Ao longo deste capítulo realizou-se uma análise que demonstra uma intensificação das relações exteriores da Alemanha com o Brasil até fins de 1937. Ela ocorreu em função das necessidades comerciais e da conjuntura histórica da década de 1930. As peculiaridades históricas destes países, ora aproximaram as relações diplomáticas, no entanto em outras foram fatores de distanciamento.
Constata-se que o contexto histórico dos dois países não foi similar; na Alemanha o nacionalismo fora construído paulatinamente, ano após ano, e este sentimento nacional fazia parte da identidade do povo germânico, sendo necessária a sua preservação. Do outro lado do Atlântico, no Brasil, as características que formavam a sociedade estavam sendo construídas e, dessa forma, tem-se uma idéia de projeção ao futuro. Enquanto o conceito de nação alemã remetia ao passado, a nação brasileira projetava-se ao futuro.
No contexto político tem-se uma visão diferente, pois os governos de Adolf Hitler e Getúlio Vargas possuem alguns traços de similitude. Os dois regimes se caracterizavam como centralizadores, além de serem nacionalistas, mas com entendimentos divergentes sobre este tema em função da concepção de nacionalidade. Isto é, eram regimes não democráticos.
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Este assunto transparece em vários documentos do AA; no entanto, existe o departamento Inland II A/B, que tem uma pasta denominada Criação de um eixo sul-americano anti-comunista, Brasil, Argentina e Chile (Schaffung einer südamerikanischen antibolschewistischen Achse (Brasilien, Argentinien und Chile), com o código de arquivamento R-99522 do PAAA.
Nesse sentido, até fins de 1937, houve certa proximidade política entre os governos de Getulio Vargas e de Adolf Hitler, principalmente porque em ambos os governos a democracia não fazia parte da concepção ideológica. Entretanto, o Estado Novo, governo de Vargas, se caracterizou como uma ditadura sem partido político. Já o III Reich é caracterizado como um regime totalitário, como tal, tem um partido político único, a NSDAP, uma polícia secreta e também existe dentro do partido uma duplicação de cargos da esfera governamental e somente o líder pode interpretar ou corrigir a ideologia (BOBBIO, 2007, p. 1248 e ss; AREND, 2000, p. 439 e ss). A duplicação de cargos estimulava a competição entre as diferentes áreas do aparelho estatal.
Vargas e Hitler assumem o poder no início da década de 1930. Nos primeiros anos, ambos os governantes tentaram estruturar um consenso interno e uma progressiva interferência nos ministérios e nos rumos da política dos seus respectivos países. A fim de alcançarem com sucesso o objetivo, utilizaram-se dos mais variados meios de propaganda para difundir suas idéias, além de criarem leis restritivas para a sua população e eliminarem ou subordinarem os poderes legislativo e judiciário ao seu comando. As transformações, decorrentes do estilo de governo, tiveram reflexos imediatos na política interna destes países, provocando um rearranjo político. Como segundo passo, houve um reajuste nas estruturas das relações externas, com a definição de interesses estratégicos e posteriormente houve uma alteração visível nas relações destes países com outras nações.
Nesta conjuntura, as relações comerciais estavam em crescimento, pois estavam sendo guiadas em função das necessidades comerciais de ambos os países. A Alemanha carecia de matérias-primas diversificadas e produtos agrícolas, e também necessitava de um mercado consumidor para seus inúmeros produtos industrializados. Do lado brasileiro havia uma diversidade de matérias-primas e também o desejo de consumir muitos produtos manufaturados. Dessa situação ambos os países usufruíram inúmeras vantagens no comércio bilateral. Outro fator que intensificou as relações comerciais foi a possibilidade do comércio de compensação entre Brasil e Alemanha atender às intenções das forças armadas do Brasil, pois permitia a compra de material bélico das empresas alemães.
O que se pode assegurar é a existência de uma relação política e econômica em franco crescimento, que até 1937, havia dado pouca importância ao conflito diplomático envolvendo o serviço militar e o Deutschtum. A partir do Estado Novo, os conflitos referentes à atuação diplomática, principalmente no que tange às diferenças na concepção de nacionalismo dos dois países, se intensificaram. Um dos fatores foi a pressão norte-americana para manter o
Brasil na sua área de influência.162 Vários foram os interesses para coibir ou incentivar uma possível proximidade entre Alemanha e Brasil.
