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O cinema não só abarca todo o campo do mundo real, que nos põe ao alcance da mão, como também todo o campo do mundo imaginário, pois tanto participa da visão do sonho como da percepção própria do estado de vigília.

(Edgar Morin, 1997).

Desde a Antiguidade, o homem primitivo, sem conhecimentos científicos, construiu um mundo mágico tecido por histórias (narrativas) fantásticas em que pudesse se refugiar, enquanto procurava entender certos desígnios da natureza e encontrar respostas que fundamentassem princípios de educação e moral para a vida em comunidade das gerações mais novas. Estas histórias eram as fábulas, que constituíram as bases da literatura fantástica e dominou este campo até o século VII, quando surgiram os contos maravilhosos dos irmãos Grimm, de Andersen e outros escritores deste gênero.

Segundo Todorov, o fantástico reside entre dois vizinhos. De um lado, estão os inquilinos de nível mais elevados: o fantástico-maravilhoso e o maravilhoso puro com seus parentes próximos (a fantasia, a magia, o sonho). Do outro lado, localizam-se os vizinhos de gênero baixo: o fantástico-estranho e o estranho puro também com seus consanguíneos (o grotesco, o horror, o terror e o suspense). (Todorov, 2004, p. 50). Todos eles, entretanto, desempenham um papel fundamental na literatura como uma forma de tematização de determinadas questões que angustiam o homem, sobretudo as crianças.

O mundo fantástico é um mundo à parte, cheio de atração, surpresas e magias, que foi capturado pelo cinema desde os seus primeiros filmes, ou, inversamente, pode-se dizer que a cinematografia foi inventada pelos habitantes deste universo particular de sonho e de magia, onde o maravilhoso e o estranho interagem e convivem em perfeita harmonia. É neste mundo fantástico que, sem muito esforço, se pode aproximar cinema e infância, porque ambos habitam neste

intervalo em que fantasia e realidade se tocam e se entrelaçam produzidas pela arte da imaginação própria do poeta (escritor, artista, cineasta) e da criança.

Até pouco mais de um século, os componentes do fantástico eram assuntos próprios das narrativas literárias, primeiramente na sua forma oral que sobrevivia na contação de histórias, nas músicas, nos mitos, nos ritos, nas representações teatrais, e depois imortalizadas na pintura, na escultura e na forma escrita. Todas estas formas de contar histórias sempre encontraram nos espectadores um receptáculo fertilizador das fantasias geradas no imaginário. A invenção do cinematógrafo possibilitou outros modos de enunciação e, assim, o cinema pôde cooptar toda a tradição acumulada culturalmente e dar-lhe novas formas de expressão. E, assim, segundo Droguett, o cinema:

Oferece ao espectador a grafia de imagens em movimento, em que acontece algo prodigioso: sonhar de olhos abertos. Ele é o aparelho perfeito da mais antiga ilusão, da sombra chinesa, da câmara escura, da lanterna mágica e da fábrica de sonhos. Amplia a capacidade de sonhar e permite objetivar a mais subjetiva das experiências humanas: o sonho. (DROGUETT, 2004, p. 21 e 23).

O sonho, portanto, proporciona o distanciamento do mundo real e a entrada no mundo fantástico. Por isto o cinema tem aí seu cerne, pois através dos filmes o espectador entra em estado onírico e, conforme o gênero narrativo, é transportado ao país das maravilhas ou do estranhamento. Indiferentemente do plano a que foi levado, a sensação que ele tem, ao sair da sala escura do cinema, é a de que passou algumas horas em uma outra realidade, mesmo quando as histórias contadas são de gênero realístico. Neste aspecto, Droguett qualifica que:

O cinema é uma ilusão, um embaixador das peripécias da morte, da neurose, do horror. Embaixador da mensagem inconsciente, encanada nos limites da imagem apolínea, significante-mestre pelo qual se podem amarrar o real da pulsação e a imagem especular do cinema. (DROGUETT, 2004, p. 45).

A capacidade de colocar o espectador em um outro lugar fez com que o mundo do cinema adquirisse, logo de início, a comparação com a magia e com as coisas sobrenaturais. As primeiras apresentações das imagens cinematográficas causaram um horror fascinante, de maneira que o cinematógrafo dos irmãos Lumière fora considerado por muitos, segundo Rittaud-Hutinet (1995, p. 259), como

“coisa do diabo”. Outros falavam de uma sensação alucinatória que “fazia parar o coração. Esquece-se de quem se é. Ideias estranhas invadem o espírito e fica-se cada vez menos consciente”.

