Quando olho para trás e vejo minha infância, pergunto- me como consegui sobreviver. Obviamente, foi uma infância miserável: a infância feliz geralmente é sem graça. Pior do que a infância miserável comum é a infância miserável irlandesa, e pior ainda é a infância miserável irlandesa Católica.
(Frank McCourt, 1999).
Os estudos sociais sobre a infância começaram com Philippe Ariès quando apresentou a sua tese sobre a inexistência de um sentimento em relação à infância. O livro de Ariès, originalmente publicado na França em 1960 com o título: “L’Enfant
et la Vie Familiale sous l’Ancien Régime”, logo foi traduzido para diversas línguas,
dentre elas, para o Inglês com o título: “Centuries of Childhood. A Social History of
Family Life” em 1962 e no mesmo ano para o Brasil como: “História Social da Infância e da Família”.
Sem dúvida, Ariès não foi o primeiro a tocar na questão do tratamento dado às crianças na fase da infância. Muitos pensadores, desde a alta Idade Média, como Santo Agostinho (354-430), Montaigne (1533-1592), Comênius (1592-1670), Rousseau (1712-1778) e Freud (1856-1939) expressaram, em seus escritos, preocupações com a infância por considerá-la uma fase da vida crucial para a inserção de princípios educativos que contribuiriam para a formação do espírito e do caráter das crianças.
Religiosos, médicos, psicólogos, juristas e educadores demonstravam também preocupações com o assunto e, através de seus sermões e relatórios, denunciavam as formas rigorosas demais e até cruéis no tratamento e na educação das crianças, e aconselhavam formas mais humanas para a formação dos espíritos sadios, como se pode ver na seguinte exortação de Comênius:
As crianças sejam educadas com um método mais fácil, não só para que não se afastem dos estudos, mas, ao contrário, para que se sintam seduzidas por eles, a fim de que, como se diz, encontrem nos estudos um prazer não inferior ao que sentem quando passam o dia
inteiro a brincar com nozes, bolas ou a correr. (COMÊNIUS, 2002, p. 104).
O primeiro abalo quanto à forma de olhar a infância foi dado por Freud, quando apresentou, em 21 de abril de 1896, à Sociedade de Psiquiatria e Neurologia em Viena, um ensaio intitulado: “A etiologia da histeria”. Neste ensaio Freud defendia a tese de que o pano de fundo dos ataques histéricos de seus pacientes era de cunho sexual, na maioria dos casos, lembranças de abusos ocorridos na infância por parte de um adulto próximo.
Com efeito, um anúncio dessa natureza chocou aos presentes. Tomada de surpresa e assustada com o teor das explicações, a comunidade científica preferiu reagir com revoltosa frieza, de modo que Freud colheu, durante anos, as consequências de suas declarações. Por outro lado, uma questão foi lançada ao ar e as inquietações suscitadas fizeram com que a ideia de infância sofresse seu primeiro choque, principalmente junto aos estudiosos da área de psicologia – ciência ainda em fase de estruturação – e também lançava as sementes que, de certa forma, germinariam e faziam brotar as bases da psicanálise.
É importante destacar que, antes de formular sua teoria, Freud havia ficado muito impressionado ao tomar conhecimento de um relatório médico que descrevia 1.600 casos de abusos de todas as naturezas contra crianças na França no século XVIII. Além disso, segundo Masson, muito provavelmente Freud tenha presenciado, “no necrotério de Paris, autópsias realizadas nas pequenas vítimas de abusos, incluindo abusos sexuais na primeira infância ocorridos no seio da família”. Mesmo porque o médico-legista era Tardieu12, seu professor, de quem fora assistente
durante alguns anos. (Masson, 1984, p. 17)
O que Tardieu parecia ter descoberto e, que tivera a coragem de descrever pela primeira vez, foi toda a extensão dos abusos que os adultos, na maioria das vezes os pais, infligiam as crianças pequenas e indefesas. Tendo conhecimento destes relatos, o que mais incomodou Freud foi o fato de não haver aí nenhuma
12
Ambroise Auguste Tardieu (1818-1879) era professor de medicina legal na Universidade de Paris, decano da Faculdade de Medicina e presidente da Academia de Medicina de Paris e trabalhou muitos anos como médico-legista sob as ordens do tribunal da justiça, chegando a analisar 616 casos. Em 1880, foi publicado um artigo nos Annales d’hygiène publique et de médecine légale, com o título de “Étude médico-légale sur lês sévices et mauvais traitements exerces sur dês infants” (Estudo médico- legal sobre as sevícias e maus-tratos infligidos a crianças), em que Tardieu relata 32 casos, nos termos precisos de um médico-legista e em detalhes chocantes, todas as formas de maus-tratos que as crianças podiam receber do adulto que cuidava dela. (MASSON, 1984, p. 17).
