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The Press’s Ability to Serve as a Check on the Government During Times of Military

Quando as pessoas perguntam quantos filhos eu tenho, dizem “Nossa! Nove filhos!”. Eu já vou logo cortando: “mas sabe por quê?” (Sofia, 2013).

Sofia nos faz testemunha de um discurso que paira sobre ela e a assombra: ao falar de quantos filhos tem, o que aparece é o puro espanto do outro, Nossa!, que vem substituir uma pergunta que poderia ter sido feita diante deste estranhamento. Sofia também nos mostra que, diante da surpresa do outro, ela mesma se encarrega de pronunciar, no lugar do outro, a pergunta que este deixou de lhe fazer: “mas sabe por quê?”.

O outro não sabe ainda o porquê, afinal ela não o disse, mas também não lhe indaga. Sofia se antecipa, possivelmente porque acredita que o outro, por iniciativa própria, não iria lhe perguntar. Não parece ser uma cisma sua, como já afirmamos no primeiro e no quarto capítulos; há encontros que se estabelecem marcados por uma relação de dominação e superexposição, em que o sujeito é visto como se já fosse conhecido, sem mistérios nem enigmas, dispensando as perguntas para que possa se apresentar e se dizer (GONÇALVES FILHO, 2008). Ao não perguntar, deixa o interlocutor de saber que Sofia desde pequena queria uma casa com muita gente, para dar continuidade a uma família que é bonita: as marcas da casa da sua avó onde os tios e primas circulavam, não podem ser, de modo algum, menosprezadas. Além disso, não podemos esquecer que Sofia convive com histórias bastante próximas de mães que perderam seus filhos: os filhos que se vão prematuramente da vida não parecem ser uma exceção no seu universo. Tanto pela sua história familiar, de serem inicialmente em quatro irmãos, tendo restado somente ela e mais um, pois os dois mais velhos faleceram quando ela ainda era bebê, quanto pelas assustadoras cifras de adolescentes negros e pobres assassinados ou encarcerados.

Quem tem um filho, não tem nenhum. As colegas falam “fez bem”. Porque uma, o filho morreu, outra, o filho foi embora, ficou mais sozinha (Sofia, 2013).

Mas não parece ser só espanto o que Sofia escuta através da fala do outro sobre seus tantos filhos; tanto assim que pouco depois reafirma que, para ela, ter esses filhos é algo de

valor. Possivelmente ela escuta também algo de crítica, ou talvez um certo pesar, o que nos coloca a pergunta: será que esse comentário Nossa! Nove filhos! se faria do mesmo modo e no mesmo tom a uma mãe que por questões religiosas resolvesse ter muitos filhos, acreditando seguir, assim, os preceitos bíblicos de “crescei e multiplicai-vos”?

Será mesmo que mãe é tudo igual, só muda o endereço?

Mudando o endereço, muda-se também o lugar em que se está inscrito no discurso social e, com isso, muda-se tanto o modo como se é visto e convocado nesta posição materna, quanto a concepção sobre maternidade, própria ao seu grupo de pertença.

Mal não faz, se fizesse as outras mulheres da família não tinham tido tantos [filhos]. Todas as tias do lado do meu pai têm vários. Só uma teve seis e uma, quatro, o resto nove, oito, sete (Sofia, 2013).

Ao retomar a história de suas tias, Sofia recupera um valor de família numerosa para seu grupo de pertença social e familiar, podendo marcar uma distinção entre o valor dentro desse grupo e o desvalor que isso possa ter no discurso oficial. Vale lembrar que a concepção hegemônica do discurso social não recobre a totalidade do Outro, entendido no sentido da dimensão simbólica que referencia o sujeito (ROSA, 2015). Trata-se de uma distinção fundamental, pois “o discurso social e político, carregado de interesses e visando manter ou expandir seu poder, mascara-se de discurso do Outro (campo da linguagem) para enredar o sujeito em suas malhas” (ROSA, 2015, p. 8).

“Nossa! São todos de um pai só?”.

É a pergunta que Sofia nos diz ser dirigida a ela; na sequência ela nos mostra na sua resposta o que acredita que o outro acha dela quando a interpela assim:

“Não, mas não é um de cada pai, você acha que tive nove homens e de cada um tive um filho? Com meu primeiro marido tive quatro filhos. Outro, fiquei quinze anos, tive três. Com esse último fiquei três anos, tive dois. Os outros, foi relacionamento rápido, falo marido porque dormia em casa”(Sofia, 2014).

