Chapter 4 The Chilean water management regime and prior empirical literature
4.2 Prior empirical literature (alternate heading?)
O pietismo, nome dado ao movimento religioso liderado, inicialmente, por Philipp Jakob Spener (1635-1705), surge como uma reação à realidade da Igreja Luterana pós Reforma, caracterizada até então pelo intelectualismo dogmático e pela frouxidão moral,
13 Tradução do autor.
coisas que, aos olhos pietistas, contrastavam com a fé viva, essência do cristianismo (GONZÁLES, 1984, p.156).
Após a Reforma, fora imperativo aos teólogos protestantes sistematizarem seus conteúdos de fé, haja vista a reação católica e a necessidade de uniformizarem o pensamento teológico de suas novas igrejas. Segundo Geoval Jacinto da Silva (2010, p.63), ―a sistematização dos pensamentos de Lutero e Melanchton era necessária para dar prosseguimento à obra dos reformadores‖. A consequência desse processo de dogmatismo foi, contudo, a redução do ser ―luterano‖ à mera capacidade intelectual de professar a ―doutrina correta‖.
Esse é o caso daqueles que estão pensando que as pessoas devam tornar-se luteranas, sem se preocupar que assumam o verdadeiro cristianismo em seus corações. Pensa-se, então, que a verdadeira confissão de fé é apenas um meio de fortalecer o seu partido eclesiástico e não o ingresso de uma zelosa vida de serviço futuro a Deus [...] Tal convicitio intellectus não é a fé. A fé exige muito mais. A intenção é converter o errado e remover os obstáculos que permanecem impedindo a sua santificação (SPENER, 1985, p.66).
A frouxidão moral da igreja alemã, para Spener, manifestava-se tanto nas camadas do ―clero‖ quanto no ―laicato‖. Sobre a classe dos clérigos, afirmou que além de muitos viverem em escândalo moral, suas atitudes demonstravam cobiça motivada por um ―deslumbramento mundano‖: ―eles buscam promoção, pulam de paróquia à paróquia e envolvem-se em todo o tipo de conchavos!‖ (SPENER, 1985, p.66). A situação do povo comum não lhe parecia melhor. As “bebedeiras‖, as ―artimanhas nos negócios‖ e mera ―exterioridade religiosa‖ foram alvos de sua repreensão e lamento: ―apesar de nossa Igreja evangélica luterana ser a verdadeira igreja e puro o seu ensino, infelizmente, olhamos para ela com os olhos cheios de lágrimas pelas suas condições de deterioração externas‖ (SPENER, 1985, p.42). Os pietistas, assim, logo se convenceram da necessidade de uma nova reforma, agora, de natureza espiritual, nos meandros e cercanias do luteranismo:
[...] não vejo como alguém possa duvidar que a verdadeira Igreja deveria estar em situação melhor do que está atualmente [...] Enquanto esperamos pelos frutos, não podemos morrer nessa expectativa, como Salomão diz a respeito do preguiçoso (Pv 21.25), mas fazer nossa parte: converter os judeus, enfraquecer o poder espiritual do papado, e reformarmos nossa igreja (SPENER, 1985, p.49).
Foi publicada, então, a ―Pia Desideria‖ (Desejos Piedosos), obra de Spener, onde propunha a reforma da igreja, por meio de seis propostas piedosas: 1) Uso mais extensivo das Escrituras; 2) Exercitamento do sacerdócio universal; 3) Prática e conhecimento do cristianismo; 4) Fim às controvérsias religiosas; 5) A reforma das escolas e universidades; 6) pregação e edificação ou, “pregação edificante”, ou seja, aquela que é dirigida ao interior dos indivíduos (SPENER, 1985, p.56-75).
Silva (2010, p.79) nota que a ênfase do movimento era, principalmente, a supremacia da experiência pessoal sobre a racionalidade da ortodoxia: ―A racionalidade da ortodoxia foi contrabalançada pelo primado da experiência pessoal e do sentimento, e se espalhou como uma noção geral pelos diversos países da Europa‖. Em resumo, pode-se dizer que o pietismo priorizou a experiência religiosa pessoal ao dogmatismo formal, o sacerdócio universal ao clericalismo e a santificação ao intelectualismo. Embora o pietismo de Spener tenha sido uma proposta de reforma à igreja luterana, suas propostas de renovação não ficaram restritas à Alemanha, mas conquistaram a simpatia de muitos na Europa, como a do ministro anglicano John Wesley14 (1702-1791). Este, influenciado pelo pietismo dos morávios, um grupo que se destacou pelas atividades missionárias em todo o mundo, deu início a um movimento, conhecido como ―metodismo‖, que propunha a renovação espiritual da igreja inglesa. O movimento, mais tarde, tornou-se uma denominação presente não apenas na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos (GONZÁLES, 1984, p.183-186) que, juntamente, com as igrejas batistas e presbiterianas, enviariam seus missionários ao Brasil.
14
John Wesley (1703-1791), ministro anglicano, nasceu em Epworth, Inglaterra. Na juventude, decidiu-se pela religião como empreendimento de sua vida, foi ordenado ministro (SOUZA J.C., 2009, p.111) e liderou um grupo de estudantes de Oxford naquele que ficou conhecido como ―clube santo‖ (TUTTLE, 2009, p.642). Duas experiências parecem ter conduzido Wesley a uma crise de fé. A primeira, o medo da morte que experimentara, a bordo de um navio em perigo de naufrágio, contrastando com o comportamento sereno de um grupo religioso chamado morávio também a bordo (LELIÈVRE, 1997, p.54). A segunda, sua frustração como pastor de uma congregação na Geórgia, onde intentava alcançar também os índios (LELIÈVRE, 1997, p.59-60). De volta à Inglaterra, procurou juntar-se aos morávios, e, participando de uma de suas reuniões teve a experiência que se popularizou como ―a experiência do coração aquecido‖. Sobre o que relatou: ―À noite, fui de muita má vontade a uma sociedade na Rua Aldersgate, onde alguém lia o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. Quando faltava um quarto para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração mediante a fé em Cristo, senti em meu coração um ardor estranho. Senti que confiava em Cristo, e somente Nele, para a minha salvação [...] Aquela experiência foi tal que, a partir daí, Wesley não voltou a duvidar de sua salvação‖ (GONZÁLES, 2008, p.177). Ao lado de George Whitefield passou a pregar a salvação mediante a fé por toda a Inglaterra e arredores como Escócia, País de Gales e Irlanda. Pregou cerca de 40.000 sermões cuja essência teológica enfatizava a graça salvadora de Deus, sendo esta preveniente (capacita o pecador a dizer ―sim‖para Cristo), justificadora (concede o direito ao Céu) e santificadora (produz no crente, por meio de um processo de santificação, a perfeição de Cristo) (TUTTLE, 2009, p.644). Wesley nunca intentou fundar uma nova denominação, antes, mantendo-se fiel ao anglicanismo, desejava despertar e cultivar a fé das massas na Igreja (GONZÁLES, 2008, p.180). Entendia, por exemplo, que as reuniões que seu movimento realizava, visava preparar as pessoas para os cultos dominicais. Após sua morte, contudo, seu movimento, conhecido como ―metodismo‖, acabou por se tornar uma nova denominação (TUTTLE, 2009, p.643).