4. Sykehusforsøkene 1991-1993 – ”mer ut av hver krone”
4.4 Evalueringen
Uma das perguntas feitas aos informantes foi formulada de modo a permitir a aproximação com as representações sociais relacionadas ao conceito de violência contra a criança. O que se pretendia era verificar se os entrevistados fariam, ou não, referência à violência praticada contra as crianças e adolescentes em seus próprios lares. Acreditava-se, que o teor das respostas permitiria, por outro lado, inferir dados específicos sobre as relações entre pais e filhos, conforme a tabela 15.
Tabela 15 – O que é violência contra a criança e o adolescente para os pais entrevistados
Itens Conceituação Quantidade
1 Violência física:
– espancar e maltratar o filho/ soco (7) – espancamento por autoridade policial (3) – crianças utilizadas pelos marginais (5)
15
2 Violência sexual (estupro) 3
3 Submeter a criança a humilhação, xingamento e autoritarismo 2 4 Violência material: não ter condições para dar o que o filho pede 1
Total 21
Fonte: Autoria Própria.
Nota: O quantitativo das respostas foi maior do que o número de entrevistados porque algumas respostas foram distribuídas em vários itens.
Também aqui, a Violência Física apareceu como a forma de agressão que, no imaginário dos entrevistados, melhor simboliza o conceito amplo e geral de violência. Ao falar de Violência contra a Criança, 15 deles se referiram a casos de violência física.
Todos os relatos obtidos expressaram muita indignação com as práticas de violência contra crianças e adolescentes, porque “[...] quem faz violência com criança é mais forte física e mentalmente, faz porque a criança é mais fraca”. Todos falaram da violência contra a criança a partir de cenas do seu cotidiano próximo. Apenas Luíza fez referência a um caso veiculado pela TV: “[...] as pessoas estão violentando muita criança e bem criança. Eu vi um dia desses numa entrevista na televisão e fiquei horrorizada por terem violentado uma criança de 2 anos, [...]”.
A maioria (13) falou da violência que acontece na vida social, fora do âmbito da família, - praticada pelos vizinhos, pela polícia, pela sociedade em geral e pelos marginais.
Rubi, Florbela e Joana falaram da violência cometida pelos policiais contra os adolescentes.
[...] eu vejo quando o PM pega a criança que bate, espanca. Eu acho aquilo muito triste, [...] Tá certo que eles estão errados [meninos], mas não vai bater assim, como eles batem. Uma vez eu me meti e falei: “Não faça isso com ele. Eu acho que você tem filho também. Você gostaria que fizesse isso com o seu filho?”
(Rubi).
[...] eu fico revoltada quando aqueles guardas pegam aquelas crianças e batem. Às vezes não é nem com o meu filho, [...] Quando vê bater nos adolescentes, vou pra cima, esculhambo com eles. Meu filho diz: “Mãe, pára com isso. Não se meta”. Então, assim que eu não gosto para o meu, não gosto para os outros
[...] é a violência da polícia que só prende os adolescentes e não os marginais
(Joana).
Para Cassiane e Rubi a violência é quando os adultos marginais seduzem e aliciam as crianças e adolescentes para a marginalidade.
[...] Chega um malfeitor e seduziu as crianças como tem por lá. São crianças andando com lobos, gente fugitiva, estão por lá. Ele seduz os meninos para o assalto... [...] a violência é isto, quando os meninos não querem ir fazer o assalto, eles espancam (Cassiane).
[...] Por causa desse problema eu tive que tirar meus filhos de lá e botar na casa das outras minhas irmãs. Porque lá não tem condições deles ficarem. Tirei ele de lá por causa da camaradagem. [...] Os adultos que influenciam os meninos, porque tinha um lá que fornecia armas para eles roubarem para eles. Foi o que aconteceu com o meu filho (Rubi).
A violência sexual como agressão apareceu nas suas expressões mais chocantes e como ocorrências que aconteceram fora dos lares. Na fala de Coralina: “[...] Fazer sexo, matar uma criança de 3, 4 anos”. Para Cassiane “[...] eles (os marginais) estupram lá perto de casa, isto é que é violência”. Apenas Coralina no final da entrevista relatou, muito reservadamente, um caso que ela ficou sabendo pelo seu marido, de um pai que fez sexo com a filha. Se existe certa facilidade para falar dos abusos físicos e psicológicos, nota-se que quando se trata do abuso sexual os entrevistados abordam de forma velada.
As referências à violência que ocorre dentro dos lares foram feitas por apenas cinco integrantes do grupo. Uma desses cinco, Lígia, fez referência a uma forma muito específica de violência, que se poderia qualificar de Violência Material: “[...] é quando não se poder dar o que o filho pede”.
