Por volta da primavera de 1527, um pintor vindo da Basiléia, Hans Holbein125, fez o retrato de um certo Sir Thomas More, cavaleiro e conselheiro do Reino da Inglaterra. É um quadro que impressiona pelo instante captado entre cores muito vivas e traços muito duros, mas com linhas suaves que devem fazer parte do próprio modelo retratado. Nota-se que Holbein deveria ter alguma admiração pelo cavaleiro em questão, uma vez que ambos eram amigos de Erasmo de Rotterdam – um dos grandes defensores da obra do artista e que lhe escreveu várias cartas de recomendação. Mas sua admiração revela-se no desprendimento com que retratou e dramatizou o mundo interior de More. O conselheiro real encontra-se sentado, com o braço encostado em uma espécie de cômoda ou banqueta; suas vestes são simples para alguém que ocupa um cargo tão importante no reino inglês – uma pesada manta preta de veludo, por cima uma outra manta, de um veludo mais leve e de cor vermelha, uma malha branca debaixo dessas duas, além da corrente de ouro que representa o conselho real dos Tudor e um chapeuzito apertado que segura seus cabelos pretos em que já se podem ver alguns fios brancos. Holbein aparentemente não dá muita atenção às mãos – até porque elas não eram o melhor dote do retratado, segundo a descrição de Erasmo em uma carta a um amigo em comum:
125 Hans Holbein, o Jovem (c. 1497- 1543), pintor alemão, nascido na Bavária, famoso por seus retratos no
estilo da Renascença do Norte. Era amigo de Erasmo de Rotterdam e de Thomas More; foi responsável por suas representações mais famosas; além disso, fez também o retrato de Henrique VIII; outras obras marcantes são O Cristo Morto e Os Embaixadores.
“são a parte menos refinada de seu corpo”126. Contudo, na mão direita, há um anel com um rubi no meio, indicando sua profissão de jurista e advogado; na esquerda, More segura um papel fechado, como se fosse algo que ele não pode mostrar em hipótese nenhuma, como se fosse um segredo da nação.
Holbein tinha uma grande capacidade de mostrar a paisagem mental do seu modelo através do pano de fundo dos retratos; é só lembrarmos de seu famoso quadro, “Os Embaixadores” (1533), e vermos que o verdadeiro comentário do artista sobre sua própria época encontra-se nos detalhes de cena e não na pompa e circunstância dos diplomatas representados. O mesmo faz no retrato de Sir Thomas More: atrás do conselheiro, há um pano verde e uma corda que o amarra de forma muito frouxa; há uma abertura, quase uma fresta e vê-se algo que parece ser o céu – ou então um espaço vazio. A cor verde indica a virtude da fé – e, com isso, temos o primeiro dado da vida do próprio More, um católico devoto que, no ano em que Holbein fez o retrato, estava numa luta desigual com os protestantes; já a corda frouxa mostra talvez um temperamento que, embora apoiado em uma convicção muito forte, permite uma flexibilidade inesperada, temperada com um humor próximo do sarcasmo e até mesmo da grosseria; e a fresta que revela o céu ou o espaço vazio pode ser o indicativo de que este homem não tinha um lugar neste mundo, por mais que estivesse dentro do mundo.
Ainda assim, Holbein não se esquece que o rosto e os olhos de um homem podem falar mais alto do que qualquer simbolismo. A expressão de Thomas More no ano de 1527 era a de um homem maduro que sabia exatamente de onde vinha, onde estava, mas que desconhecia o seu destino. O rosto é perfeitamente correspondente ao corpo compacto e duro, um corpo que, novamente segundo Erasmo, “é formado com tão perfeita simetria que não deixa nada a desejar”127. É uma face angulosa, com um nariz próximo do adunco, a barba por fazer – o que nos
126 ROTTERDAM, Erasmo de. “Description of Thomas More By Erasmus to a Friend”, in: Saint Thomas
More – Selected Writings, Vintage Books, 2004, pág. 244.
127
revela uma personalidade que, apesar do seu cargo, “é negligente em relação a todas as formas de cerimônia em que os homens fazem questão de ser polidos”128. Há, claro, os olhos, “de um cinza azulado, com algumas manchas, algo que indica um talento singular e que, entre os ingleses, é considerado atraente”129. Mas dentro desses mesmos olhos revela-se o olhar de um homem que já viu como o mundo é e sabe como os homens terminam seus assuntos; o olhar de alguém que reconhece que está dentro desses mesmos assuntos e não sabe se vão terminar bem. Ele esconde alguma apreensão; entretanto, mostra também que se trata de um homem que possui, por trás da apreensão, alguma expectativa – ou, melhor, alguma esperança. Holbein fez o retrato de um spoudaios em pleno início da Renascença; captou o instante de um homem que sabe exatamente qual é a sua missão no mundo e que não recuará um milímetro na sua consciência para realizá-la, mesmo que aquele espaço vazio dentro do quadro o impeça.