preocupação com o sentimento da criança, com os resquícios e traumas que os acontecimentos poderiam deixar nelas para o resto de suas vidas. Quando muito, era feita uma intervenção judicial para “punir os culpados”, mas a criança guardava para si a memória dos eventos mais cruéis de sua infância. As ideias apresentadas por Freud causaram grande desconforto e houve, por parte da comunidade científica, uma tentativa de suplantá-las. Por outro lado, fez com que muitos teóricos se mobilizassem para apresentar outros estudos que o contradissessem.
Segundo Masson (1984, p. 5/6) o próprio Freud, surpreendido com as repercussões de suas declarações, viu-se obrigado a fazer sérias modificações em sua teoria, revendo a questão do abuso sexual e inserindo os elementos da fantasia, do sonho, do inconsciente, que se tornaram a base da teoria psicanalista. Todavia, é interessante notar o quanto as descobertas da psicanálise foram influenciando, progressivamente, os estudos da psicologia e da pedagogia, sobretudo, referentes ao desenvolvimento infantil.
O cinema aproveitou muito dos conteúdos da psicanálise. O medo, os traumas, os sonhos e pulsões inconscientes foram adotados pelos cineastas que os inseriram em diversas narrativas fílmicas, de maneira que estes elementos são o grande filão no qual muitos filmes, principalmente dos gêneros drama e suspense, se ancoram para tratar de questões relacionadas com as perversidades infantis e as lembranças delas na vida adultas. Pode-se exemplificar com os filmes: “A Órfã” (Orphan, Jaume Collet-Serra, EUA, 2009) e “O Anjo Malvado” (The Good Son, Joseph Ruben, EUA, 1993), cujos enredos são protagonizados por crianças.
O segundo acontecimento que abalou as concepções acerca da infância veio com Ariès, através de sua obra já citada. Em larga medida, as declarações de Ariès causaram maior cisão, pois as suas descobertas foram retomadas por estudiosos de diversas áreas, principalmente da sociologia, da antropologia e da pedagogia, tanto para admitir, quanto para questionar ou refutar as suas afirmações.
Com base principalmente na iconografia, mas reforçada também por registros em cadernos sobre o nascimento e a morte de crianças, anotações de datas em móveis, roupas e brinquedos encontrados desde a baixa Idade Media, Ariès apresentou a tese de que havia um total desconhecimento em relação à infância e nenhum interesse por esta fase da vida. Ele escreve:
Na sociedade medieval, que tomamos como ponto de partida, o sentimento da infância não existia – o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia. (ARIÈS, 1981, p. 156).
As conclusões de Ariès se baseavam na ausência de representações da vida da criança nos quadros de pinturas familiares como era de costume até a Idade Média. Ele acrescenta que o motivo do desinteresse por uma fase da vida que se mostrava tão instável, e ao mesmo tempo representativa, era resultado das taxas de mortalidade infantil que, por sua vez, eram bastante elevadas. Por isso, conclui: “O sentimento da particularidade da infância, de sua diferença com relação ao mundo dos adultos, começou pelo sentimento mais elementar de sua fraqueza, que a rebaixava ao nível das camadas mais inferiores”. (ARIÈS, 1981, p. 181).
