Chapter 4: Kathryn Tanner’s Conception of Christian Tradition
4.6 Textual Interpretation and Biblical Authority
4.6.3 Biblical Authority similar to Popular Texts
Essa nossa terceira consequência não é menos famosa e já foi se deixando evidente desde cedo em nosso texto. A título de recapitulação e exposição de premissas, temos, dos dois tópicos anteriores, a relevância da lógica no sistema por ela tratar do pensar, do pensar que é ativo, que não é apenas substância mas também sujeito quando analisado em sua totalidade, engendrado na natureza e no espírito, dando suas estruturas pelas categorias autoderminantes e, por isso, capazes de dizer do em si desses âmbitos. O que importa, assim – e que não podemos perder de vista –, é não isolarmos a investigação lógica, consistente na dedução das categorias, da filosofia da natureza e do espírito (para Hegel, "lógicas aplicadas", como já vimos). Isso significa, portanto, já que
a natureza e o espírito são expressões do pensar categorial, que as suas estruturas de ser ou os modos pelos quais podem ser, não poderão ser diferentes das categorias autodeterminadas pelo pensar. Ou seja, o discurso lógico é igualmente metafísico, e o movimento imanente do pensar é o mesmo do do ser. Como bem explica Houlgate:
A fully self-critical philosophy must thus start from the twofold idea that (a) thought is the awareness of being and (b) being is itself simply what thought discloses. This means that the science of logic cannot be anything other than ontology: because the study of thought must be, at the same time, the study of being. In this ontology the structure of being will be found not through sense perception or observation of nature but simply by analysing the structure of the thought of being. The structures of being and thought thus cannot but be identical. (2009, p. 121).
Embora Hegel faça do 'ser' a primeira esfera da ideia lógica e, com isso, de suas determinações as mais pobres e abstratas, a qualidade de "ser algo" permanece também na segunda esfera da Ideia, i.e., a da essência – que também é ser52, ou melhor
dizendo, é a reflexão [Reflexion] do ser, é o seu ir para dentro de si mesmo, e cujo "tratar" com um Outro não é um evanescer, mas relação – na qual a própria efetividade [Wirklichkeit] se torna assunto lógico, definida como
[...] a unidade, que veio-a-ser imediatamente, da essência e da existência, ou do interior e do exterior. A exteriorização do efetivo é o efetivo mesmo, de modo que nela fica igualmente um essencial, que só é essencial enquanto está em uma existência exterior imediata. (LE, p. 266).
Definição, essa, até certo ponto aristotélica por entender a essência como intrínseca à "matéria"53 e "existente" somente enquanto nela, mas que depois se afasta, por meio de
outras determinações, dessa pequena ligação que fizemos.
Contudo – voltando para Hegel –, na medida em que a efetividade traz a noção de exterioridade, Hegel já se prontifica a esclarecer que a oposição colocada pelo entendimento entre ela, a efetividade (confundida, pensa Hegel, com o simplesmente palpável e imediatamente perceptível), e o pensamento é uma má compreensão de
52 Cf. LE, §112.
53 Usamos esse termo de forma ilustrativa; não pretendemos tratar da aproximação entre a "matéria" de
ambas as suas naturezas e que tal atitude (de oposição) deve ser rejeitada54. A isso,
acrescenta
É que por um lado as ideias não são, absolutamente, apenas cravadas em nossas cabeças, e a ideia em geral não é algo tão impotente, cuja realização segundo só o nosso bel-prazer tivesse de ser efetuada ou não efetuada; ao contrário, a ideia é antes algo ao mesmo tempo absolutamente eficiente e também efetivo. Por outro lado, a efetividade não é tão má e irracional quanto o imaginam [homens] práticos, carentes-de-pensamento ou rompidos com o pensamento e decaídos. A efetividade, diretamente do simples fenômeno, antes de tudo como unidade do interior e do exterior, tampouco se contrapõe como um Outro à razão, que antes é o completamente racional; (LE, p. 267, grifo nosso).
Ou seja, ao retirarmos daí três afirmações principais, temos que 1) as ideias não são coisas apenas em nossas cabeças; 2) a ideia é eficiente e efetiva; e 3) a efetividade é
racional. Por conseguinte, podemos observar que não há uma cisão absoluta entre
pensamento e efetividade – caso isso aconteça, é devido à limitação do entendimento. Todavia, não se segue do fato de que para Hegel o pensamento também é efetivo que possamos, por isso, agarrá-lo com as próprias mãos (posição que seria contrária a considerá-lo puramente como atividade subjetiva – o que já vimos não ser o 'pensamento' para Hegel55), mas que aquilo que, sim, podemos segurar, tem em si a
ideia lógica como sua constituinte – vista categorialmente –, que, em outras palavras, Hegel põe como o "reflexo" da ideia, conforme a seguinte passagem:
Ora, a liberdade absoluta da ideia é que ela não simplesmente passa para a vida, nem como conhecimento finito deixa aparecer a vida em si; mas, na absoluta verdade de si mesma, decide-se a deixar sair livremente de si o momento de sua particularidade, ou do primeiro determinar-se e ser-outro – a ideia imediata como seu reflexo, como natureza. Adendo: [...] Aquilo por onde começamos era o ser, o ser abstrato, e agora temos a ideia enquanto ser; mas a ideia essente é a natureza. (LE, p. 371).
