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Como se viu no capítulo anterior, a “invisibilidade” como abordagem simples do livro de literatura foi defendida especialmente nas décadas de 1920 e 1930, mas essa abordagem, embora não seja designada por esse termo antes da palestra de Beatrice Warde em 1930, não é exclusi- va daquela época, como se pode observar a partir dos livros “simples”, ou seja, sem ornamentos, impressos, entre outros, por Aldo Manuzio, Baskerville e Bodoni.

Essas duas abordagens, no entanto, parecem coexistir durante a his- tória do livro impresso. A partir da literatura encontrada, não se pode precisar se uma ou outra abordagem era mais comum antes do sécu- lo XX. O que se pode encontrar são indícios de que em determinados países alguns livros eram mais decorados do que outros, como se pode observar a partir de Blumenthal (1973: 23), que observa que livros publicados no século XVIII, que na França eram luxuosos, na Itália e Espanha eram produzidos para a elite (provavelmente decorados) e que na Inglaterra preferiam-se edições mais simples e sem ornamen- tos supérluos:

Durante os anos da extravagância francesa em Versalhes, os impressores proissionais em Paris, auxiliados pelos melhores artistas e gravadores franceses, naturalmente impulsionaram o espírito do livre de luxe. Eles transformaram charmosos octavos ilustrando temas de amor em jar- dins encantados e vestiários para senhores [boudoirs], tomos luxuosos celebrando pompas reais e os clássicos em fólios suntuosos ricamente encadernados para adornar mesas rococós em salas de estar. Na Itália e na Espanha, produziram volumes espetaculares para os ricos, que pro- vavelmente nunca eram lidos. Na Grã-Bretanha, por outro lado, apare- ceram alguns impressores que produziram excelentes edições literárias dos textos mais valorosos, dependentes de um design de tipos sólido e de ótimas proporções de páginas, livres da ornamentação e da osten- tação supérluas. Essa foi uma evolução lógica, num momento em que, segundo G. M. Trevelyan, “os pesquisadores britânicos se tornaram mais que nunca isolados de seus irmãos do continente [europeu], a relexão e o aprendizado tornaram-se mais nacionais, mais populares e mais es- treitamente ligados à literatura. (BLUMENTHAL, 1973: 23)

Outro dado sobre essa questão pode ser encontrado em texto de Bartram (2004: 16), que explica que os livros italianos do século XVI eram desprovidos de ornamento, enquanto os franceses os utilizavam com mais frequência:

Os primeiros impressores italianos dispensaram muitas vezes qualquer forma de decoração. Mas a partir da primeira metade do século XVI até meados do século XVIII, impressores franceses (que assumiram a lide- rança, superando os italianos), enquanto ainda trabalhavam com o con- ceito clássico de simetria formal, geralmente constritora, eram regidos por uma tradição diferente. Eles produziam livros que eram primaria- mente decorativos, mais que um meio de comunicação. Muitos de seus ornamentos ou adornos, e mesmo ilustrações, eram usados para livros muito diferentes, de qualquer maneira, sem uma tentativa de criar um novo design pertinente para um novo texto. Qualquer faixa ornamental velha ou inicial decorativa servia: economias na produção eram impor- tantes mesmo nisso.

A partir de levantamento realizado na Morgan Library, na New York Public Library e na Cleveland Public Library, porém, foram encontra- dos muitos exemplos de livros de textos literários cujas páginas são mais visíveis, seja por meio de vinhetas, ornamentos, capitulares ou ilustrações. Muitos dos livros encontrados entre os séculos XV e XIX apresentam uma função estética, quando comparados aos livros sim- ples de literatura.

O uso de elementos decorativos muda de acordo com o estilo de cada impressor, de cada período e de cada local. A visibilidade, assim, parece ser condicionada por esses fatores. Outro ponto que é preciso ponderar é de que a “visibilidade” é relativa. Se tomarmos como ponto de partida a maioria das edições de livros comerciais produzidas hoje, todas as edições apresentadas nesse capítulo são “visíveis”, mas talvez não fossem na época em que foram produzidas, pois o leitor poderia estar acostumado a elas, como por exemplo os incunábulos, decorados pelo fato de que os manuscritos eram antes decorados, ou seja, o nível de “visibilidade” pode ser determinado pelo gosto da época.