O discurso de Sofia, se incluído numa trama discursiva que inscreve as mulheres pobres de maneira geral, apontaria que as dinâmicas familiares “alternativas”, que foram combatidas desde o processo colonial brasileiro, ainda perduram de algum modo, como um desvio e algo problemático, uma vez que escapariam à família nuclear conjugal como norma

hegemônica, adotada por décadas pelas camadas abastadas. Como já dissemos, Mary del Priore nos lembra que o estereótipo da santa-mãezinha dedicada e assexuada se construiu no imaginário brasileiro no período colonial e não nos abandonou mais (DEL PRIORE, 2000, 2009).

Os novos parâmetros da “família pós-moderna”, que incluem as “produções independentes”, os “recasamentos”, “famílias de escolhas” não parecem ser valores e conquistas dos quais usufruiriam de maneira homogênea todos os grupos sociais. É o que Sofia nos faz escutar: pela sua fala, ela não sente que estaria sendo vista ou incluída nestes novos parâmetros, e isso não parece ser uma sensação que devamos atribuir somente a ela, como uma exceção ou como algo individual. Tanto assim, que a antropóloga urbana Claudia Fonseca (2002a) aponta que mesmo os pesquisadores parecem aceitar facilmente esses novos parâmetros da “família pós-moderna” quando referidos a famílias da classe média ou média alta, mas o mesmo não se daria em relação às famílias mais pobres, em que perdurariam os rótulos mais antigos, contendo, na maior parte dos casos, conotações pejorativas: “mães solteiras”, “famílias desestruturadas”, “filhos abandonados”.

Não é pouca coisa pensar que a família nuclear, sendo vista como norma, acaba por lançar outros arranjos familiares num lugar desqualificado e de desvalor, quando se trata de grupos familiares que não os das classes dominantes. Não parece curioso que diante da fala de Sofia sobre seus tantos filhos, a primeira suspeita seria de que fosse algo ruim, um deslize ou algo não desejado? Ao dizer que suas tias têm também vários filhos, e o fazer como argumentação de não ser isso um mal em si, nos faz pensar que, curiosamente, Sofia não se sente vista como alguém que reafirmaria ao outro, a cada nova gravidez, o seu desejo de ser mãe; mas ao contrário, a presença de cada filho só aumentaria a desconfiança sobre ela, desqualificando esse desejo ainda mais. Quando perguntada sobre o que acreditava que haveria por trás da pergunta sobre seus filhos, Sofia é bastante explícita:

“Se teve nove filhos... será que foi mulher de programa, será que deu para qualquer um?”(Sofia, 2014).

O que está em jogo, portanto, não é tão somente a condição materna, mas uma certa maneira de ser mãe, aliada, ao que parece, à manutenção de um ideal de casal, de paternidade, de presença paterna e de família.

O valor e a legitimidade de determinadas dinâmicas, não estando no discurso social dominante, podem, no entanto, ser encontrados em alguns setores (FONSECA, 2002) e parece

ser algo dessa legitimização que Sofia recupera ao citar as mulheres de sua família paterna. Trata-se de restituir um campo de significantes, referidos ao campo do Outro em que possa circular, localizar-se e estabelecer laços dando valor e sentido à sua experiência (ROSA, 2015).

Essa crítica e desautorização que Sofia nos mostra estar sempre prestes a escutar, talvez seja uma das motivações a uma resposta que se repete no discurso das mulheres por nós entrevistadas: elas insistem em nos dizer que foram capazes de criar seus filhos, sem precisar pedir nada para ninguém. A falta de amparo e ajuda do Estado, nesses casos, não é mencionada nem questionada: como se cada uma tivesse que encontrar um meio individual, ou na sua comunidade, de dar conta dessa função, sob o risco de ser acusada e ter questionada sua capacidade, sua condição, seu direito e sua decisão de ser mãe239.

