from the petroleum industry
Appendix 1 - Preliminary survey
Tentarei neste item circunscrever algumas consonâncias e dissonâncias entre as práticas e buscas do Sesc e o(s) caminho(s) conceitual(is) do turismo social no mundo, especialmente entre os países da Europa ocidental, que o realizam de distintas maneiras e há muito mais tempo135. Volto aqui à discussão realizada no primeiro capítulo da tese, ao indicar historicamente o papel que o turismo social adquire nos diferentes contextos políticos, tanto no oeste europeu como no Sesc; percebo de maneira clara – assumindo a generalização de instituições e países com características díspares - dois tipos de experiências, que podem, esporadicamente, se coadunarem: (1) uma forma mais associada ao descanso, em que os usufrutuários teriam mais “liberdade”, sem uma programação pré-definida; (2) outra forma apresentando atividades conteudistas, em que, partindo da ideologia institucional, haveria uma busca por inovação e um formato, que - do ponto de vista de quem organiza e oferece - “enriqueceria” culturalmente o participante.
Esta 2ª ideia emerge claramente na parte final da definição de turismo social da monografia de Vilmar Jacques, técnico de turismo do Sesc-SC:
Entende-se por Turismo Social uma atividade em forma de passeios, viagens ou excursões, preferencialmente em grupo e
135 O intuito aqui, ao trazer as experiências da Europa, não é o de seguir unilateralmente
modelos, mas o de poder refletir, cotejando o turismo social no Sesc com a contribuição de conhecimentos abrangentes e diferentes, realizando, quando possível, entrecortes entre as distintas realidades.
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envolvendo a utilização de equipamentos de hospedagem e transporte, ao alcance de amplos setores da população, porém mais especificamente dirigida às camadas sociais que não teriam condições de viajar com seus próprios recursos, de modo que o preço pago pelo usuário seja inferior ao custo real do produto a ser utilizado, graças aos subsídios oferecidos pelas instituições governamentais, associações de classe ou ainda organizações privadas, sem intuitos lucrativos. É importante frisar que deve existir um enriquecimento cultural abrangente, dentro de uma proposta crítica com relação ao consumismo [136], que vise ao pleno bem-estar
social e à melhoria da qualidade de vida de seus participantes (1997: 48; grifo meu).
Esta definição se aproxima também das concepções expostas pela OITS, especialmente na Declaração de Montreal. Nesses casos pode-se enxergar uma educação através do turismo, numa tentativa de levar as pessoas a um “novo tempo”; este discurso educacional tem como pano de fundo uma ideia civilizatória, envolvendo a classe média e baixa com a retórica do desenvolvimento cultural (figuras 26 e 27).
136 Quando Jacques profere contra o consumo (ou sua hipérbole, o consumismo), como se
fosse possível não consumir, desconsidera a possibilidade de o indivíduo problematizar e realizar escolhas enquanto consome (Canclini: 2001). Canclini afirma que o consumo serve para pensar, partindo da hipótese de que “quando selecionamos os bens e nos apropriamos deles, definimos o que consideramos publicamente valioso, bem como os modos com que nos integramos e nos distinguimos na sociedade, com que combinamos o pragmático e o aprazível” (2001: 45). Grosso modo, o consumo tem a ver com aquilo que a gente quer ser, fazer, estar; suas formas, incluindo o turismo, e a relação que se estabelecem com os indivíduos, não deveriam ser passíveis de juízos de valor ou tentativas imperativas de afirmar o que é o bom e o mau consumo.
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Figura 26: Projeto “Incentivo ao turismo social”, de 1978.
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Figura 27: Reportagem de Jornal-Scaranci comenta, 1997.
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Assim como observado em diversas ações denominadas de turismo social, interrogo se é justo, sabendo dos objetivos de determinadas instituições, incluir a “todos” em uma lógica que homogeneíza os gostos e desejos pessoais, deixando de enfrentar (e por que não questionar) uma situação de exclusão estrutural, a começar pelo turismo enquanto possibilidade de lazer e de prazer. Sobre isso, Melo, ao citar Onfray, comenta:
Gosto muito das posições de Michael Onfray (2001) quando ataca os coletivismos que submetem de maneira extremada os desejos individuais. O autor crê que o passo inicial para a superação dessa ordem social atual esteja exatamente na recuperação do papel de sujeitos não submissíveis a priori. Isso é, uma construção social mais justa somente pode se dar quando tivermos indivíduos fortes e ativos, sujeitos que possam se expressar e se posicionar de maneira clara e explícita. É necessário, logo, dar espaço para a autodescoberta dos indivíduos e isso só será possível pelo questionamento dos excessos de disciplina e controle (2002: 110).
