• No results found

Chapter 5 Avocado production and the value chain

5.6 Perspectives of non-value chain actors

O movimento pentecostal moderno que, oficialmente, tem como marco as reuniões de santidade promovidas pelo pastor William J. Seymour (1870-1922), em sua igreja localizada na rua Azuza (ARAÚJO, 2007, p. 603), difundiu-se pelos Estados Unidos, ramificando-se em diversos tipos de pentecostalismos até chegar ao Brasil (CAMPOS, 2008, p.706; SYNAN, p.131-133).

39

A alternativa ―a pregação não se relaciona com a transformação social‖ não foi assinalada por nenhum dos participantes da pesquisa. 54,55% 45,45% A pregação não se relaciona com a transformação pessoal

A pregação deve ser um meio de transformação social

A pregação se relaciona com a transformação social, indiretamente, na medida que transforma indivíduos

A pregação não se relaciona com a transformação social

Se aceita a teoria elaborada por Paul Freston, o movimento pentecostal no Brasil pode ser entendido em ―três ondas‖ (ALENCAR, 2008, p.775). A primeira, entre 1910 e 1950, fez surgir o considerado pentecostalismo clássico, em que as igrejas Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil são suas maiores representantes. Nos anos 50 e 60 vem a segunda onda, trazendo à tona igrejas como Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja o Brasil para Cristo e Igreja Pentecostal Deus é Amor. Finalmente, a terceira onda surge no final da década de setenta pelo despontar, principalmente, de igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Renascer em Cristo e, mais tarde, a Igreja Mundial do Poder de Deus. Essas últimas igrejas são denominadas ―neopentecostais‖ devido àquilo que as distingue das pentecostais mais ―tradicionais‖, a saber, grande ênfase em cura e exorcismo e menos em rigidez de costumes, glossolalia e santificação; agressivas estratégias de marketing; foco no presente; e o desenvolvimento da teologia que se tornou- lhes peculiar, a teologia da prosperidade (CAMPOS, 2008, p.708)40. A frase seguinte resume bem a essência da cosmovisão neopentecostal, ―Os kardecistas bradam que o ‗inferno é aqui mesmo‘. Os neopentecostais, por sua vez afirmam, ‗o céu é aqui na terra‘‖ (CAMPOS, 1997, p.307).

De forma geral, os grupos pentecostais ainda se caracterizaram pela presença na rádio e televisão brasileiras, por meio de seus programas denominacionais, permeados, além de músicas e pregações, de testemunhos de curas, superações de problemas pessoais e prosperidade material. Tal fenômeno constituiu-se numa via de ―mão dupla‖, pois, não apenas as igrejas levaram sua mensagem para a mídia, mas também os ―princípios de mercado‖ da mídia foram trazidos para a mensagem da igreja: ―Quando a religião se serve desse canal de comunicação, sua mensagem, necessariamente, deve se amoldar às exigências mercadológicas próprias do meio‖ (RAMOS L.C., 2007, p.189).

Uma vez que a mensagem religiosa é adaptada às ―exigências mercadológicas próprias do meio‖, o ouvinte passa a ser visto não mais como um fiel a ser doutrinado nas verdades bíblicas, mas como alguém que precisa ser seduzido, conquistado e fidelizado. Logo, o conteúdo dos sermões já não é mais permeado por doutrinas, mas de fórmulas motivacionais que ajudam a ―vencer na vida‖. A revista Veja de doze de Julho de 2006 trouxe uma matéria de título ―Os Novos Pastores‖, que assinalou uma mudança na maneira como a nova geração de pastores pentecostais elabora seus sermões. Ao invés de propor aos fiéis o meio

40

Diante desta diversidade de pentecostalismos, a presente dissertação optou pelo termo ―movimentos pentecostais‖ para se referir aos grupos pentecostais das ―três ondas‖, de forma geral.

sobrenatural para alcance de seus objetivos, propõe agora o caminho da ―auto-ajuda‖. Contudo, o objetivo final continua sendo o mesmo, a ―felicidade aqui e agora‖:

A nova geração de líderes evangélicos achou um caminho muito mais certeiro e útil de chegar ao coração dos fiéis: o da auto-ajuda. A promessa é a mesma que ofereciam pentecostais e neopentecostais da geração passada: o da felicidade e prosperidade aqui e agora. Só que, para alcançá-las, os novos pastores sugerem outras ferramentas: além da fé, o bom senso; somado à intervenção divina, o esforço individual [...] um indicativo claro desta transformação está na comparação da produção literárias dos velhos e dos novos pastores. Títulos como A Fé de Abraão ou Estudo do Apocalipse, assinados pelo bispo Edir Macedo, abrem lugar nas prateleiras das livrarias evangélicas para obras com títulos como Jamais Desista!, do pastor metodista Silmar Coelho, ou Vencendo e Conquistando Vitórias, de autoria de Silas Malafaia. Um dos nomes mais conhecidos da Assembléia de Deus, o pastor Malafaia chega a vender, por ano, 1 milhão de DVDs e CDs de pregação de conteúdo motivacional (Veja, 2006, p.79-80).