Foram, portanto, quatro, os entrevistados que mencionaram casos de violência física registrados dentro de suas próprias casas, mas nenhum deles se identificou como autor de violência contra a criança. Deste grupo, três são mulheres e todas três se referiram a atos de violência praticados pelos companheiros ou ex-companheiros. O quarto integrante do grupo era Pedro, que fez referência a atos de violência praticados por sua companheira. Também aqui, ficou patente a percepção de que, para os entrevistados, a violência é algo que é praticado pelo outro, nunca por si próprio. O relato de Pedro revela claramente essa contradição:
[...] Eu nem sei lhe responder porque, graças à Deus, eu nunca fui mau com os meus filhos. Nunca bati neles. Já bati uma vez de palmatória porque eles não
estudaram direito. Dei de cinto no Roberto porque a mãe dele mandou ele fazer um trabalho e ele ficou jogando bola e ainda respondeu para ela. Mas, assim, violência, não. Ela [a mãe] batia pesado. Às vezes eu ficava até com medo, [...] já chegou a jogar uma faca e quase acerta o menino. Já bateu de soco.
O depoimento de Laura também confirma esta visão: “[...] Eu deixei o pai dos
meus três filhos menores porque ele queria tá maltratando o meu mais velho”. 6.4.2 “Bater é uma coisa, dar umas boas lambadas é outra [..].”
Toda a discussão feita até aqui aponta para a necessidade de se aprofundar o conhecimento disponível sobre a tênue linha divisória que, aos olhos dos entrevistados, separa, nas relações familiares, a proteção e o cuidado, da agressão e da violência. Neste tópico, os depoimentos colhidos foram selecionados e organizados com este propósito. A discussão adentra aqui o território polêmico em que se situam as definições apresentadas no capítulo 2. Se alguns conceitos retratam apenas os maus-tratos visíveis e os ferimentos causados pelas omissões definidos pelo modelo do campo médico, outros são mais amplos, abrangendo das palmadas às surras, como afirma Newell (1989). E os últimos que consideram as representações sociais da comunidade para definir o que seria violência.
Por outro lado, há de se considerar que os conceitos não podem ser apenas definidos pelos teóricos (Gonçalves, 2003). Estes também retratam uma realidade que além de ser vivenciada pelos pais é também dinâmica e multifacetada. A partir das falas dos entrevistados, se tenta perceber de que forma estes classificam a violência, não em função de suas diferentes categorias (psicológica, física, negligência, outras), mas sim em função de diferentes graus de intensidade ou gravidade de violência.
Numa referência feita a Welsh (1978) percebe-se que, nos Estados Unidos, a justiça, a criminologia e os profissionais da psicologia fazem a distinção entre atos de violência praticados com instrumentos (varas, cintos, fios elétricos e, também com os punhos fechados) e atos de violência praticados sem instrumentos. Os primeiros se enquadrariam na categoria da “Punição Parental Severa”. Golpes com a mão aberta, beliscões, puxões de orelha e outros seriam enquadrados em uma categoria menos violenta. Trata-se de uma lógica que permite fazer uma separação objetiva entre atos de violência de diferentes níveis de gravidade ou severidade.
O que se percebe nos depoimentos colhidos é que os integrantes do grupo pesquisado não fazem esse tipo de diferença objetiva (bater com instrumento ou sem instrumento) quando distinguem entre punições físicas que consideram violentas e punições que não consideram violentas. Seus critérios de diferenciação são fluídos e subjetivos, mas várias das falas deixam claro que, para os entrevistados, há uma grande diferença entre “bater e praticar violência”.
Em síntese, poderia ser dito que os depoimentos apresentam critérios muito pouco precisos, ao explicar que ser violento é espancar a criança de forma desmedida, seja este ato perpetrado pelos pais ou responsável, seja por outras pessoas. E que quando os pais recorrem a um bater um pouco mais brando para disciplinar a criança - especialmente quando quem bateu foi o próprio informante – o fato não parece constituir-se em ato violento.
Mas qual seria a medida do bater? Como avaliar se alguém é violento ou não? Como fazem os entrevistados para perceber em que momento podem estar ultrapassando a linha divisória que separa o “bater” do “espancar?” A busca de respostas a esta indagação revelou a existência de todo um sistema de justificativas culturalmente aceitas e internalizadas pelos adultos, para explicar como diferenciar o bater que seria aceitável ou adequado – do bater que se constituí em violência.
Pedro parece responder a esta indagação quando explica que quando ele bate não é violência, mas que quando é a mãe dos filhos quem bate é violência. Pedro também dá a medida do que seria ou não violência quando diz que não se pratica violência “quando se bate no filho por merecimento”. Sílvia parece conectada a esta lógica, quando dá a medida e a intensidade do bater ao afirmar: “não assim batendo, matando a raiva, como se fosse um animal”. Em sua fala, a existência ou não da raiva parece fazer a diferença entre “o bater socialmente aceito e viável” e aquilo que constituiria violência dos pais contra seus filhos.
