CH é o resultado da observação de várias questões teóricas e manifestações artísticas. Cada uma delas apresenta particularidades importantes e foram influindo na montagem de um grande quebra-cabeça. Todas elas tiveram sua importância como unidades de estudo e que em contraponto possibilitam novos caminhos, como tudo que se deseja neste projeto. Desta forma pode-se dizer que CH pode ser entend(perceb)ida a partir de múltiplos pontos de vista. Apesar de setas apontando para todo lado, a estrutura foi pensada como um todo. A premissa dos doisnãos: 1não linearidade e da 2não hierarquia, teve como conseqüência e resultado, um produto fragmentado. A fragmentação por sua vez, tornou-se um conceito, tendo em vista que se observou aproximações semióticas entre os modos de representação do mundo [exter(sig)nos] e a estruturação do pensamento [sig(inter)nos] & a(s)
hiper(mídia(s). Esta conjunção “f r a g MENT(E)ada” transformou-se na essência do CH. Um dos aspectos do CH é que funcione como extensão do pensamento, e sendo que no pensamento surgem signos de todos os tipos e origens que se contaminam em múltiplas semioses, fragmentando-se através de fluxos de interrupções e retomadas (conceito de fragmentação), buscou-se possibilitar que CH também pudesse disponibilizar os seus signos de modo semelhante ao como ocorre com o usuário (+contraponto).
Desta forma a interatividade, outro aspecto importante para as discussões sobre as mídias digitais, surge de forma bastante natural sem a força da imposição dos recursos gráficos e dos templates dos programas comerciais. CH possibilita o
leitorreceptorinteratorautorusuário a percorrer um caminho próprio, mas não isolado, a estrutura da programação “sugere” !radnomicmaente! informações veiculadas em diversos tipos de signos sonoros, visuais eou verbais. Assim a interatividade física, a dos cliquesteclas, fica motivada pela interação entre as semioses do leitorusuário e as informações
audiovisuais propostas pelo CH. Não é exagero dizer +1X que o pensamento e as representações digitais do CH se inter-relacionam em contraponto.
Sobre os conteúdos, a seleção e distribuição em séries, evidentemente foram filtradas. Desta forma não se pode dizer que o usuárioreceptor tem toda liberdade de interação como, por
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exemplo, tem no caso dos jogos digitais, no CH os conteúdos foram organizados de modo que as sugestões/provocações realizadas pelo computador/programa sejam feitas
coerentemente com aquilo que está sendo lido. Esta questão foi exaustivamente estudada já que se trata de uma tese de doutorado que requer alto nível de abstração, cujas regras de elaboração são bastante rígidas e sedimentadas, sendo, portanto, este modo de
apresentação uma exceção.
Em se tratando da estruturação do CH partiu-se de uma idéia geral sobre contraponto advinda da minha experiência teórico-prática com essa linguagem musical. Esta opção também foi feita tendo em vista a percepção natural, quase lógica, de que tudo está em contraponto, em constante inter-relação, os pensamentos, o contato com a natureza e a cultura de um determinado indivíduo. Nova(mente) a fragmentação.
(
composi(cria)ção:
Dos estudos sobre Contraponto Musical surgiram muitos aspectos importantes para a composição do CH. As melodias inspiraram a criação de linhas de informação. Estas linhas funcionam como melodias hipermidiáticas tendo em vista as variadas formas de
apresentação do conteúdo. Assim como as melodias do contraponto, as linhas de informação foram criadas como unidades de conteúdo, ou seja, foram compostas como unidades auto-suficientes de informação. Cada unidade apresenta coerência interna de sentido, porém quando em CH com outras linhas de informação possibilitam novas leituras, assim como ocorre na técnica de criação de melodias. A valorização individual de cada linha de informação significa, portanto, valorização do todo.
