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A Alemanha, até 1937, não demonstrava interesses significativos nas questões militares da América Latina, pois na documentação das forças armadas alemãs pesquisadas existem poucas referências sobre países latino-americanos, entre 1937 a 1941. Fato que se alterou em 1941. Na segunda metade da década de 1930, a preocupação militar tinha uma dupla estratégia, a preservação da política do Lebensraum no leste Europeu, tendo como idéia central a germanização alemã e a modernização bélica. No entanto, publicamente o país estava adotando a política do desarmamento (FUNKE, s/d, 197). A segunda estratégia interessava ao governo brasileiro, pois as forças armadas brasileiras, na década de 1930, tinham interesse de incrementar o poderio militar. Para isto, era necessário adquirir novas armas e novos conhecimentos.141 Estas idéias estavam centradas no entendimento dos militares de que a política internacional era direcionada pelo poderio bélico de cada país, pois a diplomacia somente poderia vencer com o apoio das armas (HILTON, 1977b, p. 63).142

Países europeus, no período entre-guerras, auxiliaram na organização e reorganização das forças armadas e das organizações policiais da América Latina, através de missões militares de treinamento, pois consideravam que estas eram necessárias ao desenrolar das relações exteriores (MCCANN, 1983). Na década de 1930, a Alemanha participou ativamente

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Conforme Hilton (1977c) a maior preocupação das lideranças políticas e militares do Brasil era com a Argentina, que era superior em termos de capacidade militar.

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Hilton apoiou sua argumentação nas palavras de alguns militares, entre eles o ministro da marinha de 1932 (HILTON, 1977b, p. 37 e 63, 1977c, p. 194 e ss.).

com missões militares de treinamento na Argentina, no Chile e na Bolívia, e a França no Brasil (CANCELI, 1994).143

O alto comando militar brasileiro, a partir de 1933, passou a requerer material bélico e treinamento para seus oficiais, pois considerava insuficiente aquele proporcionado pela missão francesa, porque havia deficiências no treinamento de oficiais de serviço e uma baixa qualidade nas armas e equipamentos. O Brasil precisava aprimorar as relações comerciais com países que tinham um maior desenvolvimento nesta área, entre eles estavam EUA, Itália e Alemanha.144 Este contexto possibilitou uma competição entre os fabricantes de armas da Alemanha e dos Estados Unidos, uma vez que ambos gostariam de fornecer material bélico ao Brasil (MCCANN, 1983).

1.5.1.1 Aquisição de Armas

A necessidade das forças armadas do Brasil em adquirir material bélico fazia parte, desde 1934, dos planos do governo brasileiro em ligar os contratos bélicos com os acordos comerciais (HILTON, 1977b, p. 75). O governo estadunidense, um dos países que poderia fornecer material bélico, informou que desestimulava a venda de armamentos a outros países, principalmente, em 1937 e 1938, tanto que, em 1937, a marinha brasileira tentou sem sucesso o arrendamento de vasos de guerra norte-americanos (SVARTMANN, 2007, p. 2). Conforme McCann (1995, p. 96), esta negativa ocorreu porque a Argentina protestou. Este ato serviu para que as forças armadas do Brasil passassem a desconfiar das intenções americanas nas futuras conversações sobre acordos bélicos. Também deve ser lembrado que os EUA haviam iniciado há poucos anos seu rearmamento, sendo que a indústria bélica primeiramente deveria atender à demanda interna.145

Já a Alemanha concebia essa questão de modo diferente, tanto que desde 1935 a empresa Krupp, juntamente com o Ministério das Relações Exteriores daquele país, 143

MCCANN (1983) afirmou que os sistemas militares alemão, francês e norte-americano tiveram influência no exército brasileiro. Os alemães tiveram preponderância antes da Primeira Guerra Mundial, os franceses no entre- guerras e o norte-americano durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

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Conforme Hilton (1977c, p. 117) a Alemanha era tradicional fornecedor de armamentos ao Brasil. 145

MCCANN (1983, p. 227) afirmou que em 1934 os europeus estavam se esforçando para adquirir as encomendas brasileiras de material bélico e a política dos EUA não estava planejada para auxiliar os exportadores a competirem com os europeus.

demonstrou claro interesse em vender armamentos para o Brasil. Tanto a Alemanha quanto o Brasil estavam satisfeitos com esta possibilidade, pois assim seria trocado material bélico por produtos primários, quer dizer, seria utilizado o comércio de compensação (HILTON; ALVES, 2002). Todavia, estas transações foram mantidas em sigilo, tanto em função do início do rearmamento alemão, quanto da vontade brasileira deste assunto não ser divulgado (HILTON, 1977c, p. 200 e ss.). A empresa Krupp chegou a enviar em fins de junho de 1936 o funcionário Fritz von Bülow ao Rio de Janeiro, como encarregado para encaminhar as discussões sobre o referido contrato, que era do interesse do próprio governo alemão. Conforme Hilton (1977c, p. 203), Hitler “declarou que desejava que a economia estivesse em ritmo de guerra até 1940”. Para isto, era necessário expandir a capacidade industrial na área militar, isto é, produzir muitos armamentos e neste momento poderia ser tanto para vender quanto para armar seu exército. Para transformar estes interesses em ações concretas, o governo alemão aceitou que 80% dos valores gastos em armas fossem descontados dos marcos compensados.

