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Para entender melhor a estrutura e a política de financiamento que envolve o turismo social de maneira geral, e o lugar do Sesc nesta composição, expomos o esquema a seguir (figura 3). O Sesc é intermediário entre os grupos de beneficiados & os fornecedores, ainda que uma quantidade considerável de fornecedores pertençam a ele.

Figura 3: Estrutura organizacional do turismo social. Adaptado de: Minnaert, Diekmann e McCabe, 2012: 37.

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De acordo com Arlete Gavazza, a entidade busca um diferencial na relação com os fornecedores (hotéis, atrativos e atrações turísticas, transportadoras, empresas de alimentação e de seguro-viagem), buscando um preço justo, exigindo serviços de qualidade e o cumprimento das normas turísticas. Segundo ela, diferentemente do que acontece no mercado, a instituição “educa” os fornecedores do setor turístico na busca por um turismo mais responsável80.

O Sesc apresenta uma composição/percentual de utilização na relação “meios de hospedagens próprios” & “hospedagens arrendadas/conveniadas” que varia de regional para regional. No relatório de desempenho do Sesc-SP de 1988-1991 (anexo 9), a relação mencionada acima se estabelece em média 50% / 50% - a proporção vai se modificando ao longo dos anos, em função do aumento do fluxo turístico e da não-construção de outros meios de

hospedagens próprios, pesando para as “hospedagens

arrendadas/conveniadas”. O transporte utilizado no deslocamento dos turistas é majoritariamente terceirizado; inclusive o Sesc-SP utiliza estas empresas no intuito de legalizar suas operações, usando (anexo 10) o número de inscrição das transportadoras no órgão público que as representam - havendo até licitação por parte do Sesc-SP, conforme mostra o anexo 11, um documento de

80 Alguns documentos mostram que nem sempre foi assim. Percebe-se que o Sesc-SP foi

aprendendo e modificando suas práticas com o passar dos anos e as experiências vividas. O comunicado interno de 1987, redigido pelo gerente da unidade especializada em turismo (Nelson Lourenço, entrevistado da pesquisa) mostra, pelo menos até aquele ano, que os ônibus que transportavam os turistas destinados a Bertioga não possuíam instalações sanitárias (anexo 7). Uma reclamação reincidente feita pelos turistas encontrada nos questionários de satisfação de 2009 compilados nos arquivos do Sesc-Memórias tem a ver com os fornecedores de alimentação: “falta de lanche a bordo”, com horário longo entre as refeições que aconteciam nas paradas (um exemplo no anexo 8).

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1987, assinado por Lourenço, gerente do Sesc-Roosevelt81. As atrações, os atrativos e demais serviços turísticos na localidade visitada, mesmo que inseridos no planejamento dos roteiros vendidos pelo Sesc, não são administrados diretamente pela entidade.

Conforme foi dito anteriormente, a administração regional de São Paulo não sofre pressão econômica e não tem preocupação com o lucro para se manter competitiva. O entrevistado que optou pela não identificação comenta que ideologicamente o turismo do Sesc deveria expandir a custo zero, sem subsídio, mas também sem lucro, o que em sua opinião, foi obtido nos primeiros anos do “turismo social”. Contudo na década de 1980 o superávit mensal do turismo no regional paulista chagara a aproximadamente 30, 35%. (os anexos 12 e 13 mostram os resultados orçamentários de 1984 do Sesc- Roosevelt). Os ex-profissionais José Barbosa, Marcos Scaranci e o entrevistado supracitado afirmam que o setor de turismo redistribuía recursos para outras áreas do Sesc paulista, uma espécie de “trem pagador”, nas palavras deles (anexo 14). A partir da mudança comentada pelas entrevistadas da Gepse, atualmente algumas atividades turísticas oferecidas pela entidade são subsidiadas.

