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2.6. Filtration

2.6.3. Fabric Filter Selection Criterion

e a visibilidade

Neste capítulo analisaremos a visibilidade em algumas de edições do conto Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street, de Herman Mel- ville (1819-1881), publicado anonimamente na revista Putnam’s Mon- thly, em 1853.

A edição de Bartleby, o escrivão, da editora Cosac Naify, foi o exemplo que, de certa maneira, nos levou a procurar estudar com mais profun- didade a relação entre texto e projeto gráico nos livros de literatura, além de perceber e buscar investigar a questão da visibilidade, uma vez que esta edição de Bartleby foge das convenções formais de um livro comercial tradicional.

Bartleby, o escrivão, é um conto1 de Herman Melville, disponível em diversas edições e línguas. A im de abordarmos as relações entre texto e projeto gráico, serão analisadas quatro edições, das editoras Assírio Alvim, Rocco, Cosac Naify e Indulgence Press. As duas primeiras edi- ções são comuns, de capa lexível (brochura), e as duas últimas apre- sentam design gráico mais “visível”.

Antes de apresentar a análise do projeto gráico dessas edições, fare- mos um breve comentário sobre o texto para que se possa obter pistas de como o projeto gráico pode colaborar ou não na produção de signiicados.

O conto “Bartleby, o escrivão”

Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street, de Herman Melville, é um conto cujo narrador é um rico advogado de Wall Street, proprietá- rio de um escritório que trabalha com hipotecas (inanciamentos imo- biliários) e títulos, que introduz brevemente a rotina de seu escritório, de seus dois funcionários não muito eicientes, Nippers e Turkey, e

1 De acordo com a enciclopédia Britannica. Disponível em: http://www.britannica.com/ topic/Bartleby-the-Scrivener; acesso em outubro de 2015.

narra a chegada do novo funcionário, Bartleby, uma das mais fascinan- tes iguras que havia conhecido. Bartleby é, portanto, o elemento que desestabiliza a trama.

No decorrer da narrativa, o enigmático e monossilábico funcionário pas- sa a recusar os pedidos do patrão, chegando a morar clandestinamente no escritório. Mesmo após um pedido para que se retirasse do local, Bartleby se nega a deixar aquele ambiente. O narrador sofre e se aborrece com as constantes recusas do funcionário, demorando um longo período até deci- dir tomar a iniciativa de chamar a polícia e expulsar o agora ex-funcionário, que acaba detido e morre de fome na prisão por se recusar a comer.

Bartleby é, como se sabe, um texto de gênero narrativo, entendido por Calligaris (2005) como uma novela curta, enquanto Perrone-Moi- ses (2005) o considera um conto. O enredo de Bartleby é linear, progre- dindo da apresentação ao desenlace (desfecho).

Utilizando a classiicação feita a partir de Norman Friedman quan- to à tipologia do foco narrativo abordada por Abdala Junior (1995) e Ligia Chiappini Moraes Leite (1985), veriica-se que o narrador de Bartleby, o advogado que observa e conta a dinâmica de seu escritó- rio e de sua relação com o personagem principal, pode ser classiicado como “eu” como testemunha.

Abdala Junior (1995: 28-29) explica que esta categoria de narrador: É um foco de primeira pessoa, onde o narrador é uma personagem de menor relevo e que relata fatos ocorridos com a personagem central ou personagens centrais. Este foco é mais limitado que o anterior [onisciên- cia neutra]: o narrador só consegue narrar o que viu ou pesquisou, não conseguindo penetrar na consciência das personagens. (1995: 28-29) A escolha desse ponto de vista (ou foco narrativo) contribui para o retrato de Bartleby como personagem extremamente misterioso e que desaia, desestabiliza o narrador. Como o personagem é funcionário do narrador, cria-se também uma relação assimétrica entre os dois, ampliando o estranhamento.

A escolha desse tipo de narrador, portanto, não é casual. Em uma história que pretende destacar o mistério da opção radical do protagonista, somente um narrador que não tivesse a capacidade de penetrar na mente de Bartleby poderia manter esse mistério insolú- vel, deixando possíveis interpretações a cargo dos leitores.

