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8.2 Future Work
126. Mas em nada disto se encontra, como Cuvillier sugere, uma herança diretamente saint- simoniana nos três estados — ou estágios — de desenvolvimento intelectual apresentados por Proudhon em Criação da ordem. Portanto, é preciso de fato recorrer às relações de Proudhon diretamente com o pensamento comteano para compreender o que se passa aqui.
127. A lei dos três estados pode ser encontrada em diferentes obras de Comte, e na verdade já está claramente formulada, por exemplo, em um texto anterior àquele de 1824 mencionado por Cuvillier, e do qual Proudhon tinha pleno conhecimento provavelmente já antes de redigir sua Criação da ordem. Esse texto de Comte, datado de maio de 1822, se chama Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade, e é o terceiro de uma série de “opúsculos” sobre diferentes assuntos.
Pela própria natureza do espírito humano, cada ramo de nossos conhecimentos está necessariamente sujeito, em sua marcha, a passar sucessivamente por três estados teóricos diferentes; o estado teológico ou fictício, o metafísico ou abstrato, e, enfim, o científico ou positivo. (COMTE, Opúsculos de
filosofia social, Terceiro Opúsculo, p. 82)
Como primeiro posicionamento no seio dos debates filosóficos, então, o livro de Proudhon cujo exame se inicia aqui parece colocar-se no campo da lei teórica dos três estados formulada por Augusto Comte a partir de Saint-Simon. Mas não é especificamente em relação a esses autores que Proudhon se posiciona e se movimenta, e sim em relação a um certo caldo de pensamentos comuns aos dois no que diz respeito a essas três etapas de desenvolvimento. Para todos os efeitos o campo conceitual formado pela lei dos três estados, tal como considerada por Proudhon, será tratado, neste ponto de partida, como um mesmo campo conceitual referido a ambos, conforme o diagrama:
Mas para determinar os diferenciais de Proudhon em relação a essa noção, é preciso primeiro considerá-la com maior detalhamento, a fim de detectar os prós e contras dele em relação a cada parte dela — uma vez que não a acata simplesmente em bloco, tal como a encontrou já formulada, mas procura relê-la criticamente, e reformulá-la. Neste sentido, deve-se antes de qualquer coisa considerar as divisões mais evidentes que essa noção apresenta, ou seja, os seus três estados, como sub-regiões diferenciadas e interligadas, no interior dessa noção geral, de modo que o ponto de partida é melhor representado em um diagrama assim:
Diagrama 2.1
Mancha cinza: noção geral dos 3 estados,
colocada por A. Comte (AC) e St.-Simon (SS). A noção tem contornos determinados, mas que ainda não estão esclarecidos. Seu esclarecimento pode vir a dividi-la, separando o que é de Comte e o que é de St-Simon. Por ora, ela figura ainda como um “caldo” de pensamento indefinido e comum aos dois. Seta e círculo com “Pr”: primeiro movimento de Proudhon em seu livro, marcando posição no no campo definido por essa noção geral. Sem os diferenciais de Proudhon em relação a ela, o fato de marcar posição situando-se em seu interior ainda é, por enquanto, apenas hipotético.
Pr
Esse campo conceitual em que Proudhon circula pode ser considerado inicialmente, sem maiores problemas, como um caldo — se bem que um caldo agora já subdividido e organizado em três sub-caldos interligados — comum a Comte, aos seguidores e Comte, como Littré por exemplo, e a Saint-Simon; mas já não tão claramente os seguidores oficiais de Saint-Simon. Estes, liderados por Enfantin e, como já dito, orientados por um espírito fortemente religioso, fizeram praticamente perder o sentido o caráter científico atribuído à última etapa.
128. A rigor, em Saint-Simon os contornos de cada um desses estados estariam menos determinados, e seus nomes não estariam definidos tão firmemente como em Comte. Mas afora isto, eles aproximadamente coincidem: essa terminologia não seria inviável para Saint-Simon. Suas divergências aparecem no momento de precisar esses contornos, especialmente em relação ao terceiro e ao primeiro estados, pois como já observado, para Comte o cristianismo se encontra no primeiro estado (“teológico ou fictício”), junto às demais religiões tradicionais, enquanto para Saint-Simon, a clara determinação dos contornos desses estados daria lugar ao cristianismo no terceiro deles, como parte essencial de uma sociedade científica e positiva.
