiador e estudioso das línguas Heinrich Grellmann, considerado o “pai” dos estudos “ciganos”. Seu trabalho foi traduzido em diversas línguas e despertou interesse de vários linguistas sobre o estudo do romaní. Na verdade, o interesse dos pesquisadores não era exatamente a respeito de os romà e suas origens, mas descobrir o caminho e as modificações percorridas por um idioma que, pelo que indicavam os estudos de Grellmann e Miklosich, era uma língua indo- ária relacionada ao sânscrito diretamente. Foi desse modo que os romà se beneficiaram de terem a identidade reestabelecida pela origem indiana confirmada cientificamente. Mesmo que os governos das sociedades não tivessem interesse na comprovação de que os romà se constituíam realmente em um povo74.

O mistério em relação à língua falada sempre foi um dos motivos alegados historicamente para comprovar a heresia de seus costumes e alimentar lendas sobre suas origens. Por exemplo, na Espanha, em 1619, Sancho de Moncada, catedrático de teologia da Universidade de Toledo, faz uma petição a Felipe III, na qual solicitava a expulsão dos romà do país. Ele dizia que eram pecadores e entre seus pecados constava a habilidade para conversar em um idioma secreto, chamado de jeringonza. Alegava ainda, que eram descendentes de Caim – crença ainda viva nos dias atuais – e que nas escrituras Caim dizia: “ serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará75.” Após esses

primeiros estudos sobre o romani , outros mais detalhados vêm a complementar e confirmar as hipóteses primeiras da origem indiana. Fraser cita como os mais significaticos: Études sur

les Tchinghianés de Alexandre Paspati (1870), que inicia com o seguinte aforismo “a

verdadeira história da raça cigana é o estudo de sua língua”; The Dialect of the Gypsies of

73“El origen del pueblo rom: realidad y leyenda” em Revista I Tchatchipen, número 33, p.10. 74 FRASER, Angus. Los gitanos, pp198-202.

Wales de Sampson (1926); La lengua del gitano sueco, trabajador del cobre, Johan Dimitri

Taikon (1963)76. O que se sabe hoje sobre a origem dos romà são frutos desses estudos. Os romà abandonaram o território indiano aproximadamente no século X, devido às invasões mulçumanas no norte da India (Punjab) e Pakistão (Sindh). O processo migratório se produziu em vários momentos ao longo de dois séculos, sendo que às primeiras migrações somaram-se outras, devido à invasão dos exércitos mongóis no século XIII. Diversos estudos apontam que essas caravanas de nômades se assentaram primeiro na Pérsia, atual Irã, onde se misturaram e formaram um grupo maior e mais homogêneo, que seriam chamados de dom ou rom. É provável que esse tenha sido o momento no qual cunharam uma identidade coletiva, justamente por se diferenciarem dos povos que ali encontraram. Os grupos viviam de múltiplos ofícios, desde soldados e agricultores até artesões e artistas. Ainda hoje, existe no Irã um grupo que possui afinidade com os romà, os luri, porém, os grupos restantes teriam seguido a diáspora, induzidos pela fome e fugindo das inúmeras invasões. Por volta de 1035, esses cruzariam a Armênia em direção à Capadócia, pelas margens do mar Cáspio. O longo processo migratório dos romà explicaria as diferenças que existem entre os vários subgrupos atualmente. Nessa região, de antiga influência helênica, foi onde se estabeleceram por quase dois séculos. A permanência em Capadócia77 foi tão longa que, quando eles chegam à Europa, como assinalado, são identificados de “egipcianos” 78. O senso comum inclusive deu a essa

suposta origem um amparo bíblico: “dispersarei os egípcios entre as demais nações79”.

O tempo que permaneceram na Pérsia foi extenso, comprovado pelos elementos persas presentes nos dialetos dos romà europeus. Não somente em relação à origem, mas o percurso diaspórico foi também traçado pela linguística histórica. O momento em que deixam a Pérsia está, geralmente, relacionado ao período anterior às invasões árabes, devido à ausência de palavras árabes no romaní. Assim sendo, os romà devem ter abandonado o país antes da metade do século VII. A maior parte dos estudos históricos que consideram a origem indiana concorda que os romà, ao saírem da Índia, dividem-se em duas ramificações: uns continuam seu caminho para o oeste e o sudeste, outros vão para o noroeste. Estes últimos passaram por Armênia, de onde adotaram muitas palavras que foram incorporadas à sua língua, de tal modo que a permanência também deve ter sido considerável. As várias invasões turcas sofridas pela Armênia no século XI expulsaram os armênios e supõe-se que conduziram muitos romà ao

76 FRASER, Angus, op. Cit., p. 27.

77 Conhecida também naquela época como Egito menor ou pequeno Egito.

78 COURTHIADE, Marcel; REYNIERS, Alain ( eds) “Langue et culture: approche linguistique”, pp 22-30. 79 Ez 30, 23-26.

território ocidental bizantino, de onde se dispersaram pelos Bálcãs a toda Europa80. Sendo que por volta de 1420, já haviam chegado à Península Ibérica.

