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A Fragmented Community of Enemies

In document The Neutral Enemy? (sider 85-88)

A crescente visão favorável e ativa do envelhecimento, aliada ao surgimento da PP e à sua extensão àquela têm corroborado a importância do BE para um envelhecimento positivo. Assim, procura-se aprofundar a relação do BE, enquanto indicador e promotor de saúde, com a

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idade avançada e estabelecer os fatores e meios que o possam fomentar, inclusive na presença de declínios, sobretudo tendo em conta as necessidades individuais e sociais de haver pessoas idosas saudáveis e autónomas por mais tempo (Araújo et al., 2017; Diener & Chan, 2011; Diener, Kesebir, & Lucas, 2008; Jiménez et al., 2016; Palma & Galaz, 2018).

A relação entre a idade e o BE tem recebido diferentes expressões na investigação. Steptoe, Deaton, e Stone (2015) realçam que o habitual decréscimo de saúde nos seniores tende a diminuir os seus níveis de BE e uma vez que estes dois fatores se auto influenciam, é importante haver intervenções que o promovam. Contudo, ao contrário do que se possa supor, a constância ou inclusive o aumento de algumas dimensões do BE na população sénior também têm vindo a ser evidenciadas. Diener e Suh (1998) concluem que a tendência, mesmo perante adversidades, é que a SCV se mantenha ou aumente, que os AN se mantenham e os AP decresçam. Recentemente, Hannaford et al. (2017) verificaram que os indivíduos entre os 50 e 64 anos eram mais propensos a apresentar sintomas de ansiedade e depressão, bem como menor SCV perante agentes stressores (e.g. doença, perda de contatos, problemas financeiros), enquanto nos indivíduos com mais idade, este tipo de acontecimentos tendia a não interferir com o seu BES, o que reforça a teoria da inoculação (Eysenck, citado por Hannaford et al., 2017), segundo a qual o aumento da idade proporciona maior resiliência e regulação emocional, diminuindo o efeito dos stressores. Palma e Galaz (2018) verificaram que os seniores tendem a apresentar bons níveis de BES nas duas dimensões, realçando não só o papel que as variáveis psicossociais desempenham para esse efeito (perceção de saúde, estratégias de coping e apoio social), mas também o seu peso para cada um dos componentes.

Hansen e Slagsvold (2012) verificaram que a SCV e os AN tendem a ser estáveis e que os AP tendem a sofrer um pequeno decréscimo, independentemente do género, nos seniores mais novos e sofrer um declínio mais acentuado nos seniores mais velhos, provavelmente pela presença dos agentes stressores e pela diminuição de mecanismos compensatórios. Em contrapartida, a presença de contatos, a interação social, uma boa rede de suporte, de relações equitativas e de proximidade, de níveis educativos mais elevados e a manutenção ou o envolvimento em atividades, quer de lazer, quer produtivas, constituem alguns dos principais fatores promotores do BE. Acresce que a estabilidade ou os melhores níveis de BE encontrados nas camadas seniores, ainda que na presença de algumas adversidades inerentes às alterações biopsicossociais, têm vindo a ser explicados com base nas teorias psicológicas do envelhecimento: a da seletividade socio-emocional; do efeito da positividade; e da SOC (Araújo et al., 2017; Francescato et al., 2017; Hansen e Slagsvold, 2012; Killen & Macaskill, 2015; Ku,

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Fox, & Chen, 2016; Martínez, Buz, Navarro, López-Martín, 2017; McMunn et al., 2009; Palma & Galaz, 2018; Paúl & Ribeiro, 2012; Wernher & Lipsky, 2015).

As intervenções positivas (IP) visam promover o BE, através do fortalecimento dos aspetos da vida e das características dos indivíduos que são positivos, atendendo à importância de um equilíbrio dos mesmos com os aspetos negativos. A sua eficácia tem vindo a ser comprovada também na população sénior, contribuindo, por exemplo, para o aumento dos AP e a redução de recaídas em estados depressivos. Entre alguns dos aspetos responsáveis para o seu êxito sobressaem os factos de que as mesmas permitem a realização de aprendizagens para enfrentar as adversidades, propiciam o envolvimento em atividades e a adoção de comportamentos que realçam as qualidades dos indivíduos, favorecem a experiência de emoções positivas e conduzem ao contato com o prazer na vida e com o seu propósito, ao mesmo tempo que fomentam as interações positivas, contribuindo para um EA (Baker & Ballantyne, 2013; Berger, Milicic, Alcalay, & Torretti, 2014; Fava & Ruini, 2003; Jiménez et al., 2016; Rashid, 2015; Seligman, 2011a; Seligman, Steen, Park, & Peterson, 2005; Sin & Lyubomirsky, 2009; Stone & Parks, 2018; Sutipan, Intarakamhang, & Macaskill, 2017).

