Foi pedido a todos os professores CFQ que realizaram atividade laboratorial nas turmas os alunos cegos que dissessem se teria sido necessário efetuar algumas adaptações às suas práticas para referiram que tiveram necessidade de fazer adaptações nas suas aulas para que os seus alunos cegos pudessem participar sem correr riscos, que era uma das maiores preocupações dos professores de CFQ. Todos os professores referiram que fizeram adaptações e por isso foi-lhes perguntado quais (Tabela 30). As adaptações efetuadas prendem-se principalmente, na sua maioria, com descrições verbais do que acontecia no laboratório. Esta situação é desejável já que o aumento das interações verbais é positivo para o aluno cego. A manipulação dos materiais é também
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uma adaptação adequada às necessidades do aluno cego e realizada por muitos dos professores. A título de exemplo um dos professores referiu:
”Ocorreu uma reação, houve alteração de cor, que sabemos que houve uma nova formação de uma substância logo posso classificá-la como uma transformação Química, ele não vê a cor a formar-se. Tudo isto tem que ser descrito, eu quando faço uma reação Química, na parte das técnicas de separação de componentes de uma mistura ele ia apalpando o material, material tal como os outros que nunca viu.”P1
Tabela 30: Adaptação de atividades laboratoriais às necessidades dos alunos cegos N=11 Adaptações feitas no âmbito das atividades
laboratoriais P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7 P8 P9 P10 P11 Descrições verbais do que acontecia X X - X X X - - X X -
Manipulação dos materiais X - - X X X - X - - -
Descrição dos procedimentos pelos colegas
de grupo - - - X - - - - X - -
Substituição de reagentes - - - X - - X -
Utilização de outros sentidos - - - X X - X - Utilização material de laboratório com
escalas em relevo - - - X - - - -
Adaptação de materiais (em vez dum laser
usava um lápis) - - - X -
A substituição de reagentes perigosos por outros que podem ser manipulados em segurança pelo aluno cego foi uma das adaptações feitas pelos professores de CFQ. A título de exemplo um dos professores explicou:
“As reações Químicas alterando a concentração, temperatura, estado de divisão da matéria e concentração. É lógico que os alunos ditos normais fizeram isso pondo as coisas à frente e contaram o tempo, como é preciso contar o tempo por cronómetro. Contaram o tempo visual, é uma diferença tão grande que dá para ver. Ele não, primeiro, tendo, lá está, eu não podia meter ácido sulfúrico porque ele podia meter lá o dedo. Mas com água, a concentração se calhar expliquei mais do que fiz, as outras uma pastilha efervescente. Parto-os aos bocadinhos, a outra meti inteira. Depois deixo estar ali quando aquilo acabava, dizia olha esta já esta acabada e ele ouvia o barulho e deixava-o por a mão para sentir o salpicar e o cheirinho a limão. Ouvi-o o barulho e reparou que o outro continuou, uma aula laboratorial, perfeitamente igual aos outros. Só que em vez de optar pela visão optou pelo som. Pensei como é que podia fazer, lembrei-me logo, fui a farmácia, muitas vezes o enganei, não disse o que é que os outros haviam de utilizar, mas também não lhe interessava para ele, se o efeito final é o mesmo. Porque ele podia sentir, porque é que eles podem utilizar aquilo e eu não posso.”P10
Dois dos professores incentivaram a utilização de outros sentidos o que é também uma adaptação significativa. A título de exemplo um dos professores explicou:
” Não, às vezes havia coisas que eu não o punha a fazer. Porque poderia haver algum perigo, por exemplo, na manipulação do reagente, eu não fazia isso como é óbvio. Mas eu tentava escolher, por exemplo, na menos perigosas para o grupo dele fazer e não só. (…) Porque observar não é só percebermos com os olhos. Apercebemo-nos com os sentidos todos. Obviamente que ali ninguém utilizava o paladar mas os outros sentidos eles aprenderam a utilizar. E eu tentava, sei lá, uma reação, libertação de um gás que tivesse cheiro para ele sentir, em que se ouvisse uma efervescência. Coisa que se ouvisse um
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barulho ou que se sentisse, um aquecimento ou arrefecimento para poderem tocar, pronto (…)”P7
Um dos professores, P10, referiu que a adaptação de materiais foi necessária, por exemplo em vez de utilizar o laser usou um lápis:
” Tudo que era laboratorial foi tudo alterado. Quer dizer, a gente diz atividade experimental mas depois já se sabe quando chega a atividade não é bem assim. Uns fazem uma coisa e o aluno cego está a fazer igual mas diferente ao mesmo tempo, a matéria é a mesma. (…) Mas o que nós tentamos era sempre, por exemplo, com um lápis, ver um raio incidente e um raio refletido, ele acompanha, os outros estão a ver, e ele acompanhava o laser com um lápis, por exemplo, sentia, a gente marcava a normal, o ângulo, os outros começavam a ver a projeção nas paredes. Ele acompanhava, era ele que fazia as trajetórias. Ou com um dedo a gente tentava-lhe mostrar a trajetória, o que é que era o raio incidente, o alvo, tudo era uma adaptação”.P10
Dois dos professores P4 e P9 referiram a descrição dos procedimentos pelos colegas de grupo foi uma das adaptações necessárias.
”O papel do aluno cego é mexer nos materiais, o nome, para que serve. Depois como está num grupo e é escolhido um grupo por norma é que lhe, estejam sempre a falar com ele e a descrever sempre. O que se está a fazer, um que fizemos ultimamente foi com o ácido base. As mudanças de cor, em que ele aí não participou tanto.”P4
A manipulação dos materiais foi referida por cinco dos professores. Sendo que, os materiais a que se referiam eram principalmente os materiais de laboratório. Um dos professores referiu que os materiais de laboratório tinham escalas em relevo.
A utilização de alunos normovisuais como assistentes de laboratório é uma medida que pode ser discutida como positiva ou não. Mas dado que, em Portugal, não é possível existir a figura de um assistente para cada aluno cego esta poderá ser uma adaptação válida. A substituição de reagentes que possam ser perigosos para o aluno cego por outros que permitam que estes utilizem outros sentidos parece ser vantajosa já que, os alunos cegos devem usar outros sentidos para percecionar o que está a sua volta. Os alunos devem também manipular materiais para os conhecerem, solução oferecida também por alguns professores. Alguns professores manifestaram algumas preocupações relativamente à segurança dos alunos e o seu desconhecimento quanto ao que deve ser feito para tornar o laboratório de ciências acessível aos alunos cegos, conforme se pode ver pelas de declarações e um dos professores de CFQ:
” Não faço a mínima ideia, mas não sei como será um laboratório para invisuais. Não sei, é que não deve haver ninguém que saiba como é, tudo fechado à chaves para eles não poderem, feitos de plástico, nas esquinas ter esponja. Eu não sei, não se trabalha com ácidos? Trabalha-se com água? Não se trabalha com electricidade? Alta vontagem. Eu, se me perguntarem, ele (o aluno cego) não precisava de mais nada, para o laboratório não precisava de mais nada, precisava realmente de ter uma turma mais pequena, com 5, 6 alunos, ou dos 18, desdobrar aquela turma.” P10
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Nenhum dos professores referiu o uso de materiais falantes como voltímetros nem de sensores que quando ligados ao computador do aluno cego permitem uma eficaz recolha de dados. Não se sabe se não se utilizaram estes materiais por falta de conhecimentos da sua existência, por parte dos professores ou por falta de acesso aos mesmos. A utilização de programas informáticos também não foi referida.
4.3.5.3. Importância atribuída às atividades laboratoriais de CFQ pelos alunos