Apesar do empenho dos linguistas em percorrer o caminho do romaní desde a saída da Índia até o Ocidente, de forma a estabelecer também o grupo indiano exato de onde procedem, alguns problemas impediram tal descoberta, que continua sendo uma incógnita, cercada de hipóteses. Outro problema é que os estudos do romaní, embora facilitassem, não são efetivos em relação a contribuir para padronização da língua, como desejam os ativistas romà. E os obstáculos são: primeiro, o romaní foi por muito tempo uma língua totalmente ágrafa e foi transcrita pelos linguistas a partir de convenções fonéticas de suas línguas maternas, fazendo com que houvesse muita variação entre a ortografia e a pronúncia; o segundo fator é que ao longo da diáspora, o romani foi se alterando em função da necessidade do povo de falar o idioma dos países aos quais chegavam. Esse fato provocou uma variabilidade que, além de dificultar o trabalho dos linguistas, acarretou em uma maior vulnerabilidade da língua. Talvez o romani não tenha se dissolvido totalmente, ante tanta influência, devido ao imperativo cultural que foi sendo construido durante os séculos, já que possuir um idioma garantia alguma proteção aos grupos frente a uma realidade histórica de constante perseguição, motivo que dificultou a aculturação.

A imensa variedade de grafia e pronúncia ocorre, inclusive, na escrita em romaní dos atuais escritores romà. Vale esclarecer que o romaní só começa a ser escrito por volta de 1915, por incentivo do governo russo, interessado em mapear as tradições e línguas das minorias nacionais e alfabetizar os romà soviéticos. Momento em que nascem as primeiras expressões artísticas escritas do povo rom. Algumas propostas de estandarização estão em andamento, como é o caso do romanò-kalo (lê-se kaló), que pretende ser o idioma normativo dos romà dos países nos quais se fala o caló e suas variações, ou seja, Espanha, Portugal, sul da França e Brasil (calão ou chib). O caló possui palavras em romaní, porém com uma estrutura gramatical do país de assentamento. Em alguns casos, como no Brasil, também se misturam palavras portuguesas à fala. Na Espanha também se utilizam expressões verbais e gramaticais próprias do romaní de forma intuitiva. Fraser comenta que o romaní é especialmente dinâmico. Todo falante do idioma, passada a primeira infância, é bilíngue e em quase todos os países da Europa, os romà fizeram empréstimos das culturas circundantes. O historiador argumenta que sem padronização escrita, poucos fatores podem manter o romaní sob controle, pois até mesmo as canções e contos, que carregam bastante vocabulário, são

passadas de geração em geração de forma oral. Constitui-se um material vivo que se altera constantemente e que é atualizado de forma criativa.

Algumas variantes do romaní, como o caló, não podem mais ser consideradas línguas, porque estão reduzidas a um vocabulário relativamente pequeno. Fraser afirma que o romaní tornou-se uma rede de mais de sessenta dialetos divididos em mais de vinte subgrupos. O historiador se contradiz em relação a que algumas variantes não podem mais ser consideradas línguas, quando afirma que é possível que o romaní já tenha alcançado um estado no qual deveria ser considerado um grupo de línguas relacionadas em lugar de único idioma com numerosos dialetos81. Mesmo sendo um historiador consciente dos entraves à luta dos romà de serem reconhecidos como um povo e não ter negada sua identidade, Fraser incorre em colocações duvidosas, como quando diz que “se um povo é um agrupamento de indivíduos que compartilham uma língua, uma cultura e um tipo racial que pode ser distinguido facilmente entre seus vizinhos, os romà já não seriam isso há muito tempo82”. Muitos são os

argumentos que, movidos por mecanismos conscientes ou inconscientes das sociedades majoritárias, tentam deslegitimar, de alguma forma, os avanços conseguidos pelos romà em relação a tomar as rédeas de sua história. Argumentos como que muitos romà já nem sabem sua língua ou nunca a conheceram, que aprendem sobre suas origens e história pelo ativismo e dos estudiosos não-romà. O escritor inglês Jimmy Story83, ele mesmo um rom que só depois de adulto pode readquirir o idioma perdido pelo seu grupo, oferece uma espécie de “resposta” a essas colocações preconceituosas no seu poema “New Rom” (Novo rom), no qual começa colocando uma série de perguntas:

