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4.6 Project Evaluation
107. Dar o correto valor ao impacto diferencial que Proudhon pretende apresentar com relação a Comte não diminui, por outro lado, o interesse de se verificar até que ponto há algo de Saint-Simon recuperado por Proudhon nesse impacto, isto é, o que se pode encontrar de saint- simonianamente anti-comteano em Proudhon. Quando se fala da ruptura entre Saint-Simon e Comte, o habitual é examinar essa separação do ponto de vista de Comte, daquilo que o discípulo
recusou no mestre. Fala-se pouco naquilo que Saint-Simon recusava em Comte, e que impulsionou também a separação. Fala-se pouco, enfim, na valorização do sentimento operada por Saint-Simon em conjunto com a revalorização do cristianismo rechaçada por Comte. Este último tendia a uma racionalidade fria e distanciada à qual Saint-Simon explicitamente se opunha, porque a considerava impotente para a mobilização social. E a chave deste conflito está na noção de “positivismo” empregada por Saint-Simon, diferente daquela que se notabilizou a partir de Comte, como bem observa Gurvitch:
“Positivo” e “filosofia” (termos que Saint-simon utiliza por casualidade) têm aqui (...) um sentido muito diferente do que lhes atribui Comte. Em Saint-
Simon, “positivo” quer dizer ativo, imanente, autônomo, e “filosofia” designa o estudo do esforço humano, individual e coletivo ao mesmo tempo, material e espiritual, quer dizer, do esforço humano global. Nos escritos posteriores, este
estudo se chama “ciência do homem”, ou bem “filosofia social”. É o domínio da
sociologia.(GURVITCH, 1970, p.39)
A valorização do sentimento por Saint-Simon não é mero sentimentalismo pessoal na esteira de seu retorno ao cristianismo: é a valorização de um instrumento de mobilização. Em Proudhon o tema do impulso passional e de sua importância reaparece, mas afastado de qualquer defesa do cristianismo ou de outra religião. Reaparece sob o conceito do “absoluto”, mais abstrato e de perfil hegeliano, e também sob a forma de uma aproximação em relação a Fourier. Saint-Simon, em sua fase inicial, em busca da construção de uma lei universal que unificasse as ciências em torno do que mais tarde viria a ser sua “ciência da humanidade”, voltou sua atenção para as forças de atração newtonianas, pensando em aplicá-las ao exame das relações sociais — isto apontava já sua preocupação com o mundo prático e sua busca de forças mobilizadoras da sociedade e dos indivíduos; e sugeria antecipadamente as forças de atração passionais mais tarde focalizadas por Fourier. A busca de forças sociais mobilizadoras no terreno da passionalidade deslocou Saint- Simon da física newtoniana, que talvez servisse para explicar a questão, para o cristianismo, enquanto força efetivamente presente na sociedade e capaz de resultados práticos.
Proudhon adquire seus contornos, nesse contexto, afastando-se do cristianismo de volta em direção a Newton, através da leitura de Fourier, mas sem de fato chegar à física newtoniana (como também sem filiar-se a Fourier). Não é à toa que freqüentemente, em seus textos, o nome de Fourier apareça junto ao de Saint-Simon, como se ambos estivessem envolvido no mesmo caldo geral de pensamento. Proudhon busca os impulsos mobilizadores da sociedade e do indivíduo não no cristianismo, mas na força da atração. Uma força psicológica, mas que também não exatamente a atração tomada de Newton pelos fourieristas, e sim algo presente por detrás de todo e qualquer
sentido de religiosidade (e também não apenas presente no cristianismo, à maneira de Saint-Simon): trata-se da força da atração humana pelo absoluto.
Esse tema — que retoma algo de Saint-Simon depois de atravessar uma certa filtragem fourierista — reaparece referido por Proudhon, conforme se verá, como parte de uma situação trágica que marca os limites e as condições inultrapassáveis do conhecimento humanamente possível. Na verdade a atração pelo absoluto aparece em Proudhon como fonte de erro, de engano e de ilusão, em oposição, justamente, a uma valorização superior da razão, que opera contra a força impulsionadora absolutos (o que lembra Comte).
Mas ao mesmo tempo, a razão só pode operar justamente apropriando-se dessa atração pelo absoluto, utilizando-se portanto da própria fonte do erro, como seu único instrumento de conhecimento possível. Todo conhecimento é, portanto, necessariamente subversivo em relação à religiosidade, é uma subversão do próprio espírito de religiosidade, sediado nessa atração pelo absoluto. Não obstante, a subversão operada pelo saber — infelizmente — não consegue jamais corromper por completo esse impulso religioso, conseguindo apenas desviá-lo, dentro de certos limites, para seus próprios fins, e o saber segue ele próprio sob constante risco de sua contaminação e subversão pela religiosidade latente nele. Abstração esquemática e impulso passional jogam cada qual desempenhando seu papel nessa imagem trágica do esforço intelectual humano, sem a exclusão de uma coisa pela outra.
