Chapter 4: Kathryn Tanner’s Conception of Christian Tradition
4.6 Textual Interpretation and Biblical Authority
4.6.1 Privileging the Plain Sense as a Strategy for Diversity of Interpretations
Nossa segunda consequência é sobre a incontornável relação antagônica Hegel- Kant no que diz respeito às categorias e ao pensamento. É sobretudo nesses dois temas que podemos encontrar a base do afastamento entre os dois. Contudo, devemos ter em mente tanto que o fundo dessa contrariedade é epistemológico e ontológico quanto daria uma outra dissertação passarmos por ela completa e profundamente. Por isso, o que
faremos a seguir será identificar os principais pontos dessa discordância e, ao mesmo tempo, salientar os avanços hegelianos.
Uma de nossas vantagens, aqui, é já termos visto, na seção anterior, o projeto kantiano na Kritik der reinen Vernunft com sua "revolução copernicana" particular; assim, podemos retomar teses importantes sem nos estendermos em mais explicações. Vejamos, então, quais são as que nos interessam, nesse momento, com uma breve revisão de sua posição:
Para Kant, o conhecimento que podemos ter se resume ao conhecimento do mundo fenomênico, isto é, do mundo tal qual nos aparece. Disso, extraímos dois resultados: a) há um mundo não fenomênico – que também pode ser denominado 'numênico' ou 'o mundo que não aparece a nós'; e b) o homem só conhece o que lhe aparece, ou seja, jamais conhece o númeno, somente seu fenômeno. Porém, para, de fato, esse 'aparecer' ser conhecimento, algumas condições são necessárias. A primeira é a própria possibilidade de haver fenômeno para o sujeito, quer dizer, a faculdade da sensibilidade – é através dela que se adquire a matéria ou conteúdo do conhecimento. A segunda é a capacidade de pensar sobre essa matéria recebida pela sensibilidade, ou a faculdade do entendimento; e é por meio dela que o conteúdo toma forma e é posto em juízos. Ambas as faculdades são, na CRP, analisadas por Kant do ponto de vista transcendental, que quer dizer, em linhas gerais, reconhecer o que há de universal e necessário nelas. Mediante a estética transcendental, na sensibilidade foram descobertas duas intuições puras: o tempo e o espaço (ou seja: não há sensibilidade fora delas); e, por intermédio da lógica transcendental, seguindo as indicações dos juízos, no entendimento foram encontradas doze categorias (ou seja: não há pensar conceitualmente que escape a uma dessas operações). A estética e a lógica, assim, se complementam para gerar conhecimento; uma sem a outra é incapaz de fazê-lo porque ou teríamos apenas o seu conteúdo ou apenas a sua forma. Ainda vale lembrar que ambas as faculdades transcendentais estão submetidas a uma unidade mais básica que as sintetizam: a apercepção. A apercepção é o Eu puro transcendental ou a unidade transcendental da autoconsciência que se mantém em todas as experiências do sujeito (igualmente visto sob a ótica 'universal-necessário', distinto do eu empírico e particular ou da identidade subjetiva).
Notadamente, uma das bases para Kant é ter o pensamento como puramente formal, destituído de conteúdo, tendo apenas, a priori, as categorias do entendimento que delimitam o seu agir. Estando o conteúdo do conhecimento fora do pensar, a cisão
entre sujeito e objeto se torna intransponível, pois o objeto em si para um conhecimento verdadeiro é transformado em fenômeno pela sensibilidade e tornado conceito pelo entendimento, ou seja, o objeto do conhecimento é aquele produzido pelo próprio sujeito cognoscente, não o em si – e, aí, se tem o início da indesejada dicotomia. Agora, se Hegel pretende ultrapassar Kant, ele necessariamente terá de solucionar esse problema – e foi o que fez, já no Prefácio à Segunda Edição (1831) da Ciência da
Lógica:
a) A incompletude desse modo de considerar o pensar, que deixa de lado a verdade, deve ser completada unicamente através do integrar na consideração pensante, não meramente aquilo que costuma ser atribuído à forma exterior, mas o conteúdo. Mostra-se rapidamente por si mesmo que aquilo que na primeira reflexão mais habitual está separado da forma enquanto conteúdo, de fato, não deve ser, em si, sem forma, destituído de determinação – assim ele seria apenas o vazio, por exemplo, a abstração da coisa-em-si –, que ele, pelo contrário, tem forma nele mesmo, pois somente tem por ela animação e conteúdo substancial, e que ele é ela mesma aquilo que se converte apenas na aparência de um conteúdo tal como também se converte, com isso, na aparência de um exterior nesta aparência. Com essa introdução do conteúdo na consideração lógica não são as coisas, mas a Coisa, o conceito das coisas, que se torna objeto. (CL, p. 39).
