De acordo com Marcuschi (2011), há uma grande variedade de estudos sobre os gêneros na agenda atual, mas, por ser o gênero essencialmente flexível e
variável, tal como a linguagem, aqueles que privilegiam a forma e a estrutura perdem sua força. O autor ressalta que “assim como a língua varia, também os gêneros variam, adaptam-se, renovam-se, multiplicam-se” (MARCUSCHI, 2011, p. 19).
É exatamente a flexibilidade e a variabilidade dos gêneros que nos permitem investigar entre as situações de comunicação, nas atividades de comunicação verbal institucionalizadas e recorrentes, novos “tipos temáticos, composicionais e estilísticos de enunciados/textos” (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 64).
Da mesma forma, Miller (1984, p.152, apud MARCUSCHI, 2011, p. 19) ressalta que para definir retoricamente um gênero deve-se dar relevância não à forma ou substância do discurso, “mas à ação que é usada para executá-lo”. Nas palavras de Marcuschi (2011, p. 19), o gênero é “uma „ação social tipificada‟ que se dá na recorrência de situações que tornam o gênero reconhecível”.
Assim, consideramos a redação de vestibular um gênero, uma vez que tem como base sequências tipológicas dissertativas e argumentativas, e caráter recorrente nos exames vestibulares que ocorrem anualmente, em diferentes universidades, para avaliar a proficiência escritora de candidatos ao ensino superior. É fato que algumas instituições de ensino superior22, há alguns anos, têm procurado inovar ao propor, em seus exames de vestibular, a redação de gêneros diversos, como carta ou entrevista. No entanto, a maioria das instituições continua solicitando a elaboração de um texto dissertativo-argumentativo, para os quais os estudantes são preparados exaustivamente, sobretudo durante o Ensino Médio.
Cabe ressaltar que, tanto na escola quanto nos cursos preparatórios, o gênero redação de vestibular é trabalhado de forma modelar, como se fosse um tipo de texto, uma construção teórica definida por sua natureza linguística de composição. A nosso ver, essa é uma forma regularizadora e restritiva de lidar com uma prática social de produção escrita, pois não leva em consideração o sujeito/locutor inserido em um lugar social, imbuído de um propósito definido, nem a interação entre os interlocutores e os aspectos de contexto que estão envolvidos nessa situação real de escrita.
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22 A Universidade Estadual de Campinas, que solicitou o gênero carta em uma de suas edições do
exame vestibular, é um exemplo, entre outros, de instituição de ensino superior que se propõe a fazer mudanças em relação às propostas de produção escrita.
Todos esses fatores influenciam o estudante/candidato nas escolhas de ordem linguística, textual e discursiva, quando da elaboração de sua redação. Assim, tomar a redação de vestibular como um gênero contribui para o desenvolvimento da proficiência do estudante/candidato, uma vez que possibilita prepará-lo não só para o exame vestibular, como também para a vida acadêmica. Essa também é a visão de Bazerman (2006), para quem é preciso considerar os gêneros mais como possibilidade de inserção social, de domínio de práticas discursivas, e menos como aprendizagem de formas e estruturas para a comunicação.
De acordo com Pilar (2002)23, ressaltar a relação estreita entre texto e contexto nos leva a entender a redação de vestibular como uma produção textual que procura atender ao objetivo específico de comprovar a competência no uso da linguagem verbal do candidato aspirante à universidade. Ao trabalhar com determinada situação comunicativa para a produção de um texto, precisamos considerar, necessariamente, os interlocutores dessa interação, no caso as duas partes envolvidas na situação comunicativa: o candidato (estudante/produtor) e a banca avaliadora (representada por um professor/interlocutor).
Quanto ao propósito específico dessa produção textual, temos que no
texto produzido no exame de vestibular o candidato deve comprovar sua competência comunicativa por meio da construção de um texto coerente e coeso, adequado ao contexto da prova não só em termos de correção gramatical, mas também em termos do desenvolvimento do tema proposto, sem tergiversações, com vocabulário adequado e com uma tese central sustentada por uma argumentação bem conectada de modo a comprovar que está apto para ingressar no Ensino Superior (PILAR , 2002, p. 162).
Assim, admitimos, juntamente com Pilar (2002), que a redação de vestibular, ao ser considerada um gênero, desempenha uma função em um contexto específico, determinado tanto por um objetivo comunicativo quanto pela interação que se estabelece entre produtor-estudante e professor-interlocutor.
