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Premiering av krisemaksimering og ny runde med ”insentivproblemer”

2. De første finansieringssystemene

3.2 Erfaringer med rammefinansieringsordningen

3.2.2 Premiering av krisemaksimering og ny runde med ”insentivproblemer”

Ao refletir-se sobre a violência doméstica contra a mulher, não há como evitar que esta reflexão inclua a totalidade do grupo familiar. A ocorrência desta categoria de violência revela neste grupo contradições em que o medo e a vergonha interagem de forma constante com sentimentos de afeto e cuidado (SAFFIOTI, 1989; FALEIROS, 2003; ROJAS, 2004).

De acordo com Rojas (2003) as práticas de violência familiar, em que o mais forte intimida e subjuga o mais fraco contam muitas vezes com certo consentimento da comunidade. Estudos nacionais e internacionais demonstram que, nas famílias, o abuso do poder físico e psicológico sempre repercute de alguma forma sobre as crianças e adolescentes (SAFFIOTI, 1989, AZEVEDO; GUERRA, 2002; FALEIROS, 2003).

O senso comum justifica frequentemente estes abusos “em nome da honra” do homem ferida pela mulher ou ainda “em nome do amor”, quando se trata de práticas violentas de pais contra filhos. Trata-se de ocorrências que são, simultaneamente, causa e efeito da dependência econômica e debilidade emocional em que se encontram mulheres, crianças e também idosos (ROJAS, 2003).

As agressões masculinas são direcionadas preferencialmente contra as mulheres. Da mesma forma - como tem sido demonstrado por muitas pesquisas – as mães aparecem como agressoras em significativa parcela dos casos de abuso físico sofrido pelas crianças e adolescentes no espaço familiar. A realidade demonstra, portanto, que mulheres agredidas, também podem ser agressoras, reproduzindo assim a violência no exercício do poder e dominação sobre os filhos (SAFFIOTI, 1989; AZEVEDO; GUERRA, 2002).

Saffioti (1989) observa que sendo histórica e socialmente responsáveis pela socialização das crianças, muitas mulheres internalizaram o direito de abusar do poder de proteção, impondo aos filhos a dominação, de modo a compensar as relações desiguais que mantém com o companheiro. Trata-se de modelos de relacionamento social que foram transmitidos de geração em geração e hoje são percebidos e reproduzidos como algo natural.

Para aprofundar a compreensão da VDCCA é necessário, portanto, situá-la num padrão cultural em que a mulher se submete ao poder do homem e a criança se sujeita ao

poder do adulto, lembrando sempre que estas relações sociais se dão num contexto econômico de uma sociedade moderna, capitalista e ocidental.

Como visto anteriormente em Foucault, as relações de poder se constituem em partes intrínsecas de um mesmo contexto social, caracterizado, na atualidade pela hegemonia do capitalismo. Saffioti (1989, p. 50) sintetiza dizendo que “[...] se o dominador é, em via de regra, um homem adulto, e se a dominação e a exploração são faces de uma só medalha, o explorador (agressor) se confunde com o adulto masculino”. Sua observação deixa claro que para se obter clareza sobre fenômenos como o da violência doméstica é imprescindível entender os processos sociais geradores das relações de poder, de gênero e das desigualdades sociais.

Tanto Saffioti (1989) quanto Azevedo e Guerra (2002) qualificam a sociedade atual de adultocêntrica e andropocêntrica - organizada em torno do homem adulto. Esta visão sugere uma balança de poder que posiciona em um pólo o homem adulto (todo poderoso) e no pólo oposto a mulher e a criança (dominados). Na prática, o que se observa, todavia, é uma reação em cadeia na qual o homem domina a mulher, que por sua vez domina a criança que reproduz o poder com seus brinquedos e / ou animais. Percebe- se que há uma assimetria também no pólo de poder reservado à mulher e à criança, ou seja, que independente de seu sexo, o adulto estabelece uma relação assimétrica de poder em suas relações com a criança.