Neste capítulo, abordaremos a visibilidade em distintas fases da his- tória do livro, especialmente no inal do século XIX e no XX, quando surge o movimento da Imprensa Particular, em que abordagens visí- veis de livros literários parecem ganhar mais espaço.

Antes, porém, vamos apresentar um breve panorama do livro “visí- vel” ao longo da história da impressão. Para evitarmos a dispersão por um universo tão amplo, vamos focalizar apenas edições de dois clássi- cos da literatura ocidental: Decameron, de Giovanni Boccaccio, e Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Escolhemos uma obra escrita antes da invenção da imprensa e da qual há publicações impressas em diver- sas línguas, estilos e também inclusive bem no início da impressão. A segunda obra, Dom Quixote, foi escrita quase 150 anos depois da Bíblia de Gutenberg, mas se mantém como uma das mais lidas da história. Segundo Zilberman (2001:20), Dom Quixote teve 12 mil exemplares vendidos na época da publicação e marca o início do romance moder- no. Ademais, de acordo com Lyons (2011: 89):

Após 1660, o livro começou a conquistar um público mais popular. Edi- ções espanholas baratas se multiplicaram, usando gravuras de edições estrangeiras, que muitas vezes tinham pouca relação com a realidade es- panhola. Até meados do século XVIII, Dom Quixote geralmente era pro- duzido em dois volumes in-quarto em papel medíocre.

Lyons (2011: 89) complementa que Dom Quixote, durante o ilu- minismo, “foi lido tanto por leitores de classe baixa como pela elite social.” De acordo com a essa passagem, percebe-se que o livro teve grande popularidade, o que justiica sua publicação por diversos im- pressores em grande parte do Ocidente.

Nossa proposta aqui é explorar uma pequena amostragem com base no acervo disponível nas bibliotecas visitadas, para comprovar a “visi- bilidade” pela presença de ornamentos e ilustrações em obras de lite- ratura, o que pode, hoje, parecer estranho ao nosso olhar contempo- râneo acostumado com páginas simples, pois há décadas o design dos livros de textos literários é “simples”.

Edições de Decameron

Este volume de Decameron (Figura 16) foi impresso em 1492, por Johannes e Gregorius de Gregoriis, em Veneza, no que seria depois a Itália uniicada. O livro apresenta ilustrações xilográicas e a orna- mentação se encontra principalmente na abertura dos capítulos. O

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tipo utilizado lembra o romano de Nicolas Jenson1. Como se sabe, os impressores sempre deixavam espaços em branco para depois serem iluminados, coloridos a mão. Nesse volume, há espaço para iniciais se- rem iluminadas em momento posterior à impressão do texto, porém este exemplar não teve esse tratamento. O texto é apresentado em duas colunas, como na tradição manuscrita. Há recuos como marcação de parágrafo em algumas páginas, mas não se pode airmar se estes eram espaços que depois receberiam símbolos do iluminador ou se o impressor já usava essa estratégia.

1 Nicolas Jenson (1420-1480), tipógrafo francês, que trabalhou em Veneza de 1470 até sua morte.

Já esta edição de 1473 (ou 1476), impressa por Johannes Zainer, em Ulm (Figura 17), no que seria posteriormente a Alemanha, de di- mensões aproximadas 22,5 x 32 cm, não apresenta folha de rosto nem ilustrações, mas traz belas capitulares decoradas e pequenos símbolos, como marcação de parágrafo e composição em duas colunas. A fon- te é mais pesada, não é um tipo leve como os romanos baseados em Jenson, porém a página ganha leveza por suas amplas margens. Zai- ner, segundo Blumenthal (1973: 6), produziu livros populares e alguns também ilustrados.

Esta edição foi impressa pelo inglês Isaac Iaggard, em 1620, que foi o impressor dos primeiros fólios de Shakespeare (Figura 18). O formato da obra é de 17 x 28 cm e o papel utilizado é de baixa gramatura. O texto foi impresso em duas colunas em um tipo itálico e só os textos introdutórios foram compostos em tipos romanos em uma coluna. O volume apresenta problemas de distribuição dos espaços e alguns bor- rões no meio do texto, talvez pelo fato de o olho da fonte ser muito fechado ou por descuido do impressor que não se preocupou com a uniformidade da superfície impressa, ou talvez também não tivesse a habilidade para resolver esses problemas. No leiaute das páginas, foram impressas linhas entre os títulos correntes para separá-los da

Figura 16. Decameron (1353), de Giovanni Boccaccio (1313-1375). Impresso em 1492 por Johannes e Gregorius de Gregoriis. Livro do acervo da Morgan Library. Fotos da autora.

