4. EMPIRICAL FINDINGS
4.4 H ALLMARKS
4.4.5 Processes – Iterative Processes
No contexto de transição para a modernidade, encontramos estudos voltados à conceituação da didática no âmbito escolar e, conforme apontamos anteriormente, a obra “Didática Magna” expressa uma síntese do pensamento religioso, econômico, cultural e político deste período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna. Neste sentido, a didática conceituada por Comênio influenciou e direcionou o pensamento educacional moderno e, nos dias atuais, pode ser apontada como um marco referencial para a discussão do conceito de Didática, envolvendo as relações entre o ensino e a formação humana, entre a educação escolar e as reformas
sociais, dentre outras problemáticas. Citaremos alguns exemplos que comprovam essa afirmação.
O Moravian Museum (Museu Morávia), fundado em 1817, em Zelný trh na cidade de Brno (capital da região da Morávia), situada na República Tcheca, mantém trabalhos científicos, documentos históricos e exposições relacionadas à educação, tornando acessível ao público periódicos científicos, monografias e catálogos de exposições. Em seu site é possível que sejam pesquisados trabalhos científicos relacionados à didática comeniana, entre outros estudos, e em seu departamento de história há uma exibição permanente sobre a vida e obra de Comênio, na qual podem ser vistas produções escritas, objetos e pinturas relacionados a este autor. Além disso, no site do museu existe uma lista de cidades e instalações a ele vinculadas para que o visitante possa conhecer e percorrer uma espécie de jornadas comenianas (Comenius’ journeys), em que se interligam os lugares relacionados às atividades deste autor, com a finalidade de popularizar suas obras e os caminhos por ele seguidos. A importância e as influências da didática comeniana no cenário educacional europeu são os objetivos centrais destas jornadas comenianas, das quais fazem parte exposições, conferências, seminários, apresentações de programas educacionais relacionados às propostas de Comênio e o acesso às publicações deste autor, bem como aos trabalhos de outros pesquisadores que investigam as concepções comenianas. Assim, por meio do Moravian Museum (Museu Morávia) e das atividades por ele agregadas são discutidas a tradição e os desafios da educação tcheca no cenário europeu, relacionando as concepções da didática comeniana aos aspectos atuais da educação neste país. Outro exemplo pode ser encontrado em Bombarral, uma vila portuguesa do Distrito de Leiria, local em que foram realizadas comemorações referentes ao 4º centenário do nascimento de João Amós Comênio, no ano de 1982, e em 1992 ocorreu uma exposição em homenagem a este autor para que fossem discutidas as suas principais ideias frente ao cenário europeu atual. Estiveram presentes neste evento representantes da República Tcheca e pesquisadores de diversas localidades, o que revela a atualidade de se discutir os pressupostos filosóficos e educacionais de Comênio, bem como a sua concepção sobre a didática.
Dentre as publicações que discutem as concepções comenianas sobre educação e didática frente ao cenário atual, além das obras já discutidas em nosso estudo, destacamos o artigo da pesquisadora Celia Lascarides, intitulado "J. A.