Esta abordagem existencial, focada nas necessidades dos ouvintes de vitória sobre os dilemas e dramas da vida e de conquista, foi também adaptada em sermões produzidos por pregadores das igrejas protestantes de missão:

Deus requer que tenhamos claramente em nossa mente aquilo que desejamos. O Senhor vai conceder o que deseja o teu coração, mas ele deseja o quê? Deus, eu quero conquistar tal coisa em minha vida. Ore, ore, ore e agora vamos à luta [...] Deus, o Senhor me dê uma sala de escritório... Deus vai dar. Ore, ore, ore... Já sabe o que quer? Que área do direito? É área do civil? Criminal? É econômico, é político? Definiu? Desça e vá à conquista, Eu vou lhe dar o seu escritório! [...] E se você quiser bênção, escute: ―desça do monte‖. Ouça o que diz a Palavra: ―Já passastes muito tempo no monte, agora chegou a hora, parti!‖ Já orou muito meu irmão? Agora, vá à luta! Comece algo. Fala com alguém, telefona, aluga, escreve, inscreva, caminhe, procure, bata à porta. A Bíblia diz, ―quem bate, abrir-se-lhe-á. Vá para a luta! Porque Deus tem promessa para a tua vida, em Nome de Jesus! (OLIVEIRA, 2012).

É muito provável que a porta de acesso das influências pentecostais às cercanias do protestantismo de missão tenha sido a televisão. Diante da pergunta: ―Você costuma ouvir outros pregadores fora de sua igreja?‖, 75,68% dos ouvintes afirmaram que sim, sendo que 24,32% têm acesso a esses pregadores, por meio da televisão.

Figura 11. Gráfico: Meios de acesso a outros pregadores por meio da mídia. Fonte: pesquisa de campo.

Inclusive, dos pregadores pentecostais, Silas Malafaia, um dos que mais aparecem na televisão, é tido como o mais influente neste grupo. Teriam alguns pregadores do protestantismo de missão se espelhado em pregadores como Malafaia, a fim de manterem interessados seus rebanhos, cada vez mais exigentes e abertos às novas propostas de prédica?

Figura 12. Gráfico: Pregadores mais influentes aos ouvintes.41

Fonte: pesquisa de campo.

41 Nesta questão foi pedido para que os ouvintes categorizassem de 1 a 10 os pregadores alistados, dos que mais

os influenciam para os de menos influencia. O gráfico mostra, portanto, a pontuação de cada pregador, segundo as escolhas dos ouvintes, sendo que os que receberam primazia tiveram peso de pontuação maior.

24,32% 24,32% 21,62% 13,51% 16,22% Não Sim, na televisão Sim, na internet Sim, no rádio

Sim, em outras igrejas

242

124 122 118 107

71 62

57 49

Outros pregadores e pregadoras, como R.R. Soares, Sônia Hernandes e Valdemiro Santiago se mostram menos influentes ao grupo. Talvez, devido ao fato de a maioria dos protestantes manterem sérias restrições ao neopentecostalismo, movimento com o qual aqueles nomes se associam. Contudo, é de se salientar que, embora os ouvintes se ―cerquem de mestres‖ fora de suas congregações e, inclusive, fora de suas denominações, a maioria ainda declara que é o pregador local aquele que mais a influencia, como demonstrou o gráfico acima.

Ao término da análise de sermões, juntamente com as respostas dadas à pesquisa de campo, entende-se que algumas ênfases da pregação protestante de missão original aparecem hoje com menos freqüência, como a ético-moralizadora, a apologética, a milenarista e a espiritualista. Outras ênfases, ou características originais, continuam bem presentes, como a salvacionista, a intimista e a doutrinária. Ainda surgem elementos teológicos, como os da missão integral e dos movimentos pentecostais, que embora antagônicos, também exerceram influência sutil.

Conclui-se, então, que a matriz teológica protestante de missão, conforme concebida no capítulo anterior, embora não esteja isenta de sofrer alguma influência de movimentos teológicos considerados recentes, constitui-se ainda a matriz determinante e fomentadora da prédica nas igrejas de missão. Uma vez definido, então, do que se constitui o conteúdo básico da prédica destas igrejas, pode-se agora refletir a respeito dos encontros e desencontros entre este tipo de pregação e o contexto em que o mesmo se aplica, isto é, o brasileiro.