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O foco de atuação da área de cultura da Ação Educativa concentra-se na valorização dos artistas da periferia e suas linguagens artísticas. Conhecido por cultura de periferia, este movimento artístico abrange artistas e grupos culturais de diversas regiões da cidade de São Paulo e busca uma relação mais positiva com as regiões periféricas da cidade. Em sua dissertação de mestrado, Almeida (2009) faz uma contextualização sobre o surgimento desse movimento.

A partir de meados dos anos 90, com o boom do movimento hip-hop, por muitos jovens, a periferia começou a ser vista com sentimento de orgulho, o que provocou, inclusive, o interesse de jovens de classe média e alta (Kehl, 2004) pela estética periférica. Com a música dos Racionais MC’s, por exemplo, a região da zona sul passou a ser comentada pelos jovens, despertou curiosidade em quem não a conhecia e certa vaidade para quem lá vivia, pois o país todo passou a conhecer sua quebrada. Da mesma forma, com o sucesso de alguns grupos de pagode, como o Negritude Júnior, liderado por Netinho de Paula, atual vereador da cidade de São Paulo, que tratavam do cotidiano das periferias em suas músicas, passou a ser comum encontrar pessoas vestindo camisetas com os dizeres 100% cohab, 100% zona leste ou 100%

periferia. Os anos 90 foram acompanhados por uma valorização simbólica das periferias. Ao

mesmo tempo em que crescia a midiatização da violência (Rocha e Silva, 2008), diversos programas televisivos e filmes procuravam tratar da vida dos moradores destas regiões, apontando aspectos positivos em seus modos de vida e expressões culturais (Heschmann e Galvão, 2008. In: Almeida, 2009:100, grifos do autor).

No início dos anos 2000, a revista Caros Amigos fez uma série de reportagens sobre alguns escritores que vinham de regiões periféricas intituladas “Caros Amigos/Literatura

Marginal: a cultura da periferia”. Seus encartes traziam a biografia de 48 artistas cujas obras se assemelham pela

[...] situação de marginalidade (social, editorial ou jurídica) vivenciada pelo autor e uma produção literária que visa expressar o que é peculiar aos espaços tidos como marginais, especialmente em relação à periferia (os temas, os problemas, o linguajar, as gírias, os valores, as práticas de certos segmentos, etc.) (Nascimento, 2006:9).

Esse movimento foi importante para a conformação do que é identificado hoje como “cultura de periferia”. A marca “periferia”, para esses escritores, foi, ao mesmo tempo, uma identidade e uma maneira de abrir espaço para um certo nicho dentro do mercado editorial.

Vale ponderar que a designação “literatura periférica” ou “literatura de periferia” e seus correlatos “escritor periférico ou “escritor de periferia” são sinônimos utilizados pelos próprios escritores aqui estudados (sobretudo quando vão se apresentar em outros espaços sociais que não a periferia) e por jornalistas para sintetizar as características dessa produção literária ou a condição socioeconômica dos autores envolvidos.

Com efeito, essa contextualização das possibilidades de empregos, usos e relações de expressões deixa evidente que, na cena cultural contemporânea, a “marca” literatura marginal pode ser usada como referencial no mercado. Da parte das editoras, agrega-se às obras o valor da “autenticidade” do que está sendo narrado; e da parte dos autores, manifesta-se certo desejo de marginalidade na escolha do tema ou do discurso assumido, de tal forma que a estigmatização passa a ser o vetor das vendagens das obras e da carreira literária de moradores de periferia e presidiários (Nascimento, 2009:24).

A relação centro e periferia é uma dicotomia que Chaui coloca como um dos eixos da cidadania cultural. Para ela, é crucial acabar com a relação de desigualdade regional na cidade de São Paulo e acabar, também, com o estigma que sofrem as populações que moram nas regiões periféricas. Contudo, a noção de periferia não pode mais ser pensada somente como uma relação regional entre centro e periferia, a medida que a percepção que se tem dos bairros e seus moradores tem mudado para uma noção de categoria social positiva.

