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4. Sykehusforsøkene 1991-1993 – ”mer ut av hver krone”

4.3 Organisering av forsøket

4.3.2 Målsetting og modeller

O medo da dependência química e do envolvimento com o tráfico de drogas parece ser um dos fatores que mais alimentam a violência entre pais e filhos. Impotentes diante da massificação do consumo da maconha, cocaína e outras substâncias vendidas clandestinamente e da atuação aberta de traficantes nas comunidades, os pais parecem optar pela violência como único recurso susceptível de manter seus filhos afastados deste universo. O que é demonstrado no relato de Ana Cláudia:

[...] Olha certos tempos atrás ele batia nesse um que se droga, ele bateu. Uma vez ele bateu que quase ele mata meu filho. [...] Aí minha filha veio, acudiu ele. Aí eu chamei a atenção dele. Eu disse: “olha desse jeito não! Eu não quero violência com meu filho, ele já tá desse jeito com esses problemas, ele chega drogado da rua, tu vai bater, tu vai matar meu filho”.

Como será visto mais adiante, em alguns depoimentos, os pais entrevistados se colocaram como vítimas da violência psicológica que se configura como o receio de ver

76Rebarbado linguagem popular que quer dizer atrevido. No caso filho ou filha que grita com os pais, que não

seus filhos se tornarem “viciados”. Muitos desses pais vivem diariamente o medo de ver suas crianças serem aliciadas pelos traficantes, tornarem-se dependentes do uso de drogas e ser linchadas pela população por praticar roubos para poder “alimentar seu vício”.

Reagindo à violência psicológica a que estão submetidos, estes pais tendem a usar eles próprios de violência física ou psicológica contra os filhos, na esperança de, desta forma, estar impedindo que seus temores venham a se concretizar. Também Gonçalves (2003) identificou sentimentos semelhantes com o grupo de pais estudados na cidade do Rio de Janeiro.

6.3.5 “Arrumei meu primeiro namorado e levei um tapa na cara”

Se o grande medo dos pais é que os filhos se tornem delinquentes, em relação às meninas é que engravidem. Um dos motivos frequentes pelo qual muitas mães e pais usam de violência em casa está relacionado à insegurança que sentem com relação ao desenvolvimento sexual de suas filhas adolescentes. Segundo Guerra (1998) as crianças e adolescentes que vivenciam a violência física doméstica, tanto podem ser do sexo feminino quanto do sexo masculino. Todavia, há um aumento de vítimas do sexo feminino na adolescência, devido às mudanças corporais da puberdade, da descoberta da sexualidade e consequentemente dos receios dos pais que as adolescentes exerçam precocemente sua sexualidade.

A tendência verificada pela autora confirmou-se no universo dos entrevistados por este estudo. Não foram poucas as mães que ao relatar situações de violência em que foram agressoras ou vítimas, fizeram referência ao medo de que as meninas vivenciassem precocemente sua sexualidade e o medo de que elas engravidassem.

Ao discorrer sobre sua relação com os pais, Maria Rosa e Joana relataram que foram agredidas na adolescência porque ficaram grávidas e contaram que, posteriormente, tiveram que manter os filhos, sozinhas. Tornou-se evidente, o receio dessas duas mulheres em relação ao namoro das filhas e à possibilidade de que uma gravidez na adolescência venha impedir que continuem seus estudos. Têm medo de que se repita com as filhas o mesmo que aconteceu com elas e que estas possam vir a sofrer tanto quanto elas mesmas sofreram.

Segundo Maria Rosa, sua filha Cristina é uma menina de 14 anos, muito inteligente que cursa a 8ª série e quer ser advogada. Joana contou que sua filha Nina é uma jovem de 18 anos, muito estudiosa e atualmente está cursando Letras na universidade.

Para Maria Rosa:

[...] depois que eu fiquei grávida [...] a minha mãe queria me expulsar de casa. Mas depois eu sei que foi por causa que ela não teve aquele estudo, que foi criada no interior, não tem maneira de criar os filhos assim como hoje a gente tem. Hoje se a gente fizer uma atitude dessa, a gente somos ignorante mais do que a pessoa que errou. Naquele tempo ela agiu daquela maneira porque ela achava que eu ia dar exemplo para as outras filhas.

