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2 THEORY

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2.1.1 Preparation of Silica Aerogel

A análise dos dados da pesquisa se dará por meio da análise do discurso. Para Newman (2005), uma das estratégias teóricas que caracterizam o pós-estruturalismo, em uma concepção ampla, é a análise do discurso. Essa é uma forma de analítica que tem várias correntes que apresentam propostas teóricas e metodológicas distintas para que os discursos sejam analisados

33 Mesmo com esse posicionamento contrário a se reduzir o aspecto racial à cor, foi um termo que acabei tendo

que usar para questionar as empregadas a respeito da maneira como elas se veem. No entanto, o termo cor veio acrescido do termo raça e, também, abri a possibilidade, na questão, de que elas recusassem para si uma categorização.

(ALVESSON; KARREMAN, 2000; HARDY, 2001; FAIRCLOUGH, 2001; PHILLIPS; HARDY, 2002; MUMBY, 2004). Para Rosa, Paço-Cunha e Tureta (2009), destacam-se duas grandes escolas de análise do discurso: a francesa e a anglo-saxã (de acordo com Carrieri (2012), o principal autor da escola anglo-saxã seria Fairclough). Para autores como Maingueneau (1993), Orlandi (2002), Melo (2009) e Rosa, Paço-Cunha e Tureta (2009), enquanto a escola francesa privilegiaria a forma escrita e seus propósitos textuais, a escola anglo-saxã privilegiaria a oralidade e seus propósitos comunicacionais. Enquanto a primeira nos levaria a um trabalho mais teórico-abstrato, a segunda assumiria um caráter mais empirista.

Entretanto, o estabelecimento dessas diferenças deve ser feito com ressalvas, pois essas duas escolas não representam uma unicidade em si mesmas. Podemos dizer que há diversidade, por exemplo, dentro da própria escola francesa. Não há uma única corrente francesa de análise do discurso, mas várias. Nesse sentido, a atribuição de características gerais a essa escola precisa ser feita com cautela. Por exemplo, geralmente atribuímos à escola francesa de análise do discurso um assujeitamento radical do indivíduo às estruturas. Para Orlandi (2002), na análise francesa, o indivíduo é interpelado em sujeito por meio da ideologia.

No entanto, como não há unicidade nessa escola, corremos o risco de se assumir a análise francesa do discurso como sendo demasiadamente estruturalista, o que impediria um próprio sentido de crítica à mesma. No entanto, alguns analistas do discurso defendem a potencialidade crítica da análise francesa. Para eles, a própria denominação de crítica à análise de Fairclough (2001) (que é denominada Análise Crítica do Discurso - ACD) seria pleonástica, já que consideram a análise francesa também uma análise crítica (FARIA, 2012b).

Não querendo levar adiante essa discussão, ressaltamos apenas que ela pode gerar um embate entre qual seria a melhor análise do discurso (MELO, 2009), uma vez que entram em cena ainda outras variações de análises do discurso, como o modelo transformacional de Prenome Chomsky, o modelo da filosofia de Prenome Austin e Prenome Searle, o modelo pragmático de Prenome Habermas e o modelo hermenêutico de Prenome Gadamer (GODOI, 2005; 2006). Ainda, temos a análise sociológica do discurso de tradição espanhola, que vem sendo utilizada por autores como Álamo (2009), Godoi (2005), Godoi e Coelho (2011) e Ruiz (2009).

No entanto, não se trata de pensar qual análise seria a melhor, mas, sim, de pensar em termos de adequações filosóficas, teóricas e metodológicas. Pois a análise do discurso não é um método isolado, ela envolve posicionamentos filosóficos e teóricos. O que é importante destacar de comum em relação a essas abordagens do discurso é que elas se opõem a uma corrente tradicional da linguística autônoma de Ferdinand Saussure, que entendia a linguagem como um sistema de signos, como um sistema abstrato de regras formais da língua. Essa corrente

tradicional excluía a historicidade presente nos discursos. Já as abordagens aqui mencionadas trazem uma noção de discurso que ultrapassa a visão da linguagem como mera união entre significante e significado. Mesmo em suas divergências, consideram uma dimensão mais social da linguagem (PEREIRA e BRITO, 2009; ROSA, PAÇO-CUNHA e TURETA, 2009). Algumas delas consideram o discurso em uma articulação entre aspectos linguísticos e históricos (FARIA, 2009).