Em alguns depoimentos os pais se indignaram porque na atualidade ao bater nos filhos, estes podem denunciá-los ao Conselho Tutelar. Justificam sua indignação dando a entender que estavam batendo, mas não espancando. A percepção da revolta destes pais quando interpelados e admoestados pelo Conselho Tutelar é pelo fato de que uma instituição externa a família traz para si a função de proteger o “seu” filho das suas
“maldades” enquanto pais e mães. A interferência do conselho para alguns pais é vista como de apoio integral ao filho e consequente diminuição de sua autoridade (m) paterna. Ao nosso ver, filhos que denunciam pais ao conselho, na verdade, revelam a estes pais que eles são violentos e os expõem, mexendo com seus brios de “bons pais”.
Mas alguns desses pais falam de um “bater demasiado” que acontece em seus próprios lares, como nos depoimentos a seguir.
Para Margarida:
[...] [violência] Existe. Filho bater em mãe, em pai. Muitas das vezes até pais e filho se atracarem, se esmurrarem. Eu acho que deve ser porque se o filho espancar o pai, bater no pai é porque eu acho que aquele pai já partiu para cima
dele com chute, com soco. E eu acho que não é assim que o pai deve bater no filho, chutando, esmurrando com soco na cara, [...] Acho que se ele age dessa
maneira, o filho vai agir de violência com ele (grifo nosso).
Sílvia fala que:
[...] O pai deles nunca foi de bater neles. Eu sim batia, mas é como eu tô falando,
bater é uma coisa dá umas duas lambadas é outra. Falar o certo para eles
como era para eles seguirem o que é certo. Mas de pegar para deixar marcado nunca fiz isso. De bater já bati sim quando eles eram pequenos. Agora não (grifo nosso).
A percepção de Pedro é que:
[...] Eu nem sei lhe responder por que, graças a Deus, eu nunca fui mau com os meus filhos. Nunca bati neles. Já bati uma vez de palmatória porque eles não estudaram direito. Dei de cinto no Roberto porque a mãe dele mandou ele fazer um trabalho e ele ficou jogando bola e ainda respondeu para ela. Mas, assim, violência, não. Ela [a mãe] batia pesado. Às vezes eu ficava até com medo,
[...] já chegou a jogar uma faca e quase acerta o menino. Já bateu de soco
(grifo nosso).
Para Teresa: “[...] Eu acho um absurdo, uma pessoa bater. Inclusive tem um vizinho lá perto de casa que tem um menino que sofre na mão dele. Bate muito, só falta matar a criança” (grifo nosso).
Quatro dos pais que dizem bater nos filhos informam que bateram dando uma “palmadinha” ou, ainda, uns tapas, o que seria entendido como um bater brando. Para Júlia: “[...] botava de castigo e às vezes eu dava palmada, às vezes não, eu conversava com
meus filhos. Era muito difícil, mas muito difícil mesmo eu bater nas crianças. Só conversando” (grifo nosso).
E Laura:
[...] eu sempre disse que se um dia eu tivesse filho eu não ia bater do jeito que eu apanhei. Eu cresci rancorosa, mas eu não tenho mais raiva dele [do irmão]. Se eu bater num filho meu hoje em dia ele vai ficar mais revoltado. Tento conversar, mas bater não gosto, não. Quando meus filhos aprontam eu dou umas
palmadinhas, não dou de pau, eu converso [...]. Eu apanhei de pau e de galho de
cuia [...] Eu posso até dar uma palmada quando tá precisando, eu vou e dou. Eu até digo que eu apanho junto com eles, porque a minha mão fica doída (grifo
nosso).
Perguntada se batia nos filhos Ana Cláudia respondeu?
[...] Eu o que me lembro, eu dava uma porradinha, mas agora não. Porque eu só penso assim: eu tenho meus filhos, eu tô criando eles nessa grande violência que tá agora. Se eu bater nos meus filhos quem sabe se mais tarde eu vou sentir.
– A senhora acha que bater em filho é violência?
[...] Não, não é. Eu tiro por mim que não bato, né? [...] Bater é a mãe espancar o filho, é muita violência e dor no coração da mãe que tem, né?
Como é possível perceber, há pais que justificam o bater, afirmando que batem, mas não espancam. E há pais que justificam as palmadas, afirmando que dão palmadas, mas não batem. Para efeito de análise, constata-se que a visão desses pais coincide com a visão de Bronfenbrenner sistematizada no modelo ecológico quando analisa que os abusos são os efeitos de forças que se articulam no indivíduo, na família e na comunidade. Em conclusão, deduz-se que o conceito de bater permanece numa zona indefinida que constituí um sério desafio para profissionais e políticas públicas da área da infância e da adolescência.