Dentro da ótica do controle, existe um discurso de bem-estar social presente nos intentos de vários projetos envolvendo o lazer e o turismo, o que sugere, muitas vezes, uma lógica funcionalista e possivelmente assistencialista, como bem nos apresenta Marlene Ribeiro:
[...] há sujeitos sociais com o poder de incluir e há os que são considerados objetos e, portanto, que são incluídos ou que, numa perspectiva assistencialista e de manutenção do status quo, são colocados para “dentro” novamente. Se considerarmos que os processos de exclusão social são inerentes à lógica do modo de produção capitalista, veremos que as políticas de inclusão e/ou inserção social são estratégias para integrar os objetos – os excluídos – ao sistema
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social que os exclui e, ao mesmo tempo, de manter sob controle as tensões sociais que decorrem do desemprego e da exploração do trabalho, móveis da exclusão social (2006: 159).
Nessa perspectiva, assinalo alguns questionamentos: a ideia de turismo, quando encarada dentro da ótica da inclusão social, é premissa para se chamar turismo social? Antes de classificar, devemos perguntar: o que é e o que quer o turismo social? Em outras palavras, incluir quem, em quê e por quê? E a quem cabe o protagonismo nesses casos?
A outra abordagem (1) para o turismo social tem sido desenvolvida nos últimos anos por boa parte das instituições do terceiro setor e dos estados europeus, onde o turismo estaria mais desprendido de função, oferecendo o acesso e a estrutura necessária – principalmente o transporte e a hospedagem - para que a experiência turística ocorra, porém não necessariamente desenvolvendo atividades conteudistas nem uma programação anteriormente planejada.
Conforme visto no capítulo 1, a maioria das associações e órgãos públicos europeus começou, nas primeiras décadas do século XX, a ofertar práticas turísticas com um caráter claramente político-ideológico, continuando nesta toada moderadamente até o início do atual milênio. Por conta da conhecida crise econômica sofrida por boa parte destes países na 1ª década do século XXI, houve uma brutal diminuição no apoio que algumas associações e centros de férias recebiam dos seus respectivos governos federais e regionais. Com isso, além do arrefecimento quantitativo do acesso dos
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beneficiários, algumas destas associações precisaram se adequar financeiramente e, consequentemente se aproximaram, em termos organizacionais e estruturais, do que é oferecido por alguns setores do mercado turístico; na tentativa de diminuição de custos, parece que a retirada de uma programação “cultural” nas experiências de turismo social torna concretamente a atividade menos custosa.
Nota-se relativamente esse papel (1) no Sesc-SP no decorrer da segunda metade do século passado. A transformação que acontece por conta da necessidade de se diferenciar das agências de turismo privadas gera o movimento estratégico da instituição em incluir uma programação caracterizada de “edificante” (2) - baseando-se no discurso dos seus profissionais (figura 28) - com o intuito de não se assemelhar ao que foi e é oferecido majoritariamente pelo mercado.
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Figura 28: Livreto Sesc – matéria: “Nosso Jeito” – O folclore é ... .
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Sobre essa compreensão, será que é possível responsabilizar a administração regional paulista por se afastar do que acreditava ser o turismo social? Acho no mínimo injusta a crítica – realizada por vários ex-profissionais do próprio regional e pelo Sesc-DN - ao atual Sesc-SP pela diminuição significativa do volume de excursões e viagens em detrimento aos passeios de 1 dia e outros arranjos.
O que deve ser questionado é o fato do Estado brasileiro - enquanto formulador, articulador, regulador e fiscalizador - não possuir políticas públicas sociais em relação ao turismo e seu acesso. É o papel do Estado criar políticas, programas e projetos, aos quais possam se articular ao trade turístico (como bem faz o Estado Francês137), não só na baixa temporada, mas também ocasionalmente nos períodos de maior fluxo turístico - certamente com um pouco mais de apoio e incentivo –, facilitando assim a experiência turística para mais pessoas. Sobre este tema, trarei algumas questões e demandas no(s) desenlace(s) do trabalho, agregando a natureza institucional do Sesc ao debate.
137 O entrevistado Luiz Octávio de Lima Camargo, tendo como exemplos associações de
turismo social francesas, assevera que o Sesc deveria fazer mais convênios com hotéis, sobretudo na baixa temporada, ao invés de construir novos empreendimentos.
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