Na estrutura de poder familiar cabe à criança obedecer às ordens dos adultos, de ambos os sexos, mesmo quando ela já tem discernimento para avaliar se esta ordem é ou não adequada. Sempre que, na falta de justificativa lógica, a criança questionar a ordem que lhe é dirigida ouvirá: faça o que eu mando, criança não tem querer! Por meio da força e do poder, os adultos estão habituados a impor cotidianamente sua autoridade sobre seus filhos.

Se, por um lado, o modelo de organização social hegemônico referenda a dominação masculina, o machismo – constituinte e resultante deste modelo – cercea, no plano emocional as demonstrações de afetividade do homem, e faz dele refém de seu próprio poder. A cultura machista resignifica a perda de parte da humanidade masculina, transformando-a em força, sem que o homem perceba sua dupla condição de dominador e dominado (SAFFIOTI, 1989).

O senso comum atribui à mulher a reprodução da relação machista, quando na realidade homens e mulheres são produtos de um mesmo grupo social que lhes atribui papéis complementares. Embora muitos atribuam à mulher a responsabilidade pela reprodução do machismo com os filhos, há que se considerar como sugerem Chauí (1984) e Saffioti (1989) que a mulher é fruto de um processo cultural sexista e repressor. Sendo os filhos constituídos pelo casal, o mais sensato seria responsabilizar a ambos.

Para muitas mulheres o poder masculino se justifica pelo potencial de força e coragem. Para as crianças, o pai não representa apenas a autoridade, mas também se constitui no indivíduo depositário de sua confiança, podendo este castigá-las sob a justificativa “de que é para o seu bem” (informação verbal)14.

A veracidade das relações amorosas na família nunca é questionada. Socialmente se estabeleceu que as relações familiares sejam marcadas pelos afetos, entre o casal, entre este e seus filhos e vice-versa. No ideário social da contemporaneidade a família se constitui naturalmente como espaço de aprendizagem de afetos e práticas sociais, no qual todos seus integrantes usufruem de liberdade e de aceitação: a família é considerada como refúgio (ARIÈS, 1981). Na realidade, contudo, os indivíduos constituem grupos familiares por diversos motivos, inclusive econômicos (ENGELS, 2002).

Velho (1987) enfatiza que na construção da subjetividade e na sua relação com a família existem duas vertentes que dividem as ciências sociais. A primeira, que se baseia na filosofia grega de maior influência no pensamento ocidental, sugere que a subjetividade seja vista como objeto natural e anterior a vida social, inato, portanto, ao indivíduo.

A segunda vertente chamada de “construtivista” define a subjetividade como produto de um processo de construção desenvolvido pela sociedade e pela cultura. Priorizando-se os pressupostos da vertente construtivista – como faz este estudo - não se pode conceber o grupo familiar como algo estático e universal.

Nas relações familiares, muitas vezes, observa-se a predileção, quase nunca assumida, dos pais por determinados filhos. Através da predileção, os adultos fomentam a competição nas relações - a princípio solidárias - entre os irmãos. No cotidiano, a competição pelo amor dos pais é fortalecida por prêmios ou punições. Os filhos, por sua

14Notícia fornecida por Eva Teresinha Silveira Faleiros no Seminário: Construindo Estratégias de

vez, desenvolvem formas diferenciadas para conviver com as assimetrias dos afetos paternos: uns tornam-se indiferentes, outros se sujeitam e há também aqueles que se rebelam (REICH, 1982; SAFFIOTI, 1989).

No cotidiano “ser pai” e principalmente “ser mãe” demandam competências que, a sociedade pressupõe serem inatas. Poucos são aqueles que percebem a maternidade ou a paternidade como relações que devem ser construídas e que não são naturais. O despreparo para a paternidade e maternidade incide especialmente, sobre os casais que vivem num contexto de precariedade intelectual e financeira. Parafraseando Fromm (1988) o amor materno e o amor paterno são também sentimentos a serem aprendidos.

Envolvida com a luta pela sobrevivência, a maioria dos homens dispõe de pouco tempo para o convívio e o diálogo com os filhos. Como provedores, os pais detêm, quase sempre, o poder de premiar e castigar severamente sua prole. Tendo eles ascendência sobre os filhos e sobre a mulher, sua figura se torna concentradora do poder familiar, fortalecendo a figura mítica do “pai herói” (SAFFIOTI, 1989).