108. Proudhon, então, parece colher o pensamento de Saint-Simon, mas não apenas diretamente nele, e sim também através de seu discípulo Comte, portanto colhendo esse pensamento já marcado pela formulação comteana mais laica97 e também mais abstrata e esquemática, e por sua
valorização da frieza racional. Mas ao contrário de Comte, que busca claramente uma superação dos conflitos na neutralidade científica, para a qual caminha com suas fórmulas mais abstratas e esquemáticas que as de seu mestre, Proudhon faz da própria abstração esquemática um instrumento de reimersão, engajamento e tomada de posição no seio das condições concretas, polêmicas e conflituosas de que emergiram esses conceitos na história da humanidade e das sociedades, e na biografia dos indivíduos. Essa mesma frieza racional, em Proudhon, sem o comteano distanciamento científico, e conectada pelo contrário a engajamentos e posicionamentos muito claros nos conflitos humanos, sociais, e da psique individual, acaba por assumir um tom freqüentemente chocante e agressivo para seus leitores.
97 Lembre-se que esse traço laico — como bem observa Cuvillier (cf. §___) — tem em Proudhon uma fonte para ele maior do que Comte, que é Kant.
Deste ponto de vista, pode-se dizer que, se há algum saint-simonismo em Proudhon — e logo se vê que de fato há — não é no entanto um saint-simonismo pré-comteano, porque o que ele opera é, pelo contrário, um retorno pós-comteano a Saint-Simon, em que o empenho saint- simoniano de integração do pensamento ao contexto prático acaba por ser radicalizado.
Mas por que então Proudhon não menciona direta e abertamente sua referência a Comte, que na altura da publicação de Criação da ordem (1843) já está plenamente afastado do pensamento de Saint-Simon e tornou-se um pensador independente e de renome? Possivelmente pelas mesmas razões pelas quais também não faz referência a Saint-Simon, ou pelo menos não individualmente, como pensador com idéias próprias, mas apenas entre outros autores ou como o primeiro nome, nome fundador, da escola saint-simoniana. Em outras palavras, sempre que lhe cita o nome, Proudhon está praticando um de seus deslizamentos para algum caldo mais geral de pensamento, no qual Saint-simon estaria inserido, junto a esses outros autores.
Assim, no capítulo I, a primeira aparição desse nome é, por exemplo, em uma crítica em nota de rodapé aos saint-simonianos, por formarem um sacerdócio e falarem aos sentimentos religiosos dos franceses em uma época em que a nação já pedia educação e um discurso dirigido à inteligência — a certa altura nessa nota, Proudhon os caracteriza como “a seita de Saint-Simon” (PROUDHON, 1843, tomo I, p. 64-65). As frases em que esse nome aparece em Criação da ordem a partir daí, são: “os grandes sistemas de filosofia alemães, e entre nós as ousadas sínteses do Sr. Azaïs, de Lamennais, Saint-Simon, Fourier” (tomo I, p. 123); e mais adiante, no qu parece ser o mesmo caldo de associações, “Saint-Simon, Azaïs, e depois deles Fourier, explicaram tudo pela atração (ou pela expansão, que não é outra coisa que a atração tomada pelo avesso)” (tomo I, p. 142). Já no Capítulo III, que é objeto de exame principal desta pesquisa, Proudhon critica os “sectários” por sempre glorificarem seus chefes:
Glória a Jesus Cristo, porquem a salvação foi dada ao mundo; glória a Saint-Simon, por quem o caminho foi realizado; glória a Fourier, por quem a lei social nos é revelada! Quem ainda gritará: Glória ao senso comum, que não adora ninguém? (PROUDHON, tomo I, p. 173)
E é a única aparição do nome de Saint-Simon no capítulo. Depois, nos capítulos IV, V e VI, o nome reaparece em mais duas passagens: “o que contêm de melhor as doutrinas de Saint-simon, de Fourier e dos comunistas deriva de lei de Smith98” (tomo II, p. 18); e finalmente uma em que
Proudhon diz “sob qualquer ponto de vista do qual se aborde o problema social...” (tomo II, p. 157), e antes de terminar o que tem a dizer quanto a isto, desfila até o fim do parágrafo uma longa série
nomes representativos do que seriam diferentes pontos de vista possíveis, para dizer que seja este o ponto de vista, seja aquele, o resultado será sempre o mesmo — e entre esses nomes, encontramos “Saint-simon e Fourier” juntos de um lado como representantes de um desses pontos de vista, que concentra a atenção na questão do trabalho; Platão, Fénelon e Rousseau juntos como representantes de outro, que concentra a atenção na questão da educação.