As ideias de Ariès, assim como as de Freud, provocaram uma tempestade que assanhou muitas das concepções já cristalizadas, como, por exemplo, a de John Locke, no século XVII, para quem a criança nascia como uma tábula rasa, ou uma folha em branco. Tudo isso acendeu os ânimos de muitos historiadores que, tomando o livro de Ariès como referência, fizeram proliferar outros escritos com a finalidade de analisar, elogiar, criticar, contradizer ou reafirmar as informações contidas no livro. De qualquer forma, esta tempestade de ideias só contribuiu para fazer avançar o debate sobre o sentimento da infância e assim colocar a criança no centro das atenções.
Ariès, ao dissertar também sobre a ausência de um sentimento em relação à infância até a Idade Média, apontou para outras questões como: o abandono e os maus-tratos sofridos pelas crianças nas mãos das amas-de-leite; os castigos corporais permitidos durante o processo de educação escolar; o sacrifício e o infanticídio consentidos pelos pais; o alto índice de mortalidade infantil e o descaso por parte das autoridades políticas e eclesiais etc.
Alguns historiadores viram méritos na obra de Ariès e outros não cansaram de desferir duras críticas ao seu trabalho, alegando que as fontes eram frágeis e que a metodologia era inadequada, porém, graças a isso, muitos pesquisadores saíram a campo em busca de maiores informações, tendo em vista que as questões
trazidas por Ariès, em 1962, levantaram temas polêmicos, tanto quanto a temática apresentada por Freud em 1896. Apesar das controvérsias, tanto um quanto o outro desfrutaram de grande reputação e tornaram-se marcos a partir dos quais é impossível se falar da infância, da educação de crianças e do desenvolvimento e da psicossexualidade infantil sem recorrer aos estudos destes teóricos, em algum aspecto.
No lapso de tempo que vai de Freud a Ariès o cinema se firmou, e a infância, apagada entre um e outro no contexto dos estudos acadêmicos, foi muitas vezes, retomada pelo cinema através de diversos filmes que, nesse período, incorporavam algumas das questões presentes na vida infantil, principalmente a do abandono, do rigor da educação e da delinquência infanto-juvenil, como se pode ver no filme: “Os incompreendidos” (Les quatre cents coups, François Truffaut, EUA, 1959). Este foi também um período marcado por duas grandes guerras, cujo tema inspirou muitos filmes com crianças, como, por exemplo: “A Infância de Ivan” (Ivanono detstvo, Andrei Tarkovsky, União Soviética, 1962), “O Menino do Pijama listrado” (The Boy in
the Striped Pajamas, Mark Herman, Inglaterra/EUA, 2008). Pode-se dizer que neste
período a psicanalítica foi sendo reconhecida como uma ciência, e as descobertas trazidas por este novo campo de investigação inspiraram outros olhares sobre a humanidade. O cinema, como o grande sinalizador da cultura, soube incorporar também as novas descobertas.
Depois de Ariès, as concepções sobre a infância tomaram outro rumo e, atualmente, reforçadas pelas mídias, as representações da criança têm sofrido grandes modificações. E, com o intuito de fazer avançar a discussão em torno da historiografia das concepções e dos sentimentos em relação à infância, este capítulo convidou alguns importantes teóricos para conversarem entre si acerca de temas considerados polêmicos na vida das crianças, como: os maus-tratos, o abandono e outras incivilidades do processo educativo; a criança inserida no seio familiar e na cultura e envolvida em seu mundo de brincadeiras.
2.1 – Concepções da Infância.
Como já foi apontado, as descobertas feitas por Ariès trouxeram inquietações e desencadearam estudos sobre a infância em várias áreas. Para Freitas no mundo mais próximo de nós – e aqui o autor se refere ao século XX –, algumas áreas de
conhecimento, mais do que outras, ocuparam-se da infância. Dentre estas, talvez a psicologia, a biologia, a psicanálise e a pedagogia sejam as que, com mais assiduidade e disposição, proponham respostas para a complexa questão que se indaga: o que é infância? (FREITAS, 2001, p. 231/232).
