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The Price of Escaping Hong Kong

In document The Neutral Enemy? (sider 82-85)

Atualmente é consensual que o BES é um conceito multidimensional que engloba uma dimensão cognitiva e uma dimensão afetiva, tendo como principais componentes a SCV, os AP e os afetos negativos (AN). Ambas as dimensões podem ser analisadas quer globalmente, quer em domínios específicos, partindo das avaliações e experiências dos próprios indivíduos. Apesar de a maioria dos autores estar em sintonia quanto à estrutura do BES, a relação entre as dimensões e entre os componentes tem recebido diferentes expressões nas investigações, sendo suportado que, embora possam contribuir para um fator global, também possuem autonomia, devendo ser analisados em separado, pois implicam diferentes processos, tipos de influências, podem ocorrer de forma independente e proporcionam níveis de análise distintos, sendo por isso importante a realização de uma análise complementar conjunta. Enquanto os juízos relativos à SCV tendem a refletir objetivos e valores de vida perspetivados de forma mais consciente e que se relacionam com uma perspetiva temporal mais longa e atenta às circunstâncias; as reações afetivas podem ser mais permeáveis aos estados físicos e à motivação inconsciente e, em alguns casos, constituir respostas mais imediatas com menor duração face aos acontecimentos presentes (Chen et al., 2013; Crivelli, Della Bella, & Lucchini, 2016; Diener, 2013; Diener & Emmons, 1984; Diener, Smith, & Fujita, 1995; Diener, Heintzelman et al., 2017; Diener, Suh, Lucas, & Smith, 1999; Galinha, 2008; Helliwell et al., 2012; 2013; 2017; Kashdan et al., 2008; Lucas, Diener, & Suh, 1996; Watson, 1988; Wilson, 1967).

De acordo com Luhmann, Hawkley, Eid e Cacioppo (2012), apesar de grande parte das investigações avaliarem a SCV em termos gerais e os afetos com base em quadros temporais delimitados (e.g. últimas semanas) e isso poder levantar questões acerca da independência das dimensões cognitiva e afetiva, estas tendem a manter uma diferença estrutural mesmo quando são avaliadas com um quadro temporal idêntico. Além disso, estes autores concluíram que na avaliação da dimensão cognitiva, independentemente de se reportar a momentos específicos, os indivíduos tendem a fazer uma reflexão global das circunstâncias de vida e na avaliação dos afetos sobressaem os acontecimentos recentes mais transitórios. Devido a estas tendências a reprodução dos efeitos de eventos marcantes para as circunstâncias de vida que afetam ambas as dimensões vão perdurar nas avaliações de SCV e esbater-se nas avaliações afetivas, face ao efeito de outros acontecimentos mais recentes posteriores. Por esse motivo, os autores consideram que na avaliação de intervenções que procurem influir no BES, é preciso ter em

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conta que, se as mesmas procuram incidir na esfera individual ao nível das atividades e comportamentos, estas terão um efeito mais notório na dimensão afetiva.

Ao longo de vários estudos com a colaboração de diferentes autores, Diener conclui que o BES não se traduz numa entidade unitária, reportando-se à avaliação subjetiva que os indivíduos fazem acerca da sua vida, tendo subjacente a noção de que melhores níveis de BES estão associados a uma maior frequência da vivência de SCV e AP e uma menor frequência de AN. A separação dos componentes e a necessidade de uma análise conjunta dos mesmos tem vindo a ser reforçada não apenas pelo facto de estatisticamente corresponderem a diferentes fatores com uma independência relativa, mas também por que podem ocorrer independentemente e pelo tipo de influência que recebem e que causam. Assim, por exemplo, as emoções podem ocorrer involuntariamente à cognição, os AP podem ser influenciados por relações sociais positivas e, por sua vez, contribuírem para uma maior sociabilidade, ao passo que os AN não apresentam o mesmo tipo de conexão, estando mais relacionados com os conflitos sociais. Nesse sentido uma análise conjunta de avaliações separadas de cada componente proporciona uma complementaridade informativa (e.g. Diener, 1984; 2000; 2012; 2013; Diener & Biswas-Diener, 2000; Diener, Heintzelman et al., 2017; Diener, Lucas, & Oishi, 2018; Diener, Oishi, & Tay, 2018; Diener, Suh, & Oishi, 1997; Galinha, 2008; Lucas et al., 1996; Pavot & Diener, 1993; 2013; Tay & Diener, 2011; Tov & Diener, 2013).