Dos ensinamentos adquiridos no Contraponto Musical a rigidez das regras de composição e as repetições por variações mostram o caminho da coerência. Neste aspecto a construção das leis do CH foi estruturada a partir da observação da experiência de outro momento musical não menos rígido, o serialismo, porém sob a rígida supervisão da programação. Ainda da experiência advinda do Contraponto Musical o modo de repetição dos motivos e melodias como recurso de inteligibilidade, refiro-me a repetição em forma de variação, a qual se destaca a variação por imitação, no CH as repetições ocorrem através das variadas
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formas de apresentação de conteúdo possíveis na hipermídia: texto verbal escrito de várias formas, apresentados em blocos ou em legendas, texto verbal falado, imagens, texturas, referências visuais, sonoplastia, experimentações sonoras.
É importante destacar um dos modos de variação contrapontístico e também presente nas composições serialistas e que são recursos utilizados no CH, trata-se das variações a partir do ORIGINAL, as possibilidades de inversão, retrógrado, inversão do retrógrado.
+
Schoenberg desenvolveu um tipo de composição musical atonal chamado dodecafonismo. Esta técnica de composição caracteriza-se por utilizar séries pré-estabelecidas estruturadas a partir das 12 notas da escala cromática sob a qual a composição se estabelecia. O
dodecafonismo, assim como o contraponto, era regido por regras muito estritas que além de garantir a coerência também garantiam a não destruição do próprio conceito de composição atonal.
O que importa fundamentalmente para o CH é a herança deixada pelo serialismo, no modo de tratar os elementos da composição, a organização das séries e as inter-relações entre elas. De Schoenberg até Messian, Boulez e Stockhausen, o que se viu foi um caminho trilhado em direção da serialização de todos os elementos sonoros. Entendo ser o CH a oportunidade da serialização de todos os elementos hipermidiáticos, ou seja, para além das fronteiras do sonoro.
A Montagem cinematográfica de Eisenstein complementa a idéia de contraponto. A
montagem se realiza na justaposição de dois fragmentos ou seqüências de filme. O resultado deste conflito pode ser uma espécie de ambientação, ou seja, criar um clima tal que dele surja um conceito. Como por exemplo, nas cenas iniciais do filme “O velho e o novo”,
Eisenstein realiza uma seqüência que visa, mais do que narrar, criar um conceito de pobreza. Também na montagem pode-se criar significados justapondo-se duas seqüências
contrastantes.
A montagem no CH não ocorre previamente com acontece no cinema, as possibilidades de montagem são pensadas quando da seleção e organização das séries que, aliadas a
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pode aparentar uma colagem digital, porém difere por que não se tem objetivamente o interesse de camuflar as sobreposições ou justaposições dos dados. Considero Eisenstein neste caso, como um precursor desta idéia de uma montagem mais livre apoiada na seleção serial dos conteúdos.
As experiências e referências da Poesia Concreta deram sustentabilidade para o uso inventivo da palavra. O contraponto e a montagem neste caso apresentam estratégias intelectuais criativas aliadas ao alto nível de repertório dos integrantes do movimento. A palavra na Poesia Concreta apresenta valores que vão além do sentido lógico digital pela qual aponta, almejam a iconicidade, significando também na sua visualidade e sonoridade. O percurso histórico da Poesia Concreta mostra sintonia e conexão com as invenções
tecnológicas. Entendo ser natural a passagem pela hipermídia. Desta forma foram formadas as seguintes séries.
1Séries sonoras:
Composição:
As séries da Composição são eventos sonoros criados, angariados,
apropriados20,selecionados e separados em grupos. Estes sons são escolhidos e executados randomicamente pelo programa, desta forma o controle dos resultados pela autoria fica restrito ao conhecimento das regras impostas via programação e a construção das séries. Evidentemente que se pode ter uma idéia sobre os resultados, mas não exatamente. Este módulo apresenta séries de sons, de repetições, pausas e intensidade.
Também estão incluídas nestas séries as palavras chave faladas no original e retrógrado.
Sonoplastia:
20
As apropriações foram realizadas na Web e são restritas a pequenos eventos sonoros, não caracterizam nenhuma música de autoria, nem são utilizados compassos ou partes de alguma obra de autor. Timbres e efeitos foram realizados a partir de softwares comerciais como Reason e o Soundforge. Informo ainda que poderiam ser criados ou gravados a partir de qualquer programa ou mesmo em estúdio, o que significa dizer que não foram utilizados dos programas citados nenhum template ou ação pré-estabelecida pelos fabricantes.