No caso desta tese, optamos pela utilização da Análise Crítica do Discurso (ACD), embora acabe tocando em alguns elementos que também estão presentes na análise linguística do discurso de corrente francesa (FARIA, 2009; 2012a; SARAIVA, 2009), como: a análise das condições sociais de produção das práticas e dos discursos (o contexto), dos elementos explícitos, implícitos e das relações entre ambos e do dito e do não dito (os silenciamentos).

Ao trazer esses elementos, é importante destacar que um dos autores utilizados nesta tese, Foucault (2006b), ao afirmar que toma como seu objeto uma análise do discurso, ressalta que não se fundamenta nos métodos da linguística. E assim como sua obra passou por momentos diferentes, sua analítica do discurso e sua própria concepção de discurso passaram também por modificações. Nesse primeiro período, vemos o discurso por Foucault (2002) assumir a ideia de episteme e também de formações discursivas. No período da arqueologia do saber, Foucault (1987) empreendeu uma análise de formações discursivas para estudar a formação de saberes.

Nesse período, a noção de formações discursivas era importante. Para Foucault (1987), elas eram regras de formação que se constituíam em condições para um grupo particular de enunciados. Essas regras colocavam condições para a formação enunciativa de objetos, de modalidades de enunciação, para a formação de conceitos e para escolhas temáticas. Para o autor, as regras de formação eram “[...] condições de existência (mas também de coexistência, de manutenção, de modificação e de desaparecimento) em uma dada repartição discursiva” (FOUCAULT, 1987, p. 43).

Para exemplificar, a noção de formação discursiva, interligada à noção de formação de saberes, poderia se associar à formação do discurso médico, do discurso jurídico, religioso, os quais representariam, cada um, formações discursivas particulares. Nesse sentido, as formações discursivas são “[...] sistemas de regras que tornam possível a ocorrência de certos enunciados, e não outros, em determinados tempos, lugares e localizações institucionais” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 65). A noção de formações discursivas, nesse caso, pode levar a uma análise do discurso que considera que sempre que falamos, falamos dentro de formações discursivas, não sendo senhores de nossas falas, mas, sim, sendo falados por nossas falas. Por

essa ideia, assumimos que não falamos qualquer coisa, falamos dentro de formações discursivas.

No período da arqueologia, Foucault (1987) preocupou-se então com os discursos que seriam constitutivos do conhecimento “[...] e com as condições de transformação do

conhecimento em uma ciência, associadas a uma formação discursiva” (FAIRCLOUGH,

2001, p. 62). Especificamente, preocupou-se com o surgimento das ciências sociais e humanas (FOUCAULT, 2002). Para Fairclough (2001), a analítica do discurso foucaultiana seria, nesse

período, uma análise de enunciados que objetivaria uma “[...] especificação

sociohistoricamente variável de formações discursivas” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 65). Como afirma o próprio Foucault (1987), ele tentou descrever relações entre enunciados.

No entanto, Pierre Foucault abandonou a noção de formação discursiva e também a de episteme quando partiu para a genealogia do poder, considerando a existência de discursos múltiplos. Nesse período, o discurso passou a ser compreendido como algo mais genérico.

Em seu trabalho arqueológico inicial, o foco era nos tipos de discurso (”formações discursivas”) como regras para a constituição de áreas de conhecimento. Em seus últimos estudos genealógicos, a ênfase mudou para as relações entre conhecimento e poder. E no trabalho dos últimos anos de Foucault, a preocupação era com a ética, ou ”[...] como o indivíduo deve constituir-se ele próprio como um sujeito moral de suas próprias ações” (Rabinow, 1984: 352). Embora o discurso permaneça uma preocupação ao longo de toda a obra, seu status muda [...]” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 63).

Por que estou discutindo essa mudança do foco em relação ao discurso na obra de P. Foucault, ainda que eu não vá utilizar propriamente uma análise foucaultiana, mas uma ACD? Apenas porque, dentro de um pensamento de que a análise do discurso não é uma técnica de análise de dados, mas uma vinculação teórico-epistemológica sobre discursos, a discussão teórica prévia à apresentação efetiva do tipo de análise que foi realizado é relevante.

