Acreditamos ser necessário distinguir continuidade de correferencialidade, mesmo cientes de que propiciar a continuidade referencial é uma característica dos processos anafóricos.
A propriedade da correferência é intrínseca às anáforas diretas e é o único traço que as distingue das anáforas indiretas. Ao passo que as primeiras realizam retomadas de um mesmo objeto de discurso, para proceder às recategorizações, garantindo a progressão referencial, as últimas remetem a outros objetos de discurso expressos no cotexto ou a pistas contextuais de qualquer tipo. As anáforas indiretas demandam, para sua interpretação, tanto conteúdos fornecidos pelo contexto quanto informações de conhecimentos dos interlocutores, e, assim, não estabelecem relação de correferência com nenhuma entidade do texto (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014).
Em seu processo referencial, as anáforas indiretas introduzem um novo objeto de discurso, contudo, não são consideradas como introdução referencial, pois fazem remissões, por inferência, a objetos de discurso já inseridos no texto. Esse processo de remissão é o que Marcuschi (2005, p.59) denomina “continuação da relação referencial global”.
Para explicar essa dupla atuação das anáforas indiretas, Marcuschi (2005) estabelece que a) nas anáforas indiretas não ocorre retomada de referentes, mas
sim uma ativação de novos referentes, e que b) as anáforas indiretas têm uma motivação ou ancoragem no universo textual. De acordo com esse autor, as anáforas indiretas consistem em “uma estratégia de ativação de referentes novos e não uma reativação de referentes já conhecidos, o que constitui um processo de referenciação implícita” (MARCUSCHI, 2005 p. 52).
Assim, o processo de interpretação das anáforas indiretas exige do interlocutor um maior grau de inferência, que o leva a uma busca mais intensa dos conhecimentos compartilhados com o produtor do texto e das suas experiências socioculturais para que possa atribuir sentidos ao texto.
O produtor, por sua vez, deve fazer uma projeção e antecipação em relação aos conhecimentos de seu interlocutor para estabelecer um processo referencial de forma indireta que seja acessível ao receptor do texto na produção de sentidos. Assim, é preciso que o produtor de texto faça uma atividade de cálculo para estabelecer o que pode ser deixado em estado lacunoso para o interlocutor.
Marcuschi (2005, p. 85) assinala, contudo, que “não é qualquer coisa que se deixa de especificar, mas o que se supõe ser de fácil preenchimento pelo receptor do texto”. O autor explica que os textos desenvolvem cadeias referenciais ou sequenciam estados de coisas, entidades etc. Essas cadeias são quase sempre lacunosas, por isso exigem conhecimentos comuns, partilhados, contextuais. Dessa perspectiva, as anáforas indiretas podem ser consideradas como “uma estratégia sistemática para suprir lacunas lexicais” (MARCUSCHI, 2005, p. 91).
As anáforas indiretas envolvem, portanto, a atenção cognitiva conjunta dos interlocutores e o processamento local, e não dependem nem da congruência morfossintática nem da necessidade de reativar objetos de discurso já explicitados. Marcuschi (2005) salienta que compreender uma anáfora indireta corretamente é investir em conhecimentos adequados perseguidos no contexto das âncoras oferecidas. Nesse sentido, auferimos ao produtor de texto a responsabilidade de, considerando seus conhecimentos e intenções comunicativas, colocar no texto as âncoras necessárias.
As anáforas indiretas são ricos fenômenos de referenciação e significação que têm motivado diversos trabalhos e pesquisas que propõem diferentes abordagens para esse processo referencial. Podemos resumir essa diversidade em duas visões distintas: uma mais estreita, que se apoia em restrições léxico-
estereotípicas, e outra mais ampla, que não se limita a tais restrições, conforme postula Cavalcante (2011).
Elencamos as abordagens de autores que desenvolveram estudos relevantes, nessas duas perspectivas, para reiterar que as anáforas indiretas constituem oportunidades de reflexão sobre complexas questões semânticas, cognitivas, pragmáticas relativas à linguagem em sua relação com o pensamento e com o mundo. Essas duas perspectivas acarretam diferentes classificações para esse tipo de anáfora.