Figura 17. Decameron (1353), de Giovanni Boccaccio. Impresso em 1473 por Johannes Zainer. Livro do acervo

da Morgan Library. Fotos da autora.

mancha, há vinhetas e capitulares no volume, porém em apenas algu- mas páginas.

Esta edição, impressa em 1665 pela Casa Elzevir, em Amsterdã, de Daniel Elzevir (Figura 19), é compacta, formato duodécimo de 7,5 x 14 cm e tem 744 páginas. Mesmo sendo uma obra compacta, apre- senta vinhetas e capitulares ornamentais, além de capitulares simples. O texto introdutório foi impresso em itálico e o texto principal, em romano. O volume é bem impresso, mas muito pequeno e com mar- gens mínimas. O corpo do texto é pequeno, de aparentemente 7 ou 8 pontos, com pouco espaço interlinear.

Segundo Araújo (2000: 326-327), a casa Elzevir tornou-se conhe- cida por imprimir livros de formato reduzido, como já haviam feito Manuzio e Plantin. O autor explica que, durante sua existência, a casa Elzevir lançou cerca de dois mil títulos. Esses dados sugerem o sucesso

desses pequenos livros, menos dispendiosos que os demais. No entan- to, após veriicar o original, o volume não é tão legível devido ao tama- nho do corpo e entrelinha. É interessante notar que, mesmo um livro compacto, que tem como princípio ser mais popular, é ainda assim or- namentado, o que indica uma predileção pela ornamentação mesmo em livros cujo objetivo era o de ser mais compacto e popular.

Lyons (2011: 79-80) assinala que:

Essas edições de bolso dos clássicos eram produtos de qualidade: erudi- tas, coniáveis e de preço razoável. A edição de 1636 das obras completas de Virgílio teve tanto sucesso que foi reimpressa quinze vezes. Clássicos em tamanho de bolso logo se tornaram conhecidos como ‘edições elze- vir’, fossem ou não publicadas por essa casa editorial.

Figura 18. Decameron (1353), de Giovanni Boccaccio. Impresso em 1620 por Isaac Iaggard. Livro do acervo da Morgan Library. Fotos da autora.

Figura 19. Decameron (1353), de Giovanni Boccaccio. Impresso em 1665 por Daniel Elzevir. Livro do acervo da Morgan Library. Fotos da autora.

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Esta edição em italiano, publicada em Londres por William Pickering, em 1825 (Figura 20), apresenta páginas simples, embora seja ilustrado. Nesse exemplar não há uso de capitulares nem de vinhetas. Apesar de Pickering ter se tornado famoso por resgatar o tipo oldstyle de William Caslon, o presente volume foi composto com um tipo de classe moderna, de eixo vertical rígido e alto contraste. O corpo dos tipos é pequeno, de aproximadamente 9 pontos. Pickering utilizou mais espaço interlinear e margens generosas para compensar o peso do tipo; abordagem seme- lhante, como se pode observar no capítulo anterior, à de Bodoni. Neste exemplar foi utilizado um papel mais ino, de gramatura aproximada de 70 mg. O livro é compacto e mede 11,5 cm x 19 cm.

Segundo Blumenthal (1973: 33), Pickering foi um dos poucos edi- tores ingleses que não sucumbiu à moda vitoriana e se inspirou nos séculos XV e XVI para produzir seus livros. O autor acrescenta ainda que, no trabalho de Pickering, encontra-se um dos primeiros exemplos da separação de tarefas entre impressor e editor, já que Pickering não imprimia, mas editava e projetava.

Edições de Dom Quixote

Este exemplar é iel à edição original de 1605 (Figura 21) e apresenta vinhetas, capitulares decoradas e margens generosas. O tipo utiliza- do na mancha de texto é da classe garalde, com espaço entre as letras maior que o comum e nem todas as páginas apresentam ornamentos.