Comenius: Reflections in the New World" (J. A. Comênio: Reflexões no Novo Mundo), que foi apresentado na Conferência Internacional para a História da Educação em Praga, no mês de agosto de 1990; e o artigo de Maria Fernanda Martins Gonçalves, “Comenius e a Internacionalização do Ensino”, publicado na Revista Millenium on line da Escola Superior de Educação de Viseu/Instituto Superior Politécnico de Viseu, Portugal, em julho de 1998. No primeiro artigo, Lascarides (1990) relaciona a prática pedagógica às políticas públicas, comparando as ideias comenianas, expostas sobretudo na obra “Didática Magna”, às práticas educacionais desenvolvidas pela National Association for the Education of Young Children (NAEYC - Associação Nacional para a Educação de Crianças). Esta organização visa à promoção de uma aprendizagem de qualidade para todas as crianças, principalmente aquelas que se encontram na faixa de 0 a 8 anos de idade (primeira infância). Dessa maneira, a autora destaca elementos da concepção comeniana que estão presentes nas orientações das práticas educacionais da referida organização norte-americana citando, por exemplo, a necessidade de serem abordados os mesmos temas nos diferentes níveis, com a devida alteração no grau de dificuldade em cada um deles e adaptando-se o ensino às necessidades de desenvolvimento da criança; a defesa da educação universal (o ensino de tudo a todos) como meio de transformação social; a ênfase no princípio de utilização de objetos ou imagens para o ensino das crianças, praticado nos programas da associação por meio de jogos, entre outros aspectos. A autora conclui que as políticas preconizadas pelo NAEYC correspondem aos princípios preconizados por Comênio, o que demonstra a atualidade deste autor no que se refere à sua concepção de ensino e educação da primeira infância. No segundo artigo, Gonçalves (1998) vincula os estudos comenianos à perspectiva de internacionalização do ensino por meio da retomada de alguns conceitos-chave deste autor como: o ensino de tudo a todos; a democratização da escola e do ensino; a necessidade de orientações didáticas ao professor; a necessidade de uma organização internacional que preserve a paz entre os homens e a criação de um órgão internacional da educação (collegium lucis). A autora resgata estas premissas da didática comeniana, desenvolvidas no século XVII, sob a ótica do século XX, porque acredita que os pressupostos desta didática ainda são atuais e que a formulação dos problemas educacionais proposta por Comênio continua relevante para o tempo presente, mesmo que as soluções a serem encontradas divirjam de
época para época. Por fim, a autora aponta que a educação universal por ele defendida mantém um papel determinante nas mudanças e na concretização de um mundo pacífico em que os direitos de todos sejam iguais, por isso, aponta como fundamental a prática da reflexão atual sobre os princípios da didática comeniana, enfatizando o aspecto da internacionalização do ensino.
Como último exemplo sobre as influências e a atualidade do pensamento comeniano na educação, citamos a Coleção Educadores do Ministério da Educação (MEC), “Jan Amos Comênio”, publicada em 2010, em que há a seleção de trechos das obras de Comênio (“Didática magna” e “Pampaedia: educação universal”) com comentários e a indicação de uma vasta bibliografia sobre este autor em língua portuguesa e em língua estrangeira. A base para a publicação da Coleção Educadores no Brasil foi a Coleção Penseurs de l´éducation, organizada pelo International Bureau of Education (IBE) da Unesco, em Genebra, cuja tradução foi feita por Martha Aparecida Santana Marcondes, Pedro Marcondes e Gino Marzio Ciriello Mazzetto. O intuito principal desta empreitada do MEC foi ampliar a divulgação das ideias comenianas no cenário brasileiro e destacar a contemporaneidade deste autor frente às demandas sociais presentes. Na introdução deste material é apresentado um texto escrito por Jean Piaget em 1957 intitulado “A atualidade de Comênio”, época em que este pesquisador suíço era diretor do Escritório Internacional de Educação e em que escreveu o presente texto como introdução da obra “Páginas Escolhidas”, organizada pela Unesco por ocasião dos 300 anos de aniversário da publicação da “Opera Didactica Omnia”. Em seu texto, Piaget (1957) afirma que a atualidade de Comênio pode ser atestada quando é feita a transposição de todo o seu sistema para a perspectiva contemporânea, porém, segundo a visão piagetiana, esta aproximação dos pressupostos comenianos às discussões educacionais ocorreria mais pela forma como ele concebeu a natureza e menos por suas teses didáticas. Neste sentido, o paralelismo estabelecido entre a atividade humana e a atividade da natureza na obra comeniana poderia ultrapassar suas limitações e se manteria como verdade no período moderno se fosse estudado cientificamente o processo de evolução dos seres, o desenvolvimento da criança e as estruturas sociais, pois, para Piaget (1957), a criança se desenvolve segundo as leis naturais e a educação deve se responsabilizar por este desenvolvimento. Este autor afirma que a ideia comeniana de que a organização social dos homens evolui segundo determinadas leis e que a