Essa sensação assustadora diante do que parecia fantasmagórico incitou um cronista da cidade de Bandiagara (na África) a escrever, após ir a uma apresentação cinematográfica:

Todos, em Bandiagara: homens, mulheres e crianças, temos um medo horrível desse negócio que nos mostram. Vivemos esses momentos como as últimas horas de um condenado à morte. É terrível de se ver, esse movimento de sombras, nada mais que sombras, de espectros, de fantasmas. Pensa-se nas lendas em que algum gênio malvado faz uma cidade inteira ser tomada por um sono perpétuo e acredita-se ter visto algum Merlin realizar seu sortilégio diante de nossos olhos. (RITTAUD-HUTINET, 1995, p. 258).

Por tudo isso é que antes de ser entendido como um meio capaz de (re)apresentar os eventos culturais, reais ou imaginários, a invenção cinematográfica foi comparada ao sonho e à magia. A diferença dos contos de fadas é que, no cinema, o mundo maravilhoso era visível, os habitantes eram pessoas conhecidas, transportadas vivas para dentro de um aparelho, causando, simultaneamente, fascinação e estranheza no espectador que, confuso, não distinguia se aquelas imagens em movimento faziam parte de um sonho ou da realidade, como o que relata outro cronista:

“Esfregando os olhos, e não se tem muita certeza de não ter sido objeto de um sonho!”. O sonho, enfim, o sonho perfeito em que as coisas parecem ser o que elas são, exatamente. Um sonho tão correto, tão verdadeiro que podemos nos espantar sem paradoxo quanto ao fato de que um automóvel corra, que um mambembe ziguezagueie e que um passante passe! “É o tumulto do bulevar com seus transeuntes que perambulam, seus carros que correm, seus soldados que marcham”. (RITTAUD-HUTINET, 1995, p. 261).

Notadamente o cinema foi um invento que causou grande impacto e continua a causar. A imagem colocada em movimento tem poder e o maior é o da sedução que emana do encantamento e do realismo sentidos diante da imagem real. O cinema ritualiza os acontecimentos e paisagens ao transformá-los em imagens, visuais e sonoras, para que o espectador possa se deslumbrar com o passado, o presente e o futuro da existência que perfila diante de seus olhos.

Depois de apresentar imagens da vida real em ações cotidianas, o cinema, incorporando as impressões que as imagens já causavam nas plateias, encaminhou- se para as narrativas literárias e mitológicas acentuando, assim, os elementos destes campos: o alucinatório, o ilusório, a mágica e a fantasmagoria. Diga-se, de antemão, que o cinema é tudo isto, pois as técnicas de montagens possibilitam gerar efeitos próprios do ilusionismo no qual tudo parece pertencer ao sobrenatural.

Dessa forma, segundo Marinho “o cinema é um grande simulador que se apodera de nós, num primeiro momento, pelo gigantismo de suas imagens” (p. 63). A autora continua declarando que, por isso, o cinema era entendido como uma manifestação de puro maravilhoso ao revelar o mundo oculto dos sonhos, e essa qualidade onírica foi influenciada pelos estudos de Freud acerca da interpretação dos sonhos, que revolucionou o pensamento do século XX, marcado pelo lançamento de sua obra sobre a interpretação dos sonhos, em 1900. (MARINHO, 2009, p. 65).

É oportuno abrir aqui um parêntese para ressaltar que Freud não se deteve em seus escritos sobre a arte cinematográfica como nas outras, e também não demonstrou qualquer interesse pelo cinema, mesmo percebendo que as imagens projetadas pelo cinematógrafo eram semelhantes às produzidas na psique, tanto pela imaginação consciente como pelos sonhos que capturam as imagens ocultas no inconsciente e as projetam desordenadamente neste estado de devaneio. Apesar disso, a teoria psicanalítica tem aparecido constantemente como pano de fundo em muitos filmes. Hitchcock foi, sem dúvida, um dos cineastas que muito incorporou os substratos da psicanálise em vários de seus filmes, dentre eles “Psicose” (Psycho, Alfred Hitchcock, EUA, 1960).

Os sonhos e as imagens pertencem ao mundo da literatura, assim como ao mundo da infância e do cinema. Foi pela imaginação que os homens inventaram o mundo das coisas fantásticas e pela literatura deram nomes e formas a elas, transformando-as em realidade através das fábulas, dos contos etc. Nas crianças, as coisas do mundo fantástico revigoram-se continuamente, sem enquadramento, sem regras e sem leis e entram em estágio maravilhoso. No cinema, estas coisas materializam as suas formas e se projetam em imagens que voltam ao imaginário para fortalecer as sombras já existentes.