A caracterização de cada um desses três estados por Augusto Comte, na primeira aparição deles (maio de 1822), no terceiro de seus Opúsculos de filosofia social, intitulado Plano dos trabalhos científicos para reorganizar a sociedade, é tão clara, precisa e sucinta, que mais vale
Pr
3 Estados (AC/SS) Teológico ou fictício Científico ou positivo Metafísico ou abstrato Diagrama 2.2A terminologia aqui é a de Comte. Cada um dos 3 estados constitui uma noção de contornos determinados mas ainda não esclarecidos (portanto um caldo de pensamento particular) no interior do caldo geral. As relações entre eles
(traços mais espessos que ligam o 1º ao segundo e o 2º ao 3º) também não estão definidas ainda.
Assinalada no caldo maior, a posição de Proudhon diz respeito ao conjunto do que está nesse caldo, portanto a cada um dos 3 estados e a suas relações.
apresentá-la diretamente, embora em uma citação um pouco longa, do que tentar resumi-la. Comte oferece um resumo de um parágrafo para a caracterização de cada um desses estados — o teológico ou fictício, o metafísico ou abstrato e o científico ou positivo:
No primeiro, idéias sobrenaturais servem para ligar o pequeno número de observações isoladas de que se compõe então a ciência. Em outros termos, os fatos observados são explicados, isto é, vistos a priori de conformidade com fatos inventados. Esse estado é necessariamente o de qualquer ciência no seu berço. Por mais imperfeito que seja, é o único modo de ligação possível nessa época. Fornece, por conseguinte, o único instrumento por cujo intermédio se pode raciocinar sobre os fatos, mantendo a atividade do espírito que, acima de tudo, tem necessidade de um ponto de ligação, seja qual for. Numa palavra, é indispensável para permitir que a ciência progrida.
O segundo estado é unicamente destinado a servir de meio de transição do primeiro para o terceiro. Seu caráter é bastardo, liga os fatos segundo idéias que não são mais de todo sobrenaturais, mas não são ainda inteiramente naturais. Em uma palavra, essas idéias são abstrações personificadas, nas quais o espírito pode ver, à vontade, ou o nome místico de uma causa sobrenatural, ou o enunciado abstrato de uma simples série de fenômenos, segundo o estado teológico ou científico de que mais se aproxima. Esse estado metafísico supõe que, tornando-se mais numerosos, os fatos ao mesmo tempo se tenham aproximado de acordo com analogias mais amplas.
O terceiro estado é o modo definitivo de qualquer ciência, não se destinando os dois primeiros senão a prepará-lo gradualmente. Os fatos se ligam então segundo idéias ou leis gerais de ordem inteiramente positiva, sugeridas ou confirmadas pelos próprios fatos, e que muitas vezes mesmo não são mais do que simples fatos bastante gerais para se tornarem princípios. Trata-se, sempre, de reduzi-los ao menor número possível, mas sem criar qualquer hipótese que não possa, algum dia, ser verificada pela observação, considerando-os, em todos os casos, apenas como um meio de expressão geral para os fenômenos.
(COMTE114, p. 82-83)
É possível que seja necessário, mais adiante, diante dos prós e contras de Proudhon em relação a cada um deles, detalhar esses contornos que separam os dois. Mas antes, há pelo menos uma outra referência proudhoniana indireta a considerar, tão nítida quanto a referência a Comte ou a Saint-Simon, e que escapou a Cuvillier — como aliás à maioria dos comentadores mais recentes de Proudhon — mas que não escaparia a um leitor da época em que Criação da ordem foi publicado: a referência ao ecletismo, filosofia de Victor Cousin. O ecletismo de Cousin, entre outras coisas, se caracteriza justamente por uma marcante oposição ao positivismo comteano — mediada aliás por uma forte influência hegeliana, tendo sido o próprio Cousin tradutor e amigo pessoal de Hegel, e tendo mantido diálogo também com outros idealistas alemães, especialmente Schelling. A filosofia de Cousin apresenta também três estágios de desenvolvimento intelectual do homem, mas os formula de modo diferente, e com tempero fortemente hegeliano.