E, visto de outra forma, na Introdução:
b) Em primeiro lugar, porém, já é inapropriado dizer que a lógica abstrai de todo conteúdo, que ela apenas ensina as regras do pensar sem poder se dedicar ao pensado e levar em conta a sua constituição. Pois, uma vez que o pensar e as regras do pensar devem ser seu objeto, ela já possui assim imediatamente seu conteúdo peculiar; com isso, ela também tem aquele segundo elemento constitutivo do conhecimento, uma matéria, de cuja constituição ela se ocupa. (CL, p. 46).
O que essas duas citações nos trazem é que, para Hegel, (a) nem o conteúdo é destituído de forma, e (b) nem a forma é destituída de conteúdo. Isso quer dizer que o pensamento é (b) em si seu conteúdo, e (a) se o conteúdo tem forma em si ela não é diferente da do pensar já que a forma é a do pensar. Diferente de Kant, o pensar não é vazio no seu agir; ao pensar, ele se autodetermina porque enquanto atividade formal incide-se sobre si mesmo enquanto conteúdo, e, ao se autodeterminar, qualquer conteúdo que fosse pretensamente considerado sem forma deveria ser classificado como vazio – tal como é a coisa em si kantiana.
Agora, aqui, as categorias já desempenham um papel importantíssimo, haja visto a determinação do pensamento ser categorial. Porém, deve saltar aos nossos olhos, desde já, a diferença que faz as categorias estarem relacionadas a um pensamento vazio de conteúdo ou meramente formal, circunscrito ao entendimento45, capaz de falar apenas
de uma experiência possível46 (necessariamente do mundo fenomênico) e não da coisa
em si, como é para Kant, e de estarem relacionadas com um pensamento que é tanto forma quanto conteúdo, que, por isso, ao não receber de fora o conteúdo – já que é ele mesmo –, determina o em si para si sem ocultamento, isto é, determina igualmente o objeto, como é o caso para Hegel. Aí ele dizer que:
Deve parecer muito bizarro à consciência natural que as categorias tenham de ser consideradas somente como pertencendo a nós (como subjetivas). [...] Ora, ainda que as categorias (como por exemplo unidade, causa e efeito etc.) já pertençam ao pensar enquanto tal, contudo daí não se segue, de modo algum, que elas por isso sejam simplesmente algo nosso, e não também determinações do objeto mesmo. (LE, p. 113).
O que nos faz recordar do "empreendimento lógico supremo" de purificar as categorias; ou seja: se as categorias não são apenas formas do pensamento, mas inclusive determinações dos objetos (alternativa inconcebível para Kant pelas dicotomias já mencionadas), uma Wissenschaft da Lógica que trabalhe com um pensamento "dessa espécie" deve se preocupar com o modo de dedução das categorias, tendo em vista que é de especial importância a afirmação de uma delas, já que elas não são somente algo do pensamento para uma experiência possível47, mas, sim, algo que determinam igualmente
a Coisa [Sache]48.
Aqui, podemos encontrar outro ponto central de discordância entre esses dois idealistas, dado que nos é familiar a "alfinetada" de Hegel a Kant quando ele disse (LE, p.111) que "[...] a filosofia kantiana portou-se muito à vontade no descobrimento das categorias", enquanto o próprio Kant fizera uma crítica similar a Aristóteles ao dizer que esse último encontrou as categorias de maneira rapsódica49. Esse 'portou-se muito à
45 A respeito disso podemos encontrar uma crítica perspicaz de Hegel: "Se elas [as categorias] não podem
ser determinações da coisa em si, elas menos ainda podem ser determinações do entendimento, ao qual pelo menos deveria ser concedida a dignidade de uma coisa em si". (CL, p. 49).
46 Cf. CRP, B 195-197.
47 Não que seja diminuir o projeto kantiano com esse 'somente', mas notadamente o movimento teórico
operado por Hegel é uma fuga da prisão fenomênica que Kant construiu.
