Talvez a principal fonte de divergência entre teorias institucionais e várias correntes de explicação da estratégia esteja na aparente dicotomia entre instituições (se tomadas como determinação ambiental) versus autonomia do agente decisor. No segundo item deste capítulo discutiu-se essa dicotomia em um plano amplo, concernente ao âmbito de algumas teorias sociológicas da relação entre estruturas sociais e agência. Nos itens subseqüentes, essa mesma questão foi esporadicamente suscitada para discutir a relação entre padrões institucionalizados e organizações. Neste item final, o objetivo é sistematizar essa questão no âmbito da teoria organizacional, vinculando-a mais especificamente com a questão da possibilidade de agência estratégica em face de padrões institucionais.
O passo inicial para superação de várias dicotomias tradicionais na teoria organizacional (das quais a separação teórica entre instituições e estratégia é uma expressão mais recente) deu-se quando se agregaram explicitamente variáveis cognitivas e interpretativas como fatores explicativos do comportamento em, tanto quanto das, organizações (WEICK, 1969; SIMON, 1970; MARCH e SIMON, 1972).
Em oposição às teorias puramente racionalistas ou mesmo – mais recentemente – às teorias contingencialistas sobre comportamento organizacional, as perspectivas interpretativas sugerem padrões subjetivos como fatores de intermediação entre ambientes e sistemas organizacionais:
Recentemente, tem-se argumentado que tamanho, tecnologia, e ambiente não têm efeito direto sobre a estrutura. Ao contrário, esses aspectos afetam a estrutura através da intermediação de membros organizacionais que detêm poder e que percebem e ordenam [enact] aqueles aspectos de várias formas e então as traduzem em decisões sobre a estrutura (BARTUNEK, 1984, p. 355).
Mais recentemente, talvez o conceito mais importante no âmbito da teoria organizacional que assume algum foco em padrões interpretativos seja o conceito de esquemas interpretativos. Para Bartunek (1984) esquema interpretativo é um conceito similar a significados compartilhados, visão de mundo, crença ou mesmo cultura organizacional. De fato a noção de cultura organizacional refere-se geralmente a padrões de interpretação da realidade (cujos elementos básicos podem ser crenças, valores sociais ou mesmo pressupostos básicos), quando tais padrões são compartilhados (SCHEIN, 1985; FROST ET. AL., 1991;
MARTIN, 1992; CRUBELLATE e MACHADO-DA-SILVA, 1998). A decorrência principal da noção de esquemas interpretativos refere-se ao fato de que “[...] qualquer dada experiência pode ser entendida de múltiplas formas” (BARTUNEK, 1984, p. 355).
Ranson, Hinings e Greenwood (1980), em consonância com a sociologia fenomenológica (SCHUTZ, 1967), definem esquemas interpretativos como sistemas de crenças e ´estoques de conhecimentos´, que geralmente “[...] permanecem admitidos como certos” (p. 5), sendo então explicitados de forma intermitente como valores e como interesses. Esses três elementos, portanto (isto é, crenças, valores e interesses) e a sua interrelação, são fundamentais na análise dos padrões interpretativos que estão implicados na configuração de estruturas e processos organizacionais – em especial na definição de suas opções estratégicas (HININGS e GREENWOOD, 1988; MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e FERNANDES, 1999).
É necessário ressaltar, entretanto, que não há consenso na literatura especializada a respeito dos vários fenômenos de natureza cognitiva ou de natureza cultural que afetam o processo de elaboração estratégica nas organizações, o que exige que se opte por algumas convenções a fim de operacionalizar os estudos organizacionais que sigam aquelas perspectivas. Machado-da-Silva, Fonseca e Fernandes (1999), por exemplo, defendem a existência de três níveis de análise cognitiva do problema estratégico em organizações, o primeiro correspondendo aos vieses observados nos padrões de decisão, o segundo correspondente aos mapas cognitivos dos dirigentes ou decisores e o terceiro nível, referente aos esquemas interpretativos. Para aqueles autores, mapa cognitivo refere-se ao conceito ou metodologia que revela a relação entre crenças e valores – ou esquemas interpretativos – em dada situação concreta. Já esquemas interpretativos referem-se ao “[...] conjunto de idéias, valores e crenças que dá ordem e coerência às estruturas e sistemas em uma organização” (MACHADO-DA-SILVA, FONSECA e FERNANDES, 1999, p. 111; ver também HININGS e GREENWOOD, 1988).