Assim, a noção de periferia passa a ser vista não somente como um espaço na cidade, marcado pela carência econômica e pela ausência do poder público e de equipamentos de prestígio e atendimento social, mas também como uma categoria social positiva. Dessa maneira, ser morador da periferia é considerado como alguém que conhece determinadas regras de convívio social marcadas por regras de troca e respeito mútuo. O que até pouco tempo atrás era visto como inferioridade ou estigma passa a ser encarado como sinal de força e resistência, conformando identidades (Magnani, 2009:52).

Uma outra característica desses produtores culturais é sua ação política dentro da sua região de origem. Os artistas da periferia têm uma relação de proximidade com sua região e, em sua maioria, um engajamento político ou ativismo. O fazer político está diretamente relacionado ao seu fazer artístico. Cuidar do seu bairro, exigir direitos e condições melhores de vida é também foco na sua ação artística.

José Magnani aponta que o trabalho da Ação Educativa na área temática da cultura e das artes, assim como dos grupos culturais da periferia, tem trazido alguns temas que fogem ao debate artístico; questões como racismo, gênero e diversidade têm sido encontradas nos eventos promovidos pela OSC e pelos movimentos culturais da periferia. Para o autor, isso reflete a relação política e arte dentro desses movimentos.

[…] a ideia de Cultura de Periferia remete não somente à arte, mas também às relações simbólicas estabelecidas por moradores/as da periferia. Esta Cultura de Periferia produziria, assim, um sentido político de mobilização social, que fortaleceria o tecido social na periferia pela cultura. Trata-se, portanto, de uma Cultura de Periferia que está engajada politicamente ou com potencialidades de engajamento na construção de uma sociedade democrática mais justa […] (Magnani, 2009: 51)

Nascimento (2011), em sua pesquisa sobre o Sarau da Cooperifa e a literatura periférica, aponta a relação de parceria existente entre os integrantes desse coletivo com a Ação Educativa. Numa relação “de mão dupla que pode agregar valores, conhecimentos e práticas às diferentes partes para os dois lados” (Nascimento, 2010), a atuação da OSC fortaleceu o movimento de cultura de periferia e ajudou produtores culturais a se profissionalizarem, enquanto, para a organização, trabalhar com os produtores e linguagens da cultura de periferia ajudou a capacitar a instituição e sua equipe para se tornarem referência sobre o tema.

Já no caso da Ação Educativa, a motivação para se tornar uma parceira da Cooperifa encontra respaldo no interesse da organização de buscar outros eixos de atuação. Mais do que isso, está relacionada ao investimento na cultura de periferia como recorte estratégico para intervenções nos setores político e cultural. Sendo assim, mesmo que o movimento de literatura marginal-periférica tenha sido decisivo para que a instituição percebesse a força de outras manifestações, coletivos, artistas e ativistas da periferia para além dos hip hoppers e produtores de audiovisual com os quais a ONG já desenvolvia projetos, o apoio não se restringe à literatura ou mesmo a um coletivo literário específico, mas estende-se para um

leque de linguagens artísticas (como música, audiovisual, artes plásticas) e passa também pelo que está definido como cultura da periferia pela instituição, no qual o artístico, o simbólico, o pedagógico e o político convergem, e certas manifestações, como o samba e o rap, no campo da música, e o grafite, nas artes visuais, ganham destaque, por exemplo (Nascimento, 2011:199).

A pesquisadora reflete, ainda, que a participação da OSC reforça a periferia como lugar onde se produz e consome cultura.

