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Para a psicanálise, quando dizemos mãe nos referimos àquela pessoa que exerce um papel ou uma função na relação com a criança recém-chegada ao mundo, convidando-a e convocando-a ao nosso mundo humano, caracterizado como um universo de linguagem e de desejo. Um primeiro Outro tão fundamental e fundante para o infans, que merece ser escrito em letra maiúscula, como forma de diferenciá-lo dos outrinhos que o rodeiam, os semelhantes.

Seja a mãe biológica ou não, seja uma outra mulher, seja o pai, algum outro homem, não importa: quem exerce a função materna é aquele que apresenta nosso mundo como um universo de linguagem, pois é a figura responsável por dar à criança uma condição essencial, a de proporcionar representações às suas sensações, oferecendo um repertório de palavras que podem ir tecendo um contorno no que é um corpo com impulsos caóticos e desorientados. Mas o Outro não é somente esse lugar do código, dos significantes que repertoriarão a vida do sujeito. O Outro é também o corpo, esse corpo marcado pelas bordas dos orifícios de onde se destacam os objetos pulsionais e que marcam também essas bordas no sujeito: boca, voz, olhar, entre outros (JULIEN, 1996). Os orifícios não são furos, mas bordas ou pregas mucosas que criam um buraco e o apagam em suas pulsações, “não há furos sem um gozo que faça palpitarem as bordas” (NASIO, 1993, p. 98).

Daí dizermos que a mãe apresenta ao recém-chegado um mundo que está muito além do campo das necessidades. É a figura que, inicialmente, ao alimentar, banhar, vestir, acaba por alimentar com o desejo, banhar com a linguagem e revestir num circuito pulsional. Amamenta e, pensando talvez estar oferecendo só o leite ao nenê, lhe canta uma cantiga, comenta dos seus olhos, mexe na sua mãozinha, lhe conta em segredo do que gosta e com que sonha, ou confessa em seus ouvidos seus assombros e temores, diz o que ele está sentindo e do que está precisando e, assim, vai fazendo com que esse serzinho seja apresentado a uma vida que é pulsional, uma vez que o gozo não é outra coisa que a relação desse ser falante com seu corpo (LACAN, 2000-2001).

A mãe funda este corpo do seu filho como um corpo de desejo e de gozo, uma vez que, ao cuidar e alimentar, proporciona-lhe sensações inesperadas que fazem com que esse pequeno sujeito viva algo surpreendentemente prazeroso, que não podia nem imaginar, nem pedir, pois era incapaz até mesmo de representar ou vislumbrar. Alça o sujeito a um lugar em que as palavras lhe são impossíveis e o faz buscar repetir algo que só existirá daí em diante, para sempre, enquanto saudades (LACAN, 1988b). Momento de satisfação plena jamais recuperado – pois, a partir daí, o sujeito já de sobreaviso pede retorno do que acredita que experimentou – mas que não deixa de se transformar em força motriz na vida do sujeito. No momento em que o sujeito se tornar capaz de pronunciar as palavras, o que se pode dizer é que já não reencontrará exatamente essa sensação de deleite e fruição: guardará traços, marcas, impressões, reminiscências do que teria vivido, mas sempre parcialmente.

A pulsão tem por característica não estar no somático, no corpo biológico, mas também não existe sem ele: está no limite entre o psíquico e o somático, diria Freud (1915/2010). Sua relação com os objetos é sempre de labilidade, como os significantes com seus sentidos: são relações que se produzem ao longo da vida do sujeito que, não sendo determinadas a priori como no caso instintivo, não são obrigatórias nem fixadas. Escolhas aparentemente inexplicáveis e insanas, mas que não se pode dizer que sejam aleatórias. A pulsão não tem objeto definido a tal ponto que não há saber prévio sobre essa ligação entre ela e seu destino: não há saber possível, uma vez que são sempre relações enigmáticas. Falar em pulsão é falar tanto do trajeto, como da fonte corporal de onde brota a energia psíquica, quando se torna uma força que emerge da carne e se lança (NASIO, 2013).

Portanto, pensar no corpo com suas bordas orificiais e com o fluxo de gozo que as percorre só é possível incluindo a presença de um outro corpo, um corpo desejante, o corpo da mãe (NASIO, 1993). É isso que chamamos corpo erógeno, este corpo que pode gozar ignorando que goza e que se originou no contato com o corpo da mãe (MASOTTA, 1979).

No entanto, a mãe instaura também um lugar, lugar que é o lugar de seu desejo, “lá, lá longe e não aqui: ‘Tu não és o que me falta’. Tal é a mensagem transmitida à criança” (JULIEN, 1997, p.47).

Indagar porque sua mãe de repente desaparece, vai em outra direção, o que ela quer, porque ela procura ainda outra coisa se ele já veio ao mundo, o que ele significa para ela, o que ele poderia fazer para ser exclusivo para ela, move os menininhos e as menininhas na vida, buscando ser ou se parecer com quem acreditam que saiba responder suficientemente a essas perguntas. “Sou eu tudo para ela? [...] Ou ao contrário: então, eu não sou nada para ela, a não ser uma boca a preencher, e um ânus a limpar [...] É para enlouquecer diante do que aparece ‘como que’ submetido à lei do arbitrário ou do capricho” (JULIEN, 1997, p. 48).

Portanto, há uma má notícia que a psicanálise nos traz: o corpo se erogeniza em um mau lugar.

O corpo se erogeniza em um mau lugar, embora seja o único possível. Isto porque justamente ali onde a criança se experimenta como um corpo erógeno é onde sua sexualidade estará proibida (MASOTTA, 1979).

A resposta ao fato de que a sexualidade fica interditada justamente ali onde se faz presente exigirá do sujeito respostas singulares e tão múltiplas quantos são os sujeitos humanos. Há os que se retiram antes das relações com o outro, uma vez que a satisfação seria limitada. Há os que se queixam a cada encontro de que o outro não foi suficiente. Há os que preferem se fingir de mortos temendo que no encontro com a vida se deparem com situações tão prazerosas que não suportariam perdê-las, ou ainda aqueles que acreditam que enlouqueceriam diante de um prazer que imaginam ilimitado. Há os que acham que encontraram as respostas a essa falta fundamental que os move e os que acham que encontraram alguém que tem essas respostas.

Essas e tantas outras respostas acham expressões singulares, inscritas num tempo e num espaço. Assim como essa relação fundante com a mãe também está sempre inscrita num momento histórico, articulada cultural e socialmente. Pretendemos abordar de maneira concisa alguns elementos para problematizar como, no contexto brasileiro pós-abolição e contemporâneo, essa maternagem foi e é exercida. Embora não tenhamos mais a figura da mãe preta, não nos parece desprezível o fato de que muitas vezes, e por razões diferentes em cada classe social, os cuidados maternos não sejam exercidos pela mãe que gerou a criança: seja sob a forma de maternidade transferida, nas classes média e alta, seja sob a forma de maternidade compartilhada, quando se trata de mães das camadas mais pobres. Isso fica

bastante evidente na fala de Selma: ao ser vista com um menino pequeno, a primeira hipótese era de que ela seria sua babá.