Para Hinings e Greenwood (1988, p. 54) interesses se referem “[...] à relação entre um indivíduo ou grupo e a distribuição de recursos organizacionais”. Ou seja, para aqueles autores a noção se vincula ao conceito mais recente e estreito de interesse econômico (ver também BARTUNEK, 1984), como o define Hirschman (1979). Hirschman (1979, p. 37) afirma também que
quando o vocábulo ´interesse´, no sentido de negócios, aspirações e vantagem, veio a ter livre curso na Europa Ocidental durante o final do
século XVI, seu significado de modo algum limitava-se aos aspectos materiais do bem estar de uma pessoa; mais do que isso, englobava a totalidade das aspirações humanas, porém revelava um elemento de reflexão e cálculo com respeito à maneira pela qual buscar atingir essas aspirações.
Assim, mesmo admitindo a noção apenas econômica dos interesses humanos, não parece prudente negar sua relação com outros aspectos da visão de mundo, aspectos tanto cognitivos quanto normativos que parecem estar implicados na orientação de Hirschman (1977). Hinings e Greenwood (1988, p. 54) vinculam interesses (“objetivos”, isto é, interesses econômicos) com a noção de “[...] valor enquanto um definidor de fins e preferências [...]”.
De fato, como reconhecem esses mesmos autores, tais conceitos são interligados entre si e com os esquemas interpretativos, sendo que sua independência completa só pode ser admitida em termos analíticos. Pode-se, portanto, definir crenças como assentimento com base intelectual ou emocional quanto à veracidade de uma proposição (ABBAGNANO, 1998) e valores, como acima visto, como julgamento de preferência quanto a determinados fins (ver também MYRDAL, 1965). Tais noções, entretanto, no âmbito do cotidiano, que é o contexto a partir do qual se elabora a ação (SCHUTZ, 1979), estarão fortemente entrelaçadas entre si e mesmo com a noção de interesses, como já mencionado.
Os esquemas interpretativos (valores e crenças) e os interesses seriam, assim (e até onde tais elementos culturais-cognitivos podem ser diferenciados entre si) os aspectos fundamentais do processo interpretativo que convencionalmente se admite como estando relacionado com as escolhas e as ações, dentro e fora do âmbito organizacional.
Machado-da-Silva, Fonseca e Fernandes (1999) apontam um segundo estágio possível de teorização sobre cognição, que se refere à análise da atribuição de significados a determinadas situações com que se deparam os dirigentes organizacionais. Para aqueles autores tais significados se articulam em mapas cognitivos, ou “[...] os conceitos e as relações que um indivíduo usa para compreender várias situações ou ambientes” (BARR, STIMPERT e HUFF, 1992, p. 16).
Como ainda ressaltam Barr, Stimpert e Huff (1992), os mapas ou modelos mentais funcionam tanto como facilitadores quanto como limitantes da atenção e da capacidade de se codificar informações sobre eventos ambientais: são, portanto, representações simplificadas do mundo, sendo que tal simplificação deve ser compreendida no sentido que lhe é dada nas teorias neo-funcionalistas e semiológicas (Luhmann, 1995; Blikstein, 1995), isto é, como a única possibilidade de se acessar de algum modo a realidade, sob o risco de não se ter mais do que um ´amálgama de manchas´ no caso de sua ausência (Blikstein, 1995).
Barr, Stimpert e Huff (1992) apontam também três funções dos mapas cognitivos. Eles determinam quais informações receberão atenção, o que implica que características ambientais que são evidentes em relação aos modelos mentais dos dirigentes organizacionais, ou que dão suporte a tais modelos, poderão receber maior foco enquanto outras características com potencial importância podem passar despercebidas. Também os mapas ou modelos interferem no que é percebido em relação ao ambiente, isto é, um determinado aspecto ambiental, mesmo que venha a ser percebido pode ser interpretado de várias formas, de modo que seu significado tende a ser condizente com os modelos mentais vigentes. Finalmente, os modelos mentais, segundo aqueles autores, dirigem a ação.