Em Bartleby, o desenvolvimento da ação é apresentado pelo perso- nagem dono do escritório. Há uma progressão de eventos, de “recusas” do personagem à ação. Quando o patrão pede a Bartleby para traba- lhar, ele não trabalha, quando pede a Bartleby que saia do escritório, ele recusa-se a sair e, quando pede que se alimente, ele também não se alimenta. Há uma intensiicação das recusas. Como airma Perrone- Moisés (2005), o bordão do personagem (“Preferiria não o fazer”) an- tes da inação não é negativa, mas sim evasiva. Mesmo que a frase que precede a ação do personagem seja evasiva, sua resposta é negativa, pois ele não faz nada do que se pede.

Em Bartleby, o conlito se dá pela expectativa do personagem nar- rador, que espera uma ação positiva de seu funcionário, seguida pela ruptura da expectativa quando há a negação. A tensão (conlito) nar- rativa surge após a apresentação da história e a sucessão é crescente, o personagem se nega primeiramente a fazer coisas simples e, chegando ao im, nega-se a comer e o resultado (desenlace) disso é sua morte.

Bartleby é complexo (personagem redondo)2, por se comportar de modo não previsível, sem explicação aparente, o que é reforçado por não se saber exatamente o que ele pensa.

Bartleby é o protagonista e, em certo sentido, poderíamos conside- rar o advogado seu oponente. Não como vilão, mas sim como alguém que demanda ou ordena ações contrárias às vontades do personagem, que “não quer fazer nada” do que lhe é solicitado.

A ação se passa em Nova York, precisamente no escritório do advogado em Wall Street, e há ainda um breve momento na prisão, na qual Bartleby morre por recusar-se a se alimentar. Há uma relação en- tre o espaço físico (escritório) e o espaço psicológico do personagem, que ali se instala e não quer sair.

2 Podem existir em uma narrativa personagens planas (simples) e redondas (complexas) e segundo (ABDALA JUNIOR, 1995: 42) “A personagem redonda, pela sua caracterização complexa, deve igurar entre as personagens centrais da narrativa. Ela é imprevisível e suas predicações vêm aos poucos. Por ela apresentar complexidade psicológica, a personagem redonda pede focalizações internas, seja dela própria ou de outras personagens que a observam”.

262 O livro de literatura: entre o design visível e o invisível Iara Pierro de Camargo 263

Segundo Leyla Perrone-Moisés3, a negação de Bartleby a partir do “Preferia não fazer”4 é extremamente perturbadora:

Bartleby, como se sabe, é a personagem de um conto de Melville, um mo- desto escriturário que perturba seu patrão, o escritório, a ordem social e talvez até mesmo a ordem do universo pela resposta que costuma dar a qualquer ordem recebida: “Preferiria não o fazer”. 

A crítica aponta que Bartleby é um dos personagens mais famosos da icção moderna, cuja chave se encontra especiicamente pela frase evasiva:

Tudo está na resposta “preferiria não o fazer”5, que não é negativa nem

airmativa, mas evasiva. Bartleby não é o contestatário de um poder, mas um resistente passivo que põe em xeque qualquer poder. Sua res- posta não permite qualquer contradição ou ilação. Ele é o mais humilde dos indivíduos, mas sua possibilidade de dizer que “preferiria não” lhe confere uma dignidade e uma soberania invencíveis.6

Perrone-Moisés debate a importância desta narrativa de icção a partir de comentários e citações de críticos e ilósofos como Gilles De- leuze e Jaques Derrida sobre a recusa do personagem Bartleby:

Os estudos sobre Bartleby já eram numerosíssimos no âmbito anglo-saxão, mas foi o posfácio ao conto escrito por Gilles Deleuze em 1989, intitulado “Bartleby ou a fórmula”, que colocou em circulação ilosóica internacional a personagem de Melville e sua frase. Deleuze observa: “A fórmula arrasa- dora elimina tão impiedosamente o preferível quanto qualquer não prefe- rido. Ela abole o termo a que se refere, e que ela recusa, mas também o ou- tro termo que ela parecia preservar, e que se torna impossível”. Depois de Deleuze, outros ilósofos contemporâneos se debruçaram sobre Bartleby, como Giorgio Agamben (“Bartleby o della contingenza”) e Jacques Derri- da (em cursos e trechos de livros). Inicialmente interessado em Bartleby pelo tema do “segredo”, o último Derrida enfatizava, no escriturário, o tema da “resistência ética”. Outros estudiosos assinalaram a ainidade da atitude de Bartleby com a própria “desconstrução” derridiana, pelo fato de esta evitar o dualismo do sim ou não. 7

3 Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1302200512.htm; acesso em abril de 2014.

4 A expressão “I would prefer not to” pode ser traduzida de várias maneiras; na edição da Cosac Naify foi vertida como “Acho melhor não”.