Sobre uma questão quase todos os profissionais entrevistados concordam, inclusive os estrangeiros: não é porque é turismo social que o que é oferecido não pode ser requintado. Em minha opinião, não há problema em

81 Será visto no subcapítulo 3.3 que esta ação legal limitava o aspecto operacional do turismo

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buscar a sofisticação, o conforto e o luxo, especialmente nas acomodações. O que não se pode perder é o foco do turismo social: para quem isto está sendo oferecido? Está facilitando a experiência para pessoas que, a priori, não teriam o acesso?82

Na opinião do entrevistado Luiz Pina, houve uma reforma estrutural na Colônia de Férias de Bertioga nos últimos anos por conta de uma transformação comportamental: até a década de 1980, as pessoas viajavam em grupos de casal (com ou sem filhos) e ficavam em dormitórios coletivos – esta era a estrutura de hospedagem de Bertioga. Pina coloca que nas últimas décadas houve uma mudança de costumes, onde os casais passaram a viajar sozinhos, inclusive casais de namorados, algo que há 30, 40 anos atrás era bem menos comum, diminuindo-se assim as viagens grupais. Por conta disso, Bertioga na última década foi substituindo paulatinamente seus dormitórios coletivos por unidades habitacionais privativas.

82 Ainda assim, acho que o luxo tem limite, ainda mais em entidades que possuem a clara

intenção de proporcionar experiências a baixo custo acessíveis para mais pessoas, independente da facilidade financeira ou não da instituição. Por mais paradoxal que possa parecer, trago o exemplo do nomeado turismo comercial, onde o lucro é abertamente a premissa das empresas: o Hotel Íbis (pertencente à gigantesca rede hoteleira internacional Accor) consegue diminuir os custos de hospedagem ao cortar gastos com diversos serviços (como bagageiro, mensageiro, manobrista, dentre outras funções que são “enxugadas”), se inserindo relativamente na perspectiva do autosserviço, conseguindo com isso um preço módico para os clientes que buscam o básico - conforto, limpeza e segurança. Retornando ao Sesc, hipoteticamente, ao invés de construir (ou mesmo arrendar) um luxuoso resort, a instituição poderia envolver mais pessoas (mesmo que priorizasse seus associados- comerciários) – as quais poderiam repetir mais vezes a experiência turística – ao construir (ou arrendar) hotéis da dimensão e com a filosofia de um Íbis, por exemplo.

106 3.1.2 O público beneficiado

De acordo com Lynn Minnaert et al (2012), há algumas décadas, os grupos habitualmente beneficiados pelo turismo social na Europa são os idosos, os jovens, os deficientes físicos e as famílias, demostrando uma mudança em relação ao começo do fenômeno naquele continente, relacionado majoritariamente aos operários da indústria e demais trabalhadores braçais. Observa-se que a Organização Mundial de Turismo reforça esta faceta, ao exprimir sua opinião sobre o turismo social no seu difundido Código de Ética (OMT, 2001), particularmente nos números 3 e 4 do artigo 7º acerca do direito ao turismo, onde se recomenda que

[…] o turismo social, e nomeadamente o turismo associativo[83],

que permite o acesso do maior número de cidadãos aos tempos livres, às viagens e às férias, deve ser desenvolvido com o apoio das autoridades públicas […] o turismo das famílias, dos jovens e dos estudantes, das pessoas de idade e dos deficientes deve ser encorajado e facilitado […].

No Brasil, no desenvolvimento do turismo social, é priorizado o acesso para os trabalhadores formais, como observado no gráfico abaixo (figura 4).

83 Segundo Marcelo Vilela de Almeida, o termo turismo associativo é bastante utilizado por

algumas agências e órgãos franceses que desenvolvem o turismo social; Almeida coloca que são associações sem fins lucrativos “[...] profundamente engajadas na promoção e/ou no fomento de práticas turísticas associadas à sustentabilidade, à educação, ao lazer e/ou à ação social – daí a expressão ‘turismo associativo’” (2012: 341).

