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Chapter 6 Discussion

6.1 Analysing sustainability & Rema 1000’ information systems

Por reducionismo missionário se entende a redução da missão da igreja protestante de missão, se não exclusivamente, mas especialmente à salvação espiritual de indivíduos. Já foi referido neste trabalho, como este reducionismo se deu no protestantismo americano, quando um significativo grupo da igreja voltou-se para o pré-milenismo, convencido de que uma transformação nas estruturas sociais injustas do mundo só seria possível por meio de uma intervenção direta de Deus, que se daria num futuro não tão distante, na ocasião da implantação pontual e plena de Seu Reino na terra. Assim, a missão da igreja se resumiria ao nível espiritual e individual, isto é, o de garantir a salvação espiritual do maior número de pessoas, preparando-as para a vida além, a fim de serem também participantes do futuro reino celestial.

Como explicar, contudo, o sucesso desta mensagem no Brasil e a dificuldade de teologias mais progressistas, como a da Missão Integral, de ganharem espaço na mentalidade e missão

na igreja protestante brasileira? É possível que uma das razões tenha sido o encontro que se deu entre os aspectos salvacionista(C1), milenarista (pré-milenista) (C6) e espiritualista (C7) da pregação do protestantismo de missão, com dois marcos de referência da sociedade brasileira: a religiosidade (CC) e o patrimonialismo (CA).

Como já visto, a religiosidade brasileira possui dimensões transcendentalista, fatalista e futurista. Transcendentalista, porque entende que as coisas divinas são do ―alto‖ e, portanto, superiores às coisas de baixo, que são da terra, onde habitam os homens. Fatalista porque entende que a hierarquia social é resultado de determinação divina. E futurista, isto é, voltada para o futuro, porque acredita que a libertação do sofrimento e de toda ordem social injusta se encontra num plano além. Ora, não é necessário muito esforço para perceber o encontro que se deu entre esta religiosidade e a mensagem protestante com seus aspectos salvacionista (que se preocupa, de forma especial, com a redenção espiritual de indivíduos), milenarista, em geral, pré-milenista (que entende o Reino de Deus como um evento, exclusivamente, futuro) e espiritualista (que valoriza os aspectos espirituais, às vezes, sobre os naturais). Aqui, parece ter ocorrido justamente o que Costas afirma ser o reforço de marcos de referência incompletos, mas que se tornam completos com o recebimento de novas informações que não os contrariam, mas que os reafirmam (COSTAS, 1973, p.201).

A sociedade brasileira, como já mencionado, é de forma geral também patrimonialista. Aqui, interessa o aspecto que entende o espaço público como responsabilidade, prioritariamente, do governo. A velha história do ―cada um cuida do que é seu e o governo do que é público‖ parece ter se casado com a mentalidade do protestantismo de missão brasileiro, que por tanto tempo entendeu sua missão no mundo apenas como espiritual, deixando a encargo do Estado a missão social.

Na visão protestante de missão tradicional, a ação social é vista como algo importante, mas não prioritário, diante da urgência em se salvar o mundo da catástrofe que, inevitavelmente, se aproxima. A estratégia, portanto, não é a militância por transformação nas estruturas sociais (MENDONÇA, 1990, p.167), mas a transformação de indivíduos por meio da pregação do Evangelho. No protestantismo de missão acredita-se e, sempre se acreditou, como mostra o trecho do sermão abaixo, de autoria de Álvaro Reis, que a transformação social se inicia com a transformação pessoal e individual:

A religião de Jesus Cristo converte a mente, regenera o espírito, saneia o corpo, faz com que o homem sinta que um coração puro não pode palpitar dentro de um corpo sujo. O verdadeiro crente é um homem asseado, é uma pessoa asseada. Quando o homem tem cuidado com o asseio do corpo, também não quer morar numa casa suja, imunda. O homem que tem asseio no corpo, necessariamente há de ter asseio no lar. Quando o homem tem asseio em sua residência, concorre para que outros, contemplando o seu exemplo, procurem imitá-lo. À proporção que o Evangelho conquista os corações, conquista a família, e necessariamente a higiene há de ser um fato geral na sociedade, e quando a higiene for geral na sociedade, as pestes desaparecerão! O homem convertido pela Palavra de Deus, convertido pela fé em Cristo, compreende que deve trabalhar seis dias, e, trabalhando seis dias, estanca uma das fontes da tuberculose, a miséria. A miséria, pela má alimentação e falta de conforto, é uma das causas da tuberculose. Mas o homem pelo labor adquire saúde para o corpo. E não somente saúde para o corpo, mas também os recursos para sustentar a sua vida e a de sua família com dignidade e conforto relativos ao seu salário. O homem convertido não somente trabalha seis dias, mas tem cuidado de dispensar o sétimo, o domingo. E o homem que descansa no dia de domingo economiza as forças necessárias para a labutação cotidiana da semana. (REIS apud REILY, 2003, p.274-275).

Seria injusto insinuar que de forma generalizada os missionários e pastores, tanto do passado quanto do presente, pregaram e pregam tais sermões com a intenção consciente de servir aos interesses econômicos sociais de classes abastadas e à manutenção de estruturas opressoras tidas como ―sancionadas pelo divino‖. Certamente não. Há de se reconhecer, por outro lado, que tal teologia pregada encoraja a passividade e o escapismo da realidade presente e acaba, por assim fazer, colaborando para que certas estruturas sociais permaneçam como sempre foram, são e que, na opinião de elites opressoras, devem permanecer.

Na pesquisa de campo realizada entre os congregados das três igrejas foi feita a seguinte pergunta: ―Você considera que o problema da pobreza e da injustiça social deve ser abordado na pregação?‖, apresentando como opção de resposta, duas alternativas. A primeira, ―Não, pois isso não é assunto para se tratar na igreja‖; e a segunda, ―Sim, pois a igreja deve ser incentivada a agir em todas as áreas da sociedade‖. A maioria optou, principalmente, entre os de tradição metodista, pela segunda opção, expressando abertura em ouvir sermões que tratem de questões sobre a pobreza e injustiça social no país.

Figura 15. Gráfico: número de ouvintes, entre presbiterianos, batistas e metodistas que entendem que a prédica deve tratar de assuntos como pobreza e injustiça social ou não.

Fonte: pesquisa de campo.

A pesquisa, contudo, também revelou que ainda existem os que ouviriam um sermão sobre questões sociais com estranheza. Quatro pessoas, das vinte e sete abordadas, optaram pela primeira resposta, considerando tal assunto impróprio para o púlpito. É necessário ainda dizer que a experiência, provinda do convívio com as igrejas protestantes, faz supor que muitos que optaram pela segunda questão, na prática, compartilham também da opinião da minoria e se frustrariam em ouvirem, num culto, um sermão sobre questões sociais e políticas do país. Porém, quase que paradoxalmente, não se oporiam a um envolvimento maior de sua comunidade de fé no bairro onde se localiza, entendendo tal ação como uma ponte entre a igreja e a sociedade podendo resultar em salvação, em nível espiritual, de indivíduos.