De fato, foi no encalço da literatura que as narrativas cinematográficas proliferaram adaptando-se aos gêneros já existentes e buscando desenvolver outros num jeito próprio de narrar histórias já conhecidas. Entretanto, muito embora tenha desenvolvido outros gêneros narrativos e ampliado a ilusão do movimento e da vida, através de imagens espetaculares em telas gigantes, o cinema não perdeu a magia do fantástico e agrega, em seus filmes, várias modalidades do estranho e do maravilhoso recortados da literatura fantástica, como nos filmes: “Em busca da Terra do Nunca” (Finding neverland, Marc Forster, EUA, 2004) e “O Labirinto do Fauno” (El Laberinto del Fauno, Guillermo Del Toro, Espanha, 2009).

Dessa forma, o cinema incorporou o maravilhoso e, nesta modalidade, os efeitos especiais, aos quais recorre para dar visualidade às suas narrativas, são, para Marinho: “elementos que ocupam uma posição de extrema relevância para a constituição específica dessa linguagem que, ao gerar diversas obras dotadas de características semelhantes, pode se organizar como gênero narrativo”. A autora continua ponderando que: “quando o maravilhoso se incorpora ao cinema ou à literatura, o resultado pode ser bastante diversificado, na medida em que as obras produzidas geram diferentes estilos. Dessa forma, no caso do cinema, o maravilhoso se faz presente em vários “gêneros” e tipos de filmes”. (MARINHO, 2009, p. 62 e 63).

Ao apropriar-se desse gênero narrativo, o cinema estabelece sua identidade e a convicção quanto ao modo de endereçamento que quer dar aos enredos. Sobre isso Costa diz que:

Para certos historiadores clássicos – como Lewis Jacobs, Georges Sadoul ou Jean Mitry – os filme servem essencialmente para contar histórias. Para tal finalidade, o cinema possui uma linguagem própria, cuja especificidade reside basicamente num conjunto de regras e procedimentos através dos quais constrói um mundo fictício perfeitamente homogêneo. (COSTA, 1995, p. 37).

A linguagem própria do cinema é que conduz ao mundo fantástico das histórias infantis mesmo quando se tratam de histórias reais de dor e sofrimentos. É no contexto da fantasia que cinema e infância se encontram, pois a criança, ao se transportar para um mundo cheio de fantasmas que só ela conhece, conversa com eles numa linguagem mágica e a eles empresta suas falas, seus pensamentos, suas atitudes, a eles doa-se e por eles sofre. Moyles destaca que “a fantasia funciona

como uma maneira de unificar experiências, conhecimentos e entendimentos, ajudando a criança a descobrir os vínculos entre os componentes”. (MOYLES, 2008, p. 111).

Nesse aspecto, o cineasta é, em certa medida, como uma criança criativa, pois para contar uma história fílmica, cria um mundo maravilhoso, coloca nele habitantes e empresta a eles seus sonhos e suas fantasias. Por isto, vale concordar com Marinho quando destaca que “se a palavra é o fundamento da literatura – que se constrói por meio do signo verbal –, a imagem se constitui como a base do cinema, determinando assim dois eixos distintos pelos quais o maravilhoso transita”. (MARINHO, 2009, p. 28).

Este capítulo, faz avançar as discussões em torno da estreiteza entre cinema e infância, tendo como elemento intergenciador alguns componentes da literatura que foram absorvidos pelo cinema. Será feita uma revisão em alguns dos gêneros literários que foram absorvidos pelo cinema e dos gêneros por ele criados, assim como os elementos que têm maior relação com o mundo da infância: o fantástico, o maravilhoso, o sonho e o espetáculo das imagens. Tudo isso presente em filmes como: “A vida é bela” (La bela vitta, Roberto Benigni, Itália, 1997) que será comentado no final deste capítulo.

3.1 – Os gêneros na literatura e no cinema.

