O racismo passa a ser compreendido, então, como uma modalidade de domínio do sujeito diante da angústia que sente, nele, frente ao que lhe é estranhamente familiar da presença do outro, do estrangeiro, da outra raça, do outro sexo, do outro da norma, conforme Octavio Souza (1994).
Sendo assim, o racismo não pode ser entendido como uma anulação ou rejeição do outro, pura e simplesmente (SOUZA, O., 1994). “Embora absurdo, há no racismo o projeto de se tornar outro pelo igualamento da própria diferença que se pretende anular. O racismo revela-se, assim, uma atitude manifesta de repúdio, vinculada a um fascínio latente” (SOUZA, O., 1994, p. 140).
É nesse sentido que Caterina Koltai aponta o quanto o estrangeiro provoca amor, ódio, temor, “amódio”. Na vertente do horror que provoca em nós, podemos falar em racismo, e na vertente do fascínio, falamos em exotismo (KOLTAI, 2000, 2008; SOUZA, O., 1994).
Mas o que é que provoca horror, o que é esse insuportável em nós-no outro? Fanon nos disse que o insuportável representado pelo negro seria o sexo, o perigo biológico e sexual, como já afirmamos. Neusa Souza, lendo Freud e Lacan nos diz que o que nos é insuportável é outro modo de gozo, Outro sexo. Como entender essa passagem?
A leitura de Octavio Souza de “O inquietante”, de Freud (1919/2014), nos mostra passo a passo essa articulação. A sensação de estranheza viria da reatualização de complexos infantis recalcados ou de crenças animistas superadas, daí sua face tão familiar. Ou, de forma simplificada, se poderia dizer que os complexos infantis seriam referidos ao complexo de castração, e as crenças animistas à onipotência do pensamento (SOUZA, O., 1994). Num passo a mais, Octavio Souza nos faz ver que a onipotência do pensamento observada nas crianças, como aquelas observadas nos povos ditos primitivos, é vivida de modo transitivo, ou seja, a onipotência do sujeito podendo ser a onipotência do outro. De tal forma que “complexo de castração e crença na onipotência do pensamento podem ser entendidos, paradoxalmente, como efeitos da suposição da não castração do Outro” (SOUZA, O., 1994, p. 131-132).
A angústia diante do estranho seria provocada pela ameaça do desejo de um Outro concebido como não castrado (SOUZA, O. 1994). “Esse Outro estrangeiro personifica um gozo que não possuímos: por isso não há como suportá-lo” (KOLTAI, 2000, p. 118). O sujeito estaria convencido de que o gozo existe, e que se ele não goza é porque há quem esteja monopolizando esse gozo: haveria um ladrão de gozo que, por gozar demais, deixaria o
sujeito gozando de menos (KOLTAI, 2000, 2008)236. Este intruso causaria mal-estar pela
relação que mantém com o trabalho, com o lazer e, principalmente, com a sexualidade. “Sua sexualidade é sempre considerada excessiva e ameaçadora, ‘basta ver a quantidade de filhos que põem no mundo, onerando os cofres públicos’” (KOLTAI, 2008, p.5).
Para a psicanálise o racismo seria, então, uma forma de extirpar do Outro o seu modo de gozo e lhe impor o nosso (SOUZA, N., 1998; QUINET,2001; KOLTAI, 2000; SOUZA, O., 1994; DEREZENSKY, 2008).
Tal afirmação se ancora na fala de Lacan em “Televisão” ao nos dizer: “Deixar esse Outro entregue a seu modo de gozo, eis o que só seria possível não lhe impondo o nosso, não o tomando por subdesenvolvido” (LACAN, 1973/2003b, p. 533)237.
Assim, para além de uma agressividade imaginária dirigida ao semelhante, o racismo envolve aquilo que toca também ao que resiste à simbolização e imaginarização: no racismo o que se odeia é a maneira particular que se atribui ao gozo do Outro, pois que traz uma confrontação de modos de gozar incompatíveis para o sujeito (DEREZENSKY, 2008).
É preciso salientar que o racismo exige um discurso social que nomeie o estrangeiro a ser odiado, autorizando a reação agressiva e violenta do sujeito frente a ele (KOLTAI, 2008). O sujeito encontra na cultura as modalidades disponíveis para sua confrontação com esse modo de gozo do Outro que lhe são insuportáveis, seja através do exotismo, pela admiração, seja através do racismo, pelo ódio.
Por se originarem de um solo comum, há uma reversão possível entre essas duas estratégias, racismo e exotismo (SOUZA, O., 1994). Não teria sido essa reversão que Lélia Gonzalez teria nos apontado ao trazer a mulata e a doméstica como duas faces de uma mesma mulher?
Afirmar que tanto o exotismo como o racismo são estratégias em que o sujeito tenta dominar o estranho que o estrangeiro representa, nos faz lembrar que o fascínio não está tão distante das atitudes racistas e de discriminação, como aparentemente se apresentam. Também esse ponto, Selma soube nos apontar.
Partindo da primeira cena, relatada neste capítulo, pudemos articular a inscrição de Selma no campo discursivo da servidão na qual ela seria identificada e nomeada por um outro
236 Os exemplos de Caterina Koltai (2000) são particularmente didáticos a respeito do estrangeiro: “No que diz
respeito ao trabalho, ‘parece que não conhecem a justa medida, ou trabalham demais, verdadeiras bestas de trabalho, sempre prontos a roubar o emprego dos filhos da casa’, ou ‘trabalham de menos, verdadeiros bichos- preguiça que se divertem e descansam, enquanto outros trabalham por eles’. Quanto ao lazer, ‘ousam comemorar outros feriados que não aqueles que constam do calendário’, e ainda por cima ‘de maneira estranha e exuberante’” (KOLTAI, 2008, p.5).
(o semelhante) e pelo Outro (sócio-histórico). A segunda cena que nos permitiu ressignificar e dar sentido à primeira, nos evidenciou como essa violência que retornava sobre ela – como sobre outros negros – se articulava à angústia que sua presença – como a deles – podia despertar: angústia sentida pelo insuportável de si, evidenciada pelo outro. Chegamos, assim, à terceira cena que Selma nos confidenciou.
É na terceira cena em que relata situações em que teria sido discriminada que Selma sublinha e enfatiza, ainda mais, o que poderia haver de fascínio no que aparece relacionado ao racismo. Aponta também, porém, como é possível encontrar outras saídas.