quem somos nós, romà sem romanes84

que devemos ler nossa própria história em outra língua, seguir a borboleta

da nossa própria existência através de mapas da imaginação tentando recriar

a estrutura perdida da nossa alma?[...] E se nós aprendermos romanes dos livros e não

dos seios de nossas mães isso é somente porque

81 Los gitanos, pp 300-303.

82 Ibid., p.15. “Si un pueblo es un grupo de hombres, mujeres y niños con un idioma común, una cultura común y

un tipo racial común, que puede distinguirse fácilmente de sus vecinos, hace mucho tiempo desde que los gitanos fueron eso”

83 Jimmy Storey viveu por muito tempo em Nova Guiné e Austrália. Publicou vários artigos e poemas, entre eles,

seu volume mais conhecido intitulado Over There (New South Wales: Far Possum Press, 1983).

a longa capa da assimilação e as pegadas das botas militares e a máscara da vergonha quase destruiu

as frágeis asas das borboletas.[...]85.

A preocupação da linguística histórica em determinar o grupo e a região da Índia da qual emigraram os romà e a busca por essas conexões pelo estudo do romaní é parte de um intenso debate. Da mesma forma que o romaní e seus falantes estiveram sob influências sociolinguísticas constantes, as populações da Índia sofreram intensas mudanças que abalaram a permanência das línguas e, como lembra Fraser, talvez seja impossível recuperar esse passado e precisar tal procedência86.

A única dedução étnica específica comprovada pela língua faz menção ao nome rom, que em romani armênio fica lom e em romani sírio e persa, dom. Foi demonstrado que todos esses termos possuem uma correspondência fonética exata com o sânscrito dõmba e com o hindu moderno dom ou dum, que se refere a uma aglomeração de tribos. As referências aos

dom são encontradas em diversos estudos, sempre como músicos, aproximadamente no século VI. Em sânscrito, o vocábulo tem o sentido de homem de casta inferior que ganha a vida mediante o canto e a música. Os dom ainda formam tribos indianas errantes que praticam, além do oficio de músico, as atividades de ferreiros, cesteiros e trabalhadores de metal87. Devido a tantas coincidências e relações com os romà, é possível que sejam parte do coletivo étnico que emigrou, provavelmente, fugindo da fome e invasões. De acordo com o historiador espanhol José Aguirre, os dom faziam parte da casta mais baixa da Índia. O estudioso explica que os dom que emigraram, podem tê-lo feito em função de haverem infringido o código sagrado das castas que não lhes permitia exercer outros ofícios, ou em função de um nomadismo comercial ou ainda devido às guerras.

Segundo Aguirre, os romà não foram forçados a serem nômades. Eles teriam emigrado porque buscavam melhores condições de vida e não tinham problemas em relação à adaptabilidade88. Já o linguista inglês Donald Kenrick advoga que os romà se formaram fora da Índia, entre os séculos VII e X, ocasião em que os imigrantes indianos de distintas tribos se

85 HANCOCK, Ian; DOWD, Siobhan; DJURIC, Rajko. The Roads of the Roma, pp. 104-105. “Who are we, /

Roma without Romanes /who must read /our own history /in another tongue, /follow the butterfly /of our own being /across maps of imagination/trying to recreate/the lost structure /of our soul? […] If we learn Romanes/ from books and not /our mother’s breast / it is only because / the long cloak of assimilation / the rubber stamp of jackboots / and the mask of shame / almost destroyed the butterfly’s fragile wings […]”.

86 Los gitanos, pp. 45-46. 87 Ibid., p. 40

mesclaram na Pérsia e formaram o povo dom que mais tarde dariam origem aos romà89. Outra hipótese é a levantada, principalmente, por estudiosos e linguistas romà, como Hancock e Courthiade, os quais sustentam que o povo rom poderia ter sua origem na casta dos

kshatriyas – guerreiros que formavam a segunda categoria entre as quatro castas da sociedade indiana. Essa teoria recebeu o apoio de alguns escritores indianos90, que levantaram a hipótese de que descenderiam dos guerreiros Jat e Rajput. Hancock afirma que apesar de os dom compartilharem com os romà alguns ofícios e a origem indiana, a língua domari e o romaní são diferentes uma da outra, partilham um vocabulário menor que dez por cento. O problema, explica Hancock, é que a partir da invasão britânica, os ingleses rotularam indistintamente de “ciganos” a todos os grupos nômades, criando mais confusão sobre a questão de qual grupo especificamente provêm ou estão relacionados. Claire Auzias argumenta que os romà poderão ter sido párias ou nobres, ou ainda ambos. Hoje, os romà da Índia atual são párias, mas existem características que apontam para nobreza, como por exemplo, a excepcional familiaridade com os cavalos, animais de guerreiros, o que não é comum aos grupos párias91.