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São os efeitos sonoros usados para enriquecer os ambientes da Hipermídia. São
tradicionalmente utilizados no rádio, TV ou cinema. Trata-se de gravação ou produção de sons imitando sons da natureza, de animais, objetos, ações ou movimentos, com intenção de realçar, destacar ou ilustrar as qualidades de um ambiente em determinadas situações. A montagem da sonoplastia pode reforçar a naturalidade do que está acontecendo, ou criar sensações ambientais fictícias. Também foram utilizados recursos sonoros como delay,
reverb, chorus e controle de pan, como signos de qualidade que, aplicados aos sons,
sugerem determinados espaços, como por exemplo, a ilusão de estar dentro de salas pequenas ou salões imensos.
Estes signos sonoros são de fácil entendimento por representam seus objetos por similaridade, por apresentarem conexões diretas com os seus objetos e também por já fazerem parte de uso coletivo nas mídias audiovisuais tornando-se, portanto, também uma convenção.
Diferentemente do modo como a sonoplastia tem sido utilizada nas mídias audiovisuais, no CH estes sons não são ilustrações ou reforços das cenas, são eventos particulares, individuais que têm como objetivo levar o receptor a ter sensações imediatas das quais já tem
experiência no mundo concreto, seja através da natureza ou das produções culturais. O único aspecto de controle da sonoplastia do CH são as montagens das séries ficando totalmente livre de associações pré-definidas ou ilustrativas, a ação do usuário levará a execução de um dos efeitos de sonoplastia da série, seja através da interação ou por execução randômica feita pelo computador.
2Séries visuais:
Imagens Texturas:
Séries organizadas com imagens texturas cujo objetivo é simplesmente proporcionar sensações visuais sem qualquer referência externa (imagens apresentativas).
Imagens telas de sites:
Séries organizadas com telas de sites que são referências para o CH. Algumas telas servem para identificar o período de realização da tese.
164 Imagens frames de filmes:
Séries organizadas com frames de filmes que são referências para o CH. Algumas são referências diretas como, por exemplo, as imagens do filme “O novo e o velho” de
Eisenstein, outras são referências indiretas, mas que fazem parte do universo de afinidades com os assuntos tratados na tese, por exemplo, frames do “A TV Dante” (Grã-Bretanha, 1989) direção de Tom Phillips e Peter Greenaway que foram veiculados na TV britânica, referência indiscutível para a hipermídia assim como frames de filmes de Jean-Luc Godard que apresenta afinidades com o conceito de fragmentação.
Imagens breves trechos de filmes:
Séries organizadas com trechos de filmes que são referências para o CH. Algumas são referências diretas como, por exemplo, as imagens do filme “O novo e o velho” de
Eisenstein, outras são referências indiretas ou afinidades, seleção idêntica a aplicada para série de imagens frames de filmes.
3Séries verbais:
Palavras chave:
Séries organizadas a partir das palavras chave que fazem parte do conteúdo da tese. Exemplos: contraponto, hipermídia, interatividade, linguagens, sonoro, visual, verbal. Os exemplos da Poesia Concreta e de Arnaldo Antunes são fundamentais para estas vinhetas. A palavra é o centro das atenções, porém articulada de modo a agregar os aspectos audiovisuais.
Escritas:
Manuscritas: Blocos de texto do conteúdo da tese escritos a mão. O texto verbal escrito a mão acrescenta a referência do traço de quem escreveu, singularizando o signo verbal codificado. O desenho das letras e possíveis resvalos caligráficos acrescentam aspecto icônico ao símbolo verbal.