129. A celebridade de Comte, e menos firmemente a de Saint-Simon, chegou até os nossos dias. A de Cousin diminuiu com o tempo até fazê-lo um autor quase esquecido. Assim, para os comentadores, que passaram a atentar para essas questões tardiamente, Proudhon à primeira vista parece apenas apropriar-se da lei dos três estados da dupla Comte/St.-Simon e traduzi-la, por si mesmo, nos termos da dialética hegeliana, pois atribui a elas um movimento similar ao que se exprime nas relações entre os três estágios da dialética de Hegel. Faz o segundo estado (filosófico) emergir do primeiro (religioso) em oposição a ele, como sua antítese, e parece caracterizar, finalmente, o terceiro estado (científico) como uma síntese dos dois primeiros. Segundo a compreensão geral dos hegelianos da época, era aproximadamente essa a fórmula triádica da dialética de Hegel: o estágio da afirmação; o da sua negação; e o da negação da negação, na qual emerge afinal uma única e mesma totalidade que é a síntese ambas, afirmação e negação. Até mesmo o caráter “afirmativo” do primeiro estágio e “negativo” do segundo parece presente nos “três estados” proudhonianos. Não se percebeu nisso também uma analogia com os três estágios — já “hegelianizados” — de Cousin.
Assim, a diferença que caracteriza especificamente a proposta proudhoniana em relação à de Comte parece estar, aos olhos dos hegelianos — especialmente os alemães e de filiação socialista, que constituíam então a maioria dos leitores mais simpáticos a Proudhon, e formaram a base de toda uma tradição de leitura e interpretação do pensamento proudhoniano — justamente nessa aproximação em relação a Hegel. Uma vez que Proudhon explícita e declaradamente não é e não pretende ser hegeliano — embora simpatize de um modo geral com essa corrente de pensamento e não deixe de procurar alguma aproximação com ela — tal linha de interpretação de seus textos, como se fossem os de um hegeliano, habitualmente se faz acompanhar por uma indisfarçável ou até mesmo explícita decepção com Proudhon, como se ele fosse um mau leitor de Hegel, conforme avaliação firmada sobretudo por Marx.
130. Não é, na verdade, em relação a Hegel que Proudhon toma posição, em sua reformulação dos três estados, mas em relação ao hegelianismo de Cousin — autor que seria na época referência natural e obrigatória para o desenvolvimento de um futuro hegelianismo francês que pretendesse ter características próprias em face do hegelianismo alemão.
Segundo Antonio Paim115, “Cousin estava ligado ao grupo do chamado liberalismo
doutrinário” (p. 15). Avesso tanto ao socialismo quanto à monarquia absoluta, o grupo defendia o governo representativo, eleito, de caráter liberal — o que pode sugerir uma postura de centro-
115 Cf. PAIM, Antonio. A escola eclética. Londrina: UEL/CEFIL, 1996. (Volume IV dos Estudos complementares à
esquerda, naqueles tempos em que a ultra-direita voltava-se para a monarquia de direito divino. A sugestão é ilusória. É preciso lembrar que a defesa da igualdade de direitos eleitorais era uma bandeira socialista. Para os liberais, um posto no governo significava uma responsabilidade que só compreendiam aqueles que tinham propriedades sobre as quais exerciam essa responsabilidade, especialmente a propriedade de bens de produção — terras, unidades industriais — coisa que, segundo a suposição dos liberais, implicava a responsabilidade pelos cuidados com a propriedade, e pelo trabalho da mão de obra envolvida. Portanto, direito à candidatura dependia de uma certa margem de renda, abaixo da qual estava vetado. O mesmo valia, embora com uma margem mais baixa, também para os eleitores. Os posicionamentos políticos de Cousin, que chegou a ser membro do governo, estava enlaçados ao de um importante político liberal conservador: François Guizot. Esse grupo político, forte durante o regime de Napoleão Bonaparte, regime considerado ainda herdeiro da Revolução Francesa, havia sofrido perseguições durante a restauração da monarquia, e retornado depois ao poder.
