Para romper com o círculo vicioso das ideologias que deformaram a política, o espírito e a História, é necessário ver o homem como alguém que luta constantemente pela unidade do Ser. E essa luta, quando se reflete no espelho da História, traduz-se em uma espécie de busca do tempo perdido – ou melhor, em
uma busca da experiência perdida. Muitas vezes, essa busca pode ser representada por uma simples palavra que, com o passar dos tempos, muda de significado; quando é analisada no presente, descobre-se que ela tinha um sentido originário que escapa ao pesquisador contemporâneo. O resultado disso é a perda do que foi realmente a experiência original que permitiu a gestação de uma determinada expressão ou palavra. E, obviamente, corremos o risco de perder o próprio rumo de uma História que se preocupa somente com leis a priori e não com o fato de que, mesmo recoberto pelas camadas do tempo, ainda pode ser decifrada e compreendida pelo historiador de índole honesta.
A única forma de não fazer a própria História – e, com isso, a noção de homem, de política, de espírito e, enfim, de Civilização – entrar numa petrificação é a persistência de uma recuperação da experiência, numa tensão entre o nosso
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presente e um passado que ainda não foi deformado. Uma simples palavra pode ser, muitas vezes, um indício que permite um retorno legítimo ao fato original, como nos mostra Ortega y Gasset:
“A partir de nossa vida, que é absoluto presente, e aproveitando quantos fatos, isto é, fragmentos, restos, resíduos, sinais possam reunir, temos de reconstruir a série de presentes que essa palavra teve e cujo conjunto forma o seu passado; temos, pois, que re-presentar-nos, tornar a nos fazer presentes, ressuscitar esses presentes fenecidos, e isto quer dizer que necessitamos reviver em nós essas formas que deixaram de viver. Toda a história é revivescência do que parecia estar morto. Como disse pateticamente Hegel no começo de sua Filosofia da História: ‘Quando olhamos para o passado, primeiro vemos apenas as ruínas’. Essas ruínas são os fatos, o material que precisamos reanimar e, para isso, é preciso que sejamos capazes de voltar a viver por nossa própria conta essas vidas antigas que se desvaneceram, é preciso que repitamos o que já foi vivido por outros. Neste sentido, a história é, e isso é claro,
repetição, um trabalho nada fácil, como percebe quem desejou alguma vez repetir a emoção que sentiu em uma viagem ou repetir um amor. Já querer averiguar melancolicamente o que foi repetido, precisamente porque foi repetido, é outra coisa e sua graça original foi quase desvirtuada. A história é um trabalho difícil porque é repetição. Mas não damos demasiada importância a este termo em torno do qual alguns pensadores recentes levantam um confuso barulho, restaurando um conceito do filósofo dinamarquês Kierkegaard. Heidegger foi o primeiro que renovou a idéia falando de Wiederholung, vocábulo que, em alemão, significa realmente repetição. Mas Heidegger, como todo autêntico grande pensador – e ele o é inquestionavelmente –, ao dizer uma palavra sabe que não vive apenas o seu significado atual, como também todo o seu passado humano; isto é, sua etimologia, e
Wiederholung etimologicamente significa recuperar algo que havia sido mais ou menos deixado de lado; portanto, voltar a buscá-lo. Mas os chamados ‘existencialistas’ (...) crêem, usando o termo ‘repetição’ sem sua ressonância etimológica, que estão repetindo Kierkegaard, sem saber que a palavra dinamarquesa empregada por este significa propriamente ‘recuperação’. Pois bem, a história é a recuperação do tempo perdido, daquela parte dos homens atuais que também é nosso passado, do qual somos, mas não nos é desconhecido porque, efetivamente, que o perdemos e está ausente nas profundezas do tempo pretérito”124.
Entretanto, se formos além, talvez não se trate de uma recuperação e sim de uma restauração. E, para isso, o investigador deve observar as profundidades do tempo que passou, não à procura de conceitos abstratos ou de experiências inarticuladas em uma linguagem fechada e sem nenhum contato com as
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circunstâncias concretas do seu passado e do seu presente. Sua investigação precisa ser adequadamente comunicada para que, algum dia, venha a ser efetiva e eficaz. Assim, é provável que, ao contrário de um método que observa apenas os fatos ou os chamados “fenômenos históricos”, ele deve observar a vida singular de alguém, de um homem que viveu uma determinada época, de um indivíduo que sofreu um conhecimento de todas essas tensões que lhe deram o senso de simultaneidade e que o fizeram se destacar do resto da raça humana. Somente dessa forma a restauração de uma ordem que recupere o fio que liga a alma a Deus poderá ter alguma concretude, alguma realidade que mova e comova os homens do nosso presente que desejem construir algo para o nosso futuro. Se a História transformou- se num “alucinado jogo de espelhos”, devemos ter em mente alguém que estava dentro do espelho, mas soube escapar dessa jaula através de uma ação que partiu de sua vontade e não do seu capricho. E aqui entramos no terreno pantanoso da nossa dissertação ao mergulhar na profundidade da alma de um homem complexo e exigente, um homem que foi um enigma para muitos dos seus contemporâneos e que é, sem dúvida, um espinho na carne para os que sonharam com a petrificação do espírito em nosso presente: Thomas More.