Todorov, ao questionar a origem dos gêneros, conclui que “eles vêm simplesmente de outros gêneros. Um novo gênero é sempre a transformação de um ou de vários gêneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação” (1980, p. 46). Por isso a questão dos gêneros no cinema remete, imediatamente, à literatura e a polêmica provocada pelas modificações que este conceito vem sofrendo, no decorrer dos séculos, trazidas pela modernidade que flexionou a estruturação convencionada dos gêneros literários já consagrados, e possibilitou o surgimento de novas formas de compor um texto literário, uma pintura, contar uma história etc. Na atualidade, estas novas formas de expressão artística foram impulsionadas, principalmente, pela incorporação de recursos tecnológicos que modernizaram as artes tradicionais e deram origem a outros estilos de expressão.

Segundo Moisés20, até o século XVII a literatura clássica só admitia dois

gêneros fixos: a poesia e a prosa. Havia duas espécies de poesia: a lírica que se manifestava nas formas de soneto, ode, canção, rondel, triolé, dondó, balada, vilacente etc., e a épica que se compunha na forma de poema, poemeto e epopeia. Ainda segundo Moisés, o romantismo, a partir da segunda metade do século XVIII na Inglaterra e na Alemanha, fez cair por terra os gêneros, e a distinção clássica foi substituída por uma noção de gêneros ‘impuros’ mistos ou comunicantes. Com isto nasceram o drama – da fusão da tragédia com a comédia – e o romance; a ordem clássica deu lugar à liberdade, ao absolutismo, o relativismo e o liberalismo. O gênero deixou de ser entendido como absoluto e fixo, pois “a moderna teoria dos gêneros é manifestamente descritiva. Não limita o número de possíveis gêneros nem dita regras aos autores. Supõe que os gêneros tradicionais podem mesclar-se e produzir um novo gênero – como a tragicomédia”. (MOISÉS, 2000, p. 52/53).

A modernidade acentuou de vez a liberdade de expressão artística, soltando as amarras dos gêneros fixos e fazendo-os evoluir em todos os sentidos, não só modificando as suas formas de expressão como também gerando novas formas e fazendo outras caírem em desuso quando já não conseguem emitir significado. Não obstante, no contexto dos estudos de literatura, tradicionalmente os gêneros são organizados em quatro grupos bem definidos: 1) Lírico, composto pelos poemas de forma fixa (soneto, balada, triolé, rondó etc.) e de forma livre (ode, ditirambo, elegia, canção, etc.); 2) Narrativo, que contém os estilos épicos (epopeias) e o subgênero ficção do qual é extraído o conteúdo para o romance, a novela, o conto, a fábula, a lenda e a crônica; 3) Dramático, que agrega o estilo tragédia, comédia, tragicomédia, drama e auto; 4) Ensaístico, gênero do qual saem os conteúdos para o ensaio, o artigo, a análise de texto, a oratória, a carta etc.21

Observando que o cinema explora, em maior escala, os gêneros narrativo e dramático (que também não deixa de ser narrativo), e que a evolução destes gêneros tenha gerado outros estilos que caracterizam os filmes de forma mais específica, optou-se, então, por deixar de lado os gêneros lírico e ensaístico e dedicar maior atenção ao dramático e ao narrativo no contexto da literatura para 20

MOISÉS, Massaud. A criação Literária: Poesia/Prosa. 14ª ed. revista, São Paulo: Cultrix, 2000. pp. 69-73.

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Vários referenciais possibilitaram seguir esta organização, dentre eles vale citar: ARISTÓTELES. A arte poética. São Paulo: Martim Claret, 2011. SODRÉ, Muniz. Best-seller: A Literatura de Mercado. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1988 e TUFANO, Douglas. Estudos de Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna, 1995.

entender como o cinema os aproveitou, uma vez que os filmes que interessam a esta pesquisa estão catalogados nestas categorias.

O gênero narrativo tem nas epopeias seu fundamento. E é, portanto, na Antiguidade clássica que se vê florescer, nos teatros a céu aberto de Atenas, as epopeias que contam histórias trágicas, de deuses, semideuses, titãs, heróis e outras figuras mitológicas como se pode conferir nas clássicas obras: Ilíada e

Odisseia, escritas por Homero no século VII a.C. Nestes relatos pode ser encontrada

a presença do maravilhoso que têm como premissa a aquietação dos espíritos humanos à sua condição de seres inferiores (terrenos) diante da grandeza de um deus. O cinema, desde o seu início, buscou neste gênero conteúdo e forma para grandes filmes, como: “A fúria dos Titãs” (Clash of Titans, Desmond Davis, Reino Unido, 1981), “Odisseia” (The Odissey, Andrei Konchalovsky, EUA, 1997) e “Tróia” (Troy, Petersen Wolfgang, EUA, 2004) que servem como exemplos de epopeias clássicas que foram levadas ao cinema como grande sucesso.