E se utilizo M. Foucault nesta tese, e se esse autor fazia análise do discurso, alguns aspectos são importantes apenas para que tenhamos conhecimento a respeito dos mesmos. Falo de formação discursiva aqui porque ainda hoje vários analistas do discurso que se propõem a empregar uma analítica do discurso foucaultiana utilizam a noção de formações discursivas, desconsiderando que o próprio autor abandonou esse conceito e dinamizou sua noção de discurso. Por esse motivo, ressalto que farei uma ACD em uma tese que usa Michel Foucault sem utilizar a noção de formações discursivas, de maneira a considerar os próprios caminhos e descaminhos traçados por M. Foucault em sua analítica.

Dando continuidade à discussão, podemos questionar como foi a analítica foucaultiana depois que ele dinamizou sua noção de discurso. Essa noção mais dinâmica foi considerada na

genealogia do poder. É uma noção mais dinâmica de discursos porque, tanto os elementos explicitamente discursivos (como aquilo que é dito ou escrito), como também os elementos que não aparentam ser discursivos, mas que contêm em si os discursos (como os atos gestuais e elementos visuais e imagéticos) podem ser considerados.

Em relação agora às práticas, elas vão adquirindo cada vez mais importância na obra de P. Foucault (em seus períodos de genealogia e da ética e cuidado de si). Sua analítica do poder se constitui em uma analítica das práticas. Nesse sentido, na perspectiva de Foucault (1980; 1992; 2004a; 2006a), a analítica envolve também uma análise de práticas sociais, as quais, por sua vez, são consideradas práticas discursivas, já que toda prática envolve uma produção discursiva. No caso das empregadas domésticas, por exemplo, as maneiras pelas quais se comportam e as relações estabelecidas com a família empregadora são práticas discursivas que fazem parte de suas artes de viver, resistir, cuidar e fazer.

Nas análises realizadas, tentei apreender relações de poder (FOUCAULT, 1992) e

estratégias (CERTEAU, 1998) presentes nas narrativas, considerando que, tanto as relações de poder, quanto as estratégias e táticas afetam a constituição subjetiva dos sujeitos entrevistados, produzindo subjetividades. Não se trata apenas de uma análise de relações de poder, mas também de saberes que influenciam na produção de sentidos e de significados para os sujeitos. São relações de poder e de saber que podem conferir um sentido à vida das empregadas domésticas.

Contudo, como Foucault (1992) não considera apenas as possibilidades de poder e Certeau (1998) não leva em conta apenas o desenvolvimento de estratégias, a análise também girou em torno da identificação de resistências e de táticas, buscando aquilo que rompe com os sentidos, com os jogos de verdade e com as lógicas instituídas a respeito do que é ser empregada doméstica.

Foucault (1987) considera que, quando alguém produz um discurso, não há nele só sua subjetividade, mas também elementos importantes como o lugar que esse alguém ocupa. De que lugar ele fala? Nesse sentido, o lugar que ocupa o autor dos enunciados e as condições de enunciação são também elementos importantes para essa análise (NARDI, 2002). Assim como fez Nardi (2002), analisarei os enunciados e também suas relações com os processos de

subjetivação. Esses dois elementos analíticos – enunciados e processos de subjetivação –

podem ser obtidos por meio das entrevistas com as empregadas e por meio dos seus relatos de história de vida.

Antes de descrever os caminhos utilizados no que se refere à ACD e também expor os motivos pelos quais ela foi escolhida, trarei alguns elementos teóricos a respeito da noção de

discurso empregada, principalmente considerando que não podemos nos ater a uma descrição apenas operacional a respeito da ACD, já que ela não é primordialmente um método de pesquisa ou uma técnica de análise dos dados, sendo, antes, teoria que pressupõe epistemologia.

4.4.1 A Teoria Social do Discurso e o desenho do método

A ACD foi um modelo analítico desenvolvido por Norman Fairclough, professor de linguística da Universidade Lancaster, Reino Unido, sendo denominada, por ele, Teoria Social do Discurso. Chouliaraki e Fairclough (1999) afirmam que a ACD é resultado de uma junção entre teoria e método. A ACD proposta por Fairclough é

produto de três influências principais: (1) o Marxismo Ocidental, que enfatiza aspectos culturais da vida social ao entender que as relações de dominação e exploração são determinadas e perpetuadas cultural e ideologicamente34; (2) Michel Foucault, que definiu discurso, não apenas a linguagem, como um sistema de conhecimento que tem como objetivo controlar a sociedade através da regulação do saber e do exercício do poder35; e (3) Mikhail Bakhtin, para quem a linguagem é

sempre utilizada de forma ideológica36.