5 A tradução da expressão que a autora usou provavelmente não é a mesma da tradução da Cosac Naify.

6 Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1302200512.htm; acesso em 1.05.2014.

7 Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1302200512.htm; acesso em 2014.

A partir dessa breve análise e especialmente a partir dos comentá- rios de Perrone-Moisés, percebe-se a importância desse texto no cam- po da teoria literária e entende-se que o conceito chave da trama é o da recusa, da negação de tudo e até da vida do personagem principal e do mistério que envolve essas ações.

Análises de quatro edições de “Bartleby, o escrivão” No capítulo anterior foram apresentadas propostas de diversos auto- res para a análise de projeto que podem auxiliar a identiicar as rela- ções que podem existir entre texto e projeto gráico no livro de litera- tura. Dessa maneira, foram realizadas quatro análises baseadas nos modelos apresentado acima de quatro diferentes edições do mesmo texto. O modelo é uma versão simpliicada das propostas de Stöckl e Villas-Boas e neste se faz a descrição técnica procurando contemplar tanto os domínios da macro e micro tipograia, além de materiais e acabamentos gráicos, e estabelecer uma relação entre esses elemen- tos e o texto de Bartleby. Já que se trata do mesmo texto, é possível fazer uma análise comparativa. Os volumes das editoras Assírio Alvim e Rocco apresentam poucas informações sobre o projeto (não há, por exemplo, colofão no volume nem informações sobre o designer do pro- jeto) e dessa forma foram realizadas análises compactas. Já as edições da Indulgence Press e da Cosac Naify apresentam mais informações no volume, que tornaram possível uma análise mais completa, além do fato de que os designers dos projetos concederam entrevistas.

A análise do volume editado pela Cosac Naify é mais extensa, devido a este ter sido o objeto de base para a presente investigação. Além da apre- sentação e análise da presente edição, introduzimos, para uma contextua- lização, a editora através de entrevista realizada em outubro de 2013 com a diretora de arte e responsável por esta edição, Elaine Ramos.

Edição de Bartleby, da Editora Assírio e Alvim (1988)

Descrição técnica Relação entre texto e projeto

Impressão: ofset

Formato: 115 x 186 mm (fechado). O volume apresenta lombada de 7 mm e duas orelhas de 90 mm de largura cada.

Há relação com a identidade da coleção Gato Maltês (padrão editorial).

Encadernação e acabamento: brochura

Há relação com a identidade da coleção Gato Maltês (padrão editorial).

Papel da Capa: cartão (aprox. 300 mg/m2) com laminação brilhante.

Há relação com a identidade da coleção Gato Maltês (padrão editorial).

Capa Microtipograia: - título: sem serifa grotesta, condensada, composta em caixa alta em corpo de 15 mm caixa alta; cor: vinho.

- nome do tradutor: sem serifa grotesca, condensada, composta em caixa alta em corpo de 3 mm caixa alta; cor: vinho.

-nome do autor: tipo itálico com corpo de 4 mm (altura x); cor: vinho.

Macrotipograia

Todos os elementos textuais se encontram localizados do lado esquerdo enquanto a foto se encontra alinhada do lado direito, o que pode dar um certo equilíbrio à capa, sendo que a disposição dos elementos não tende a pesar para apenas um lado. O quadro com a foto (elemento ilustrativo) tem a dimensão de 77 x 51 mm.

Há relação da face tipográica com a identidade da coleção (padrão editorial).

Imagem da capa:

Fotograia monocromática posicio- nada em quadro de dimensão de 77 x 51 mm.

Figura humana em primeiro plano e janela em segundo plano.

As imagens das capas desta coleção mudam a cada volume. A escolha da foto provavelmente mantém alguma relação de complementaridade semântica com o texto. No caso da presente edição, temos a imagem de um rosto na sombra de olhos fechados com um fundo pouco nítido que lembra uma janela cuja paisagem não é possível identiicar devido ao desfoque ou ao uso de algum iltro fotográico que pode ter sido utilizado com o intuito de distorcer a imagem. Pode denotar melancolia e passividade.

Talvez essa imagem represente ou remeta, metaforicamente, ao personagem Bartleby, imóvel diante da opacidade do mundo (janela). A visão é lúgubre e desfocada e as pálpebras cerradas do homem podem ser interpretadas como a recusa do olhar.