Isto é, a efetividade, considerando-a como parte da natureza, é a ideia essente, a ideia que se exteriorizou, particularizou-se e se tornou imediata porque decidiu isso.
Por certo, aqui poderíamos tratar de uma relação mais profunda dentro do desenvolvimento da efetividade, ocupando-nos com o complexo liame conceitual-
54 Cf. Adendo do §142 da LE.
55 Vale registrar novamente a seguinte distinção: 'pensamento' não significa necessariamente
efetivo de possibilidade, efetividade, contingência e necessidade, mas optamos por não nos dedicarmos a esse desenvolvimento por entendermos que isso nos levaria longe demais56. Ainda assim, vale o registro de três posições de Hegel sobre o tema: 1) há
contingência tanto na esfera da natureza quanto na do espírito57; 2) a necessidade surge
de circunstâncias contingentes que devêm como sua condição58; e 3) é tarefa da filosofia
"[...] conhecer a necessidade oculta sob a aparência da contingência". (LE, p. 273). Essa última afirmação nos permite ver algo de mais abrangente, onde podemos colocar a lógica como engrenagem fundamental, já que, afinal de contas,
[...] é igualmente importante que a filosofia esteja bem consciente de que seu conteúdo não é outro que o conteúdo originariamente produzido — e produzindo-se — no âmbito do espírito vivo, e constituído em mundo, [mundo] exterior e interior da consciência; [e entenda] que o conteúdo da filosofia é a efetividade. (LE, p. 44).
Pois, se o conteúdo (originariamente produzido) da filosofia é a efetividade, se sua tarefa é conhecer a necessidade escondida na forma da contingência – e isso, obviamente, dentro da efetividade – e a efetividade é determinada pelas categorias que o pensamento mesmo se deu necessariamente pela sua dialética, todo o aparato da Lógica (que inclui as determinações autorreveladas nas doutrinas do Ser, Essência e Conceito) é imprescindível para a filosofia; e, pelo exposto aqui, podemos dizer que 1) ser e
pensar são um, e que 2) ser não apenas no sentido lógico, mas também efetivo59, como
conseguimos deduzir (conforme item 6 a seguir) da seguinte passagem:
A lógica, desse modo, precisa ser apreendida como o sistema da razão pura, como o reino do pensamento puro. Esse reino é a verdade, como ela é sem invólucro em e para si mesma. Por causa disso se pode expressar que esse conteúdo é a apresentação de Deus, tal como Ele é em sua essência eterna antes da criação da natureza e de um espírito finito. (CL, p. 52).
Vejamos os elementos que podemos extrair daí: 1) a lógica é um sistema (abaixo, falaremos mais sobre isso) do pensamento puro (e o que é o 'pensamento' nós já vimos);
2) esse sistema do pensar é um 'reino' onde a verdade está em si e para si, em sua
56 Todavia essa seja uma tarefa imprescindível para quando formos em direção, numa eventual pesquisa
futura, da tese forte sobre a relação Kierkegaard-Hegel.
57 Cf. LE, p. 272. 58 Cf. LE, p. 273-275.
59 Embora dizer isso possa ser quase uma redundância dado que Hegel trata da efetividade dentro da
completa identidade; 3) esse sistema do pensamento puro é, na sua verdade em e para si, o que Deus é em sua essência; 4) a lógica, assim, apresenta o que é o pensar, mas não só isso, pois esse pensar é o pensar do próprio Deus; 5) logo, se a natureza é criação Sua e, para criar, teve que pensar ou usar do pensamento, que faz parte da Sua natureza íntima, a criação ou natureza exterior deverá refletir as categorias do pensamento divino; 6) por
conseguinte, por mais que o ser – para citar apenas uma das categorias – seja tratado na
lógica de forma abstrata, sua ligação ou "comprometimento" com o efetivo exterior estará definida.
Dessa forma, vemos que a expressão "o ser é idêntico ao pensar" tem dois sentidos, pelo menos, mesmo que complementares: um é de que o pensamento consegue compreender o ser perfeitamente por partilharem das mesmas categorias60; o outro –
que, na verdade, é condição do primeiro –, de que o próprio pensamento é constituinte da efetividade, está efetivamente no efetivo (o que viabiliza a racionalidade do efetivo).