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Figura 4: O quão ‘social’ é o turismo social. Adaptado de Minnaert, Maitland e Miller, 2013: 29. A colocação do “Brasil”, tanto no gráfico quanto na legenda, foi uma inclusão/adaptação minha, autorizada pelos referidos autores.

Acerca do eixo na horizontal do gráfico (social-comercial), os autores trazem exemplos de países em que as instituições de turismo social majoritariamente utilizam “instalações específicas para um público exclusivo de turismo social”, e “instalações comerciais mesclando o público de turismo social e pessoas com agenciamentos e custos distintos”.

No Brasil, dos grupos mencionados anteriormente por Minnaert et al, o mais frequente é o de idosos. No Sesc, a demanda principal são os

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comerciários aposentados, seguido dos idosos não-comerciários (chamados de usuários84) e dos comerciários ativos com suas famílias 85. Há muito poucos jovens e deficientes físicos86 (comerciários ou usuários) nas atividades turísticas da instituição, diferentemente de parte das ações na Europa, em que diversas instituições focam em grupos específicos. A respeito destes grupos, pode-se citar uma variedade, de certo modo impensada no Sesc, de “tipos” de demandas envolvidas por diferentes instituições de turismo social europeias: pessoas com alguma limitação ou desvantagem em relação a outras, sobretudo para viajar; famílias de baixo orçamento; famílias com um membro com necessidades especiais ou doença de longa duração ou crônica; famílias com mãe ou pai solteiros (monoparentais); crianças que vivem em famílias de

84 “Usuário” é o nome dado pelo próprio Sesc para aqueles que não são comerciários. O

usuário paga um preço mais caro em relação ao valor cobrado para o comerciário. Pelos relatórios descritivos a que tive acesso no Sesc-Memórias, no período de 1979 a 2008, os usuários giravam anualmente em torno de 5 a 20% do total de beneficiados pelas atividades turísticas do Sesc-SP (como exemplo, o relatório de desempenho do programa de turismo social de 1988 a 1991 – anexo 15). Percebe-se em alguns questionários mais contemporâneos a que tive acesso no Sesc-Memórias, algumas reclamações a respeito da diferença de preço entre o comerciário e o usuário (anexo 16, de 2009). Em outro documento (anexo 17) - um resumo de uma reunião entre o Sesc-Roosevelt e as unidades operacionais da capital, de 1986 – há a orientação de prioridade para o comerciário e de preço 50% mais barato em relação ao usuário.

85 Levando-se em conta o público abarcado pelo programa de turismo social do Sesc-SP, entre

os anos de 2002 e 2005, o percentual de turistas com mais de 55 anos girou em torno de 45% do total (Lourenço, 2008). No relatório de desempenho dos anos de 1988-1991, chega-se aproximadamente a porcentagem supramencionada, com pequenas variações (anexo 18). Neste mesmo relatório, chama atenção a predominância do sexo feminino sobre o masculino, 70% e 30%, respectivamente (anexo 19) – na opinião de alguns entrevistados, nos dois quesitos (idade e sexo) há variações insignificantes até a atualidade.

86 O problema parcialmente se encontra em alguns fornecedores da entidade (transportes,

hotéis e os atrativos e serviços turísticos dos destinos) que não contam com instalações adaptadas. No Brasil, de maneira geral, os “deficientes físicos e/ou mentais” (comumente chamados pela academia de Portadores de Necessidades Especiais – PNE) são vistos pelo setor turístico como um segmento, o que impede o acesso aos deficientes que não apresentam uma situação financeira “confortável”. Um debate mais profundo sobre o tema está presente no artigo de Faria et al (2011), que traz um estudo de caso da cidade de Socorro - SP.

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baixa renda; pessoas socialmente isoladas; pessoas com mobilidade reduzida; pessoas solteiras (Minnaert et al, 2012).