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Data Collection and Evaluation

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3.5 Data Collection and Evaluation

101. Do primeiro contato direto com os dois grossos volumes90 de Criação da ordem de

Proudhon, folheando e examinando o índice e os inícios dos capítulos, já se depreende uma divisão histórica da evolução intelectual humana em três grandes etapas. As duas primeiras, uma etapa dominada pela religiosidade e uma em que a religião é substituída pela filosofia, são a matéria dos dois primeiros capítulos. O terceiro capítulo apresenta o método de Proudhon, com uma teoria do conhecimento subjacente a ele, como ferramenta e preparação para uma entrada mais sólida na

90 Trabalha-se aqui com PROUDHON, P.-J. De la création de l'ordre dans l'humanité (1843). Antony: Tops/H. Trinquier, 2000. Edição em dois volumes (1º vol 303 p., 2º vol. 317 p.) .

terceira fase, que estaria se iniciando no século XIX: a fase científica da humanidade. Tudo isso é bastante familiar para quem conhece a história do pensamento no século XIX: trata-se de um tema fundamental do positivismo. Armand Cuvillier, em sua Introdução à edição Marcel Rivière de Criação da ordem91, reconhecendo nesta obra teses essenciais do conjunto da filosofia de Proudhon,

aponta em primeiro lugar o positivismo como uma de suas principais fontes.

Há uma a princípio para com a qual é difícil determinar a dívida de Proudhon: são os escritos de Augusto Comte. Já tivemos ocasião de assinalar muitos pontos de convergência das idéias de Proudhon com aquelas do fundador do positivismo. Mas há sobretudo dois pontos sobre os quais essa convergência se manifesta. Há primeiramente o semi-agnosticismo que declara desde as primeiras páginas e que forma a base de toda a “metafísica” do autor. (...) Há, em segundo lugar, a noção que Proudhon faz de uma evolução intelectual da humanidade. (CUVILLIER, 1927, p. 17)

Segundo esse comentador (em seqüência à citação acima), à parte as diferenças de terminologia é possível dizer — e muitos comentadores o dizem — que o que há, no livro de Proudhon, é “uma exposição” da lei dos três estados de Augusto Comte. Essa lei reaparece em diversos textos de Comte em formulações que não apresentam nenhuma variação essencial, apenas maior ou menor detalhamento. Em seus Opúsculos de filosofia social, por exemplo, a encontramos já no terceiro opúsculo, de maio de 1822, Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade92.

Pela própria natureza do espírito humano, cada ramo de nossos conhecimentos está necessariamente sujeito, em sua marcha, a passar sucessivamente por três estados teóricos diferentes: o estado teológico ou fictício, o metafísico ou abstrato, e, enfim, o científico ou positivo. (COMTE, 1822, p. 82)

Seguem-se, no texto citado, as descrições de cada um desses estados, que aqui serão examinados mais adiante, em comparação com o tratamento dado a eles por Proudhon. Saiba-se apenas, desde já, que esses estados — ou estágios — sucessivos de desenvolvimento intelectual indicam a predominância de uma dessas três condições sobre as outras duas, e que não é com exclusividade que cada estado se manifesta em sua fase de domínio. Saiba-se também que a lei dos três estados vale tanto para o indivíduo quanto para as sociedades.

102. Segundo Cuvillier, a aparente reexposição da lei dos três estados, na Criação da ordem de Proudhon, que na verdade ocupa inteiramente os dois primeiros e extensos capítulos do

91 Cf. CUVILLIER, A. Introdução, in PROUDHON, P._J. De la création de l’ordre dans l’humanité ou Principes

d’organization politique. Paris: Marcel Rivière, 1927. Tradução J. Borba (especificamente para esta pesquisa).