As IP podem ser muito variadas, prosseguir objetivos e recorrer a técnicas e instrumentos de análise distintos. Alguns estudos têm comprovado que as mesmas abarcam um amplo leque de domínios e atividades, mas sobretudo a possibilidade de modificarem positivamente o BE. Pires, Galinha, e de Herédia (2017) verificaram que o envolvimento de seniores na atividade de canto em grupo contribuiu para a redução dos AN, embora a mesma não tenha perdurado passado oito semanas na ausência da atividade. Avia, Martínez-Martí, Rey-Abad, Ruiz, e Carrasco (2012), ao realizarem dois estudos com base em atividades para fomentar uma revisão de vida focada em aspetos positivos, verificaram a possibilidade de melhorar significativamente a memória autobiográfica, reduzir o nível de desesperança e estimular a tendência para melhores níveis de SCV e AP. Através de uma intervenção focada na experiência de gratidão, Killen e Macaskill (2015) constataram ter havido um aumento e manutenção dos níveis de florescimento, um decréscimo no que se refere ao stresse percebido seguido do retorno a valores próximos ao início do programa e, ainda, uma pequena melhoria dos níveis de afeto e de SCV. Com base num programa psicoeducativo para promover um bem-estar emocional e um envelhecimento com êxito, Jiménez et al. (2016) constataram que apesar de terem encontrado uma tendência favorável para o aumento dos AP e decréscimo dos AN, foi possível reduzir efetivamente os níveis de preocupação e aumentar o grau de felicidade percebido, que, por sua vez, potencia os recursos pessoais e, assim, um EA.

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A par dos diferentes tipos de intervenção supramencionados, existem estudos que revelam que as IC também podem aumentar o BE. Através da participação num programa de EC, Castel et al. (2017) verificaram que, numa amostra de pacientes seniores hospitalizados (que incluía indivíduos sem ou com prejuízos cognitivos), enquanto que os participantes que não frequentaram as sessões não sofreram alterações, o GE que realizou a intervenção melhorou significativamente o seu BES e ainda constataram que, dentro deste, os indivíduos cognitivamente saudáveis, quando comparados com os que apresentam DCL, obtinham melhores resultados. Neste estudo, ao contrário do que era esperado, o GE não experienciou melhorias significativas nas funções cognitivas.

Ballesteros et al. (2014) também realizaram um estudo que interliga as IC e o BE numa amostra de seniores saudáveis com a finalidade de manter e fortalecer a sua saúde cognitiva e BE face aos declínios associados ao envelhecimento. Recorrendo a videojogos de uma plataforma informática de TC, constataram que, ao contrário dos participantes do GC (sem variações), os participantes que realizaram as 20 sessões obtiveram melhorias significativas em diferentes funções cognitivas, bem como em duas dimensões de BE: assertividade e afetividade. Mais tarde, no seguimento desta intervenção, Ballesteros, Mayas et al. (2015) chegaram à conclusão que após três meses, na ausência do programa, os efeitos no BE mantiveram-se, enquanto que os ganhos alcançados ao nível das funções cognitivas se perderam, tendo por isso realçado que, apesar de ser possível induzir a plasticidade cognitiva, a manutenção dos benefícios requer a continuidade das atividades.

Porém, Belleville et al. (2018) obteve achados diferentes, reforçando a necessidade de se realizar mais investigação acerca das IC e BE. Neste estudo, que integrou indivíduos com DCL, foram constituídos três grupos: um GE que realizou um TC direcionado para a capacidade da memória do qual se esperava melhores resultados ao nível do funcionamento cognitivo; um GC ativo que realizou uma intervenção psicossocial baseado na terapia cognitivo-comportamental do qual se esperava obter melhores resultados ao nível da ansiedade, depressão e BE; e ainda um GC que não recebeu qualquer tipo das intervenções. Embora o GE tenha apresentado melhores resultados cognitivos, mantendo-os nas avaliações posteriores de follow-up (três e seis meses), este e o GC ativo não sofreram melhorias significativas no BE, embora o GE apresentasse níveis ligeiramente superiores ao GC ativo.