Para Fairclough (2001, p. 28), o discurso é o “uso da linguagem, seja ela falada ou

escrita, vista como um tipo de prática social”. O autor defende que a linguagem guarda

relações com poder e com ideologias. Em termos teóricos, o discurso possui três dimensões para Fairclough (2001).

Quadro 3 - Dimensões discursivas para Fairclough

Dimensões Descrição Foco de análise de

cada dimensão

Categorias analíticas possíveis

Texto Linguagem discursiva

contextualizada em um evento discursivo

Análise de forma e de sentido

-Vocabulário (léxicos, significados,

neologismos);

-Gramática -Coesão;

-Estrutura textual

34 É por essa influência que se observa na Teoria Social do Discurso de Fairclough (2001) a utilização de termos

como dominação e também a utilização do pensamento dialético, sendo essas duas noções – dominação e dialética - epistemologicamente desconsideradas nesta tese.

35 É por meio da influência de Michel Foucault na ACD que se estabelece a maior proximidade entre o

posicionamento assumido nesta tese e a Teoria Social do Discurso.

36 Com a influência então de duas perspectivas que consideram as ideologias, entende-se por que este termo está

Prática Discursiva

Processos de produção, distribuição e consumo dos textos. Interliga o texto à prática social.

As práticas discursivas se concretizam como forma linguística nos textos. Referem-se ao contexto e a ordens de discurso presentes nesse contexto. -Produção (Intertextualidade (manifesta ou constitutiva) e Interdiscursividade

-Distribuição (cadeias intertextuais) -Consumo (Coerência)

-Força

-Presença e ausência de elementos

(como o silêncio, o não dito) - Condições (contexto ou condições sociais de produção)

Prática Social Práticas situacional,

institucional e culturalmente contextualizadas Relações das práticas com ideologias e poder. Ideologia Sentidos Pressuposições Metáforas Hegemonia Orientações ideológicas, econômicas, políticas e culturais

Fonte - Fairclough (1995; 2001); Carvalho 2008; Lima (2011) e Resende e Ramalho (2004) adaptados pela autora da tese.

Para organizar a explicação dos conceitos presentes no quadro 3, atribuirei o número um às explicações referentes à dimensão do texto; número dois às explicações referentes à dimensão das práticas discursivas; e número três para a dimensão das práticas sociais. Essa organização se faz necessária porque há vários intercruzamentos entre essas três dimensões e os conceitos a elas atrelados.

Sobre a (1) análise dos textos, ela deve ser realizada de maneira ascendente, partindo- se das palavras individuais, até chegar ao texto como um todo: vocabulário (análise das palavras individuais ou análise lexical, lexicalizações, relexicalizações, neologismos,

superexpressões, relações entre palavras e sentidos.), gramática37 (análise das palavras

combinadas em forma de frases, análise de frases e orações), coesão (análise das ligações estabelecidas entre as frases e as orações) e estrutura textual (análise das propriedades orgânicas mais amplas do texto).

A análise dessa dimensão textual não deve ser entendida como puramente linguística, pois Fairclough (2001) chama a atenção para o fato de que, tanto forma, quanto significado devem ser analisados em conjunto. Se a análise fosse puramente linguística, ela poderia se ater

37 Para Fairclough (2003a), a gramática também é socialmente construída. Sendo assim, não se pode tratá-la de

aos significados formais das palavras. No entanto, deve-se pensar qual é o sentido empregado pelo enunciador, enquanto sujeito inserido em um determinado contexto sócio-histórico e espacial, à palavra que utilizou.

Sobre a 2) análise das práticas discursivas, ela se refere à análise de quem produz o discurso; da finalidade ou interesse relacionados à produção daquele discurso; qual é o lugar

simbólico ocupado por quem produz o discurso; para quem aquele discurso é produzido; análise da força dos enunciados; coerência (dimensão do consumo); intertextualidade e

interdiscursividade.