Avançando um pouco mais na proposta de Pilar (2002), com base no aporte teórico que adotamos para definir a noção de gênero, entendemos que as condições
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23 Pilar (2002) considera a redação de vestibular um gênero. Embora diferente, a proposta de Pilar
não é divergente da nossa e aponta para aspectos discursivos que incorporamos em nosso estudo. Assim, procedemos às adaptações e inserções que considerarmos pertinentes e indicamos as colocações da autora que, a nosso ver, convergem para a nossa proposta.
de produção da esfera de comunicação em que os gêneros estão inseridos circunscrevem certos temas que nela podem ser abordados, estilos e formato composicional que podem ser usados.
Dessa perspectiva, situamos o gênero redação de vestibular em uma esfera de atividade educacional, institucional e pública; ele é designado basicamente por uma função e intenção que o caracterizam, ou seja, a exposição do posicionamento do produtor frente a um tema proveniente do cotidiano, geralmente relevante no contexto social e cultural; quanto ao estilo, prescreve o uso da língua em seu registro formal, expresso pela norma culta; quanto à forma composicional, exige a presença de sequências tipológicas dissertativas e argumentativas, que compõem o plano global e têm a função de apresentar, explicitamente, a defesa do ponto de vista do produtor, de forma coesa e coerente, permitindo a progressão temática e a estruturação do texto.
Vale lembrar que a relevância do estilo e da estrutura composicional está em fazer ecoar os sentidos e o tema, dois componentes que “carregam em suas marcas linguísticas e textuais as apreciações valorativas do locutor/autor” (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 94). Desse modo, compreendemos ser essencial levar em conta a imagem que o produtor-estudante tem do professor-interlocutor e a representação que constrói do tema a ser tratado.
Ao considerarmos a relação entre os interlocutores e os papéis que assumem nessa interação, de um lado o professor-avaliador que seleciona e classifica, de outro, o candidato-estudante que se submete à seleção e classificação, é possível identificar no texto, como destaca Pilar (2002, p. 166), “em que medida o autor do texto engaja-se no assunto discutido e de que maneira ele estabelece a relação com o leitor para convencê-lo da validade das opiniões que emite”.
Reconhecer a redação de vestibular como um gênero permite inseri-la nas atividades de produção escrita, no período de escolarização básica, como um instrumento de ação social, uma forma de prática social que decorre da vontade e/ou da necessidade que os sujeitos têm de conquistar novos espaços na sociedade (PILAR, 2002).
Ao incorporar no ensino a redação de vestibular como mais um gênero entre aqueles disponíveis para desenvolver a proficiência escritora dos estudantes abre-se uma nova possibilidade de legitimar discursos e preparar o aluno para enfrentar, de maneira mais efetiva, o processo seletivo que pode definir seu futuro acadêmico e
profissional. Como observam Meurer e Motta-Roth (2002), a vida social contemporânea exige que cada um de nós desenvolva habilidades comunicativas que possibilitem a interação participativa e crítica no mundo de forma a interferir positivamente na dinâmica social.
Entendemos que considerar a redação de vestibular um gênero é uma forma de evidenciar as características sociocomunicativas e discursivas presentes nessa prática de produção escrita rotineira na vida dos estudantes, principalmente nos últimos anos da educação básica.
Essas considerações evidenciam que a abordagem dos gêneros na escola deveria caracterizar-se, como orientam os PCN, por uma sistematização coerente e por uma reflexão sobre os papéis dos interlocutores, sobre os objetivos do texto e sobre as estratégias necessárias para lê-lo/produzi-lo (GOMES-SANTOS et al., 2010, p. 324).
Neste capítulo, tratamos da escrita como atividade humana, que envolve aspectos cognitivos e sociais, e corresponde a uma forma de inserção na sociedade. Dominar a escrita, na sociedade letrada em que vivemos, significa ter competência para participar de esferas de atividade social privilegiadas.
Além disso, delimitamos a perspectiva da qual abordamos a noção de gêneros, os quais revelam sempre uma interlocução, marcada social e historicamente, em uma dada situação de comunicativa. Definimos, ainda, a redação de vestibular como um gênero inserido em uma prática social de linguagem, usual na vida dos estudantes, ao final da escolarização básica.
Do que foi exposto, ressaltamos como pressupostos teóricos essenciais a este trabalho, os fatores contextuais e interacionais que envolvem as práticas sociais de linguagem, efetivadas pelos gêneros, e a perspectiva sociocognitiva imbricada às atividades de escrita.
Dando continuidade à fundamentação teórica, apresentamos a concepção de texto que orienta esta investigação e enfatizamos a característica processual da escrita, que, sempre em contínua construção, depende da interação entre os sujeitos envolvidos e das influências do contexto para propor sentidos e efetivar propósitos determinados.