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Terminalabrupto
Serifa triangular com base irregular (não é reta) e com junção arredondada
Eixo de contraste inclinado
Goudy Old Style
Goudy Old Style italic
Utilizada no texto principal de Bartleby.Figura 96: Amostra dos tipos usados na edição da Cosac Naify. Desenvolvido pela autora.
A designer da edição, Elaine Ramos, explica em entrevista realizada em outubro de 2013 que a escolha do itálico se dá para representar o cursivo, porém ela acredita que o itálico desta fonte em especial não é muito inclinada. Quando questionada se os leitores haviam notado a diferença de todo texto em itálico, já que, na maioria das vezes, os livros são impressos com tipos romanos regulares, ela diz que prova- velmente perceberam, mas que achava que os leitores iriam reclamar, o que não aconteceu, talvez também pelo fato de o texto ser curto, não chega a cansar os leitores. Ramos complementa que o condensamento do texto em itálico auxiliava em outro processo do livro, que precisava icar curto, pois tem uma produção complicada em que era necessário intercalar manualmente as páginas dos cadernos.
Elaine Ramos é, também, responsável pela criação de grande parte dos projetos gráicos de livros da editora e explica em entrevista que a Cosac Naify possuía no momento da entrevista uma equipe de design interna17. Ramos explica que o processo é diferente em grandes edito- ras, nas quais se trabalha com um miolo padrão e o investimento em design é na capa. Já na Cosac Naify “cada designer é responsável pelo livro como um todo e tem uma conversa muito próxima com o edito- rial e com a produção gráica”.
Ramos explica que os designers leem os textos para criar os pro- jetos (ou o livro inteiro, mas obrigatoriamente ao menos uma parte do texto). O editor de texto produz um brieing sobre o projeto mas, mesmo assim, o designer precisa ler o texto para entender o contexto e alinhar o projeto ao tema do livro. Além de uma proposta de maior integração do projeto com o texto, há também o pensamento de livro como um objeto único, no qual capa e miolo apresentam-se como um objeto coerente:
Mesmo que seja uma brochura básica, sempre o miolo vai ter uma rela- ção com a capa, sempre o papel foi pensado para aquela quantidade de texto, sempre há uma integração do livro, acho que esse é o principal diferencial da Cosac, que não é a capa e o livro padrão, o livro é sempre pensado como único. (RAMOS, 2013)
17 Em outubro de 2013 a equipe contava com seis designers internos. Em 30 de novembro de 2015, um dos donos da editora, Charles Cosac, anunciou seu fechamento.
No mercado editorial alguns projetos de livros são pensados de ma- neira integrada, como nos livros de arquitetura, design, artes etc., po- rém essa é uma abordagem rara em editoras comerciais que publicam obras literárias18. Ramos explica que, pelo fato de que a Cosac Naify antes de ampliar a linha editorial para literatura e outros assuntos era uma editora com foco no mercado de arte, isso pode ter inluenciado a estratégia adotada para a produção dos livros de literatura:
A Cosac começou como uma editora de arte e no mercado de arte os livros são pensados inteiramente. Em livros de arte, é muito raro que alguém tenha feito a capa e outra pessoa, o miolo. Acho que a Cosac trouxe essa ideia da relação do livro de arte para o miolo, para o livro de literatura. E isso que deu essa característica tão única. (RAMOS, 2013.) Elaine Ramos explica em entrevista como surgiu a ideia da metáfora da negação, presente nas páginas não reiladas (lacradas) e a capa cos- turada de Bartleby, o escrivão. O tipo de encadernação de costura plana unindo as páginas do livro ao miolo já tinha sido utilizado em outra obra publicada pela editora: a novela Primeiro amor, de Samuel Beckett.
No caso de Bartleby, o livro é lacrado e, quando se abre a capa, todas as páginas apresentam a da imagem da parede fotografada por Nelson Kon. O texto de Bartleby está nas páginas internas, já que o livro não é reilado. Existem, dessa maneira, duas diiculdades para se chegar ao texto: abrir a capa que está lacrada pela costura plana na lateral direita, além da costura da encadernação na lateral esquerda. A segunda dii- culdade é abrir cada página. Esse recurso estrutural e gráico do rela- ciona-se ao texto, o que Ramos explica como a “metáfora da negação”. Quanto à falta de reile do canto direito, como mencionado acima, antigamente os livros não eram reilados, as páginas do miolo eram dobradas e encadernadas (costuradas pela lateral), mas não eram re- iladas, o que exigia que o leitor abrisse as páginas uma a uma. Porém Ramos explica que esse processo existia, mas que não há citação his- tórica a esse procedimento, a principal ideia desse recurso era a da ne- gação, do “acho melhor não” do personagem Bartleby, e a capa lacrada também colabora para evidenciar essa ideia.