Vale notar que ter que se encarregar pessoalmente de encontrar soluções para a maternidade foi consequência da ausência de investimentos em sistemas protecionistas públicos, que permitissem uma verdadeira maternidade social, como já abordamos no capítulo anterior240. Entre essas soluções, a circulação de crianças entre uma casa e outra não

é, de modo algum, algo excepcional. Trata-se de uma prática bastante comum em grupos populares, derivada tanto da importância da família extensa, quanto da necessidade de encontrar estratégias coletivas para sobrevivência da criança: o cuidado das crianças caberia à mãe, mas essa nem sempre seria a mãe biológica, incluindo-se aí avós, mães de criação, vizinhas, tias (FONSECA, 2000).

Tinha uma tia que cuidou de mim, que cuidava do Pedro pra eu fazer as coisas, foi uma segunda mãe (Sofia, 2013).

Minhas irmãs dizem que tive sorte, minha mãe ficava com meus filhos. [...]Minha filha mais velha chama minha mãe de mãe. A gente parece irmã. Ela me chama de mãe também (Cleide, 2013)241.

239 Embora não seja possível abordar aqui o complexo campo das políticas de saúde relativas ao planejamento

familiar, encontramos várias pesquisas que denunciam a presença de políticas internacionais intervencionistas e controlistas, durante o período ditatorial brasileiro, embasadas no princípio de que o controle da natalidade seria um bem para as mulheres pobres e para o país. Em nome de uma “transição demográfica para o desenvolvimento”, as agências de desenvolvimento internacional teriam investido recursos consideráveis para o controle demográfico, efetuado à margem e com a omissão do Estado, transformando-se num processo de esterilização em massa e produzindo uma redução impressionante na taxa de fecundidade (COSTA, 2002; OLIVEIRA, 2009; COROSACZ, 2013; COELHO, 2000).

240 A própria disponibilidade de creches no Brasil só foi instituída como programa oficial nos anos 1970, sendo

que ainda hoje são insuficientes (COSTA, 2002).

A ideia de que mãe não é uma só, foi bastante trabalhada por Claudia Fonseca (2001, 2002a); ela nos mostra o quão comum é a circulação de crianças em bairros populares e a nomeação de mãe para mais de uma pessoa, o que considera um exemplo desse suposto “desvio” do discurso hegemônico, ainda que legitimado neste campo simbólico. A autora aponta o quanto seria errôneo supor que, pela facilidade com que muitas crianças são colocadas em outros lugares, elas não seriam suficientemente queridas, sendo o deslocamento de crianças motivado não só por situações de crise, mas também muitas vezes plenamente voluntário (FONSECA, 2002a).

Que seus filhos tenham tido mais de uma mãe, ou que elas tenham tido ajuda dentro de sua comunidade, não modifica, em nada, um enunciado que ouvimos insistentemente destas mães, ainda que com algumas variações, de que foram capazes de criar seus filhos,sem ajuda de ninguém.

Sou muito mulher em dar continuidade de criar meus filhos (Sofia, 2014).

Eu me sinto uma grande mulher, guerreira, trabalhadeira. Praticamente criei meus cinco filhos sozinha, nunca precisei pedir nada pra ninguém [...] Nunca precisei de pedir nada pro pai (Cleide, 2014).

Comida, dormida não deixei faltar [...]O pai deles [dos filhos de Neide] mesmo, falava: “não vai conseguir pagar!”. Trabalho de dia e noite mas vou conseguir dar comida pra quem está comigo, quem tem coração bom consegue tudo (Neide, 2013).

Essas falas suscitam muitas questões, tanto pela sua ênfase, inclusive com o uso de superlativos – muito mulher, grande mulher – como pela sua repetição: o que estariam tentando nos dizer?

A primeira parte dessa afirmação, de que foram capazes de criar seus filhos, curiosamente não tinha aparecido nas inúmeras vezes que conversamos com essas e tantas mulheres ao longo de nosso trabalho dentro da escola: lá, nunca as ouvimos afirmar orgulhosamente que tinham conseguido criar seus filhos. Talvez, estando naquele espaço, estivessem muito ameaçadas por toda uma concepção do que seria a mãe que cuida bem, a mãe que cria de forma suficiente: seria aquela que não faltaria às reuniões? Aquela cujos filhos fariam todas as lições e não teriam “problemas de comportamento”? Não nos deteremos no imaginário escolar que poderia estar relacionado a esse silêncio, mas traçaremos uma hipótese: a afirmação de que seriam muito mulheres por terem criado seus filhos sem ajuda de ninguém faz com que, justamente, este segundo termo, que poderia reforçar o esforço que

fizeram para cuidar de seus filhos, é aquele que parece torná-las suspeitas e sem valor. Nossa suposição é de que o criei meus filhos sozinha já traz, dependendo da rede discursiva onde estas mulheres estão, uma desvalorização, um julgamento que se faz ali, de algo que supostamente faltaria: a presença paterna. O discurso social de que os filhos que não têm o pai por perto teriam necessariamente uma carência e uma desorganização familiar, que explicariam as dificuldades na aprendizagem e os comportamentos agressivos, é algo comum de ser escutado no ambiente escolar242.