Holbein fez vários esboços antes de deixar o retrato de More em sua forma definitiva e são eles que mostram como o conselheiro real podia mudar a sua paisagem psíquica em questão de segundos. Sobreviveram dois desses esboços; o primeiro é o protótipo do quadro final de 1527 e mostra More em seu estado de um controle firme, mas não há suavidade alguma nos traços e até mesmo no olhar que desconhece o que acontecerá. Já o segundo rascunho abre-nos a possibilidade de um outro More, segundo Louis L. Martz:
“[O esboço] é muito mais relaxado, mais aberto: o chapéu está mais frouxo e revela um pouco mais da testa, enquanto os cabelos longos [de More] caem livremente por ambos os lados. Vemos a face de um homem desarmado, aberto, vulnerável, inquisidor e sempre devocional em seu temperamento. Mesmo a ausência de cores em seus trajes acrescenta este efeito, pois não podemos ver o cargo mundano deste homem: não é de importância nenhuma. Talvez minimizamos a habilidade deste esboço porque estamos acostumados com o More do retrato da Frick Collection, com sua postura formidável, dura, forte. No desenho devocional de More, Holbein parece nos dar um raro vislumbre do More vulnerável, o homem interno procurando a força de sua fé para ampará-lo. Aqui está o
128 Ibid, pág. 245. 129
humano, sensível e humanista More que ama o seu latim e o seu grego e também o More que, na sua juventude, rezava suas orações na casa dos Cartuxos, o More que poderia ter sido um homem da Igreja. Escolheu seguir a carreira de advogado, juiz e estadista representados pela expressão facial e o robe e todas as regalias que encontramos no retrato da Frick Collection. Mas embaixo disso tudo há o sensível, o espírito inquieto do devoto religioso, o humanista, o amante de línguas antigas”130.
O ano de 1527 parece marcar uma nova fase na vida de More – uma fase que terminaria com a sua decapitação em 1535. Poderíamos dizer que tudo começa com a entrada em cena de Ana Bolena, uma das damas de companhia de Henrique VIII. Acostumada a uma vida de cortejos, desfiles de máscaras e outros gracejos, Ana foi enviada à corte francesa com 12 anos de idade e, ao voltar para a Inglaterra em 1526, depois de ter se envolvido em uma intriga sexual com sua irmã, capturou o coração do monarca inglês. Naquela época, Henrique já estava com alguns “escrúpulos de consciência” pois seu casamento com Catarina de Aragão revelava- se um fracasso. A rainha espanhola simplesmente não conseguia produzir um filho varão. O rei acreditava que estava amaldiçoado; afinal, casara-se com a viúva de seu falecido irmão, Arthur, e, por isso, citava sempre um trecho do livro de Levítico na Bíblia – a de que não se deve cobiçar a esposa de seu irmão. Henrique pediu conselhos ao seu Lorde Chanceler, Cardeal Wolsey, que deveria tratar do assunto com o Papa – afinal, tratava-se de um “divórcio”, anátema para um rei católico em um país que fervia de manifestações protestantes. Contudo, não deixou de perguntar a um dos seus conselheiros mais prudentes, mais fiéis e mais católicos o que ele achava do seu pequeno problema. O conselheiro era Thomas More.
Esta não era apenas a opinião de Henrique VIII. A própria rainha rejeitada dizia aos mais próximos que, de todos os conselheiros do rei, More “era o único que merecia a posição e o título”131. A recíproca era a mesma: More era próximo de Catarina, admirava sua piedade e aplaudia seu empenho no ensino das artes humanistas. Mas, antes de tudo, era leal ao rei e, quando Henrique foi procurá-lo,
130 MARTZ, Louis M. Thomas More – The Search for the Inner Man, Yale University Press, 2004, pág. 9. 131
fez jus ao que diziam na época sobre homens de nariz duro e encurvado, pois estes aparentavam ser de um caráter “confiável, modesto e capazes de guardarem segredos”132. E, de fato, a palavra “segredo” parece marcar toda a trajetória de More; sabia guardá-los como poucos, seja os seus, seja os dos outros – em especial os do seu rei. Era tão eficiente nisso que talvez Hans Holbein não soubesse que, enquanto esboçava o retrato do conselheiro real naquela primavera de 1527, More usava uma camisa de pêlo áspero que lhe machucava a pele e o fazia lembrar sempre da paixão que Jesus Cristo sofreu por sua pobre criatura133.