92 Cf. COMTE, A. Opúsculos de filosofia social, 1819-1828. Porto Alegre: Globo/São Paulo: EdUSP, 1972. Tradução de Ivan Lins e João Francisco de Souza.

livro e parte do terceiro93, tem confundido comentadores e os levado a ligar o autor diretamente ao

positivismo de Comte, o que faz sentido, mas não é muito preciso. Mais cuidadoso quanto a isto, Cuvillier lembra que a lei dos três estados de fato já está formulada por Comte em um opúsculo aproximadamente duas décadas94 anterior à publicação de Criação da ordem (em 1843). Mas

lembra também que Comte originalmente assina esse opúsculo simplesmente como Um discípulo de Saint-Simon, e que Proudhon,“tão atento a indicar suas referências” (p.18), não cita nem o nome nem as obras de Comte na primeira edição de Criação da ordem (em 1843), e só irá citá-lo em notas de editor acrescentadas à segunda edição (de 1849). O que Cuvillier sugere é que a aparente referência ao positivismo de Comte, embora forneça uma hipótese razoável, é apenas aparente, e esconde na verdade um elo teórico de Proudhon com o mestre de Comte, o socialista utópico Saint- Simon.

(...) as harmonias que se podem pôr em relevo entre seu pensamento e aquele do chefe da escola positivista, devem muito mais, sem dúvida, à influência difusa do saint-simonismo que a uma ação direta e pessoal do próprio Augusto Comte.

No que concerne ao agnosticismo de Proudhon, uma outra influência basta para explicá-lo: é a de Kant. (CUVILLIER, 1927, p. 18-19)

Cuvillier reconhece que a influência kantiana também é difusa, difícil de determinar com precisão, embora forte, e as vagas referências de Proudhon a Kant são elogiosas, mas ao mesmo tempo, críticas. As outras duas principais fontes proudhonianas apontadas por Cuvillier são, do ponto de vista filosófico, Hegel (CUVILLIER, p. 19-20), o socialista utópico Fourier (p. 21-24) — embora mencionado por Proudhon mais crítica do que elogiosamente — e “numa outra ordem de idéias” , mais precisamente no plano econômico (p. 25), Blanqui e Adam Smith. Ainda segundo Cuvillier, a dialética hegeliana, junto a essas outras influências, age sobre as concepções expostas no livro de Proudhon “de maneira tão real, mas tão vaga quanto a crítica95 kantiana” (p.19).

Tais referências indicadas por Cuvillier são apenas as mais evidentes, e aparecem na maior parte dos comentadores, embora muitos se mostrem desatentos quanto à presença saint-simoniana entre elas. A novidade é o possível deslocamento de Proudhon, em face dessa presença, para mais longe de Comte. Entretanto as próprias observações de Cuvillier quanto ao modo como Proudhon trata os autores a quem faz referência sugerem, por outro lado, a necessidade de maior cuidado ao

93 Na edição Tops/H. Trinquier, os três primeiros capítulos ocupam o primeiro volume.

94 Cuvillier menciona um opúsculo de Comte de 1824, mas conforme evidenciado em citação dois parágrafos acima, a formulação é encontrada em Comte já em 1822. Isto não desabona a afirmação de Cuvillier, que é a de que os comentadores teriam uma justificativa razoável para afirmarem Proudhon como comteano, porque ele poderia ter lido Comte bem antes da preparação de Criação da ordem.

95 A referência de Cuvillier aqui é à Crítica da razão pura de Kant, que já havia sido lida por Proudhon, segundo carta enviada por ele em julho de 1842 a Tissot, tradutor de Kant para o francês.

apontá-las. Um exame mais atento desse modo de tratamento dos autores pode inclusive conduzir a uma revisão dessas referências.

103. Autodidata sem formação acadêmica, e também sem nenhum gosto pelos cuidados acadêmicos, na verdade Proudhon freqüentemente aponta de um só jato, em um mesmo parágrafo, e sem completa indicação bibliográfica, toda uma lista de nomes e obras que constituem apenas referências de segundo plano, sem grande importância para ele, e os comentadores procuram detectar entre esses nomes quais são aqueles que em outros pontos aparecem tratados isoladamente, ainda que de maneira superficial, ou quais os que parecem de fato vinculados a algo mais no pensamento proudhoniano. Descuido de Proudhon? — embora costume ser essa a avaliação dos pesquisadores, não há nada que indique isto, pelo contrário. Proudhon se mostra em todas as suas obras um autor minucioso, metódico e bastante auto-crítico, com elevado nível de exigência quanto a seus próprios procedimentos, e generoso nas referências aos que de algum modo contribuíram para a formação de seu pensamento — e tais traços característicos, muito evidentes no pensamento de Proudhon, tornam essa aparente ausência de rigor no trato de suas fontes bastante estranha para a maioria dos comentadores.