18 Pequenos selos e artistas ou autores independentes podem trabalhar dessa maneira, mas em editoras comerciais é mais difícil.
278 O livro de literatura: entre o design visível e o invisível Iara Pierro de Camargo 279
Segundo Liu (2013), há cinco tipos de miolo (que podem ser veri- icados em livros e em outros produtos editoriais): aberto, envelope, desdobrável, sanfona e assimétrico. O miolo de Bartleby, a partir de Liu, é o do tipo envelope, cuja deinição é:
Envelope: as páginas de um volume podem ser duplas, reiladas e aber- tas somente na parte superior e inferior do miolo. (...) É possível ter con- tinuidade perfeita de um texto ou imagem, entre uma página dobrada e outra. O rasgo manual das páginas pode gerar uma aresta com rebarbas. (LIU, 2013: 105)
É importante mostrar que, quando se abre o livro com a espátula, a aresta dele ica com rebarba e estas podem, segundo Liu, também ser usadas como um recurso gráico:
Rebarbas em arestas de livros ou volumes atribuem aspecto artesanal ao livro. As folhas dobradas para a montagem dos cadernos são abertas manualmente, em vez de serem reiladas. Papéis mais macios e ibrosos originam rebarbas com mais textura. (LIU, 2013: 107)
Bartleby é um livro especial, com uma abordagem pouco usual, mas que vendeu mais de 12.000 exemplares19, considerado uma quantida- de alta para a estrutura da editora. O valor de capa dessa edição20, em abril de 2014, era de R$ 44,00, relativamente alto, considerando-se o tamanho do texto. Ramos explica que o alto valor das edições, não apenas de Bartleby, é fruto do alto custo de produção, pois os livros apresentam leiaute exclusivo e materiais e processos de impressão e acabamento especiais, que não fazem parte de um sistema de produ- ção massiicado utilizado por grandes editoras: “As tiragens são muito pequenas, isso faz com que o valor unitário seja muito alto. Isso faz com que a Cosac tenha uma estrutura grande, uma estrutura cara.” (RAMOS, 2013)
A encadernação de Bartleby, como mencionado anteriormente, é ba- seada na encadernação do primeiro livro da coleção particular, Primeiro amor, de Samuel Beckett. Ramos explica que descobriu que era possível trabalhar com esse tipo de costura na lateral ao observar que nas gráicas 19 Dado obtido em abril de 2014. Provavelmente mais cópias foram vendidas até o término da redação desta tese de doutorado. Hoje todas as edições do livro encontram-se esgotadas e provavelmente não serão reimpressos devido ao fechamento da editora em novembro de 2015. 20 Disponível em: http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/10900/Bartleby,-o- escriv%C3%A3o---Uma-hist%C3%B3ria-de-Wall-Street.aspx; acesso em 18.04.2014.
as capas de Bíblia de couro são costuradas com esse tipo de máquina que não é a de encadernação tradicional, é uma máquina de costura plana Singer. Segundo Ramos, essa edição de Bartleby não é muito difícil de viabilizar do ponto de vista de produção gráica, de tecnologia gráica. Para realizar este trabalho a escolha dos materiais era fundamental, o pa- pel devia ser ino o suiciente para esse tipo de costura e para o manuseio de abrir as páginas com a espátula, porém não poderia ser ino demais, transparente demais, porque assim poderia prejudicar consideravel- mente a leitura. O material da capa, o papel que lembra pasta arquivo, já era conhecido pela designer antes da produção deste volume, quando ela ainda era aluna de graduação da FAU-USP, pois em uma ocasião veriicou
Costura na lateral fechando o livro
Puxando a linha para abrir
Como o livro apresenta encadernação invertida as páginas com o texto são impressos dentro
Para ler o livro deve-se abrir as páginas com a espátula que o acompanha
Abrindo as páginas com a espátula de acetato
Abrindo as páginas com a
espátula de acetato Diversas páginas abertas Diversas páginas abertas
Capa do livro aberta. Todas as páginas possuem a impressão monocromática do muro e dentro há uma ina espátula de acetato
Figura 97: Manuseio do volume. Abertura das páginas. Passo a passo. Desenvolvido pela autora.
que esse tipo de papel tinha sido usado na capa de uma publicação dos estudantes chamada Caramelo. Ramos explica em entrevista (RAMOS, 2013) que usou esse papel “porque o objetivo era lembrar uma pasta de documentos antigos, o mundo burocrático de documentos”.
