• No results found

Mas como ele pode avisar seus compatriotas se não pertence mais à mesma terra – se é um exilado? O fato é que é no próprio exílio que o profeta se sente mais próximo de seus compatriotas. No exílio, ele não é mais o homem que carrega a aflição divina; é também quem carrega a responsabilidade por cada alma que não percebeu o Mal que a invadia em seus disfarces. Isso pode provocar uma cisão no espírito de quem se apóia na fé – e daí criar uma perversão na estrutura da realidade, transfigurando-a e abrindo um abismo entre o mundo como ele é e o mundo como deveria ser.

As conseqüências disso são prejudiciais para uma ação que tenta harmonizar a ordem divina e a ordem mundana. Podemos encontrar um exemplo disso no livro de Isaías, especialmente no episódio com o rei Acaz. Desesperado por ver a distância que o povo de Israel tinha colocado entre o homem e Deus, Isaías tenta o impossível: colocar a vontade de Deus, do qual ele seria o representante, acima dos acasos da realidade. Contudo, se alguém pode determinar isso, é o próprio Deus – e Isaías é somente um instrumento, o primeiro indício de que o político do espírito é a sentinela do mundo, mas não pode ser o dono do mundo. O ser humano participa da ordem do Ser e não a altera em hipótese

104

nenhuma. Ainda assim, a expressão “a fé move montanhas” pode ter uma interpretação literal quando vemos que a fé de Isaías quer saltar além da estrutura da realidade – que não tem como ser reformada apenas pela vontade exclusiva da fé, por mais honrosa que ela seja. Quando o rei de Judá, Acaz, entra em guerra com a Síria, Isaías, atendendo ao um chamado de Deus, o procura, para avisá-lo:

“Então o Senhor disse a Isaías: ‘Sai, e leva teu filho Sear-Jasube. Vai encontrar-te com Acaz no final do aqueduto do açude Superior, na estrada que vai para o campo do Lavandeiro. Diz a ele: Tenha cuidado, acalma-te e não tenhas medo. Que o teu coração não desanime por causa do furor destes restos de lenha fumegantes: Rezim, a Síria e o filho de Remalas” (Is 7:3-4)105.

E depois afirma, de forma ameaçadora:

“Se não ficardes firmes na fé, com certeza não resistireis” (Is 7:9)106.

O que Deus está mandando Acaz fazer, através de Isaías, é não agir e esperar por um milagre, enquanto o exército da Síria prepara-se para um massacre. É um conselho perigoso pois envolve aquilo que Voegelin chamará de “metástase da fé” (metastatic faith)107:

105 Cf. A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Ed. Paulus, 2004. 106 Idem.

107 “Não existem termos técnicos para descrever o estado da alma em que a experiência dos ritmos cósmicos,

tendo como meio a forma histórica, faz nascer a visão de um mundo que mudará a sua natureza, sem deixar de ser o mundo onde vivemos concretamente. Devo introduzir o termo metastasis para significar uma mudança na constituição do ser visto pelos profetas. E eu falarei de experiências metastáticas, de metástase da fé, da esperança, da vontade, da visão e da ação, e dos símbolos metastáticos que expressam esta experiência”, in: VOEGELIN, Eric. Order and History I – Israel and Revelation, Lousiana University Press, 2000, pág. 454.

Ver também o seguinte trecho de Reflexões Autobiográficas (É Realizações, 2008, págs. 121-128), em que Voegelin desenvolve a metástase da fé para o termo apocalipse metastático: “O termo apocalipse metastático requer uma pequena explicação. Precisei desenvolvê-lo em meu estudo sobre os profetas israelitas. Na profecia de Isaías, deparamo-nos com o fato estranho de que Isaías aconselhou o rei de Judá a não se apoiar nas fortificações de Jerusalém e na força de seu exército, mas em sua fé em Javé. Se a fé do rei fosse verdadeira, Deus se ocuparia do restante produzindo uma epidemia ou um pânico entre os inimigos, dissipando o perigo que assolava a cidade. O rei teve bom-senso o suficiente para não seguir o conselho do profeta e confiar, pelo contrário, nas fortificações e no aparato militar. Ainda assim, havia a suposição do profeta de que, por meio de um ato de fé, a estrutura da realidade podia ser efetivamente transformada.

“Ao estudar esse problema e tentar compreendê-lo, minha primeira idéia foi, é claro, atribuir ao profeta um ato mágico. Isso não teria sido surpreendente, pois na história de Israel fora função dos profetas, por exemplo, guiar a mão do rei lançando uma flecha sobre o inimigo como uma operação mágica que

“(...) A fórmula ‘Se não ficardes firmes na fé, com certeza não resistireis’ implica que, se você resistir, está firme na fé. O conselho de Isaías não se origina de uma ética da não-violência; não é um conselho calculado para perder a guerra em função de ganhar algo mais importante que a vitória terrena; é, ao contrário, vencer a guerra por meios mais certos do que um exército. (...) A sensibilidade sobre a lacuna entre o plano divino e a ação humana tornou-se tão aguda que toda a assistência pragmática na execução do plano é considerado um exemplo de desconfiança. (...) Isto se deve ao fato de que o próprio plano divino foi trazido ao conhecimento do homem, tanto quanto Isaías sabe que Deus quer a sobrevivência de Judá como um povo organizado na história pragmática. Com este conhecimento é dada a confiança, não na inescrutável vontade de Deus que deve ser aceita, mesmo com toda a sua amargura, quando os planos do homem não concordam com isso, mas na vontade conhecida de Deus que se conforma com as políticas de Isaías e do Povo Escolhido. Este conhecimento do plano divino lança seu feitiço paralisador na necessidade de uma ação no mundo; pois se a ação humana concreta não atingir nada do que Deus pretende fazer por si mesmo, isso pode ser considerado como um ofício desrespeitoso da parte do homem.”108.

