O pressuposto que norteia a formação de uma tipologia do catolicismo brasileiro é a percepção de que há vários graus de participação dos católicos brasileiros, revelando níveis diferenciados de integração e engajamento, entendendo a participação, de forma genérica, como o sistema de comportamento que congrega indivíduos em determinado grupo (1973). A intensidade da participação e engajamento determinará os católicos praticantes e os não praticantes. A partir deste pressuposto a pretensão do Prof. Procópio foi construir uma tipologia, enfatizando as modalidades de maior significância para a Igreja Católica no Brasil.
Quanto aos tipos, em seu caráter metodológico, ele afirma:
As várias formas de catolicismo devem ser entendidas como “tipos ideais”, no sentido weberiano (Weber, 1968: 516), não representando, portanto, realidades empíricas. Nesse sentido, pode-se analisar o catolicismo brasileiro de acordo com os seguintes tipos, substancialmente distintos: catolicismo tradicional urbano, catolicismo tradicional rural, catolicismo internalizado urbano e internalizado rural. Fundamenta-se esta tipologia na diversidade dos modos de orientação da conduta que a religião proporciona aos indivíduos, na origem dos conhecimentos religiosos e no grau de consciência de seus valores. (1973, p. 48).
E explicita a sua tipologia
No catolicismo tradicional o comportamento social e religioso fundamenta-se nos costumes e é legitimado pela tradição; observa-se pouca consciência quanto à natureza específica dos valores religiosos que inspiram normas e papéis sociais. Nota-se, ainda, a ausência de explicação racional, em termos de meios e fins, para a conduta religiosa e o comportamento social legitimado pela religião, não havendo explícita distinção entre os valores e normas da sociedade global e os da coletividade religiosa. (...) O catolicismo do tipo internalizado caracteriza-se por proporcionar ao indivíduo percepção explícita e consciente dos valores religiosos. Pode conseqüentemente ocorrer coerência racional – em termos de meios e fins – entre estes valores e a conduta do indivíduo (Camargo, 1973, p. 49).
Esta tipologia binária, sob a influência de Weber (nos tipos ideais tradicional e racionalizado), é utilizada pelo pesquisador para explicitar o processo de mudança religiosa capaz de oferecer contribuições significativas para a mudança social. Esta percepção bipolar no catolicismo brasileiro é adquirida pela consciência da cisão no interior da Igreja Católica já nos anos
50, configurando um desdobramento entre os católicos o que caracteriza a formação do tipo internalizado a partir da perda de terreno do catolicismo tradicional. Verifica-se um impacto maior da mudança no Brasil urbano, mas uma sensível perda no ambiente rural. O interesse maior pela análise justifica- se pelo contraste de ação entre os dois tipos, comparados à formação social brasileira, à sociedade inclusiva, nas palavras de Camargo.
O catolicismo tradicional assume a postura de não acentuar a contradição entre a ética do catolicismo e as determinações sociais, sendo conivente com o processo de hierarquização das classes e a conseqüente atribuição de “status”, não assumindo qualquer postura contestatória, reduzindo a vida de fé na prática sacramental.
A análise do catolicismo tradicional urbano conduz à conclusão de que, a par de traços comuns que o identificam, esse tipo de religião apresenta dimensões diversificadas em virtude da complexidade própria à vida urbana e do intenso processo de mudança social que lhe é inerente (...) Entre os católicos tradicionais, encontra-se pessoas que somente participam dos sacramentos da igreja – principalmente o batismo, o matrimônio e os sacramentos dos enfermos – que marcam importantes momentos de transição para determinadas situações de vida, constituindo, portanto, ritos de passagem. Outro grupo já se distingue do anterior, pois pratica com regularidade o ritual e os sacramentos católicos, seguindo com relativa coerência os preceitos canônicos. Ambas as formas de comportamento enquadram-se no tipo de catolicismo tradicional urbano. (Camargo, 1973, p. 61).
Notamos que o catolicismo tradicional dá ênfase ao aprofundamento da tradição litúrgica e doutrinária, seguindo à risca as orientações do magistério hierarquizado. As temáticas abordadas se referem especialmente aos assuntos relativos à fé e à moral. O ataque a pessoas ou instituições é terminantemente proibido, especialmente aqueles feitos às pessoas ou instituições que contribuam de alguma maneira com a “causa católica”. As práticas do catolicismo tradicional estarão fundamentadas num tipo de comportamento religioso orientado a partir dos costumes e legitimado pela tradição, de tal forma que há até certa confusão entre os valores e normas da sociedade inclusiva e os orientados pela coletividade religiosa.
Paradoxalmente a este tipo, temos na forma internalizada uma outra orientação ética:
(...) a forma internalizada aguça a consciência do conteúdo cultural religioso e faz desabrochar um estilo consciente e intencional de vivência religiosa, cujo alcance e repercussões na vida social são procurados e assumidos. As diferenças entre estes dois estilos de religião afetam radicalmente as funções do catolicismo (...) o catolicismo internalizado, essencialmente dinâmico, exerce funções que propiciam mudança social. (Camargo, 1973, p. 23).
O autor acentua ainda mais a distinção entre o tipo de catolicismo tradicional e o internalizado, identificando na internalização religiosa a tendência de julgar e criticar normas e valores que são preestabelecidos, constituindo-se num meio essencial no processo de mudança da sociedade, tendo condições de influir neste processo. Assim oferece uma classificação de funções diferenciadas no processo de internalização, ou seja, o catolicismo internalizado procura atender necessariamente aos problemas e às situações sociais concretas dos indivíduos, transportando a vida religiosa em experiência significativa, contextualizada para as pessoas, por meio das funções: modernização, contestação e tradicionalista. (Camargo, 1973, p. 82).
Podemos entender as funções do catolicismo internalizado, segundo Camargo, da seguinte forma:
Modernização – representa o mais significativo aspecto de reavivamento católico. Deixando de constituir obstáculo à mudança social, a religião passa ativamente a recomendar novos padrões de comportamento, legitimando dessa forma modos de viver modernos.
A Função contestatória – pondo em questão a compatibilidade entre as exigências da ética cristã e situações humanas ligadas à estrutura sócio-econômica do país, coloca em plano axiológico prioritário a necessidade de profundas alterações na organização social.
O catolicismo denominado tradicionalista tende a valorizar a religião e a sociedade do passado, idealizadas como perfeitas. Essa forma enfatiza, conseqüentemente, o retorno a modalidades tradicionais, “isentas da corrupção do presente. (1973, p. 83). O catolicismo internalizado reflete uma ruptura de um modelo de Igreja conivente com o Estado, oferecendo à sociedade, por meio, sobretudo, da sua função contestatória, um discurso e uma prática voltados para a transformação social.
Faz-se importante, para entender as ambigüidades entre as posturas tradicional e internalizada do católico brasileiro, compreender o processo em que estas diferenças se acentuam. Queremos, por meio do recorte histórico,
situar o período paradoxal no qual irrompe com maior intensidade, do processo de contestação “um novo jeito de ser Igreja”, denominado CEBs.