Apesar da expansão da PP e da evidência das mais-valias que as IP possam trazer, alguns autores, como Araújo et al. (2017), Bolier et al. (2013), Sin e Lyubomirsky (2009) e Sutipan et al. (2017), concluem que existe uma grande escassez de estudos de intervenção abarcando a população sénior que vão ao encontro das suas necessidades. De entre estas, do que foi até

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agora exposto, a presença de relações sociais e de suporte, a promoção do BE, da saúde física e cognitiva constituem aspetos essenciais para uma boa velhice (Ballesteros, Kraft et al.,2015; Cabrita, Lamers, Trompetter, Tabak, & Vollenbroek-Hutten, 2017).

À semelhança de Cummings (2002), que verificou que um dos fatores mais importantes para o BE consistia na qualidade do suporte social percebido, Francescato et al. (2017) concluem que as relações de proximidade têm um papel fundamental para a promoção do BE e para o empoderamento nos seniores, sendo por isso importante que as IP se rejam pelos princípios da Psicologia Comunitária. Também, Dolcos, Moore e Katsumi (2018) referem a importância das relações sociais para a experiência e para o aumento do BE, mas no entanto também chamam a atenção para o facto de que formas específicas de treino como o mindfulness podem contribuir para mecanismos que possibilitam a manutenção dos efeitos positivos no BE, uma vez que induzem alterações neuroplásticas, um envelhecimento emocional favorável e também a propensão para a sociabilização, sendo por isso necessário, investir em mais investigação acerca de formas de intervir que influenciem os mecanismos neuronais que proporcionam níveis de BE mais elevados e constantes.

Por outro lado, a perceção de prejuízos cognitivos, o efetivo declínio associado ao envelhecimento normal, bem como quadros de presença de DCL ou de demência constituem um grande risco para o decréscimo do BE (Olsson, Hagnelius, Olsson, & Nilson, 2013; Wilson et al., 2013). Contudo, tal como referido, existe uma escassez de estudos de IP a qual também se faz notar no âmbito das IC e no esclarecimento de como estas se relacionam com o BE (Ballesteros, Kraft et al., 2015; Castel et al., 2017; Gates e tal., 2014; Woods et al., 2012).

Aliás, tendo em conta os benefícios das IC e do fomento das relações sociais e de suporte, alguns autores realçam a importância de haver intervenções que conjuguem sinergicamente estes dois fatores para a promoção do BE (Ballesteros, Kraft et al., 2015; Gates et al. 2014). Nesse sentido, Yates et al. (2017c) constataram que uma boa rede social tem um papel importante como mediador entre o DCL e a ansiedade e depressão, sendo importante haver intervenções que promovam o envolvimento social reduzindo o risco de perturbações do humor, que propiciam a progressão do declínio cognitivo.

Tendo em conta tudo o que foi exposto, constata-se uma escassez de estudos experimentais, no âmbito das IC, do BES que se conjuguem com outras medidas objetivas para avaliar a cognição, no âmbito do florescimento, bem como de IP junto da população sénior e que conjuguem as IC e BE, especialmente no que se refere às que promovem, simultaneamente, a dimensão social e cognitiva. Além disso, não tendo sido encontrada na literatura menção a nenhuma investigação que incida simultaneamente nestas variáveis, através de uma dinâmica

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interpares, procurando fomentar uma sinergia entre seniores mais jovens e autónomos com outros mais velhos com maiores limitações, pertencentes à mesma comunidade, justifica-se a criação de um programa e o seu respetivo estudo, na medida em que o mesmo procura intervir de uma forma inovadora no âmbito do BE, das capacidades cognitivas e na dimensão social dos seniores, as quais correspondem também a alguns dos principais determinantes (pessoais e sociais) e pilares do EA (saúde e participação), refletindo também a noção ampla de atividade inclusiva presente neste conceito e o seu propósito de potenciar um BE biopsicossocial, devido à sua associação ao conceito amplo de saúde (Abdullah & Wollbring, 2013; da Fonte et al., 2017; de São José & Teixeira, 2014; Fernandez-Ballesteros, 2017; Loureiro & Miranda, 2016; Paúl et al., 2012; Walker, 2015; Walker & Zaidi, 2016; WHO, 2002; 2015; 2017; World Health Organization Regional Office for Europe, 2012a; 2012b). Acresce que a realização deste estudo encontra também suporte pois, apesar do EA ter vindo a ser cada vez mais difundido (Bülow & Söderqvist, 2014; Fernández-Ballesteros et al., 2013; Walker & Maltby, 2012; SNS, 2017), devido ao crescente envelhecimento populacional (e.g. INE, 2012; 2017; UN, 2017ª; WHO, 2015), ainda se nota a necessidade de intervenções comunitárias no seu âmbito que confluam simultaneamente estes aspetos (BE, cognição e dimensão social) essenciais para um envelhecimento com QV (Bárrios & Fernandes, 2014; Menichetti et al., 2016).

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