Com a derrubada de Napoleão, chegaram ao poder os ultras, facção empenhada na restauração do quadro anterior à Revolução. Entre suas primeiras vítimas encontram-se os liberais doutrinários. Estes, entretanto, acabariam sendo guinados ao poder com o movimento revolucionário de 1831, sob a liderança de François Guizot (1787-1874). Nesse período Cousin ascende à condição de Ministro da Instrução Pública e empreende a reforma da Universidade, conseguindo soerguê-la da situação de desprestígio em que se encontrava. (PAIM, p. 15-16)
O movimento de 1831 era de caráter constitucionalista, e havia conseguiu se fazer valer em 1830, inaugurando um regime de monarquia constitucional sob o rei Luís Felipe, conhecido como “rei burguês”. Segundo Cesar Cantu116, “o reinado de Luís Felipe foi uma aplicação política do
ecletismo que então dominava na filosofia” (vol. XX, Livro décimo oitavo, p. 5). Cousin foi membro do governo ao lado de Guizot, que ocupava o cargo de Primeiro Ministro, no qual se mostrou extremamente conservador, enfrentando, junto ao rei, constante resistência crítica da opinião pública, e lutando de um lado contra os ultra-direitistas, de outro contra os socialistas e demais republicanos, em nome do restabelecimento da ordem.
Um dos momentos mais violentos dessa luta foi o período de dezembro de 1831 a julho de 1832, em que a duquesa de Berry tentou revolucionar a Vendéa, os republicanos tumultuaram em Lyon, em Grenoble e em Paris, e os socialistas ativaram a sua propaganda na imprensa e nos clubs; vencidos esses inimigos no terreno da força, o ministério de 11 de outubro de 1832, que reuniu nos seus conselhos Guizot e Thiers ao lado do duque de Broglie, encontrou mais bonançosa
116 CANTU, Cesar. História universal. Rio de Janeiro: Empresa Literária Fluminense, s/ data – edição reformada em conformidade com o estado atual das ciências históricas, acrescentada até o ano de 1879, ampliada na parte relativa a Portugal e ao Brasil por Antonio Ennes.
a situação interna, e aplicou-se a prevenir novas tempestades reprimindo os facciosos que as sopravam e armando o poder com modos mais eficazes de proteger a ordem. (CANTU, vol. XX, Livro décimo oitavo, p. 5)
Com a ascensão da influência de Thiers, conservador mais moderado que Guizot — e outro adversário direitista de Proudhon — emergiu uma crescente mobilização em diversos setores do governo no sentido de reformas eleitorais que ampliassem o quadro dos cidadãos com direito de voto. Com a saída de Thiers em 1840, devido a desentendimentos de ordem militar com as diretrizes do rei, Guizot voltou à posição de maior força que tinha originalmente, e passou a fazer agressiva oposição a essa mobilização que pedia reformas eleitorais, que culminou com a franca repressão aos organizadores do movimento. Mas os anseios por reforma eleitoral não se aplacaram, e pelo contrário, ampliaram-se e começaram a radicalizar-se. É nesse clima que se publica (em 1843) a Criação da ordem de Proudhon. Persistia ainda a resistência do ministério Guizot, quando anos depois, em 1846, o mesmo conservador Thiers (de volta às atividades políticas desde 1844), em uma seção parlamentar que ficou famosa, chegou a exclamar: “Estaremos, pois, reduzidos a não ter senão a ficção do governo representativo? Deviam ter-nos dito isso em julho de 1830!” (CANTU, vol. XX, Livro décimo oitavo, p. 15)
Além de aliado ao filósofo Cousin, Guizot era também um teórico de renome: historiador e de certo modo sociólogo, conforme a nova proposta de Comte, mas avesso tanto aos excessos cientificistas do mesmo Comte quanto às desatenções deste no campo historiográfico, procurou repensar a ciência do social a partir de uma integração maior com a história, adotando a seu modo o “ecletismo” — filosofia anti-positivista defendida por seu colega de ministério, Cousin. Guizot extraiu justamente do hegelianismo “eclético” de Cousin uma teoria da representação política que seria a dominante entre os liberais doutrinários, e com a qual justificava essa resistência contra as reivindicações de reforma eleitoral. A representatividade política, segundo essa linha de pensamento, não tinha qualquer relação com democracia, e sim com a representação da razão, dos ditames racionais em vista do objetivo supremo de manter a ordem em condições de liberdade que fossem conformes com os princípios liberais. A representatividade, neste sentido, era um produto natural, no campo político, do terceiro estado de desenvolvimento intelectual apontado por Cousin, e significava uma síntese dialética entre a liberdade e a ordem — esta última compreendida como necessariamente conectada à idéia de autoridade. Portanto, a repressão aos ultra-direitistas, de um lado, era exigida pela manutenção da liberdade no quadro dessa síntese, e a repressão à esquerda, pela manutenção da ordem.