A última das funções acima pode sugerir uma relação linear de causação entre modelo cognitivo e ação (num sentido cartesiano ou, como definido por Tsoukas e Knudsen, 2002, representacional), mas tal linearidade não é unânime na teoria organizacional. Para Weick (1995) as ações também são fonte de pressão para a modificação ou até geração de novos modelos mentais (idéia compartilhada por autores fora do campo organizacional de estudo, como Schutz, 1979, na sociologia, e Blikstein, 1995, na semiologia). Assim, tem-se um modelo alternativo, em que se pode supor que a relação entre modelos mentais e a ação não seja tão linear mas, pelo menos, circular: as próprias ações podem também delinear ou afetar a realidade construída, representada ou referenciada.
Esse pressuposto é fundamental para a compreensão da noção de elaboração do sentido [sensemaking] em Weick (1969; 1995) e serve como base também para outras vertentes até mesmo da teorização sobre mapas cognitivos. Assim, Eden (1992), com base na noção proposta por Weick (1995) de que a ação ou mesmo a própria linguagem são constituintes da cognição, define como problemática a corrente analítica que propõe que os mapas causais preenchem função de representação ou predição do pensamento. Para Eden (1992), melhor seria entender os mapas apenas como artefatos metodológicos do que como modelos do pensamento, o que significa toma-los em nível mais superficial (ver também FIOL e HUFF, 1992).
Por outro lado, ainda que Eden (1992) e Fiol e Huff (1992) estejam se baseando na noção ´enactivista´ proposta por Weick, o foco apenas metodológico sobre mapas cognitivos parece diminuir a importância do seu vínculo mais importante que está na construção de significados em relação a circunstâncias concretas, o próprio processo de construção da realidade.
Retornando a Weick (1995, p. 18), percebe-se a importância da relação circular que dá origem aos significados e, assim, à própria realidade que se pode acessar: “Como eu
posso saber o que eu penso até que eu veja o que eu digo?” – é o aforisma que ilustra os aspectos principais da noção de ambiente ordenado ou decretado (WEICK, 1969; 1995), conceito principal da teoria organizacional fenomenológica daquele autor. Para Daft e Weick (1984) a função que compete especificamente ao nível gerencial das organizações (ainda que não se possa dizer que lhe seja exclusivo) consiste no trabalho de interpretar o ambiente. “Interpretação organizacional é formalmente definida como o processo de traduzir eventos e desenvolver entendimentos e esquemas conceptuais compartilhados entre membros da alta gerência” (DAFT e WEICK, 1984, p. 286 – itálico no original). Isto se dá, de acordo com aqueles autores, por intermédio de um modelo triplo de procura (o esforço por coletar dados), interpretação propriamente dita (a construção e atribuição de significado aos dados coletados) e aprendizagem (especificamente, a ação).
Os autores assumem, em seu modelo, que “interpretação [...] ocorre antes da aprendizagem e ação organizacionais” (DAFT e WEICK, 1984, p. 286), o que em princípio parece recuo teórico, porque admite apenas uma relação linear entre interpretação e ação. Contudo, seu modelo também implica uma linha de feedback entre ação e interpretação, o que dá o sentido circular do modelo. Sem dúvida é um exemplo da chamada ´oscilação ontológica´ que, segundo Burrell e Morgan (1979), é típica dos estudos fenomenológicos, o que é, a propósito, admitido explicitamente por Weick (1995), apesar de que com outra conotação.
Apesar dessa oscilação, Daft e Weick (1984) demonstram sua opção ontológica mais fortemente construtivista no exemplo dos dois modos possíveis para o ´jogo das 20 questões´, um modo em que há uma resposta única previamente definida e que deve ser descoberta por um dos jogadores – o que faz as questões – e o outro modo, onde a resposta será definida apenas no processo de perguntas e respostas. O aspecto mais interessante do exemplo é que o agente que elabora as questões e tenta descobrir a resposta não tem conhecimento de que pode não haver uma resposta previamente definida, de forma que ele poderá ´jogar´ das duas formas, dependendo do que ele acredita: a forma como ele buscará uma resposta depende amplamente de sua crença e seu modo de agir em face ao contexto, e esse é um elemento chave na determinação das diferenças entre ´jogadores´, aqui uma metáfora para organizações (DAFT e WEICK, 1984).