educação se atrela às formas de desenvolvimento destas estruturas sociais não precisaria de correções para o contexto moderno, bastaria que fosse mais elaborada e aprofundada, sobretudo pela área da psicologia do desenvolvimento. Esta é uma das razões que levam Piaget (1957) a acreditar que Comênio pode ser visto como um precursor da ideia genética na psicologia do desenvolvimento e como o responsável por fundar uma didática progressiva ajustada ao estágio de desenvolvimento alcançado pelos alunos. Os quatro tipos de escola propostos na didática comeniana são relacionados por Piaget (1957) aos quatro períodos ou estágios da formação do ser humano (primeira infância, infância, adolescência e juventude) e este autor ressalta a importância de se basear o ensino presente na estrutura gradual do método de Comênio, respeitando a dupla exigência de unidade em sua didática: a unidade horizontal, prevista nos programas para cada nível, e a unidade vertical, prevista na hierarquização dos graus de ensino. Piaget (1957) finaliza seu texto afirmando que o aspecto moderno das concepções didáticas de Comênio pode ser sintetizado por meio de suas ideias sobre a educação para cada pessoa, as quais ele classifica como funcionais e subordinadas à ordem da natureza. Estes aspectos constituiriam, de acordo com a visão piagetiana, a base precursora da psicologia genética, da centralização da educação no interesse do aluno e no desenvolvimento do ser humano por estágios. Além disso, Piaget (1957) aponta que a didática comeniana apresenta ideias sobre a educação para todos os povos, com ênfase no aspecto da universalidade e na democratização do ensino, incluindo a prerrogativa da organização internacional da instrução pública como elemento colaborador na concretização de uma vida pacífica entre as nações. Finalmente, o autor destaca que o aspecto sociológico da filosofia educativa comeniana se expressa pela afirmação do direito à educação para todos e em plena igualdade, sem diferenças de condição social ou econômica, de religião, de raça ou de nacionalidade. O ideal da universalidade (pansofia) demonstra, assim, o caráter democrático da reforma proposta por Comênio no século XVII e, neste aspecto concordamos com Piaget (1957), é precisamente este ideal que não pode ser esquecido na modernidade.
Existem outros exemplos que poderíamos citar para atestarmos a atualidade de se discutir a didática a partir da visão comeniana e em como as concepções deste autor podem ser vistas enquanto um marco referencial para o desenvolvimento das reflexões relativas à educação escolar na modernidade,
porém, julgamos suficiente para o nosso intuito o que foi apresentado. O que nos falta destacar é que a discussão sobre as concepções de Comênio não ocorre sob as mesmas bases de análise. Neste sentido, se tomarmos o texto de Piaget (1957), por exemplo, podemos encontrar aspectos diversos apontados sobre a atualidade e compreensão das ideias educacionais e metodológicas de Comênio em comparação com outros estudos sobre esta mesma temática. Citaremos, a seguir, um trecho do referido texto:
(...) sob a linguagem aristotélica da matéria e da forma, ou da substância e do acidente, Comênio se refere novamente à estruturação progressiva e do ponto de vista pedagógico denuncia os estragos causados por essa praga permanente do ensino que é o verbalismo, ou o pseudoconhecimento (fiatus vocis), que dá mais importância ao discurso do que ao conhecimento real proporcionado pela ação do sujeito sobre os objetos. De maneira geral, o próprio enunciado do fundamento II dos Princípios para Facilitar o Ensino e o Estudo é mais eloquente do que o fundamento em questão: ‘A natureza, declara Comênio, predispõe da matéria que se tornará ávida de forma’ (J. A. Comenius, La Grande Didactique, introduction et traduction J.-B. Piobetta, Paris,PUF, 1952, p. 33); isso reafirma que os conhecimentos adquiridos funcionalmente, do ponto de vista didático – ‘sendo necessário, para todos os efeitos, provocar nos jovens alunos o ardente desejo de saber e de aprender’ –, tendem espontaneamente a se organizar, de tal maneira que seja possível coordená-los de acordo com as estruturas lógicas e verbais à medida que essa coordenação se apoie em um conteúdo preliminar sólido e ‘ávido de forma’, uma vez que o ensino formal precedendo a compreensão dos conteúdos nos conduz ao verbalismo. Dois desses fundamentos dos Princípios para Facilitar o Ensino e o Estudo merecem ainda menção especial, pois ressaltam o que chamaríamos hoje de aspecto genético e aspecto funcional das concepções psicopedagógicas de Comênio. O fundamento VII diz o seguinte: “A natureza só impulsiona os seres que atingiram seu pleno desenvolvimento e que aspiram a fazer sua irrupção”, e o fundamento VIII: ‘A natureza ajuda a si própria de todas as maneiras possíveis’. Disso Comênio retira as duas definições que reafirmam, com toda a clareza, a dupla necessidade de uma educação por etapas, ajustada às fases do desenvolvimento mental e de uma didática que não inverte a ordem da sucessão da matéria e da forma: ‘Assim, pois, as faculdades dos jovens são forçadas: 1º) todas as vezes que se obriga o aluno a cumprir uma tarefa incompatível com sua idade e com suas capacidades; 2º) todas as vezes que o aluno deve memorizar coisas que não foram claramente explicadas ou compreendidas’ (J. A. Comenius, La Grande Didactique, introduction et traduction J.-B. Piobetta, Paris, PUF, 1952, pp.146-147). A declaração que, sem dúvida, ilustra de maneira mais clara o sentido genético das ideias pedagógicas de Comênio é o próprio enunciado do fundamento I: ‘A natureza espera o momento favorável’. Após ter lembrado que a reprodução de animais é feita conforme as estações, assim como o crescimento das plantas, Comênio pede que se espere
o momento favorável para formar a inteligência e que os exercícios ‘ocorram todos pouco a pouco, seguindo uma regra fixa’, insistindo sobre o que chamaríamos em linguagem moderna de ordem da sucessão das etapas do desenvolvimento. Sabe-se bem o quanto tais princípios podem se referir à prática real do ensino. Quantas escolas falam de desenvolvimento, de interesse, de atividade espontânea etc. quando, na verdade, trata-se apenas de desenvolvimento previsto no programa, de interesses obrigados e de atividades sugeridas pela autoridade do adulto. O verdadeiro critério de uma pedagogia ativa (forma de educação tão rara atualmente quanto no século XVII) baseia-se, nos parece, no modo de aquisição da verdade: não há atividade autêntica, enquanto o aluno aceite a verdade de uma afirmação somente porque ela é transmitida pelo adulto com toda a força da autoridade explícita ou implícita da palavra do professor ou do texto do manual; há atividade, ao contrário – quando o aluno redescobre ou reconstrói a verdade com base em ações materiais ou interiorizadas – que consistem em experimentar ou raciocinar por si mesmo. Ora, o critério decisivo nos parece ter sido percebido claramente por Comênio (PIAGET, 1957, p. 22-24).
As ideias comenianas são vistas como precursoras da psicologia genética e da concepção de estágios de desenvolvimento do homem devido à compreensão de que o paralelismo entre o homem e a natureza, apontado nos fundamentos da “Didática Magna”, expressa uma relação entre a ordem formadora das coisas e a ordem inerente às ações do sujeito, e que a relação sujeito-objeto viabilizaria as sucessivas reconstruções do conhecimento de um grau a outro, respeitando-se regras pré-determinadas e naturais, ou seja, regras que funcionariam como estágios do desenvolvimento humano por serem universais.
A partir deste exemplo, evidenciamos que os estudos que analisam as concepções sobre a didática comeniana e enfatizam a atualidade de seus conceitos são conduzidos por um método de análise, e mesmo que o ideário comeniano não seja desvinculado de suas condições histórico-sociais e se considere todo o seu sistema de pensamento, a análise de seus pressupostos encontra-se pautada por uma determinada lógica e método a ela correspondente. Em nosso estudo, esclarecemos que o método de análise é o materialismo histórico e dialético e que a nossa opção por conceituarmos inicialmente a didática a partir da obra comeniana do século XVII justifica-se porque entendemos que em “Didática Magna” há a preocupação explícita em se definir o termo “didática”, em uma época de transição para a modernidade, e que este autor faz uma síntese, frente ao momento histórico- social em que vive, dos elementos que compõem o conceito de didática,
influenciando futuras pesquisas educacionais. Portanto, a obra “Didática Magna” é tomada como uma referência, como uma importante influência para o desenvolvimento de pesquisas educacionais voltadas a esta questão e como um marco para a compreensão do conceito de didática no âmbito escolar, sem que negligenciemos o contexto histórico em que foram desenvolvidas as ideias de Comênio, bem como as bases teológicas que alicerçam o projeto educacional em que o seu conceito de didática encontra-se situado.
Mesmo que os estudos científicos sejam pautados por diferentes métodos de análise, será a partir da obra comeniana “Didática Magna” que questões como as especificidades da educação escolar no meio social, os fins da educação e da formação do homem, a universalização do ensino e o fracasso escolar, as reformas escolares, as especificidades do ensino e do exercício docente, as relações entre o ensino e a aprendizagem, entre os professores e os alunos, os fundamentos relativos aos objetivos, conteúdos, métodos e técnicas no processo educacional, a elaboração e o uso de materiais didáticos, a avaliação e seus procedimentos, a disciplina escolar, a organização, o planejamento e os planos escolares em seus diferentes níveis e modalidades constituirão as temáticas primordiais para o desenvolvimento de pesquisas voltadas à educação escolar e à conceituação da didática ao longo da modernidade.
Entretanto, se ampliarmos nosso olhar, perceberemos que a menção à didática não se restringe às escolas; ela pode ser encontrada em um contexto completamente diferente dos estudos voltados à educação escolar. É neste sentido que nos deparamos com uma determinada tipologia teatral produzida por Bertolt Brecht no início do século XX, denominada “peças didáticas”. O final da década de 1920 e o início da década de 1930 marca a produção das peças didáticas brechtianas (Lehrstück)2.
Não há indícios que remetam a algum teórico específico da educação a concepção de didática desenvolvida por Brecht, tampouco que este autor tenha realizado leituras acerca do conceito de didática na obra comeniana. Contudo, nos
2 Conforme apontamos são as seguintes obras: “O voo sobre o oceano” (escrita em 1928/1929), “A
peça didática de Baden-Baden sobre o acordo” (escrita em 1929), “Aquele que diz sim e Aquele que diz não” (encenadas sempre em conjunto, escritas em 1929/1930), “A decisão” (escrita em 1929/1930), “A exceção e a regra” (escrita em 1929/1930) e “Os Horácios e os Curiácios” (escrita em 1934). Além disso, são incluídos nesta proposta os fragmentos “Decadência do egoísta Johann Fatzer” e “O maligno Baal: o associal”.
intriga a escolha de um termo relacionado ao ensino, comumente vinculado à educação escolar, para a formulação de suas peças didáticas3, bem como a
discussão das relações entre Pedagogia e Teatro e entre ensino e diversão por meio dos escritos teóricos produzidos por Brecht no desenvolvimento de sua poética (o teatro épico). Assim, compreender o conceito de didática empregado por este autor significa ampliarmos a compreensão deste termo e as possibilidades de que contribuições à educação escolar possam advir de outros espaços sociais preocupados com a formação humana. Para tanto, faz-se necessário investigar os fundamentos do teatro épico em que as peças didáticas encontram-se situadas; o desenvolvimento do elemento didático na poética brechtiana; a relação entre Pedagogia e Teatro estabelecida nos escritos dramatúrgicos e teóricos deste autor; a composição da tipologia didática e o conceito de didática por meio da análise destas peças. Este será o caminho que seguiremos em nossas próximas seções para investigar a didática nas peças didáticas brechtianas. Intencionamos, com esta discussão, apontar possibilidades para se (re) pensar a práxis pedagógica escolar.
Antes, porém, teceremos uma síntese sobre as bases em que se ancora a didática comeniana e faremos alguns apontamentos sobre a didática na visão brechtiana com a intenção de compreender as possíveis relações entre estes dois conceitos, sem que percamos de vista o momento histórico e a totalidade das concepções de cada um destes autores. Reafirmamos que a primeira concepção, de Comênio, já foi por nós explorada e terá o caráter de sistematização das discussões realizadas para a continuidade de nossa pesquisa, relacionando a didática a um marco referencial dos estudos voltados à educação escolar; enquanto a segunda concepção, de Brecht, situada na dramaturgia e em estudos teóricos relativos ao