As narrativas em estilo de ficção se desenvolveram com a modernização das epopeias e, provavelmente, tenham se tornado o gênero mais importante da literatura pelo papel que os contos, as crônicas, as fábulas e as lendas desempenham na educação de crianças, enquanto que as novelas e os romances serviam para o entretenimento das pessoas adultas. O vocábulo ficção tem sua origem nas palavras latinas fictionem (ato de modelar, criar, formar); fingere (ato ou efeito de fingir, inventar, simular); e fictum (suposição, coisa imaginária, criação da imaginação). Coutinho esclarece que:

A essência da ficção é, pois, a narrativa. É a sua espinha dorsal, correspondendo ao velho estilo humano de contar e ouvir histórias, uma das mais rudimentares e populares formas de entretenimento. (...). A ficção é produto da imaginação criadora, embora como toda arte, suas raízes mergulhem na experiência humana. A ficção é uma maneira de reinterpretação artística da realidade. (COUTINHO, 1976, p. 30).

Na literatura, o gênero narrativo encontra, na obra das “Mil e uma noites”, um representante perfeito para o subgênero ficção, porque nela estão contidas todas as variações de enredos deste gênero. Compondo-se de um lado pelo texto e do outro pelas técnicas de representação e do espetáculo, este gênero floresceu no teatro com grande força e foi também o primeiro gênero a chegar ao cinema logo na

primeira década de século XX, que soube aproveitar bem os cinco subgêneros dos quais saíram grandes clássicos que deram ao cinema filmes consagrados.

Os contos se caracterizam como uma narrativa que segue uma linha objetiva com começo, meio e fim, e geralmente assumem uma atmosfera fantástica e o maravilhoso dos contos de fadas como no filme: “A bela e a Fera” (Beatiful and the

Beast, Garry Trousdale e Kirk Wise, EUA, 1991). Crônica, do grego, Khrónos, quer

dizer tempo. São narrativas documentais de caráter históricos que contam fatos passados em um tempo definido, como relatos de viagens. Pode-se citar aqui o filme: “As crônicas de Nárnia” (The Chronicles of Narnia, Andrew Adamson, Inglaterra, 2008). As fábulas nascem no imaginário e têm o objetivo de transmitir uma lição de fundo moral, as personagens geralmente são animais e outros objetos inanimados, o que se denomina apólogo. “A era do gelo” (Ice Age, Chris Wedge, EUA, 2002) é um filme bastante conhecido desta categoria. Lenda são histórias que servem para contar a origem de coisas e seres que não podem ser explicadas logicamente, ou que deixam dúvidas quanto à sua existência real ou fruto da imaginação, por exemplo, a questão dos vampiros presentes em filmes como “Drácula” (Drácula, Tod Browning e Karl Freund, EUA, 1931). As novelas se caracterizam pela sucessão dos episódios, a continuidade do enredo, a repetição das personagens e dos cenários, e por conterem vários elementos próprios do romance, pode-se citar a mais recente série deste tipo: a saga “Crepúsculo” (Twilight, Catherine Harwicke, EUA, 2008). O romance é essencialmente uma ficção que se caracteriza por ser uma longa narrativa de amor, em que vários obstáculos se opõem ao encontro entre os amantes e vão deixando marcas eternas. “E o vento levou” (Gone with the wind, Victor Fleming, EUA, 1939) é um clássico deste gênero.

Sem dúvidas, o gênero narrativo ofereceu enormes possibilidades ao cinema que, desde a apresentação das suas primeiras imagens, já procurava estabelecer uma sequencia narrativa e construir um enredo. Desta forma o cinema, tem se apropriado de textos literários já conhecidos e os reeditado com uma nova estrutura, linguagem e demais aparatos cinematográficos. Porém nem sempre este novo roteiro se torna mais agradável e compreensível que no formato original, levando os comentadores a desferirem duras críticas, como foi o caso do filme “O Caçador de Pipas” (The kite runner, Marc Forster, EUA, 2008).

O gênero dramático, como o próprio nome já diz, tem no drama (e na dramatização) sua base, pois realiza-se através de um espetáculo cuja montagem exige diversos recursos de cenário, música, iluminação etc. A palavra drama, derivada do grego drâma, significa “ação”, isto é, “a ação de apresentar e encenar um texto literário”. Para Coutinho, “uma das características deste gênero é a