Kleiber (2001) é um dos autores que defende a visão mais estreita e propõe o conceito de anáforas associativas para as anáforas não correferenciais, o qual abarca apenas as que se restringem a associações de ordem semântico-lexicais e deixa à margem aquelas que requerem algum tipo de inferência.47
Outros, como Schwarz (2000 apud CAVALCANTE, 2011, p. 62), alargam um pouco essa visão mais semanticista ao propor dois tipos de anáforas indiretas: as associativas (conceitualmente baseadas) e as inferenciais (aquelas que exigem percepções da situação enunciativa, informações de conhecimentos culturalmente compartilhados, dados fornecidos pelo próprio desenvolvimento textual etc.).
Há, ainda, os que, como Apothéloz e Reichler-Béguelin (1999, apud CAVALCANTE, 2011, p.63) não fazem divisões e reúnem todas as anáforas indiretas em um só conjunto que nomeiam de anáforas associativas. Alegam que nem a origem da âncora em que se apoia o anafórico indireto nem a forma como ele se manifesta (SN definido demonstrativo, possessivo) são relevantes, o que importa é apenas o mecanismo inferencial envolvido no processo. Esta é também a posição que adotamos em nossa pesquisa, embora tenhamos optado por manter a designação de anáforas indiretas, e não associativas, como propõem esses autores. Esse posicionamento não poderia ser diferente, pois, da perspectiva sociocognitiva e interacional, seria contraditório admitir que um objeto de discurso só se torne acessível por uma associação totalmente estabilizada na língua (considerando relações léxico-semânticas dadas a priori) ou estabelecer que a
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47 Kleiber (2001), a despeito de invalidar as abordagens mais amplas, defende a visão estreita por
considerar que as outras minimizam e, às vezes, ocultam a etapa semântica da operação referencial e constituem categorias de anáforas muito heterogêneas. Propõe-se, portanto, a abordar as anáforas da perspectiva linguística. Da perspectiva semântica mais clássica, a anáfora associativa manifesta- se pelas relações entre as expressões empregadas, a orientação do processo, o tipo de entidades implicadas, as relações associativas autorizadas etc. Em seu estudo, o autor recorre, principalmente, a procedimentos analíticos de exemplos construídos.
associação entre objeto de discurso e anáfora indireta dependa só de conhecimentos muito gerais, e não de informações culturais e dados contextuais partilhados entre os interlocutores. Além disso, mesmo o que consideramos estável, como nossos conhecimentos linguísticos, sofre uma ressignificação e se reconstrói referencialmente nas práticas discursivas (CAVALCANTE, 2011).
Propomos, então, respaldados em Marcuschi (2005), três aspectos que caracterizam as anáforas indiretas: a não vinculação da anáfora com a correferencialidade; a não vinculação da anáfora com a noção de retomada e a introdução de referente novo. Como adverte o autor, esses três aspectos que constituem as anáforas indiretas podem nos levar a pensar que elas contribuem para uma ruptura da cadeia referencial, isto é, podemos passar a considerá-las como uma descontinuidade ou como falta de coerência.
No entanto, o próprio Marcuschi (2005) reitera que os processos anafóricos sempre dizem respeito a continuidades. Ao introduzir novos objetos de discurso, as anáforas indiretas obrigam o interlocutor a buscar uma âncora para solucioná-la, seja ela semântica (lexical), conceitual (cognitiva) ou processual (textual) em que está envolvido algum tipo de inferência. Esse processo inferencial depende de conhecimentos partilhados e de experiências socioculturalmente situadas entre os interlocutores.
Assim, entendemos que as anáforas indiretas inserem no texto novas possibilidades de elos entre aquilo que se quer dizer (propósitos do locutor) e o que se permite como compreensão (atividade inferencial do interlocutor). Estamos convencidos de que as anáforas indiretas são estratégias que conferem à referenciação seu aspecto criativo, tal como sugere Marcuschi (2007).