Para a psicologia, a infância é um período muito importante, pois é o momento em que são criados os referenciais que a criança leva para o resto da vida; um aprendizado diário que inclui as regras que regem a vida social. O Dicionário Dorsch de Psicologia traz o seguinte: “Período de vida que vai do nascimento à adolescência, extremamente dinâmico e rico, no qual o crescimento se faz, concomitantemente, em todos os domínios, segundo os caracteres anatômicos, fisiológicos e psíquicos”. (DORSCH, 2001, verbete infância).
Logo, o termo infância, como uma categoria que caracteriza a fase dos primeiros sete anos da vida, foi tomado por diversos discursos científicos e culturais que deram ênfase a um ou outro aspecto próprios da singularidade que lhe é inerente. No caso deste estudo, seguiu-se os rastros dos teóricos que consideram a infância como um construto cultural e que, por isso, sofreu modificações ao longo dos séculos, no tocante às formas de educação, de cuidado e das brincadeiras infantis. Foram, portanto, as perspectivas dos adultos em diferentes sociedades que se encarregaram de desenhar a imagem da infância como boa ou má, como inocente ou perversa, imatura e dependente etc., e também de idealizar a criança.
Dessa forma, as concepções da infância historicamente têm se apresentando como uma categoria instável, difícil de ser apreendida por uma só visão. Mas, se por um lado a infância representa uma categoria fugidia em termos de análise, por outro lado, como representante própria da imagem das crianças, tem sido constantemente vigiada e regulada, como alerta Bujes:
Como alguém que precisa adquirir o conhecimento que foi legitimado por outros mais velhos e inteligentes, alguém cujos modos de ser e estar no mundo podem ser revelados através dos métodos científicos de experimentação e observação. As crianças passam a ser uma preocupação social: objetos de interesse, pontos focais de discursos. Construções históricas modeladas por condições sociais concretas. (BUJES, 2008, p. 10).
Ora, se é difícil estabelecer para a infância, enquanto categoria em análise, uma definição precisa em termos de concepções, mais difícil ainda é apreender o
real significado enquanto representante das próprias crianças que são, por assim dizer, inapreensíveis quão vasto é seu universo de significados. Portanto, continua Bujes a alertar que: “os significados atribuídos à infância são o resultado de um processo de construção social, dependem de um conjunto de possibilidades que se conjugam em determinado momento da história, são organizados socialmente e sustentados por discursos nem sempre homogêneos e em perene transformação”. (BUJES, 2008, p. 13).
Rocha nota a importância de se resgatar os antecedentes históricos sobre a infância como uma forma de dar voz a diferentes documentos que hoje são largamente pesquisados e que, em determinados períodos, testemunharam o papel da criança na sociedade. Segundo a autora, tais documentos mostram como sempre houve uma preocupação “com a sobrevivência da criança, com a sua educação, sua religiosidade, os cuidados com o seu corpo, com sua alimentação, enfim, com uma época de aprendizagens, com brinquedos, roupas e construção de móveis e objetos apropriados à criança”. (ROCHA 2002, p. 57).
E no encalço de elementos historiográficos sobre as concepções da infância recorre-se a Ariès e à sua pesquisa precursora sobre o sentimento em relação à infância considerando que, para tal, o autor mobilizou um vasto corpus composto por: iconografia religiosa e leiga, inscrições de datas e nomes de famílias em móveis, anotações em diários, retratos de famílias, correspondências, registros médicos, registros de batismo, inscrições em túmulos etc. na alta Idade Média (considerada do século V ao X d.C.), através do qual percebeu que havia uma ausência da infância, ou que a mesma estava ausente nas iconografias.
Ariès entende que isso significa que os homens dos séculos X-XI não se detinham diante de uma imagem da infância, pois não tinha para eles interesse e nem mesmo realidade. Acrescenta que:
Até por volta do século XII a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo. (ARIÈS, 1981, p. 50).
Continuando, o autor nota que já por volta do século XIII a iconografia religiosa fez aparecer alguns tipos de representação da infância. “O primeiro tipo de
representação era em forma de um anjo sob a aparência de um adolescente; o segundo tipo, as crianças eram representadas na figura do menino Jesus ou de Nossa Senhora menina; o terceiro tipo apareceu na fase gótica: era a criança nua também representada na figura do menino Jesus”. (ARIÈS, 1981, p. 54/55).
Essa representação da infância relacionada com a figura de Jesus está ligada à concepção que começava a se formar a partir de religiosos que buscavam na própria Bíblia uma referência quanto à inocência das crianças. O livro de São Marcos conta que quando um grupo de crianças brincava em meio aos adultos e foi severamente repreendido por estes, Jesus interveio dizendo: “Deixai vir a mim as
crianças” e acrescentou: “Em verdade vos digo, se não vos tornardes como estes pequeninos, não entrareis no reino dos céus”. (Mc. 10, 14-15). No entanto, as
crianças continuaram a sofrer maus-tratos por parte dos adultos que buscavam, a todo custo, “endireitá-las”.
A pesquisa de Ariès demonstrou que:
A descoberta da infância começou, sem dúvida no século XIII, e sua evolução pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas os sinais de seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII. (ARIÈS, 1981, p. 65).
A partir do século XV, segundo Ariès, surge uma iconografia leiga, oposta à religiosa, que representa cenas da vida cotidiana na qual as crianças aparecem na presença dos adultos em diferentes situações. Para ele, esta inserção da criança é um anúncio do sentimento moderno de infância. No século XVI, as crianças também eram retratadas mortas, esculpidas nos túmulos, acompanhadas dos pais e dos irmãos, indicando uma outra visão a respeito da criança que morre cedo e anunciando que a infância começava a sair do anonimato.
Notadamente, a ordem do registro no trabalho de Ariès centrou-se na interpretação de objetos artísticos: imagens, objetos e registros escritos. A verdade é que estas artes, sobretudo as imagens, sempre discursaram sobre aquilo que representavam, e fazem isto numa perspectiva cultural já que os modos de expressão de qualquer arte atendem a movimentos culturais que as renovam. Assim é que Ariès percorre os séculos em busca das imagens de crianças, observando suas roupas, calçados e brinquedos em diferentes momentos históricos, a fim de
poder mostrar como as concepções de infância influenciavam nas imagens de crianças retratadas em quadros de pinturas ou narradas em registros escritos.
No cinema, as narrativas e a imagem das crianças também sofreram modificações. No início, elas representavam papeis menores cuja participação girava em torno do drama de um adulto. Atualmente os roteiros privilegiam a história da criança e os adultos se movimentam na narrativa em torno dela. Os filmes: “Ladrões de Bicicleta” (Ladri di Biciclette, Vittorio de Sica, Itália, 1948) e “A Corrente do bem” (Pay if forward, Mimi Leder, EUA, 2000) demonstram bem a evolução destas representações. Enquanto que em Ladrões de Bicicleta o menino sofre suas desventuras em meio à história do pai (o adulto), no enredo de A Corrente do bem tudo gira em torno dos desejos do menino. Mas deve-se sublinhar que tudo isso é dirigido pela visão do adulto, sem que se possa escapar da sua influência subjetiva no momento de representar a infância.
Ariès caracteriza a infância como a primeira idade do homem. Para ele este também é o período próprio para se ensinar tudo às crianças: ler, escrever e contar, a se relacionar com os outros e aprender os rudimentos da vida em sociedade, mesmo quando os ensinamentos são inseridos na forma de brincadeira. Em suas palavras:
A primeira idade do homem é a infância que planta os dentes, e essa idade começa quando a criança nasce e dura até os sete anos, e nessa idade aquilo que nasce é chamado de enfant (criança) que quer dizer não falante, pois nesta idade a pessoa não pode falar bem nem formar perfeitamente suas palavras. [...]. A primeira idade é a idade dos brinquedos: as crianças brincam com um cavalo de pau, uma boneca, um pequeno moinho ou pássaros amarrados. Depois, a idade da escola: os meninos aprendem a ler ou segurar um livro e um estojo; as meninas aprendem a fiar. (ARIÈS, 1981, p. 38).
Em sua pesquisa, Ariès concluiu que a inexistência de um sentimento pelas