O papel usado na capa a princípio era um isolante elétrico, mas foi mudando de acordo com as reimpressões, uma vez que o papel de capa da primeira edição acumulava umidade e embolorava o livro. Ramos explica que o primeiro papel utilizado tinha uma textura interessante, era gelado ao toque, porém a umidade atrapalhava demais, deixando engruvinhado o miolo. A leitura de Bartleby é, de certa forma, perfor- mática, o leitor tem que abrir as páginas do livro para conseguir ler o texto e, dessa maneira, vivencia a ‘negação’ de Bartleby... o leitor ao ver o livro lacrado poderia pensar ”acho melhor não abrir”.
Além do lacre da costura, em algumas edições o livro era fechado também com uma embalagem plástica e sobre ela era aplicado um ade- sivo com a seguinte frase: “apesar de xxxx exemplares vendidos, acho melhor não comprar”. A última sentença da frase “acho melhor não comprar” foi composta em tipo bold para chamar a atenção e mais uma vez reforça a ideia da negação, mas ao mesmo tempo estimula o leitor, pois apesar de ter sido sucesso de vendas, como apontado pelo adesi- vo, a recusa é incentivada. Trata-se obviamente de uma ironia e este recurso retórico talvez tenha força de instigar a compra da obra.
Uma vez totalmente aberto, a força da negação do lacre do projeto é minada, dessa maneira a experiência é perecível. Elaine Ramos, em entrevista, explica que:
O livro em essência é um objeto perene e Bartleby vai nessa contramão (...) A partir do momento que você lê, você o destrói, o projeto se refere à negação do personagem, mas também é a negação do sentido do livro, porque o sentido do livro é perpetuar e dessa maneira, também nega a própria essência do livro que é a de perpetuação.
Ainda sobre esta edição de Bartleby, foi realizada entre janeiro e maio de 2014 uma pesquisa informal com vinte e dois leitores (ANEXO) e a maioria deles não se incomodou com a composição do texto em itálico e muitos deles conseguiram estabelecer um paralelo entre o texto e o projeto gráico e acharam a experiência de leitura interessante, o que demonstra o interesse de um público leitor por livros “visíveis” e esti-
mulantes se comparados às edições comuns. A pesquisa, então, de cer- ta forma, apresenta uma tendência, ou então uma abertura do público a experimentos desta natureza nos dias de hoje.
As quatro edições discutidas apresentam características e propósi- tos diversos e esses propósitos podem também ser considerados em relação às próprias estratégias editoriais das casas publicadoras. As duas primeiras edições de Bartleby são edições comerciais tradicionais e uma delas faz parte de uma coleção e tem seu projeto padronizado. O penúltimo exemplo foi criado no modelo das “prensas particulares”, produzido com materiais nobres e com processos artesanais e edição limitada. Já Bartleby da Cosac Naify é de uma editora que tem feito seu “nome”, criado sua identidade justamente a partir de projetos es- peciais, de uma concepção do livro como objeto único. Ainda assim é uma editora comercial e suas tiragens não são limitadas.
Os dois primeiros exemplos apresentam sutis relações entre o texto e o projeto, sendo ambos os projetos mais utilitários. Já os dois últi- mos apresentam evidentes relações de projeto gráico com o texto, a visibilidade do volume se dá especialmente na colaboração, para uti- lizar o termo proposto por Linden (2011) para a criação de sentido junto ao texto verbal.
É possível veriicar, com base nos exemplos e na literatura teórica apresentada neste capítulo, que a visibilidade do livro de literatura pode ser uma abordagem de design que contribui efetivamente na constru- ção de sentido, complementa o texto literário e pode enriquecer a leitu- ra. A edição de Bartleby da Cosac Naify é um exemplo bem sucedido da integração entre texto e projeto, e não é apenas interessante do ponto de vista do design, mas como um produto cultural, já que mostrou que projetos como esse tem seu valor e são apreciados pelo público, uma vez que a edição recebeu críticas positivas e retorno comercial.