A liderança “representativa” do equilíbrio mais racional entre liberdade e ordem era considerada, por Guizot, como produto de um reconhecimento espontâneo, por parte da sociedade votante, de que certos homens eram mais capazes, mais competentes para governar. Mas para que o regime eleitoral validasse essa condição de poder, era preciso evitar o voto ignorante, o voto dos “irresponsáveis”, que conduzidos por preconceitos democratizantes, eram capazes de colocar incompetentes no poder apenas para se sentirem presentes ali, e com isso gerar a desordem prejudicial para todos.
Por desordem, Guizot entendia fundamentalmente a situação conduzida cegamente por forças interessadas em defender sectariamente cada qual o seu lado, sem qualquer consideração das demais. Somente o líder competente estaria em condições de agradar parcialmente a todos, de acordo com as possibilidades e as necessidades de manutenção das devidas condições para fazê-lo — segundo o que se poderia talvez considerar uma justificação guizotiana para o argumento da “razão de Estado”. E Guizot apresentava explicitamente seu chefe político, Luís Felipe, o eclético rei burguês que procurava agradar a todos — “corromper” a todos, segundo Proudhon, barganhando com os interesses mais frívolos e menos profundos dos diferentes grupos sociais — como sendo um exemplo claro de líder eficaz. O ideal guizotiano de um governo de líderes eficazes na condição de “representantes” conduzia na verdade a uma crítica da democracia, e à defesa de uma aristocracia da competência, delineada de maneira a traduzir-se muito naturalmente no regime monarquista constitucional, capaz de evitar os arriscados excessos democráticos de um regime eleitoral cujos critérios, sem o contra-peso da autoridade monárquica, poderiam ser sempre distorcidos em favor do voto ignorante do populacho — do qual a figura de Proudhon, naturalmente, era uma das representações mais exageradas e caricatas.
131. Cousin, parceiro político e em certa medida mentor intelectual de Guizot, era, portanto, um intelectual politicamente de direita (ainda mais claramente que Comte). Liberal e constitucionalista, não chegava ao extremo da monarquia absoluta, mas membro ativo do governo do rei Luís Felipe ao lado do próprio Guizot, foi um homem influente na área de educação, pondo em prática suas idéias a respeito. Era por sua influência que se faziam valer, na França, os principais critérios vigentes para o desenvolvimento das instituições e práticas acadêmicas no ensino e na pesquisa em filosofia. E foi sua luta pelo estabelecimento de padrões acadêmicos em filosofia o que o celebrizou e o fez entrar para a História, mais do que os detalhes de suas teorias. No entanto, elas eram coerentes com essa luta, e davam-lhe as justificações e o estofo teórico de que ela necessitava.
Cousin concebia a história da filosofia como encadeada segundo uma necessidade lógica intrínseca, parcialmente captada e representada em cada teoria filosófica particular, de modo que
todas as filosofias tinham a sua participação — maior ou menor — no esclarecimento da estrutura lógica global da qual faziam parte, estrutura dotada de coesão e unidade. Em vista disto, os pontos de divergência mais gerais de Proudhon podem desde já ser detectados a partir de seu forte pluralismo, e de seu empenho, já observado neste capítulo, no sentido de arrastar os intelectuais acadêmicos para o reconhecimento das conexões de suas teorias com o contexto extra-intelectual — social, político e econômico.
132. A concepção cousiniana — na esteira de Hegel — é a de um desenvolvimento histórico da filosofia a partir das necessidades de uma lógica que lhe é interna, independente de fatores não- filosóficos presentes na vida social. Segundo Paim: