Esse motor do progresso trouxe, por outro lado, novos problemas, que passam finalmente a serem tomados a sério, ou seja, o problema da ecologia, isto é, da degradação da natureza e a questão dos limites das matérias primas “não-reponíveis”. Mais ainda, a modernidade, além de seus grandes valores de progresso humano, material, tecnológico e científico, de afirmação da pessoa humana, da liberdade e da democracia, produziu também frutos perversos tanto de egoísmo, individualismo, exploração e opressão do homem (no capitalismo e no socialismo). O homem vê-se diante do questionamento quanto às promessas que foram cumpridas pela modernidade e as que foram esquecidas.
Boaventura nos oferece uma clara síntese:
O paradigma sócio-cultural da modernidade, constituído antes de o capitalismo se ter convertido no modo de produção industrial dominante desaparecerá provavelmente antes de o capitalismo perder a sua posição dominante. Esse desaparecimento é um fenômeno complexo, já que é simultaneamente um processo de superação e um processo de obsolescência. É superação na medida em que a modernidade cumpriu algumas das suas promessas, nalguns casos até em excesso. É obsolescência na medida em que a modernidade já não conseguiu cumprir outras das suas promessas. Tanto o excesso como o défice de cumprimento das promessas históricas explica a nossa situação presente, que aparece, à superfície, como período de crise, mas que, em nível mais profundo, é um período de transição paradigmática. (Santos, 2000, p. 49).
Qual é realmente o tempo em que vivemos? Superamos a modernidade, estamos fazendo a passagem para o pós-moderno ou a modernidade está apenas se “auto-pensando”?.
As mais variadas reflexões filosóficas direcionam o pensar sobre o tempo presente, um tempo de profundas mudanças, tempo de crise de uma sociedade que dá lugar a outra. Fala-se da morte de um tipo determinado de pensar e a adesão a um novo sistema de conceitos, Anthony Giddens e Ulrich Beck (1997) trazem uma contribuição no que tange a reflexão deste novo tempo.
Ao distinguirem a modernização simples da modernização reflexiva Beck e Giddens (1997) enfatizam que na modernização simples, também chamada ortodoxa, primeiro se dá a desincorporação das formas sociais tradicionais e, em seguida, o desenvolvimento do processo de reincorporação dessas formas pelas formas sociais industriais. Enquanto que na modernização reflexiva, temos primeiramente a desincorporação das formas sociais industriais para, em segundo plano, ocorrer a reincorporação por outra modernidade, por meio de um processo de transformação a partir da reflexividade social, o que significa dizer, do próprio repensar da sociedade.
Através das reflexões de Giddens e Beck nos situamos neste novo milênio que nos leva cada vez mais à transformação, identificado com sentimentos de desorientação e mal-estar próprios do mundo em evidente transição, onde o velho sistema da sociedade industrializada está se desmoronando no decorrer do seu próprio sucesso, apontando para a necessidade do surgimento de novos contratos sociais.
(...) a modernização reflexiva significa a possibilidade de uma
autodestruição criativa para toda uma era: aquela da sociedade industrial “. Isto significa dizer que o sistema da sociedade industrializada está sendo questionado e repensado pela própria sociedade, dando lugar a um novo sistema, o da sociedade de risco. Evidentemente isto não se dá de forma tranqüila, a modernização reflexiva, como afirma Beck, “traz implicações profundas uma vez que, modificadora da estrutura, ela implica em insegurança de toda a sociedade. (Giddens, 1997:13).
Esta insegurança, como acentua o autor, é de difícil delimitação, pois tem suas raízes na dinamização do desenvolvimento que se apresenta como um gerador de conseqüências opostas: gera desenvolvimento ao mesmo
tempo em que intensifica o dinamismo do conflito da sociedade de risco, pelo seu caráter global de reflexividade social.
Com Giddens e Beck diante dos processos de mudanças, queremos repensar este momento de crise e insegurança de uma sociedade que está dando lugar à outra e como isto afeta as relações entre as pessoas de presente intranqüilo e futuro incerto, principalmente os que mascaram os “perigos” que eles mesmos criam em “riscos” naturais e próprios deste novo tempo.
Dentro da própria modernidade, surgem movimentos que procuram corrigir esses frutos perversos, embora preservando valores modernos. Esse processo é, muitas vezes, chamado de pós-modernidade, que busca resgatar, diante da fria racionalidade matemática e tecnológica, os valores da corporeidade humana, a emotividade, a dimensão religiosa e mística, uma consciência crítica maior diante da teoria do progresso indefinido e do pretendido valor absoluto das ciências e da tecnologia, bem como uma crescente consciência ecológica.
O mesmo Giddens, num momento anterior explicita que:
A pós-modernidade se refere a algo diferente, ao menos como eu defino a noção. Se estamos nos encaminhando para uma fase de pós- modernidade, isto significa que a trajetória do desenvolvimento social está nos tirando das instituições da modernidade rumo a um novo e diferente tipo de ordem social (...) Afora o sentido geral de se estar vivendo um período de nítida disparidade do passado, o termo com freqüência tem um ou mais dos seguintes significados: descobrimos que nada pode ser conhecido com alguma certeza, desde que todos os ‘fundamentos’ preexistentes da epistemologia se revelaram sem credibilidade; que a história é destituída de teleologia e conseqüentemente nenhuma versão de ‘progresso’ pode ser plausivelmente definida; e que uma nova agenda social e política surgiu com a crescente proeminência de preocupações ecológicas e talvez de novos movimentos sociais em geral. (1991, p. 52).
Percebemos que há diferentes posições em relação à denominação que se dá de pós-moderno ao nosso mundo. Muitos julgam que, na verdade, essa denominação apenas aponta um conflito que se dá no interior da própria modernidade, cujas características ainda permanecem.
Coutinho (2000, p. 49), por exemplo, afirma que “a modernidade é a época histórica que se inicia com o Renascimento e na qual, apesar das apressadas afirmações em contrário dos chamados ‘pós-modernos’, ainda estamos hoje inseridos”
entendem como uma nova tendência. Canclini (1990, p. 233-234) afirma que concebe a pós-modernidade “não como uma descontinuidade ou uma ruptura em relação à modernidade, mas como uma reorganização de suas relações internas e suas conexões com a tradição”.
No entanto, para Bordin, (1994, p. 158-160).
O pós-moderno se apresenta como a dissolução do moderno: idade do enfraquecimento da razão e de suas pretensões e da emergência de uma pluralidade de modelos e paradigmas de uma racionalidade não homogênea; de um pensamento sem fundamentos, da desconstrução e da crítica da razão instrumental. Inúmeras são as definições que reforçam o momento de busca de “portos-seguros” para ancorarmos o desejo de realização do sentido da vida, que parece ser plena à medida que as pessoas organizam as suas vidas em torno de uma coletividade mais promissora, tendo em vista a necessidade de dar sentido à vida individual e coletiva por meio do resgate da nossa capacidade criativa e inventiva que permite a construção de novas utopias e que nos impulsiona para uma nova forma de existir na contemporaneidade.
Diante da pluralidade conceitual do momento em que vivemos reforçamos a nossa identificação com Giddens (1991) na leitura do momento atual como alta modernidade, que permite o pensar sobre a reflexividade, que conduz as pessoas a uma intensa reflexão sobre si mesmas, enquanto sentido de existência. Num momento em que o tempo de crise gera a necessidade de reflexão sobre os outros, enquanto sentido de relação com o outro diferente e com o Outro absoluto, enquanto relação ou re-ligação do imanente com o transcendente, re-encontro do profano com o sagrado como forma de dar sentido a vida.
Propomos-nos, a partir desta sucinta retomada histórico-filosófica, verificar o impacto gerado pelos valores da modernidade, geradora de um clima de mudanças vertiginosas sobre os rumos escolhidos pela Igreja Católica no Brasil.
Faz-se necessário, ainda, considerar a opção política e econômica no Brasil de um tipo de modernização aplicada à busca de uma reordenação global das formações sociais, orientadas desde as primeiras décadas da República, para a necessidade de reformas que garantissem o empenho de todos em função do progresso científico e tecnológico e pela expansão de uma
economia livre, fundada nos ideais do liberalismo e nas idéias positivistas/evolucionistas, no cientificismo materialista e no agnosticismo, evidenciando a irrupção crescente do secularismo que acentuava cada vez mais a autonomia das realidades terrenas em detrimento das transcendentes.
Frente a estes valores difundidos pela modernidade que conduzirá, hoje, a um processo de reflexão sobre os seus efeitos fortemente assimilados pela humanidade, que Giddens (1991) chama de modernização reflexiva, caracterizando o momento atual como o de alta modernidade, propomos pensar o catolicismo brasileiro, verificando as formas, por vezes ambíguas, de respostas oferecidas pela hierarquia católica aos novos tempos, que posteriormente culminarão nas duas formas de expressão que caracterizam o nosso universo de pesquisa.
Para tanto optamos por um recorte histórico, capaz de abranger o nascimento das Comunidades Eclesiais de Base e a Renovação Carismática Católica, optando pelo período que compreende 1945 a 1970. Porém faz-se necessário entender a formação da tipologia católica proposta por Cândido Procópio Ferreira Camargo que lança as bases do estudo da sociologia da religião no Brasil.