IV. Resultados
2.1 Prevalencia y naturaleza de las cepas hipermutadoras
Sessão: 14ª Data: 23/08/2005
Integrantes: Alice (5;7), Carol (5;2), Clara (5;0), Mariana (3;11) , Paulo (5;0) e Júlio (3,8).
Carol prepara um “fogo” com pedras, pedaços de telha e folhas em cima de uma cadeirinha. Coloca um encosto de uma carteira que ela recolheu no terreiro para representar a grelha e começa a “assar” raízes, fazendo de conta que são peixes. Clara se aproxima de Carol:
T1- Carol – Clara, vamos assar os peixes? (Carol e Clara começam a fazer-de- conta que estão assando peixes. Mariana, que brincava de irmã com Alice também se aproxima e pede um peixe de Carol).
T2- Mariana – Me dá um peixe? (Carol dá uma raiz à Mariana).
T3- Carol –Tem que escamar. (Mariana faz-de-conta que está escamando o peixe. Alice se aproxima e fica olhando as outras crianças prepararem o peixe).
T4- Alice – Já está pronta a bóia? T5- Mariana – Não. Tem que escamar. T6- Alice – Que peixe é esse?
T7- Mariana – É mapará.
T8- Carol – (Coloca as raízes em cima do “fogo”. Dá um tempo e fala) – Pronto. Já está assado. (Em seguida, oferece um pouco de peixe assado à Alice que faz- de-conta que come e, na seqüência, dá um pouco à Clara).
T9- Clara – Vizinha, essa comida estava tão gostosa, depois eu volto pra comer a sobremesa. (Clara se distancia do grupo. Carol e Alice começam a distribuir “peixe assado” para as demais crianças. Paulo e Júlio se aproximam do grupo e Carol oferece um “peixe” a eles, que fazem-de-conta que comem).
T10- Paulo – Eu quero mais. T11- Júlio – Eu também
T12- Mariana - Eu quero mais.
T13- (Alice dirige-se à Carol e fala) – Dá só um pra cada. (E dirigindo-se a Paulo, exclama) – Toma, vai-te embora. Não tem mais, menino.
T14- Carol – Pode dar pra ele.
Modos de construção dos significados
- Relações reais – O enredo da brincadeira foi iniciado por Carol, uma das
meninas com mais idade da turma (5;4) e mantido por ela durante todo o episódio. Carol “preparou o fogo” para “assar os peixes”. Ao ver Clara se aproximar a convidou para brincar e a menina aceitou o convite. Mariana chegou depois e também entrou na brincadeira. Alice, Paulo e Júlio também se aproximaram do grupo e começaram a brincar. As crianças não chegaram a discutir acerca dos papéis a serem representados e nem dos significados atribuídos aos objetos.
- Relações lúdicas – Neste episódio temos quatro personagens incorporados:
Carol que fez o papel de um adulto que assa e distribui peixe. Alice, que desempenhou o papel de ajudante de Carol. Clara que fez o papel da “vizinha” e Mariana, Paulo e Júlio, que representaram as pessoas (crianças, talvez) que eram alimentadas. Carol atribuiu significados aos objetos (cadeirinha da sala/fogão; um encosto de cadeira/grelha; pedras, pedaços de telha e folhas/carvão e raízes/peixes). Com exceção da cadeira, todos os demais objetos foram recolhidos por Clara no terreiro da escola.
Os significados construídos
- Sobre o mundo- Observa-se que o contexto sócio-cultural da Ilha do Combu
está bem refletido nesse episódio. O argumento da brincadeira é assar peixes, uma atividade típica dos moradores da Ilha. Crianças bem pequenas já conhecem as regras dessa atividade (conteúdo). Sabem que para assar um peixe, é necessário, primeiramente, escamá-lo e preparar o fogo. Compreendem o que é escamar. Sabem também que após colocar no fogo é preciso dar um tempo para o peixe assar e só depois comer. Utilizam o significado de bóia para comida, o que não é comum a todos os lugares. Além disso, demonstram conhecer nomes de peixes típicos da Amazônia, como é o caso do mapará, largamente utilizado como alimento na Ilha.