Com isso estamos supondo que, ao afirmar que conseguiram criar sozinhas seus filhos, essas mães estariam dizendo de sua condição enquanto mães, mas deixariam um espaço sobre a relação dos seus filhos em relação aos pais deles. Ao dizerem essa frase, poderia se criar sobre elas e sobre seus filhos uma suspeita, mais do que uma legitimidade, ficando reconhecidos no campo social menos pelo que tiveram, do que por aquilo que supostamente teriam que ter tido. Creditamos as afirmações grande mulher e muito mulher, justamente, a uma tentativa de provar a capacidade e o direito delas de serem mães, apesar de não atenderem aos requisitos do discurso social de uma “família estruturada”, com todas as aspas que este termo mereceria.

Essas falas, acima elencadas, suscitam muitas questões, mas entre elas apontaremos o deslocamento, nas palavras de Cleide, entre nunca ter precisado pedir nada para ninguém e nunca ter precisado pedir nada para o pai, pois esta nos parece uma dica fundamental de algo que estas mulheres estariam tentando nos fazer escutar. Além de alívio ou orgulho por estarem conseguindo sustentar e criar seus filhos em situações tão adversas e de afirmarem sua condição como mães, nos pareceu a princípio que, no que se refere à presença dos pais dos seus filhos, tratavam a contribuição deles como um mero suplemento.

Nunca precisei de pedir nada pro pai, hoje em dia até ele vem, dá alguma coisa. Tenho opinião própria de falar “é pra mim?”. “Não é pra mim”. Nunca tive necessidade de pedir (Cleide, 2014).

Quatro filhos que ele tem comigo, ganhava R$ 1000,00 dava R$ 100,00.[...] Desempregado de R$ 100,00 passou para R$ 40,00, R$ 10,00 para cada um. Ele vinha “tó, vim trazer o dinheiro pros meus filhos”. No mínimo tinha que ser metade

242 No artigo “Impasses in the education of adolescents: from the family model to fraternal ties” discutimos essa

questão ao abordar o Programa Escola da Família, da rede estadual de educação de São Paulo e o discurso que o embasou (BRAGA, A.P.M.“Impasses in the education of adolescents: from the family model to fraternal ties” In: CRESSWELL, J. et.al. (eds.) Dialogue and debate in the making of theoretical Psychology – ISTP 2013. 1. ed. Captus University Publications, 2015.v. , p. 360-367).

do dinheiro dele. Eu disse, “sou muito mulher para dar muito mais pros meus filhos”, o juiz entendeu que eu estava nervosa (Sofia, 2014).

Ele dá quando faz aniversário, fim de ano dá um dinheiro, duas vezes por ano R$ 100, 00 e pronto. Durante a semana R$ 6,00 por semana pra comerem, dá uma bolacha pra cada um [dos filhos], um tablete de chocolate, iogurte (Neide , 2013).

Essas falas que, num primeiro momento, pareciam sugerir quase um desprezo pela contribuição financeira paterna e pela participação destes pais, afirmando serem elas tão poderosas e tão autônomas, foram revelando para nós, num segundo tempo, uma outra vertente. O pagamento da pensão, sabidamente por elas, seria uma obrigação destes pais, mas ao ser exigido através da lei e do juiz, parecia tornar-se um reconhecimento compulsório, perdendo, com isso, todo valor. O reconhecimento não é algo que se possa exigir, como também não se pode determinar o que cada um sente como obrigação ou responsabilidade: era isso que elas pareciam deixar bastante claro.

Direito deles [filhos], mas obrigação cada um é que sabe. Não cheguei a procurar a justiça, se tivesse ido, tinha ganho. [...] Eu não fui [à justiça] pelo fato de trabalhar e não precisar, porque tinha ajuda dos meus avós. [...] cada um sabe da obrigação (Cleide, 2014).