A segunda possibilidade do ´jogo das 20 questões´ de Daft e Weick (1984) reflete a noção funcional-fenomenológica (ou, neo-funcionalista) da relação entre organizações e seus ambientes, no sentido de que tais ambientes podem ser então entendidos como estímulos externos, cujas respostas, entretanto, não são automáticas mas dependem de processos de
definição, significação e ação cujo impacto, afinal, é relevante o suficiente para que se possa dizer que aqueles estímulos externos são, de fato, decretados [enacted]. “Há um toque de realismo no conceito”, reconhece Weick (1995, p. 35)20, porque ele não descarta a existência da realidade externa. Entretanto, admite-se que aquela realidade que é independente de qualquer processo cognitivo, só pode se tornar significativa (portanto relacionada com as ações) quando acessada por processos cognitivos e interpretativos (ver também LUHMANN, 1995; 1989).
Talvez o aspecto principal na teoria interpretativa de Weick (1969; 1995; 2001) seja a noção fenomenológica de retrospecção. Weick (1995, p. 24), a partir da sociologia fenomenológica (SCHUTZ, 1967) conclui que “[...] as pessoas podem saber o que elas estão fazendo somente depois que elas o fizeram”. Schutz (1979) teoriza a partir da distinção entre tempo contínuo e experiência significativa. Tempo contínuo implica a ´corrente de consciência´, isto é, um estado de indivisibilidade temporal que se dá pelo fluxo contínuo de estados de consciência que ainda não foram (e que não podem ser) alcançados pela reflexão. “Na ´duração pura do tempo´ não existe ´paralelismo´, não existe correlação mútua de partes e não existe divisibilidade, mas tão somente um fluxo contínuo, uma corrente de estados conscientes” (SCHUTZ, 1979, p. 60). Tal fluxo “[...] está sempre por vir e acabando de passar” (p. 60). O que a reflexão pode alcançar não são os “[...] processos conscientes [...] contínuos [mas] [...] atos congelados, medidos em termos de espaço, já completos” (p. 60).
A experiência significativa, portanto e nestes termos, se dá pelo recorte temporal, isto é, sempre da perspectiva de um ponto específico de tempo e, assim, fora do fluxo contínuo da consciência. “O Ato de atenção [...] pressupõe [...] uma experiência que foi, que passou” (SCHUTZ, 1979, p. 63, itálico no original), é portanto e sempre retrospectivo: “Só do ponto de vista retrospectivo é que existem experiências delimitadas. Somente o que já foi vivenciado é significativo, e não aquilo que está sendo vivenciado” (SCHUTZ, 1979, p. 63). Como resume Weick (1995), a construção de significado é um processo de atenção sobre o que já ocorreu. Sobre o presente – ou, a corrente de consciência – não se constrói significado, mas é o presente a base de significação do que já ocorreu, de modo que o que está ocorrendo afeta o significado do que já ocorreu (WEICK, 1995).
A importância deste aspecto para a teoria organizacional interpretativa pode ser percebida pelo seu impacto na análise da relação entre significado, ação e resultados da ação.
20
E sobre isso já se havia chamado a atenção, no item 2.3. deste capítulo, não apenas em relação à teorização de Weick para o modelo de organizações como sistemas frouxamente acoplados, como também para alguns dos seus seguidores, como por exemplo Dirsmith, Fogarty e Gupta (2000).
A principal conseqüência analítica desta perspectiva está na sugestão de que o significado atribuído à ação dependerá do julgamento a respeito de suas conseqüências, uma vez que sobre as conseqüências presentes não se pode refletir. Assim, se os resultados de um ato são percebidos ou definidos como positivos, os antecedentes daquele ato tendem a ser ´reconstruídos´ de modo a enfatizar seus aspectos favoráveis. De outra forma, tais antecedentes serão reconstruídos para enfatizar “[...] ações incorretas, análises falhas e percepções incorretas” (WEICK, 1995, p. 28).
Admitindo a distinção entre ato e ação – entre a pura seqüência do fazer e o ato somado a seu significado, Schutz (1979) admite que o que qualquer projeto antecipa não é a ação, mas o ato, posto que o significado sempre depende das conseqüências do ato no presente. Isso não quer dizer, entretanto, que o ato seja determinado. Pelo contrário, enquanto a significação é afetada pelo presente, o ato é produto de escolha imediata, de modo que, para Schutz (1979), a categorização ´determinado ou indeterminado´ não se aplica aos atos. Decorre então que projetos antecipam os atos que se quer realizar, mas não necessariamente os que serão realizados e, portanto, seriam melhor entendidos como produtos da ação, e não seus produtores, não tendo então vínculo direto com a realização concreta do ato: projetar é, nestes termos (e como parece ser crescentemente admitido na teoria organizacional – ver por exemplo Mintzberg, Ahlstrand e Lampel, 2000; Weick, 1969; 1995), processo cultural- cognitivo de ordenação da realidade. Na semiologia, Blikstein (1995, p. 17) admite algo próximo a isso, quando pressupõe que “[...] a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que o recortamos”.