Em dezembro de 1936, foi nomeado o general Eurico Gaspar Dutra para o cargo de ministro da Guerra, sendo que este militar era favorável ao equipamento alemão.146 Em 18 de fevereiro de 1937, a Krupp conseguiu o primeiro contrato no programa de aquisição de armamentos efetuado pelo Brasil (HILTON, 1977b, p. 71 e ss e 1977c, p. 199 e ss.).147 Durante o ano de 1937, oficiais brasileiros passaram a inspecionar o material bélico alemão.148 Sendo que esta perspectiva teve um aumento significativo no ano seguinte. Conforme McCann (1983; 1995), a compra de material bélico da Alemanha pelo governo brasileiro foi ocasionada em função do medo do poderio da Argentina e da difícil situação financeira, isto é, era necessário armamento para tratar com os demais Estados em bases mais iguais e a Alemanha facilitou a forma de pagamento para a aquisição destes armamentos.149

146

Svartmann (2002, p. 60) expõe que o fascismo seduziu os “oficiais nacionalistas dos exércitos argentino e brasileiro”, isto porque ele estava associado ao rearmamento, ao anticomunismo e a uma espécie de reordenamento da sociedade. Sendo que na Argentina, a influência sobre os altos escalões das forças armadas foi mais intensa.

147

Na verdade era um conjunto de fábricas alemãs, sendo a maior delas a Krupp. 148

Carta da Embaixada brasileira ao AA, de 18 de janeiro de 1937, arquivada dentro do Handelspolitische Abteilung Kriegsgerat, na pasta Brasilien (1937 a 1938, Band 1), com código de arquivamento: R-106424 do PAAA.

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Góes Monteiro, no final de 1936, afirmou que numa eventual guerra mundial o país não seria capaz de manter sua neutralidade, sendo assim teria que se aliar a um dos grupos em disputa. Sem material bélico em quantidade suficiente, perderia sua liberdade de manobra política e militar, sendo reduzido a uma ‘lamentável’ dependência (MCCANN, 1983, p. 232).

1.5.1.2 Serviço militar

A questão do serviço militar foi um dos assuntos que desde 1936 gerou polêmica entre as representações diplomáticas alemã e brasileira, em função da lei alemã de 21 de maio de 1935, a qual obrigava todo cidadão alemão a cumprir o serviço militar na Alemanha, não importando qual era o país de sua residência. Como foi apresentado anteriormente, a Alemanha utilizava o conceito de jus sanguinis para definir quem eram seus cidadãos, e o Brasil utilizava-se do conceito de jus soli. Neste contexto, filhos de cidadãos alemães que nasceram no Brasil eram tanto cidadãos brasileiros quanto alemães; no entanto, isto valia apenas para a primeira geração, neste sentido, não foram atingidos a maior parte dos descendentes de imigrantes, pois estes já eram segunda geração ou mais. Conseqüentemente, houve um conflito diplomático nesta questão. Importante explicar que, em 1935, esta situação atingiu unicamente os recém imigrados e seus filhos, isto é, todos os filhos de imigrantes nascidos no Brasil entre 1914 e 1916.

Em 1936, os representantes diplomáticos alemães do Rio de Janeiro informaram ao governo brasileiro que estavam fazendo um recenseamento de cidadãos com dupla nacionalidade, para evitar que estes viessem a sofrer conseqüências por não cumprirem o serviço militar.150 No entanto, pela documentação pesquisada, percebe-se que na prática os consulados gerais e os consulados estavam convocando os jovens com cidadania alemã para o serviço militar, além de fazerem relatórios detalhados com percentual de jovens que deveriam servir, e em alguns casos foram feitas listas nominais.151 As representações diplomáticas também estavam alistando jovens que desejavam fazer o serviço militar de forma voluntária, isto é, aqueles cidadãos alemães que legalmente não eram obrigados, por terem nascido antes de 1913.152 Outra atividade desempenhada pelos diplomatas foi possibilitar uma colaboração financeira aos jovens que não tinham condições de pagar a viagem para a Alemanha.153

150

Carta de 16 de abril de 1936, arquivada no departamento jurídico (Rechts-abteilung), com o código de arquivamento: R-47053 do PAAA.

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No AA, dentro do departamento jurídico (Rechts-abteilung) existem diversos maços (R-46976, R-46977, R-

47053, R-46229, R-47191, R-47230, R-47231, R-47302, R-47303 e R-47304) sobre a questão do serviço

militar de cidadãos alemães que moravam no Brasil e estavam sob a responsabilidade da diplomacia alemã. 152

Documentos do departamento Rechts-abteilung, setor Wehrpflicht, pasta Heranziehung der Auslandsdeutschen zur Wehrpflicht und die Mitwirkung der deutschen Vertretungen in Ausland – Brasilien – (Band 1[1936 a 1937] Band 2 [1937 a 1939]) com o código de arquivamento: R-46976 e R-46977.

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Documentos do departamento Rechts-abteilung, setor Wehrpflicht, pasta Unterstützung von mittellosen Reichsangehörigen im Auslande um ihnen die Erfüllung der Arbeitsdienst – und Wehrpflicht zu ermöglichen – Brasilien (Band 1 e 2 [1936 a janeiro de 1940]), com o código de arquivamento: R-47230 e R-47231. Estes

Interessante observar que em alguns casos houve interferência da NSDAP para que os jovens conseguissem este subsídio.154 Como já visto e citado, constata-se que o partido nazista estava de fato interferindo nas ações dos diplomatas alemães.

O governo brasileiro, para tentar resolver o problema do serviço militar, propôs em novembro de 1936 um acordo diplomático; no entanto, o mesmo não foi aceito. As negociações sobre esta questão foram sendo adiadas e nada de concreto havia sido definido até fins de 1937.

Importante observação também é a de que, o maior número de cidadãos alemães que deveriam prestar o serviço militar estava no estado de São Paulo, não nas áreas consideradas de colonização alemã.