A dimensão cognitiva do BES corresponde à avaliação que o indivíduo faz da sua vida em termos de satisfação com a mesma, quer a nível global quer em domínios específicos (e.g. vida familiar ou profissional), mediante reflexões ou julgamentos realizados através de um balanço comparativo entre as circunstâncias por ele vivenciadas e os padrões que considera serem os mais adequados. Assim, quanto maior for a proximidade das perceções das suas circunstâncias com aquilo que é tido como referência, maior será o seu nível de SCV. Uma das vantagens da análise de satisfação que se reporte à vida como um todo, é que permite que na elaboração do juízo global, implicitamente, haja uma ponderação dos aspetos que lhe são mais relevantes, sendo por isso mais sensível a variáveis individuais, dada a possibilidade de divergência na hierarquização de cada um deles. Um outro fator a ser tido em conta na análise da SCV é a delimitação temporal a que as avaliações se reportam, na medida em que a mesma pode diferir num mesmo sujeito consoante o período e a extensão de tempo questionado: em geral, passado amplo, intermédio ou mais imediato, presente ou futuro (Diener, 1984; 2000; Diener & Biswas- Diener, 2000; Diener, Scollon, & Lucas, 2004; Diener et al., 1997; Diener, Oishi et al., 2018; Galinha, 2008; Galinha & Pais Ribeiro, 2008; 2011; Helliwell et al., 2012; 2013; 2017; Kashdan et al., 2008; Lent, 2004; Pavot & Diener, 1993; 2013).

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Por outro lado, a avaliação que um indivíduo faz da sua vida também pode ser realizada através de respostas emocionais. A dimensão afetiva pode ser analisada globalmente em termos de felicidade, ou através do conceito de afeto, aceite como componente emocional do BES e que, por sua vez, engloba uma vertente positiva e outra negativa. A felicidade global pode ser aferida por perguntas genéricas, pelo estudo do AP ou através de um balanço entre AP e AN (habitualmente mensurados a partir de listas de emoções). A complexidade existente em torno do conceito de afeto no que respeita à delimitação da sua estrutura e à interação ou independência dos seus componentes tem sido discutida, dando azo a opiniões divergentes. Contudo, a abordagem dimensional e a separação entre os AP e AN como dimensões básicas têm vindo a ser amplamente suportada na investigação, contrariando a posição de que os mesmos fazem parte de um contínuo ou se encontram numa correlação inversa como dois polos opostos. Embora em muitos estudos se tenha verificado que o AP e o AN possam apresentar uma ligeira correlação, a sua separação tem vindo a ser alicerçada não só pelo facto de que, simultaneamente, cada um constitui um fator distinto, mantendo correlações com variáveis diferentes, mas também porque podem coexistir num determinado momento e porque desencadeiam processos neurofisiológicos específicos. Outra questão importante na medição do afeto é o fator tempo. Tem vindo a ser aceite que o estudo dos afetos com base em amplitude temporal mais alargada (e.g. último ano) corresponde à investigação do afeto que traduz os traços de personalidade; enquanto uma delimitação temporal média (e.g. último mês) relaciona-se ao estudo do humor, que refletem o efeito cumulativo de múltiplos estímulos; e quando é curta ou imediata (e.g. última semana ou dias) a medição relaciona-se com o estudo do afeto estado, mais permeável ao impacto dos acontecimentos presentes. Além disso, o relato dos afetos relativos a períodos de tempo mais curtos tendem a ser mais precisos, devido aos viéses dos processos de memória (Bradburn, 1969; Chen, Bai, Lee, & Jing, 2016; Crivelli et al., 2016; Crocker, 1997; Diener, 2000; Diener & Emmons, 1984; Diener, Smith, & Fujita, 1995; Diener, Kanazawa, Suh, & Oishi, 2015; Diener et al., 1999; Galinha, 2008; Galinha & Pais-Ribeiro, 2005a; 2005b; 2008; 2011; Green & Salovey, 1999; Helliwell et al., 2012; 2013; 2017; Kercher, 1992; Lucas et al., 1996; OECD, 2013; Stone cit. por Galinha, 2008; Watson & Clark, 1994; Watson & Tellegen, 1985).