O problema de Isaías está no choque entre uma experiência compacta da ordem, em seu tipo cosmológico, e a forma histórica da existência. E o salto no ser que ocorre dentro desse fenômeno será articulado até o limite:

“Já foi explicado que o salto no ser não é um salto para fora da existência; a ordem autônoma deste mundo permanece como está, mesmo quando o Deus transcendente nos é revelado como a única fonte de ordem deste mundo, assim como do homem, da sociedade e da história. Isaías, podemos dizer, tentou o impossível: fazer do salto no ser um salto para fora da existência dentro de um mundo divino transfigurado além das leis da existência mundana. A preservação cúltica da ordem cósmica-divina torna-se a transfiguração do mundo na

resultaria na vitória. O que aconteceu no caso de Isaías foi o que, na psicologia moderna, Nietzsche ou Freud chamariam de sublimação da magia física mais primitiva. Mas fiquei desconfortável em relação a isso e consultei sobre o assunto especialmente Gerhard von Rad, em Heidelberg, que ficou horrorizado com a idéia de que um profeta espiritual grandioso como Isaías pudesse ser um mago. Não usei o termo magia para designar a prática aconselhada por Isaías, mas cunhei um novo termo para caracterizar a peculiar crença mágica sublimada em uma transfiguração da realidade por meio de um ato de fé. E dei-lhe o nome de fé metastática – a crença em uma metástase da realidade por meio de um ato de fé. Não estou tão certo de que hoje faria a mesma concessão. Afinal, esse tipo de fé é de fato magia, embora seja preciso fazer a distinção entre essa variação ‘sublimada’ e uma operação mágica mais primitiva. Se uma linha divisória entre magia e fé metastática fosse realmente traçada, meu receio é que o fator que têm comum – isto é, a tentativa de produzir um resultado desejado por meios alheios às relações naturais de causa e efeito – correria o risco de ficar obscurecido”.

108 VOEGELIN, Eric. Order and History I – Israel and Revelation, Lousiana University Press, 2000, pág.

história quando carregada dentro da forma histórica da existência. Para ser mais exato, esta transformação peculiar não é uma questão de necessidade, talvez inerente na lógica da experiência e dos símbolos. A transformação deve-se a um elemento de ‘conhecimento’ em relação ao plano divino. E este ‘conhecimento’ parece se ligar à revelação de Deus ao homem com as vitórias pragmáticas de Judá da mesma maneira em que a Torá Deuteronômica ligou a revelação do Sinai à constituição de Judá. Um estilo comum de simbolização deve ser notado na Lei e nos Profetas. Através do ‘conhecimento’ intervencionista, esta preservação recorrente da ordem através do culto cosmológico torna-se, quando entra a forma histórica da existência, uma transfiguração única do mundo de acordo com o plano divino. Um abismo abre-se entre o mundo tal como ele é e o mundo tal como deve ser quando for transfigurado”109.

É neste desejo de transfigurar a realidade que se caracteriza a metástase da fé – um evento que acompanha sorrateiramente a história da Civilização Ocidental. Voegelin reconhece isso da seguinte forma:

“Nesta variedade de formas simbólicas é reconhecível a substância comum da metástase da vontade de transformar a realidade através de meios escatológicos, míticos ou de fantasia historiográfica, ou pervertendo a fé em um instrumento de ação pragmática. Este componente metastático tornou-se tão predominante no fenômeno complexo do profetismo que o Judaísmo tardio criou sua específica forma simbólica na literatura apocalíptica. Enquanto o declínio de Israel e Judá foi acompanhado pelas formas de profetismo, a nova era imperial do Judaísmo foi acompanhada pelo simbolismo do apocalipse. Além disso, o reconhecimento da metástase da experiência é de tamanha importância, não só para a compreensão da ordem Israelita e Judaica, como também para a compreensão da história da Civilização Ocidental até os nossos dias. Enquanto no desenvolvimento principal do Cristianismo, os símbolos metastáticos foram transformados nos eventos escatológicos além da história, para que a ordem do mundo voltasse a ter a sua autonomia, a continuidade de movimentos metastáticos nunca foi quebrada. Cobre, rivaliza e penetra massivamente o Cristianismo com a Gnose, o Marcionismo e um punhado de heresias gnósticas; e foi absorvida no simbolismo do próprio Cristianismo por meio do Velho Testamento e também por meio da Revelação de São João. Na Idade Média, a Igreja estava ocupada na luta contra as heresias de compleição metastática; e com a Reforma esta corrente subterrânea voltou à superfície de novo numa enchente poderosa – primeiro, na ala esquerda dos movimentos sectários e depois no credo político secular que praticam a mesma metástase através das ações revolucionárias”110.

109 Idem, pág. 455. 110

O fenômeno da metástase está intimamente ligado a uma fé no espírito que não se une com seu complemento – a razão. Se o profeta é o homem que se caracteriza pela sua harmonia com a fé no Deus transcendente, devemos encontrar um modelo antropológico que tenha o mesmo relacionamento com o logos humano, o logos que, no fundo obscuro do nous, encontra forma e proporção nas coisas do real. Este o homem é o spoudaios, descrito por Platão e Aristóteles.