48 E a recordar: categoria do pensar, determinação da Ideia que é a estrutura da natureza e espírito. 49 Cf. CRP, B 106-107.
vontade', de Hegel, se refere à baliza que Kant usou para chegar às categorias, nomeadamente, as formas lógicas dos juízos; esse proceder, e Hegel dá créditos a Fichte por ter observado, não mostra a necessidade das categorias usadas, por mais que Kant tenha dito retirá-las da faculdade de pensar (CRP, B 106), o que o próprio Hegel também diz fazer50. Todavia, o problema para Hegel, como estamos vendo, é que Kant
identifica essa faculdade de pensar com a faculdade de julgar – que é vazia em si no que se refere ao conteúdo –, fazendo das formas lógicas dos juízos o princípio para a dedução51 – consideradas indispensáveis, por Kant, para tal tarefa. A alternativa de
Hegel, que foi não conceituar o pensamento como unicamente formal, implica numa outra conotação da mesma sentença – i.e., "retirar as categorias do próprio pensar" –, pois coloca:
As formas-de-pensamento devem ser consideradas em si e para si; são o objeto e a atividade do objeto mesmo; examinam-se a si mesmas, e devem determinar nelas mesmas seu limite e mostrar sua falha. É isso, pois, aquela atividade do pensar; que logo, como dialética, será levada a um estudo particular; sobre ela, aqui apenas se tem a notar, por enquanto, que não se aplica, como de fora, às determinações-de- pensamento; mas, antes, deve ser considerada como imanente a essas mesmas determinações. (LE, p. 109).
Ou seja, são as próprias determinações-de-pensamento ou categorias que irão se autoderminar, e isso porque o mesmo pensamento, no qual estão localizadas, é dialético, o que significa uma capacidade imanente de autodeterminação necessária das categorias por elas mesmas. De fato, assim, observamos uma diferença brutal no método pelo qual Kant e Hegel deduzem as categorias – um com auxílio paralelo de identificação (i.e., tal categoria para tal juízo), outro por imanência do próprio pensamento – oriundos de suas respectivas considerações sobre o pensar; ponto que é essencial para o afastamento e superação da filosofia crítica de Kant por parte de Hegel.
O próximo trecho que selecionamos tem, aqui, uma dupla função; a primeira é a de evidenciar ainda mais a separação entre esses dois filósofos alemães, e a segunda é a de ser propedêutica a nossa próxima consequência de número três. Eis aqui:
50 Como no seguinte excerto, apenas não usando o termo 'faculdade': "O [fato de] examinar em-si-e-para-
si essas determinações têm, além disso, o sentido de que as derivamos do pensar mesmo, e vemos [a partir] delas mesmas se são determinações verdadeiras". (LE, p. 82).
51 Isso não quer dizer que as categorias que Kant encontrou não sirvam; por exemplo, quando Hegel
escreve que "Em geral, no fundamento do emprego das formas do conceito, do juízo, do silogismo, da definição, da divisão etc. está o fato de que não são apenas meras formas do pensamento autoconsciente, mas também do entendimento objetivo". (CL, p. 53).
A propósito, pode-se ainda notar que a afirmação de que “as categorias são por si vazias” tem com certeza um sentido exato, enquanto não se deve ficar nelas e na sua totalidade (na ideia lógica), mas avançar até aos domínios reais da natureza e do espírito. No entanto, essa progressão não pode ser entendida como se por seu meio viesse de fora, para a ideia lógica, um conteúdo a ela estranho; mas há de entender-se que é a atividade própria da ideia lógica determinar-se ulteriormente e desdobrar-se em direção da natureza e do espírito. (LE, p. 114).
A separação, mais uma vez, está em que as categorias podem dizer da natureza e do espírito como são em si e para si, não somente dos fenômenos, embora valha mencionar que não é uma contradição Hegel dizer que "as categorias são por si vazias" porque ele está apontando para a necessidade de uma visão mais ampla (o contexto da citação igualmente mostra isso) e não que elas devam ficar apenas restringidas nelas mesmas. Nosso segundo ponto concerne ao "desdobrar-se [das categorias] em direção da natureza e do espírito"; esse é um elemento interessante porque vai além da afirmação de que as categorias têm em si seu conteúdo como pensamento e determinações, i.e., elas não ficam em si na consideração lógica, mas prolongam-se à natureza e ao espírito, fazem parte delas, as constituem – como exposto na sentença já utilizada por nós em uma nota de rodapé: "O pensar constitui assim a substância das coisas exteriores, é também a universal substância do espiritual". (LE, p. 79).
Ou seja, o que se expressa, com tudo o que já registramos, é a identidade entre o discurso sobre o pensar com o do ser.