A força dos enunciados diz respeito à força manifesta pelo mesmo no momento de sua produção, que faz com que os textos possam ser interpretados de maneiras diferentes de acordo com o contexto e a situação em que são produzidos. Essas interpretações podem fazer com que os textos assumam sentidos como afirmações, declarações, observações, promessas, ameaças, pedidos, xingamentos, ordens, questionamentos. Um mesmo enunciado, nesse sentido, pode adquirir diferentes interpretações dependendo da força com a qual acionam a ação social que pretendem acionar (FAIRCLOUGH, 2001).

A coerência, por sua vez, não diz respeito a uma coerência meramente textual, trata-se de uma coerência de significado e de relações entre significados (tanto no intradiscurso como no interdiscurso) assumido pelas práticas discursivas. As práticas discursivas precisam, então, fazer algum sentido, ainda que este esteja implícito.

[...] um texto só faz sentido para alguém que nele vê sentido, alguém que é capaz de inferir essas relações de sentido na ausência de marcadores explícitos. [...] os textos estabelecem posições para os sujeitos intérpretes que são ‘capazes’ de compreende- los e ‘capazes’ de fazer as conexões e as inferências, de acordo com os princípios interpretativos relevantes, necessários para gerar leituras coerentes (FAIRCLOUGH, 2001, p. 113).

A análise da coerência é a análise de conexões e inferências apoiadas por pressupostos ideológicos (RESENDEe RAMALHO, 2004).

No que se refere à produção das práticas discursivas, ela guarda relação com outros dois conceitos: o de intertextualidade e o de interdiscursividade. A intertextualidade é a relação estabelecida entre textos. Na análise de um texto em específico, trata-se de analisar as relações entre o texto que é objeto de análise e outros textos. Fairclough (2001, p. 114) define

a intertextualidade como sendo “[...] a propriedade que têm os textos de serem cheios de

fragmentos de outros textos”. Para o autor, ela está presente, não só nos enunciados que são analisados em uma ACD, mas também nos próprios textos utilizados pelo analista para interpretar esses enunciados. Sendo assim, as práticas discursivas das empregadas trazem

intertextos, e o trabalho de análise dessas práticas é também baseado em outros intertextos, que se referem, tanto a textos que contribuem para o conhecimento acerca do contexto do trabalho doméstico, quanto a textos que trazem a teoria utilizada para o referido trabalho de análise.

Para Fairclough (2001), é considerando a intertextualidade que se abrem maiores possibilidades para se analisar as mudanças discursivas e as mudanças sociais, já que ela estabelece relações com outros textos que podem contribuir para o entendimento contextual dessas mudanças. Essa intertextualidade pode ser, segundo o autor, manifesta ou constitutiva. A manifesta está disposta no discurso de maneira clara e marcada por aspas, ou seja, estabelece-se uma relação explícita entre textos. Já a intertextualidade constitutiva trabalha

com suposições38 ou pressupostos implícitos tacitamente comunicados. Dentro da análise da

intertextualidade, é que se analisa, também, a distribuição das práticas discursivas, analisando as cadeias de sentido produzidas por meio dos intertextos.

Já a interdiscursividade, de acordo com Melo (2009), é outro elemento das práticas discursivas que não deve ser desconsiderado, independentementede qual análise seja

escolhida. Ele define interdiscursividade como “[...] um todo complexo de formações

discursivas que emergem do conjunto de formações ideológicas” (MELO, 2009, p. 15), entendendo que as formações ideológicas dizem respeito a lutas discursivas que podem, tanto articular, quanto rearticular ordens do discurso ou regimes de verdade.

Para entender a interdiscursividade, torna-se necessário compreender, primeiramente, o que é intradiscurso e o que é interdiscurso. Para tal, recorro a um autor que trabalha com análise francesa. No entanto, suas afirmações a respeito de intradiscurso e de interdiscurso também podem ser aplicadas à perspectiva da ACD.

Para o intradiscurso, utilizamos como principal categoria descritiva a de percurso semântico; para o interdiscurso, a de contradição. Essas categorias decorrem da concepção teórica segundo a qual o discurso abrange duas dimensões, integradas e complementares: por um lado, o do intradiscurso, organiza-se em um conjunto, uma trajetória de sentidos que se desenvolve ao longo do texto; por outro lado, o do interdiscurso, constitui-se por contradição, por oposição a outros discursos (FARIA,