109. A isto limitam-se as menções ao nome “Saint-Simon” em Criação da ordem. E isto não é suficiente para desequilibrar o que parece ser o peso do foco de atenção de Proudhon, de Comte para Saint-Simon. Ademais, em uma edição posterior, de 1849, Proudhon acrescentou algumas notas de rodapé esclarecendo diferenças de terminologia entre seus três estágios de desenvolvimento intelectual e os três estados da lei comteana: “A filosofia, assim entendida, é o que o Sr. Augusto Comte chama metafísica” (tomo I, p. 26); “A metafísica é o que o Sr. Augusto Comte chama filosofia positiva” (tomo I, p. 28); e “já acentuamos que o que o autor entende por metafísica é a mesma coisa que o Sr. Aug. Comte chama filosofia positiva” (tomo I, p. 127), e Proudhon ainda acrescenta que “esta metafísica corresponde, no fundo, ao que os alemães chamam lógica99”.
O que conduz por outro lado a detectar uma nítida preferência de Proudhon por Saint-Simon — que de qualquer modo não diminui a influência do debate contra Comte sobre sua produção — são as menções a esses autores nas correspondências de Proudhon e nos seus cadernos de notas pessoais. Georges Gurvitch, por exemplo, encontra em meio às cartas pessoais de Proudhon a seguinte passagem:
A leitura deste animal de Augusto Comte, o mais pedante dos sábios, o mais fraco dos filósofos, o mais vulgar dos pensadores, o mais insuportável dos escritores, me subleva (PROUDHON, Correspondência, tomo V, p. 7100)
Vale lembrar entretanto que, mesmo em sua correspondência e em seus diários de notas pessoais, se os ataques de Proudhon a Comte, quando explícitos, são consideravelmente mais contundentes e agressivos, ele não deixa de atacar também Saint-Simon — ainda que de maneira bem mais amena, preferindo deixar a agressividade para os seguidores, os auto-intitulados “saint-simonianos” de sua época. Pode-se citar como contra-peso à passagem anti-comteana citada por Gurvitch passagens em que o próprio Proudhon se apresenta alinhado a Comte, como este recorte de uma lista de realizações pessoais em seus cadernos de notas pessoais:
99 A referência aos “alemães” e ao que chamam de “lógica” dirige-se aos jovens hegelianos, e à Ciência da lógica de Hegel — portanto, mais precisamente, à dialética. Proudhon, como se vê, não pretende que seus termos para os três estados sejam rigorosamente sinônimos daqueles que Comte utilizou. É preciso lê-lo nas entrelinhas. Apesar das aparências, não pretende que a divergência seja estritamente terminológica: as próprias diferenças terminológicas em relação a Comte já têm, por si sós, alguma coisa a dizer.
100Cf. GURVITCH, Georges. Los fundadores franceses de la sociologia contemporanea: Saint-Simon y Proudhon. Buenos Aires: Nueva Visión, 1970, p. 27 (Segunda conferência).
Quem proclamou a Anarquia? Fui eu.
Quem negou a Religião e a Filosofia? Ainda eu, mas com A.Comte, Feuerbach etc.
(PROUDHON101, Carnet nº 1, p. 103 do original)
Poderia-se ainda mencionar uma breve nota de Proudhon no 3º Caderno de notas pessoais de Proudhon, na qual procura aplicar a diferentes casos seu conhecido mote “ a propriedade é o roubo”. Nessa passagem, lê-se: “Roubo por charlatanismo — St-Simon, Fourier, Cabet etc” (PROUDHON102, Carnet nº 3, p. 64 do original). A passagem sugere que Proudhon planejava taxar como charlatanismo o procedimento utopista praticado por esses autores. Por outro lado há, nas páginas 52 e 53 do seu 2º Caderno (segundo a paginação do original), uma crítica mais extensamente desenvolvida, em tom racional e argumentativo, contra Emilio Maximiliano Littré, o principal discípulo de Comte e maior responsável pelos detalhes da transposição do positivismo comteano para o terreno político. Se as críticas de Proudhon aos saint-simonianos não atingem necessariamente Saint-Simon, não se pode dizer o mesmo de Littré, que só se afastou de Comte na fase final deste último, com o desenvolvimento da Igreja Positivista, que Littré julgou ser produto de doença mental de seu mestre Comte. A crítica proudhoniana se dirige aos textos de um Littré ainda firmemente ligado a Comte.