Papel do miolo: Ofset branco (aprox. 80 ou 90 mg/m2). Papel sem revestimento alcalino. Papel comumente utilizado em publicações.

Microtipofraia do miolo: face tipográica do texto: eixo inclinado e terminais em gota (2 mm altura x) peso regular; cor: preto.

Face tipográica da numeração de página: grotesca sem serifa de peso semibold.

Face tipográica comumente utilizada na composição de textos em livros.

Paratipograia

Mancha gráica: 81 x 138 mm. Margens: superior 19 mm; inferior 30 mm; lateral externa 16 mm; lateral interna 16 mm.

Para uma análise mais precisa seria necessário saber exatamente qual é a família, para saber se pode existir alguma referência histórica ou regional. Como não há colofão, foi feita uma breve descrição formal do tipo.

Figura 91. Capa e páginas de Bartleby da editora Assírio Alvim. Livro do acervo da biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Fotos da autora.

266 O livro de literatura: entre o design visível e o invisível Iara Pierro de Camargo 267

Edição de Bartleby, o escriturário, da Editora Rocco (1986)

Descrição técnica Relação entre texto e projeto

Impressão: ofset

Formato: 120 x 200 mm (fechado). O volume apresenta lombada de 8 mm e duas orelhas de 74 mm de largura cada.

Há relação com a identidade da coleção (padrão editorial).

Encadernação e acabamento: brochura. Capa colada ao miolo.

Há relação com a identidade da coleção (padrão editorial). Papel da capa: cartão (aprox. 300 mg/m2)

com laminação brilhante.

Há relação com a identidade da coleção (padrão editorial). Capa:

Microtipograia:

- título: romana serifada – serifa triangular, terminais lacrimais, eixo reto nas letras maiúsculas e inclinado nas minúsculas (caixa alta em BARTLEBY – 15 mm – e alta e baixa em O Escriturário – 7 mm alt. X -;condensa- da. Cor: roxa.

O título se encontra mal espacejado. Enten- demos que tenha sido feito dessa maneira para justiicar o título e o subtítulo.

Há relação da face tipográica com a identidade da coleção (pa- drão editorial).

A capa possui margens em roxo com quadro branco no centro com uma ina moldura preta ornamentada. Todos os elementos textuais se encontram centralizados dentro desse quadro branco.

Há relação com a identidade da coleção (padrão editorial). Este volume, por ser parte integrante de uma coleção, possui elementos grá- icos comuns aos outros livros da série “Coleção Novelas Imortais”. Papel do miolo: ofset branco (aprox. 80 ou

90 mg/m2).

Papel sem revestimento alcalino.

Não há.

Tipograia do miolo: face tipográica texto: eixo levemente inclinado e terminais lacri- mais abruptos (2 mm altura x) peso regular. Cor: preto.

Aparentemente é um tipo da classe Garalde. Face tipográica da numeração de página: aparentemente a mesma da mancha gráica. Mancha gráica: 76 x 126 mm.

Margens: superior 37 mm; inferior 39 mm; lateral externa 18 mm; lateral interna 22 mm.

Para uma análise mais precisa, teríamos de saber exatamente qual é a família, para saber se pode existir alguma referência histórica ou regional. Como não há colofão izemos uma breve descrição formal do tipo.

Edição de Bartleby the Escriviner, pela editora Indulgenge Press (1995)8

Descrição técnica Relação entre texto e projeto

Impressão: Letterpress1.

Tamanho: Formato fechado: 152,4 mm x 304,8 mm (12 x 6 polegadas).

Formato de proporção 1 x 2.

Denota documento legal, utiliza como referência formatos utilizados em documentos de textos legais.

Relaciona-se à atividade do escritório de advocacia.

A impressão com tipos de metal (letterpress) remete ao processo de impressão usado na época em que o texto foi escrito

Encadernação e acabamento: Capa dura com lombada quadrada. Encadernação costurada.

Páginas de guarda sem impressão em papel artesanal produzido por MacGregor & Vinzani.

Denota sobriedade do documento por aca- bamento e materiais de qualidade.

8 Disponível em: http://www.indulgencepress.com/Books/Bartleby.html; acesso em fevereiro de 2014

Figura 93: Capa e páginas de Bartleby, da Indulgence Press. Imagens do site da casa publicadora. Figura 92.

Capa e páginas de Bartleby da editora Rocco. Livro do acervo da biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Fotos da autora.

Papel da capa: revestimento da capa dura em papel Arches MBM2

com textura produzida a partir de moldes3 .