– Mas ela te botou para fora de casa, Maria Rosa?

[...] Ela disse que na casa dela eu não ficava mais com o meu filho. Então, eu disse: “Então, eu vou amostrar para a senhora”. Eu peguei, trabalhava em casa de família; trabalhei até os nove meses. Quando ele nasceu eu fui me empregar em fábrica com 18 anos e aí, tinha uma invasão lá e eu me meti no meio. Ganhei terreno, telha, madeira e fiz um quarto e fui morar com o meu filho.

[...] Quando eu arrumei o meu primeiro namorado com 15 anos, a minha mãe me deu um tapa na minha cara. Meus filhos eu não prendo, não proíbo. Eu converso. Eu tentei proibi a minha filha que ela arrumou um namoradinho lá perto de casa, aí, eu tentei proibi, e tava ficando agressiva. Aí, eu cheguei com ela e falei: “De hoje em diante, você pode namorar. Não proíbo mais”. Vai fazer 15 anos. “Só quero que você se cuide senão pega filho, porque você está estudando. E você namora esse rapaz e amanhã você pode enjoar e largar. E se você tiver um filho você não vai poder estudar, passear porque você vai ter cuidar do seu filho que vai nascer. Foi assim que eu fiz quando eu tive filho. Eu larguei tudo e fui cuidar de filho”. Assim que eu falei para ela (grifo nosso).

O próximo depoimento descreve um pouco da história de vida de Joana e como ela vem se relacionando com sua filha.

[...] Ela saiu quando ela chegou disse que tinha uma festa numa sede. As meninas todas foram e já era meia hora e a Nina nada de chegar. Quando ela chegou, eu disse: “onde tu estava Nina?” [Ela respondeu] “Ah, eu sai!” [Perguntei]: “com quem?” Ela não respondeu. [Falei]: “Meia hora tu não vai pra festa, as meninas já foram!” Ela disse: “ah, eu vou sozinha, [...] eu vou”. Eu meti o tapa nela e falei:

“quem manda aqui sou! Eu que te dou de comer, te dou educação. Vai tirar

essa roupa!” Ela não foi, tá ficando teimosa. Eu disse: “olha Nina o que eu pude fazer por vocês eu fiz. Tu és uma pessoa inteligente não é agora que tu vai fazer uma besteira. Enfrentei uma barra para criar vocês. A gente sempre morou no quarto, mas nunca pedi nada fiado de ninguém e vocês já tão criados. Teu pai foi embora e nunca deu nada” [...].

[...] porque quando eu engravidei no interior, apanhei uma surra, [tinha] 24 anos. Escondida eu ia para a festa. Mas também quando eu cresci um pouco, já enfrentava o papai também. Queria ir numa festa e ele não queria deixar e conheci duas senhoras que elas iam para a festa, gente de família. Eu disse: “Pai deixa eu ir na festa?”. [Ele disse]: “Não, se for vai apanhar”. E eu ia na marra.

Chegava no outro dia apanhava era surra mesmo. Eu fiz isso umas quatro vezes, na quinta engravidei, [...].

O que se pode constatar das cinco razões enunciadas pelos entrevistados que estariam na origem da violência que praticam contra seus filhos, quatro fazem referência explícita ao “medo”: 1) Medo de que virem bandidos; 2) Medo que possam se tornar viciados; 3) Medo de no futuro possam usar de violência contra os pais; 4) Medo de uma gravidez na adolescência. Na verdade, a quinta razão (para que eles obedeçam...) – a única que não foi explicitamente associada ao medo – pode ser interpretada como relacionada ao medo maior de que fracassem na vida.

Fotografia 7 – Trabalho de grupo realizado com os pais e mães Entrevistados (as).

Fonte: Milene Veloso (abril, 2005).

6.4 As representações sociais das famílias relacionadas à violência em geral e,