165 Digitais: Blocos de texto do conteúdo da tese com fontes digitais.
Faladas:
Blocos de texto do conteúdo da tese falados. Os textos são lidos sem nenhuma imposição de leitura, nenhuma interpretação, nem recurso profissional de locução. Cada “voz” faz a leitura como qualquer pessoa o faria. Não há nenhuma trucagem ou camuflagem em função de apresentar um texto verbal perfeito, o interesse está no valor da leitura comum.
Foram utilizados recursos de edição sonora com intuito de exemplificar as múltiplas possibilidades de uso do som buscando caminhos menos percorridos para a linguagem sonora. O uso das simulações de ambientes através de efeitos de reverb, delay, chorus e flanger não seguem regras pré-estabelecidas, foram pensadas de modo semelhante a da experiência de Eisenstein quando chama a atenção para determinados elementos buscando concentrações do espectador para outras possibilidades de significação diferentes das padronizações culturais.
)
e a Semiótica:
A semiótica como fundamento teórico para CH também foi sustentáculo para a prática. O CH foi produzido a partir de uma estruturação semiótica. Em cada signo criado as questões teóricas estiveram sempre presentes. O fundamento dos signos foi pensado sempre objetivando, por um lado, qualidades coerentes com o conteúdo a que se referem e, por outro, sempre que possível procurou-se que os signos fossem apresentados conforme foram teorizados, ou seja, que o signo pudesse também ser articulado em metalinguagem.
Desta forma CH não apresenta interface gráfica com metáfora visual de orientação e
navegação mediando a leitura/interação e a programação/informação. Os aspectos gráficos já são eles próprios interface e informação, exceção apenas para certas marcas e indicações necessárias para que o usuário possa controlar a sua navegação.
CH foi estruturado em linhas de informação como unidades de significado mínimo organizado em séries. Estas linhas de informação podem ser apresentadas de variadas formas. Estes dois aspectos mostram que CH é bastante fragmentado, porém o modo como
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as séries foram estruturadas permite leituras coerentes. Pretende-se com isto que a
apreensão dos significados ocorra progressivamente conforme as semioses vão acontecendo provocadas pelas linhas de informação que ora surgem em linguagem sonora, ora em visual ou verbal ou tudo junto ao mesmo tempo.
A tradução Intersemiótica de Júlio Plaza contribuiu principalmente na criação das linhas de informação tendo em vista que o mesmo conteúdo pode ser apresentado de variadas formas. O que foi visto antes será revisto depois, porém ditos/escritos de outras formas, as redundâncias ocorrem para garantir a compreensão, como por exemplo, as variações em música garantindo a coerência da obra como um todo. Entender os tipos de tradução intersemiótica, transcriação, transposição e transcodificação, facilita o trânsito entre as linguagens.
A teoria das Matrizes de Linguagem e Pensamento está presente na articulação geral da construção da teoria e prática do CH. Principalmente como modo de pensar. O
entendimento de cada matriz e os seus eixos possibilitou pensar as linguagens sem hierarquia, entendendo a importância de cada uma delas e facilitando as aplicações. Esta teoria elimina as fronteiras entre as linguagens possibilitando um domínio mais conceitual de cada uma diferentemente do pensamento focado no estudo aplicado delas. De qualquer modo, através desta pesquisa foi possível aliar os 2 aspectos importantes: o estudo
conceitual, abstrato e fundamental para o entendimento das Matrizes das Linguagens + a aplicação estudada de forma cruzada, diacrônica e sincronicamente tendo como premissa a inter-relação das linguagens.
Por fim a inter-relação das linguagens sonora, visual e verbal (IR SVV) torna-se um modo de pensar e a hipermídia uma aplicação. Pensar IR SVV significa pensar Matriz das Linguagens, ou seja, pensar através dos eixos de cada matriz.
IR SVV está naturalmente para linguagem híbrida, o que falta é desativar os modos de escrita e leitura tradicionais e compreender que é possível receber, compreender e interagir com mensagens híbridas não hierarquizadas, já que entendo ser natural para o homem a leitura fragmentada e a construção do sentido a partir do contexto. A hipermídia é, portanto, a tecnologia necessária e suficiente para que isto ocorra. O Contraponto Hipermídia uma experimentação.
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