O próximo capítulo aborda o conflito diplomático entre a Alemanha e o Brasil gerado pelas divergentes concepções de nacionalismo. Por um lado temos o governo brasileiro, que desejava ver em seus cidadãos demonstrações que comprovassem características de uma vivência em comum, dentre elas, o uso da língua portuguesa no dia-a-dia, a proibição de partidos políticos, a desvalorização de símbolos culturais de outros países. A fim de alcançar estes objetivos, são decretadas e incentivadas leis que criassem traços identitários na população brasileira, cujas características eram divergentes do conceito de nacionalidade alemã. Em contraponto, a política externa alemã almejava a perpetuação das características étnicas, o desenvolvimento do Deutschtum. Estas duas formas de conceber o nacionalismo entraram em choque no Brasil, a partir das leis nacionalizadoras e da proibição do partido nazista, tanto que houve um conflito diplomático. Simultaneamente, na Alemanha, o Ministério das Relações Exteriores estava sofrendo interferência de Hitler e da NSDAP. O auge da intervenção nazista foi o ano de 1938, quando efetivamente as questões da preservação étnica, o Deutschtum, foram mais valorizadas que as relações diplomáticas em si. Estas divergências de concepções efetivamente tornaram-se visíveis a partir de 1938.
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Segundo Bosemberg (2006, p. 41) os Estados Unidos tinham como prioridade manter sua influência política e econômica no Brasil, e num segundo plano na Colômbia.
O primeiro mês, pós-criação do Estado Novo, coincidiu com a chegada do embaixador alemão Karl Ritter, nomeado desde julho de 1937, para assumir seu posto diplomático no Rio de Janeiro. Na historiografia brasileira e alemã, consta que a Campanha de Nacionalização e a atuação desse embaixador foram os propulsores da crise diplomática entre Alemanha e Brasil em 1938, interpretação questionada por esta tese. O objetivo deste capítulo é analisar o período que vai de novembro de 1937 até início de maio de 1938, que foi caracterizado pela atuação diplomática alemã de Ritter no Brasil e pelos conflitos surgidos a partir de algumas leis decretadas após criação do Estado Novo – especificamente, a proibição dos partidos políticos (nacionais e estrangeiros) e as leis vinculadas a Campanha de Nacionalização. No entanto, além dos temas citados, outros fatores ajudaram a amenizar ou a complicar a tensão diplomática existente.
É relevante esclarecer que, deste momento em diante, o enfoque principal do trabalho será o interesse da Alemanha nas relações diplomáticas com o Brasil. Nesse sentido, a tese irá abordar a documentação daquele país durante este período. Sendo assim, não serão mais feitos comparativos entre ambos os países, mesmo porque os elos de proximidade aos poucos foram sendo diluídos. No entanto, o contexto histórico brasileiro será apresentado durante o transcorrer do capítulo. Entende-se que, para fazer uma análise deste período, é preciso conhecer o máximo de documentos elaborados pelos diplomatas alemães sobre o assunto, para poder fazer uma intertextualidade, ou seja, poder entender melhor a linha de raciocínio dos diplomatas, e não apenas conhecer algumas afirmações sem uma contextualidade (ORLANDI, 2005).
É importante explicitar que a documentação diplomática alemã sobre este período é riquíssima. No entanto, engana-se quem imagina que toda documentação foi tornada pública entre 1946 e 1947 pelo Departamento de Estado em Washington, pelo Foreign Office em Londres e pelo governo francês. Estes órgãos governamentais iniciaram um projeto de publicação conjunta dos arquivos capturados da Alemanha Nazista, da qual originou-se a publicação norte-americana Documents on German Foreign Policy 1918-1945.163 Deste trabalho foram traduzidos para o português os documentos referentes ao Brasil e ao III Reich, sendo o livro intitulado O III Reich e o Brasil. O trabalho, realizado pelos órgãos governamentais dos países aliados foi pioneiro, todavia, constatou-se que este tipo de publicação apresenta apenas uma pequena parcela da documentação diplomática sobre as relações entre Brasil e Alemanha nos anos de 1938 e 1941. Esta documentação não possibilita a análise da posição diplomática alemã no decorrer dos acontecimentos, por isto tornou-se fundamental a pesquisa no Arquivo do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha (Politischen Archiv des Auswärtiges Amts – PAAA).