O que Cleide nos faz escutar é que, uma vez que lhe seria possível suprir as necessidades básicas de seus filhos através do seu trabalho e da ajuda dos seus avós, a pensão paterna só faria sentido se viesse na condição de algo voluntário, algo que não fosse uma determinação decorrente da lei ou de um juiz. Até porque a pensão que viesse como algo obrigatório, passaria por cima de uma referência essencial na sua vida, um valor que recebeu da sua mãe e que ela nos revela em outro momento da entrevista: aquilo que é dado sem reclamar.

Minha mãe soube criar bem os filhos. É um a favor do outro: amanhã tem, dá pro fulano, sem reclamar (Cleide, 2014).

Quanto a Sofia, ela diz que sua desistência de pleitear a pensão se deveu ao fato de que ouvir o ex-marido dizendo ao juiz que estava desempregado ou que não poderia arcar com um valor mais alto, acabava por transformar esse direito de seu filho em uma negociação, e assim a vida dele passava a ser vista como uma mercadoria. Para ela, nada mais humilhante do que

trazer para a mesma esfera a vida de seu filho e um valor a pagar: essa coincidência poderia ser por demais violenta para alguém cuja história de seus antepassados se fundou numa equivalência constantemente reafirmada entre pessoas e coisas, num tempo em que eram vistos, comercializados e tratados como mercadoria.

Cheguei a receber [pensão], ele parou, não fui atrás. Muita humilhação, era homem que ganhava tão bem e pagava tão pouco pro meu filho. Meu filho não é uma mercadoria que estão pagando por ele (Sofia, 2014).

Se ele achar que deve dar algo para eles, se quiser dar carinho, se quiser levar na loja... mas não vou pedir pensão. Ele vai no fórum mentindo, dizendo que foi mandado embora (Sofia, 2014).

Ao pronunciar a frase se ele achar que deve dar algo para eles, se quiser dar carinho, Sofia acentua uma dimensão na relação de pai e filho que passa pelo desejo, pelo querer, pelo que o pai acha que deve dar. Caso contrário, ao passar para o campo do que é exigido, determinado e obrigado, traria junto a humilhação.

Aquilo que aparentemente poderia sugerir ignorância e desconhecimento em relação aos seus direitos, ou temor em relação a reivindicá-los, ganha com Sofia e com Cleide outros contornos, essenciais de serem escutados: o afeto não pode ser exigido, como o reconhecimento também não.

Cleide e Sofia também deixam muito claro que não querem que, ao dar algo para o filho, estes homens pensem que estão dando algo para elas.

Se ele (pai) quiser dar uma coisa pros filhos, tudo bem, mas na minha mão não quero nada (Sofia 2013).

Nunca precisei de pedir nada pro pai, hoje em dia até ele vem, dá alguma coisa. Tenho opinião própria de falar “é pra mim?”. “Não é pra mim”. Nunca tive necessidade de pedir (Cleide, 2014).

Elas marcam de uma maneira muito nítida que uma coisa é a relação delas com estes homens, e outra coisa é a relação destes homens com seus filhos. Precisar pedir algo a eles poderia macular essa independência em relação a um homem, e essa independência parece ser um valor e uma conquista defendida acima de tudo.

Sou dócil, amorosa, não gosto de ser contrariada, não vivo muito tempo com um homem. Não passa de nove anos. Não tenho paciência, não quero ninguém mandando mais [...] Não gosto de fazer muita coisa pra homem não, passar camisa [...] Gosto de liberdade, não gosto do “não vai, por isso”, “não vai, por aquilo” (Sofia, 2014).

O não quero ninguém mandando mais, parece o ponto fundamental que articula o nunca precisei pedir nada para ninguém com o nunca precisei pedir nada para o pai, que é o que realmente está em jogo. As ajudas de avó, vizinhos, comadres, são bem-vindas, pois parecem não interferir numa suposta perda de liberdade ou de independência, nem macular a sensação de não se sentir mandada ou dominada por ninguém. Se estamos marcando esta questão, é menos para concluir o que estaria incluído aí da complexidade dos aspectos subjetivos envolvidos na relação dessas mulheres com seus filhos, e mais para colocar um