Como uma organização que não gera recursos suficientes para se autossustentar nem financiar seus patrocinados, ao fazer a mediação entre os artistas e coletivos da periferia com organizações internacionais, a Ação Educativa possibilitou outras fontes de recursos e de prestígios para esses sujeitos. No entanto, além de garantir recursos para viabilizar produtos e eventos, creio que o principal papel dessa organização frente aos periféricos é participar desse processo de afirmação e reconhecimento de que a periferia seja também um lugar onde se produz e consome cultura. E nessa organização, afirmar e reconhecer a cultura de periferia se traduz em colaborar para a profissionalização dos artistas-ativistas, contratando-os para atuar como arte-educadores ou instruindo-os a elaborar e gerir seus projetos, assim como se materializa nas estratégias de circulação de discursos e produtos, por meio da cessão de suas salas e auditórios e de publicações como a Agenda Cultural da Periferia (Ibidem)

As relações de parceria entre OSCs e movimentos sociais e culturais são passíveis de tensões, na medida em que existem interesses dos dois lados. O papel de intermediário das organizações, principalmente na relação com financiadores, é um questionamento constante por parte dos movimentos que, muitas vezes, exigem fazer parte dessas relações, de forma mais ativa e não mais como público atendido pela ação social. Contudo, as OSCs surgiram com o propósito de assessoria a estes movimentos, e seu apoio tem sido fundamental para a consolidação de alguns grupos sociais e movimentos.

Nascimento (2011) cita algumas tensões entre a Ação Educativa e os movimentos literários da periferia que, segundo a autora, levaram ao fim da parceria da Cooperifa com a organização,

[...] em virtude de desentendimentos com relação à organização do Seminário Estética da Periferia. Tal como indicaram outras lideranças culturais periféricas, houve um descontentamento com relação à ausência desses protagonistas no desenho e realização do Seminário, assim como restrição aos nomes dos pesquisadores convidados, ao local onde o evento foi promovido e à limitação do número de participantes (Nascimento, 2011:201).

Em entrevista concedida à autora desta dissertação, a feminista e educadora T.G disse que acredita que a cultura, quando pensada no campo das organizações da sociedade civil e como espaço para artistas da periferia, pode ter outros sentidos para além da fruição aos bens culturais. Com experiência em oficinas para jovens e adolescentes na cidade do Recife e também no trabalho das OSCs, a entrevistada acredita que o trabalho das organizações na área temática da cultura, pode esmiuçar o conceito de cultura, e ampliar sobre sociedade, disputa de poder e relações de classe.

É o consumo da cultura; a cultura como direito não é exercida por ninguém. [...] a produção cultural é vista como uma forma de ganhar dinheiro e não em si. Aí não sei se as ONGs ficam tentando transformar a cultura em si, numa experiência em si, por vivência. Quando os jovens, as pessoas reais, pensam em cultura como ser produtor de um bem de cultura. Então, a questão é mais embaixo, pensar qual o lugar que a cultura ocupa numa sociedade capitalista. O que significa Cultura numa sociedade capitalista? Significa um monte de coisas, por mais que hoje em dia... e eu acho superbacana, a ideia de cultura de periferia, ela ao mesmo tempo ao ser marcada como de periferia, ela ganha legitimidade. Mas precisou politicamente, e neste ponto, não tenho problema com isso, de ter sua marca de origem. Porque existe cultura e cultura de periferia. Então é como se aquelas produções culturais de um determinado lugar não pudessem ser consideradas cultura no sentido mais amplo e legítimo. (T.G, 2012)

Outro ponto sugerido nas entrevistas feitas por essa pesquisadora, é o uso da cultura de forma instrumental no campo das OSCs. De trabalhar com cultura, como ferramenta para um outro interesse que não da fruição cultural. Por exemplo, tirar o adolescente da criminalidade, ou das drogas, oferecendo aulas de instrumentos musicais, etc. Para a educadora, T.G é importante que as OSCs tenham cuidado ao assumir o conceito de cultura como direito, para não reduzir a compressão de que cultura quando pensada para populações de baixa renda significa, estão relacionadas somente, a geração de renda ou instrumentalização da arte.

Neste sentido, continuamos numa lógica, melhor que a preventiva25, mas a lógica do mercado de trabalho. Você não vai pra universidade, vai ser cantor, artista, por ai. Ou vai dar aula. Porque a lógica da vida da gente, usufruir cultura é quase conseqüência do universo que você é, e do lugar que você vem. Você tem mais dinheiro ai pode ir no show, etc. (idem)

25

A entrevistada refere-se ao uso instrumental da arte como forma de prevenir violência ou afastar os jovens das drogas, etc.