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As concepções de gênero, de acordo com os estudos que fundamentam este trabalho, apresentam tema, estilo e estrutura composicional como componentes. De modo a ilustrarmos essa afirmação para, em seguida, refletirmos sobre cada um deles, apresentamos, a seguir, o Quadro 1, em que sistematizamos as definições.

O enunciado [o gênero, informação nossa] reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo(temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua, lexicais,

fraseológicos e gramaticais mas também, e sobretudo, por sua construção composicional (BAKHTIN, 2000 [1979], p. 279, grifos nossos).

Os textos organizam-se sempre dentro de certas restrições de natureza temática, composicional e estilística que os caracterizam como pertencentes a este ou àquele

gênero (BRASIL, 1998, p. 23, grifos nossos).

[...] os gêneros ‒ tipos temáticos, composicionais e estilísticos de enunciados/textos, relativamente estáveis ‒ são gerados por diferentes modos de vida e circunstâncias ligadas às diversas esferas/campos de comunicação, que por sua vez estão relacionadas com os vários tipos de atividades humana e determinadas, em última instância, pela organização econômica da sociedade (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 64, grifos nossos).

Usamos a expressão gênero textual [...] para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sociocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica (MARCUSCHI, 2010, p. 23, grifos nossos).

Quadro 1 - Concepções de gênero

Ratificamos que os três componentes ‒ forma dos textos, temas e funções que viabilizam e estilo de linguagem ‒ são elementos indissociáveis e permitem que os gêneros sejam conhecidos e reconhecidos (ROJO; BARBOSA, 2015).21

Consideramos relevante discutir os componentes dos gêneros por perceber que na sua aplicação no ensino e na aprendizagem de produção de textos na escola ocorrem, na maioria das vezes, abordagens equivocadas e redutoras que restringem os estudos com gêneros a uma análise da forma linguística que desconsidera os objetivos específicos que os gêneros realizam em situações sociais particulares.

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Para o Círculo de Bakhtin, o tema é mais do que o conteúdo, assunto ou tópico principal do texto. Tema é conteúdo inferido com base na apreciação de valor, na avaliação, no acento valorativo que o falante/autor lhe dá. É o elemento mais importante do texto: um texto é todo construído (composto e estilizado) para fazer ecoar um tema. O tema consiste na fórmula “conteúdo + valoração”, pela qual se revela a ideologia (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 86-87). Como tal, o tema é representação que envolve o contexto – a situação de produção e a intenção do locutor. De acordo com Bakhtin (2009 [1977]), o tema da enunciação

é determinado não só pelas formas linguísticas que entram na composição (as palavras, as formas morfológicas ou sintáticas, os sons, as entoações), mas igualmente pelos elementos não verbais da situação. Se perdermos de vista os elementos da situação, estaremos tão pouco aptos a compreender a enunciação como se perdêssemos suas palavras mais importantes (BAKHTIN, 2009 [1977], p.133-134, grifos nossos).

De modo a ressaltar a importância do tema, tomado de uma perspectiva mais abrangente, para a realização dos gêneros, Rojo e Barbosa (2015, p. 92) atestam que a forma de composição e o estilo estão “a serviço de fazer ecoar o tema”.

Reiteramos, de acordo com Rojo e Barbosa (2015), que estilo diz respeito às as escolhas linguísticas que fazemos para dizer o que queremos dizer (vontade enunciativa), a fim de gerar o sentido desejado. Essas escolhas podem ser de léxico (vocabulário), de estrutura frasal (sintaxe), de registro linguístico (formal/informal/gírias), entre outras. Todos os aspectos da gramática estão aqui envolvidos. Vale lembrar que nenhuma escolha é inocente e que toda escolha está ligada ao tema, à intenção (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 93). Nas palavras de Bakhtin (2000 [1979], p. 284), “o estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas e, o que é particularmente importante, a unidades composicionais”.

Já a forma de composição, para as autoras, consiste na organização e no acabamento do todo do enunciado, do texto em sua totalidade. A construção composicional está relacionada ao que a teoria textual chama de “(macro/super) estrutura” do texto, à progressão temática, à coerência e à coesão textual. Essas formas de acabamento servem para marcar a fronteira do enunciado e passar a palavra ao outro (ROJO; BARBOSA, 2015, p. 94).

É importante ressaltar que a forma composicional e o estilo são relevantes no texto não por si mesmos, mas para fazer ecoar os seus sentidos ou o seu tema. Assim, como esclarecem Rojo e Barbosa (2015, p. 94), esses dois componentes são “marcas linguísticas e textuais das apreciações valorativas do locutor”.

Dessa perspectiva, a abordagem dos componentes dos gêneros, a nosso ver, permite avançar no uso dos gêneros como objeto de ensino e de aprendizagem, na medida em que revela a importância de trabalhar os textos inseridos em situações sociais imediatas, em contextos reais de produção.

De acordo com Rojo (2014, p. 16), são elementos essenciais da situação social mais imediata os parceiros da interlocução, a saber:

o locutor e seu interlocutor, ou horizonte/auditório social, ao qual a palavra do locutor se dirige. São as relações sociais, institucionais e interpessoais dessa parceria, vistas a partir do foco da apreciação valorativa do locutor, que determinam muitos aspectos temáticos, composicionais e estilísticos do texto ou discurso.

Ao conferir especial relevância aos interlocutores e às relações que eles estabelecem, em uma dada situação de comunicação, como determinantes para estabelecer aspectos do tema, da composição e do estilo de um gênero, Rojo (2014) amplia as possibilidades de trabalho com esses componentes, tanto na leitura quanto na produção de textos, e nos permite perceber com mais clareza as nuances valorativas que estão presentes em todo texto ou discurso, bem como os aspectos não linguísticos que envolvem a produção de um gênero.

Nessa direção, entendemos que adotar no ensino e na aprendizagem da escrita uma visão de gêneros interacional, tendo em vista práticas sociais de linguagem, pode tornar as atividades de produção de texto, na escola, mais significativas para os alunos. Assim, a nosso ver, é essencial abordar o gênero “como atividade para apoiar o crescimento dos estudantes como escritores e agentes efetivos, realizando coisas no mundo através de sua escrita” (BAZERMAN, 2006, p.9).

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