Mesmo não sendo possível determinar o grupo étnico, a origem indiana dos romà é um fato comprovado. Contudo, como antes, as tentativas de desqualificá-los como um povo ou minoria étnica são constantes. Se anteriomente eram produtos da intolerância cultural de governos racistas e do desconhecimento, agora, após as descobertas da linguística histórica, seria resultado do quê? Os antropólogos sociais holandeses Willems e Lucassen, por exemplo, colocam em dúvida a origem indiana da etnia e afirmam, em várias passagens de seu estudo, que nunca existiu uma identidade romà, que ela foi invenção do linguista alemão Grellmann, no século XVIII. Afirmam ainda, que os grupos romà estavam constituídos de europeus marginalizados que não se adaptavam às normas sociais vigentes nas diferentes épocas, sem relação com a Índia. Os autores falam de uma minoria inventada por diversos embustes92. Com tal trabalho, os autores ganharam, em 1996, o prêmio Veegens da Academia Holandesa de Ciências e continuam desenvolvendo pesquisas sobre os “ciganos” nômades da Holanda.

A antropóloga social inglesa Judith Okely foi a fundadora dessa corrente revisionista da origem indiana. A estudiosa afirma que os romà eram somente grupos de pessoas de origem e culturas diferentes que se juntaram. Ela nega a existência de uma identidade romani

89 Gypsies: from the Ganges to the Thames, p.5.

90 Especialmente W. R. Rishi (1981) na sua introdução ao Multilingual Romani Dictionary (1983). 91 Os ciganos ou o destino selvagem dos roms do leste, pp. 68-69.

92 Cf: LUCASSEN, Leo; WILLEMS, Wim. Gypsies and Other Itinerant Groups: A Socio-historical Approach,

passim. Análises e refutações sobre a teoria desses escritores são encontradas em MATRAS, Y. “The role of language in mystifying and de-mystifying Gypsy identity”. In SAUL, Nicholas & TEBBUTT, Susan. (Eds). The

role of the Romanies. Liverpool: Liverpool University Press.2004, pp 53-78. Também na internet em HTTP://romani.humanities.manches ter.ac.uk/downloads/2/Matras_Mystification.pdf.

com base em origem comum. Também acredita que o fato dos romà alegarem uma origem na Índia, só aumenta a discriminação em relação a eles, pois acrescentaria a noção de que são mesmo estrangeiros. Na introdução de seu livro Travellers and Gypsies93, afirma que o povo rom era uma maioria de excluídos de origem local campesina, que se uniram a “uns certos egipcianos” e formaram nova identidade. A respeito do romaní, a autora o apresenta como sendo, a principios, uma “gíria comercial secreta” e não uma língua materna. Seu argumento em relação ao romaní é praticamente o mesmo defendido por autores do século XVII, promovendo um retrocesso no enfoque das discussões sobre a origem dos romà, que seria anterior às descobertas feitas pelos estudos linguísticos sobre o romaní.

O anti-ciganismo é antigo e visava à destruição da identidade romani para, em seguida, assimilá-la da forma mais conveniente para as sociedades dominantes. Observemos, por exemplo, o discurso contra os “ciganos”, escrito em 1631 por Sancho de Moncada, no qual o próprio teólogo cita outros tantos nomes que também “opinavam” sobre a origem dos romà, afirmando que:

[...] Fray Iuan de la Puente diz que alguns parecem que são egipcios [...] que foram os primeiros ladrões que existiram nesses reinos[...] Lelio Bisciola disse, que não é necessário se preocupar em buscar a origem dessa gente, mas sim em ter a certeza que são a escoria de cada nação [...] Bonifazio disse que para parecer alienígenas, e de terras diferentes, lavam as caras todos os meses com o sumo de umas ervas que deixa suas peles negras [...]94.

Atualmente, a postura revisionista da origem dos romà, usando argumentos parecidos aos de séculos atrás, com outras roupagens, gera significativo ruído dentro dos movimentos