- Sobre o si mesmo e sobre o outro – vemos nesse episódio que cada criança
buscava atingir seus objetivos. Carol queria fazer o fogo, assar o “peixe” e repartir. Clara, Mariana, Paulo e Júlio queriam conseguir um pouco de “peixe” e, depois que comeram e viram que ainda não estavam saciados, queriam mais. Alice, que tinha quase a mesma idade que Carol e era a criança mais velha da turma, ao que parece, queria supervisionar o preparo e a distribuição do “peixe”. Ao buscar atingir seus objetivos na interação social, cada criança colocava-se na posição de um eu diferente do outro. Carol representava a figura afetiva pela qual as crianças nutriam as expectativas de conseguir um “pouco de peixe” –“Será que esse outro vai me dar peixe ou não?”, poderiam pensar Clara, Mariana, Paulo e Júlio. Já Alice, mais velha, e com a construção do si mesmo já mais bem
desenvolvida que os demais, apresentava uma postura diferente. Colocava-se o tempo todo em uma posição de fiscalizadora das ações de Carol. Ela não pedia “peixe” como as outras crianças, mas perguntava sobre o andamento do preparo do “peixe” e dava ordens à Carol (T.4- Já está pronta a bóia?; T 6- Que peixe é esse?; T 12- Dá só um pra ele). Isso mostra que essas crianças estão construindo significados sobre si mesmos e sobre os outros.
- Sobre a relação do si mesmo com o outro- podemos analisar essa construção de
significados a partir de diversas perspectivas. Alice e Clara percebem Carol como uma companheira. Alice procura o tempo todo estar no mesmo nível de compartilhamento que Carol. Clara parece ver em Carol uma figura afetiva importante, a ponto de chamar-lhe de “vizinha”, elogiá-la e dizer-lhe que volta pra comer a sobremesa (T9- Vizinha, essa comida está tão gostosa, depois eu volto pra comer a sobremesa). Mariana, Paulo e Júlio vêem Carol como alguém que satisfaz sua necessidade de alimento. Alice vê Paulo como uma ameaça à economia do alimento (T12- Toma, vai-te embora. Não tem mais menino).
A origem dos significados – a partir do estudo do contexto sócio-cultural da
pesquisa, atribuo a origem dos significados construídos às experiências das crianças que presenciam seus pais constantemente assarem peixes, chamarem comida de bóia e receberem visita de vizinhos. A preocupação de Alice em racionar a distribuição do peixe (T13– Dá só um pra cada./ – Toma, vai-te embora. Não tem mais, menino.) reflete algo que é comum na Ilha – a escassez do pescado também verificado no estudo do contexto, anteriormente relatado.
A relação cultura-subjetividade
A análise desse episódio indicou que significados importantes presentes no contexto sócio-cultural das crianças que participaram da brincadeira foram internalizados, passando a constituir as subjetividades das mesmas. Mostrou ainda que os mesmos não foram construídos apenas por Carol, que iniciou a brincadeira, mas cada um, a seu modo, contribuiu para a realização de uma ação conjunta.
Comportamentos como o que foi manifestado por Carol na brincadeira podem ser um indício de que, nessa comunidade, apesar das pessoas terem poucos recursos materiais, sabem compartilhar, repartir, esperar sua vez e aceitar as regras. As dimensões afetivas do processo de construção de significados também podem ser vistos no comportamento de Clara ao se dirigir à Carol. Quando ela diz: (T9- Vizinha, essa comida estava tão gostosa...) revela uma afetuosidade pela personagem que estava assando e distribuindo os “peixes” e denuncia até um valor. Numa comunidade onde é difícil encontrar os vizinhos, existem relações amistosas de vizinhança. Clara, que não era vizinha de fato de Carol, em vez de chamá-la de vizinha poderia ter dito, por exemplo, “Querida, essa comida estava tão gostosa...”.
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