Todo esse arcabouço conceitual utilizado nesta parte da Base Teórica deste estudo faz emergir uma ´trama´ complexa entre realidade, processos de cognição e de interpretação e as ações decorrentes. Parece possível resumir os aspectos principais daquela trama como sendo: o ato; um processo de significação com base em esquemas interpretativos e interesses; um processo cognitivo que consiste nos modos pelos quais estímulos externos são recortados. A relação entre tais aspectos é pressuposta como sendo circular, culminando na construção de uma realidade (que não é o conjunto de estímulos externos) e que, por sua vez, constitui o parâmetro em relação ao qual ocorre a ação (portanto ela mesmo tendo seu papel nesta relação circular). A questão institucional será, a seu tempo, incluída nesta trama, bastando aqui recordar que não se admite, neste estudo, um nível individual ou apenas micro-sociológico de ocorrência destes processos, mesmo cognitivos mas, ao contrário, que tanto o recorte da realidade quanto sua interpretação são produto de interações sociais e, por intermédio de
processo de institucionalização, adquirem algum caráter de perenidade, pela necessária re- produção nele implicado.
Blikstein (1995), trabalhando no âmbito da semiologia, constrói um modelo representativo da relação circular entre linguagem, pensamento, conhecimento e realidade. Em termos sintéticos o modelo admite que práxis, significação e percepção/cognição são processos relacionados (nesta seqüência) e que determinam a construção do referente semiológico ou, a realidade construída. A linguagem, por sua vez, sendo dependente dos estereótipos que compõem a cognição e dão base à percepção da realidade, é também o instrumento que “[...] materializa e reitera a práxis” (BLIKSTEIN, 1995, p. 80), marcando a reiteração circular de construção e (poderíamos acrescentar) sedimentação, uma vez que tal reiteração parece indicar um processo que se torna, ao longo do tempo, mais e mais persistente na medida em que ele se auto-alimenta. Tal modelo é reproduzido de forma simplificada no Esquema 2, abaixo.
Com as devidas adaptações, o modelo de Blikstein (1995) parece ajudar na representação da relação fenomenológica entre realidade construída (o referente semiológico), ato, significação e recorte da realidade. Ainda resguardando as adaptações necessárias, ele pode ser utilizado para representar a noção neo-funcionalista de realidade externa como conjunto de estímulos que não afetam diretamente o sistema, bem como a noção de que as respostas sistêmicas são, de fato, respostas à realidade construída, e não a qualquer realidade factual ou externa à interpretação-cognição (LUHMANN, 1995).
Não sendo então as respostas (ações) dadas em função de realidade externa, evidenciam-se duas conseqüências necessárias e importantes para a compreensão do papel dos padrões interpretativos no esquema analítico deste estudo: o primeiro deles é que admitir a relação circular aqui analisada implica admitir também que mudanças no contexto externo – nos estímulos ambientais – não são, necessariamente, fonte de mudanças nas ações; o segundo implica reconhecer o caráter sistemicamente fechado daquela lógica de construção da realidade (WEICK, 1969; LUHMANN, 1995; 1989). Assim, não parece improvável supor que tal lógica possa atingir um estágio em que se torne bastante difícil altera-la, mesmo mediante forte alteração de estímulos externos. Como explicitamente reconhece Weick (1995, p. 29 – itálico no original), “[...] o sentimento de ordem, clareza, e racionalidade é um importante objetivo da construção de significado [sensemaking], o que significa que uma vez alcançado este sentimento, o processo retrospectivo cessa”. Há aqui, portanto, vínculo entre padrões interpretativos e processos de institucionalização que voltam a ser objeto específico de análise, a seguir.
Práxis
Significação
Percepção/cognição
Língua Referente Realidade
Esquema 2 - A interação língua/práxis (modelo simplificado).