Figura 20. Decameron (1353), de Giovanni Boccaccio  (1313-1375). Impresso em 1825 por William Pickering. Livro do acervo da Morgan Library. Fotos da autora.

Figura 21. Dom Quixote (1605-1615), de Miguel de Cervantes (1547-1616). Fac-símile do original de 1605, impresso no início do século XX pela Hispanic Society of America. Livro do acervo da Cleveland Public Library. Fotos da autora.

Esta edição em francês, “Les principales aventures de l’admirable Don Quichotte” (Figura 22), publicada em 1746, é uma edição ilustrada de 22 x 28 cm, impressa por Pierre de Hondt, na Holanda. O livro apresenta recuos de parágrafo proporcionais ao tamanho do corpo e da entrelinha. As margens são generosas, mas a mancha de texto é muito larga. O tipo usado é leve e apresenta eixo vertical, mas não é pesado como os moder- nos – talvez se trate de um tipo de transição. Algumas páginas, além das ilustrações, apresentam ainda vinhetas e capitulares decoradas.

Esta edição francesa, publicada pela editora Hachette (igura 23), em 1909, é muito mais limpa em ornamentos do que a anterior. As ilus- trações são mais leves, talvez pelo processo de fotogravura. A obra, de 20 x 29 cm, foi ilustrada por Daniel Vierge e é uma edição limitada de 350 cópias. Embora as ilustrações sejam leves e apresentem harmonia com os demais elementos do volume, a composição do texto em tipo de eixo racional apresenta problemas pois os espaços entre palavras são muito grandes, logo formam-se muitos buracos no meio do texto2, o que não resulta em uma mancha uniforme.

Já o exemplar, sem data, publicado em Madri pela editora Sáenz de Jubera (Figura 24), provavelmente entre o inal do XIX e início do sé- culo XX, foi impresso em papel feito com ibra de madeira, bem ino, que amarela rapidamente e se torna quebradiço com o passar do tem-

2 O termo em inglês é “rivers of white”. Em português, na tradução de Bringhurst (2005:34), o termo utilizado para denominar esses espaços irregulares indesejáveis no meio do texto é “espinha branca” ou “porcos-espinhos”. Na tradução de Hochuli (2013:49), o termo usado é “caminhos de rato”.

Figura 22. Dom Quixote (1605-1615), de Miguel de Cervantes (1547-1616). Impresso em 1746 por Pierre de Hondt. Livro do acervo da Morgan Library. Fotos da autora.

(1605-1615), de Miguel de Cervantes  (1547-1616). Impressa em 1909 pela Editora Hachette. Livro do acervo da Morgan Library. Fotos da autora.

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po. O uso desse tipo de material pode ser considerado um exemplo da massiicação pela industrialização do livro. É um livro ilustrado, “visí- vel”, que chama a atenção como objeto, porém é mal feito. Os mate- riais utilizados são de péssima qualidade, falta coerência visual entre as ilustrações e os demais elementos gráicos do livro, a mancha de texto é extremamente larga e difícil de ler, especialmente por ter sido composta com um tipo pesado, de classe moderna, com pouco espaço interlinear. Este é apenas um exemplo de como os livros na época po- deriam ser mal feitos. A partir desse caso, percebe-se que há uma pre- dileção pela ornamentação e ilustração, porém os materiais e o design são ruins. Exemplos como esse justiicam as críticas à industrialização, pois de nada adianta ter um objeto que não cumpre sua função: preju- dica a leitura por ser mal projetado e se decompõe rapidamente devido à qualidade de seus materiais, especialmente o papel.3

3 Ao manusear o volume em pesquisa de campo na Biblioteca de Cleveland, mesmo com cautela, as páginas se despedaçavam.

A partir desses exemplares de Decameron e Dom Quixote, nota-se que todos apresentam algum nível de “visibilidade”, seja pelas ilustrações ou pelos elementos decorativos. Alguns são mais visíveis do que ou- tros, claro, mas nesses casos os livros não são apenas suporte do texto, como são, em sua maioria, nossos livros de literatura hoje.

Como observado no capítulo anterior, o século XIX foi marcado por profundas transformações tecnológicas, que “massiicaram” a produ- ção de livros, tornando-os menos duradouros e bem feitos. Sem essa “massiicação”, porém, a leitura hoje não seria tão acessível. Este últi- mo exemplo de Dom Quixote relete os pontos negativos da produção industrial, pela baixa qualidade de seus materiais e de seu design.