No que concerne às causas do BES, as primeiras investigações, ao seguirem mais uma perspetiva bottom-up que tem presente a noção de que o BES poderia resultar do somatório de experiências e circunstâncias positivas ou ser afetado pelas negativas, focaram-se no estudo dos fatores contextuais e sociodemográficos. Posteriormente, outros estudos, com base na noção do tipo de propensão inerente aos indivíduos para experienciar o ambiente e desta forma atribuir-lhe significado, começaram a privilegiar uma perspetiva top-down, atribuindo maior relevo aos

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aspetos intrapessoais (e.g. personalidade) para explicar a variabilidade do BES entre os indivíduos a longo prazo. Atualmente, tem-se vindo a demonstrar a impossibilidade de se atribuir a exclusividade a um único fator preditivo, bem como o facto de que um mesmo fator pode representar um peso diferente para cada componente do BES. Isto porque os fatores intrapessoais, para além de não explicarem a maioria da variabilidade dos níveis de BES, não são imunes aos fatores ambientais. De facto, os acontecimentos de vida marcantes (e.g. viuvez e desemprego) não só afetam as dimensões do BES ao longo do tempo e podem ultrapassar a capacidade adaptativa dos indivíduos, como tendem a afetar mais a dimensão cognitiva, o que evidencia a diferença de valor preditivo entre os componentes. Em suma, existem diversos determinantes como os fatores externos (e.g. rendimento), os pessoais (e.g. experiência da vida familiar) e os intrapessoais (e.g. genética e personalidade) que podem influenciar o BES. Alguns fatores, como é o caso da saúde física e mental ou a qualidade das relações sociais e de suporte, possuem uma relação biunívoca com o BES, sendo, simultaneamente, fator causal e consequência do mesmo. Assim, por exemplo, a existência de uma boa rede social e de suporte contribuem para o BES, ao mesmo tempo que o BES potencia a sociabilidade e relacionamentos com qualidade. O entendimento do BES como resultado de fatores intrínsecos e extrínsecos está de acordo com a perspetiva biopsicossocial e concede-lhe maleabilidade, permitindo a realização de intervenções em níveis distintos. Neste estudo relevam especialmente os fatores sociais, a aquisição de novos conhecimentos e a saúde cognitiva (Diener, 1984; 2012; 2013; Diener, Heintzelman et al., 2017; Diener, Inglehart, & Tay, 2013; Diener, Lucas et al., 2018; Diener, Oishi et al., 2018; Diener, Pressman et al., 2017; Diener & Ryan, 2009; Helliwell et al., 2012; Howell, Passmore, & Holder, 2016; Luhmann, Hofmann, Eid, & Lucas, 2012; Lyubomirsky, King, & Diener, 2005; Moore, Diener, & Tan, 2018; Nes & Røysamb, 2015; Oishi & Diener, 2014; Oishi & Gilbert, 2016; Tay & Diener, 2011; Tay & Kuykendall, 2013; Tay et al., 2015; Yap, Anusic, & Lucas, 2012).

Quanto aos efeitos, vários autores (de Neve, Diener, Tay, & Xuereb, 2013; Diener, Heintzelman et al., 2017; Diener et al., 2015; Diener, Oishi et al., 2018; Diener, Pressman et al., 2017; Diener & Ryan, 2009; Lyubomirsky, Sheldon, & Schkade, 2005; Oishi, Diener & Lucas, 2007; Sheldon & Lyubomirsky, 2012; Tay et al., 2015) têm vindo a referir uma multiplicidade de estudos que evidenciam que o BES produz benefícios individuais e coletivos, nomeadamente: ao nível da saúde e longevidade (e.g. mais comportamentos de vida saudáveis); ao nível profissional (e.g. melhor produtividade); ao nível das relações sociais (e.g. contribui para a abertura relacional e para o investimento no aumento da rede social e de suporte); e ao nível societário (e.g. pessoas com níveis de BES tendem a ser mais altruístas e envolverem-se em atividades pro-sociais e nas questões cívicas, como o voluntariado).

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Apesar da proliferação da investigação, a necessidade de se realizarem mais estudos experimentais e longitudinais com base nos diferentes componentes e conjugá-los com outras formas de medição para além do auto-relato, incluindo medidas cognitivas de memória, continua a ser referenciada (Diener, Heintzelman et al., 2017; Diener, Lucas et al., 2018; Diener, Oishi et al., 2018; Diener, Pressman et al., 2017).

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