A textura do papel lembra uma parede de tijolos

Há relação com o personagem Bartleby que costuma icar olhando para a parede. Remete a parede de tijolos à vista.

Tipograia da capa: não há texto na capa, só na lombada.

Ausência de texto.

O designer fez uma citação direta a uma pasta de documentos legais.

Relaciona-se a atividades de um escritório de advocacia.

Imagem da capa: textura da pare- de de tijolos em alto relevo.

Há relação com o personagem Bartleby que costuma icar olhando para a parede. Pode denotar melancolia e passividade. Papel do miolo: Arches MBM

mould made (papel que tem um aspecto artesanal).

Relaciona-se, por ter uma aparência artesanal, ao tipo de papel usado no século XIX.

Microtipograia do miolo: a) Bulmer para o texto (tipo moderno);

b) Lettering que sobrepõe o texto com a frase da negação de Bartle- by (caligraia na cor amarela que sobrepõe o texto).

a) relação da tipograia com o ambiente austero;

b) O lettering em amarelo que sobrepõe o texto traz o bordão do protagonista “I would prefer not to”. Que começa legível e depois vai se tornando cada vez mais presente e se torna abstrata devido à escala. Apresenta relação direta com o texto e com a progressão da trama.

Este Bartleby é uma edição especial e limitada com tiragem de ape- nas 100 exemplares nos moldes das Prensas Particulares, já que o pro- cesso de produção foi artesanal.9

Em entrevista realizada em fevereiro de 2013, Wilber H. “Chip” Schilling explica que entende Bartleby como a história de um advoga- do. Logo, deve ter sido devido a esse fator que ele criou o formato do livro, baseando-se na forma de documentos legais (legal ledger). Como a história se passa em Wall Street e Bartleby olha ixamente o muro, Schilling criou uma textura para o papel que reveste a capa dura em alto relevo, representando um muro de tijolos à vista.

Schilling explica também que não colocou o nome do autor na pá- gina de rosto (na capa não há impressão do título, apenas na lomba- da), uma vez que o original havia sido publicado de forma anônima em uma revista.

9 Preço de venda em janeiro de 2016: $ 550 dólares

A fonte utilizada para a composição do texto (impressa em tipogra- ia em metal – letterpress) foi a Bulmer10, criada em 1928 por Morris Fuller Benton, tipógrafo americano. Segundo Schilling, trata-se de um tipo transicional que ele achou adequado para remeter à época. A fa- mília Bulmer, no entanto, pode ser considerada da classe moderna por possuir serifas de tipo ilete, eixo de contraste vertical e grande varia- ção de espessura entre traços grossos e inos, como se pode perceber no gráico abaixo (igura 94):

Ao longo do livro, há a interferência de um lettering caligráico desenhado por Suzanne Moore que se sobrepõe ao texto. Wilber H. “Chip” Schilling  explica que “chega uma parte da história em que você começa a imaginar quem é o Bartleby que se recusa a fazer todas aquelas coisas e começa a se tornar, cada vez mais, um personagem abstrato. Dessa maneira suas respostas (I would prefer not to, na cali- graia de Suzanne Moore)11 começam a icar maiores e se expandem ao longo das páginas.

10 A Bulmer foi desenvolvida primeiramente em 1792 pelo tipógrafo William Martin. Disponível em: http://www.myfonts.com/fonts/mti/bulmer-mt/; acesso em 21.04.2014. Disponível em: http://www.myfonts.com/fonts/adobe/bulmer/; acesso em 21.04.2014 11 Parênteses nosso.

Figura 94: Amostra dos tipos usados na edição da Indulgence Press. Desenvolvido pela autora.

Bulmer Regular

aAbBcCdDeEfFgGhHiIjJlLmMnNoOpPqQrRsStTuUwWxXyYzZ 1234567890

Bulmer italic

aAbBcCdDeEfFgGhHiIjJlLmMnNoOpPqQrRsStTuUwWxXyYzZ 1234567890

Bulmer Bold

aAbBcCdDeEfFgGhHiIjJlLmMnNoOpPqQrRsStTuUwWxXyYzZ 1234567890

aAoOpPqQf FtT

terminal lacrimal Serifa Filete Eixo de contraste reto

Os tipos apresentam alto contraste entre traços finos e grossos.

Bulmer Regular

270 O livro de literatura: entre o design visível e o invisível Iara Pierro de Camargo 271

Há então duas vozes tipográicas: a do advogado impressa em Bul-