A visibilidade no final do século XIX e início do século XX Textos literários podiam também, no inal do século XIX, ser publica- dos e lidos em folhetins, como este exemplo acima he Merry Man and other Tales and Fables (Figura 25), de Robert Louis Stevenson, de 1887. Esses textos eram mal compostos, com letras pequenas a ponto de ser difícil imaginar que o leitor que tivesse esses volumes em suas mãos tivesse prazer real em lê-los.

No entanto, generalizações são perigosas, McLean (1972), em Victo- rian Book Design and Colour Printing, apresenta uma série de designers e impressores produzindo livros de qualidade ao longo do século XIX, ao mesmo tempo foram criadas novas técnicas “baratas”, como o uso de te- cido para revestir as capas e a encadernação colada, em vez de costurada.

Figura 24. Dom Quixote (1605-1615), de Miguel de Cervantes (1547-1616). Data de impressão não identiicada e publicada pela Sáenz de Jubera. Livro do acervo da Cleveland Public Library. Fotos da autora.

Figura 25. Folhetim Harper’s Franklin Square, impresso em 1887. Acervo da Cleveland Public Library. Fotos da autora.

E assim como também se tratou brevemente no capítulo anterior, a partir da proliferação de livros produzidos em massa e de baixa quali- dade, William Morris e outros passaram a criticar os novos processos de produção industrial e resgatar a forma artesanal como alternativa para produzir livros de qualidade e duradouros. No capítulo anterior, entretanto, como o conteúdo era dedicado a tratar do livro simples, pouco foi apresentado sobre o resultado gráico e os livros ricamente decorados de William Morris e de alguns outros integrantes do movi- mento da Imprensa Particular.

Nas próximas seções deste capítulo abordaremos a visibilidade no livro de literatura, desde o Movimento da Imprensa Particular até meados da década de 1930, em que a chamada “ina impressão”4 ga- nha espaço na Europa e, especialmente, nos Estados Unidos. Este é um período que parece bastante intelectualizado e elitizado, no qual diversos designers, além de produzir livros de qualidade com materiais nobres, escrevem sobre as boas práticas em diversos periódicos, como já se mencionou no capítulo anterior. Sobre a importância desses mo- vimentos, John Kane (2012: 40) assinala:

O movimento para resgatar antigos modelos de tipos, liderado por T. J. Cobden Sanderson, Stanley Morison e Beatrice Warde, no Reino Unido, e por Daniel Berkeley Updike, Frederic W. Gougy, W. A. Dwiggins e Bru- ce Rogers, nos Estados Unidos, loresceu no inicio do século XX. O tra- balho intelectual que izeram apresentou a tipograia, pela primeira vez, como um assunto que valia a pena ser estudado e procurou demonstrar o valor dos mais antigos.

A visibilidade, ou seja, livros ornamentados ou ilustrados, não eram apenas produzidos pelos proissionais, dos quais trataremos neste ca- pítulo, mas também por editoras comerciais, porém usando materiais de qualidade inferior e com projetos gráicos mal feitos, como no exem- plo da editora espanhola mostrado anteriormente. Procurou-se nesta tese dar maior ênfase aos livros da “ina impressão”, muitas vezes edi- ções limitadas, especialmente por serem mais fáceis de encontrar em

4 O termo utilizado em inglês é “ine printing”. Optou-se por traduzir por “ina

impressão”. O termo era conhecido naquele contexto, não se refere apenas à boa impressão, mas à impressão feita em materiais e processos especiais e com design elaborado, dessa maneira outros termos como boa impressão não parecem dar conta da complexidade que envolve tanto a produção quanto a ideologia dessa abordagem.

acervos de bibliotecas, pois como são obras raras e importantes foram bem conservadas. O acesso a edições populares antigas é difícil, pois talvez muitas delas podem ter se deteriorado. Não foi possível, por exemplo, encontrar edições de bolso da editora Penguin das décadas de 1930 e 1940, pois estas podem ter se desemembrado ou mesmo sido substituídas por edições mais recentes.

Muitos desses livros eram compostos à mão, impressos em papéis